{"id":2031,"date":"2013-06-05T00:00:00","date_gmt":"2013-06-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2013\/06\/05\/relato-de-istambul-em-tres-dias-as-pessoas-aprenderam-a-tomar-as-ruas\/"},"modified":"2013-06-05T00:00:00","modified_gmt":"2013-06-05T00:00:00","slug":"relato-de-istambul-em-tres-dias-as-pessoas-aprenderam-a-tomar-as-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/relato-de-istambul-em-tres-dias-as-pessoas-aprenderam-a-tomar-as-ruas\/","title":{"rendered":"Relato de Istambul: &#8220;Em tr\u00eas dias, as pessoas aprenderam a tomar as ruas&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\tO site portugu\u00eas de not\u00edcias Esquerda.net entrevistou Mehmet Ali Uzelgun, o investigador do ISCTE (Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa) que participou nos primeiros dias do protesto da pra\u00e7a Taksim, em Istambul, na Turquia, e assistiu de perto aos confrontos com a pol\u00edcia e \u00e0 resposta da sociedade turca numa poderosa onda de solidariedade e protesto.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Participaste no movimento que originou o maior protesto social na Turquia nos \u00faltimos anos. Como foram esses dias antes da repress\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tEm primeiro lugar, h\u00e1 que dizer que o primeiro-ministro quase tornou numa quest\u00e3o pessoal este projeto de construir um centro comercial num dos \u00faltimos espa\u00e7os p\u00fablicos de Istambul. O plano foi rejeitado pelo conselho regional de prote\u00e7\u00e3o da natureza e cultura e a resposta dele foi \u201cn\u00f3s rejeitamos essa rejei\u00e7\u00e3o\u201d. Foi ent\u00e3o que as pessoas que queriam \u201crejeitar a rejei\u00e7\u00e3o da rejei\u00e7\u00e3o\u201d come\u00e7aram a juntar-se e a construir uma unidade para esta luta.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tNa segunda-feira passada (27 de maio), um grupo de pouco mais de cem pessoas juntou-se para uma a\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o no parque Gezi junto \u00e0 pra\u00e7a Taksim. Eram na maioria estudantes e pessoas que exigiam ter uma palavra a dizer nas decis\u00f5es que se tomam em seu nome com implica\u00e7\u00f5es na vida da cidade. Queriam apenas que a sua voz fosse ouvida. Foi a estes que o primeiro-ministro chamou &#8220;marginais\u201d e \u201cb\u00eabados&#8221;.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAo contr\u00e1rio do que julga o governo, estas pessoas n\u00e3o eram simplesmente &#8220;os amigos das \u00e1rvores&#8221;, mas sim pessoas politizadas: feministas, objetores de consci\u00eancia, e gente libert\u00e1ria sem filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tQuando fui para o parque Gezi na quarta-feira de manh\u00e3 haveria cerca de cem pessoas a dormir ali em tendas. \u00c9ramos duzentas ou trezentas pessoas que ali est\u00e1vamos a debater com um copo de ch\u00e1 na m\u00e3o. Nesses primeiros tr\u00eas dias da ocupa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia apareceu sempre por volta das 5 da manh\u00e3 e com grande brutalidade: agrediam as pessoas, queimavam as tendas, prendiam alguns e os outros tinham de fugir. Foi impressionante ver nas redes sociais as pessoas a gritarem &#8220;por favor, deixem-nos levar os nossos pertences!&#8221;. Os pol\u00edcias batiam sempre, mas as pessoas n\u00e3o atiravam pedras nem procuravam confront\u00e1-los. Enfim, aconteceu o que era normal na Turquia: a pol\u00edcia reprime e as pessoas recuam.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tFoi isso que se viu nos primeiros tr\u00eas dias e a cada dia que passava, a par da viol\u00eancia, aumentava tamb\u00e9m o n\u00famero de manifestantes. Na manh\u00e3 de quinta-feira (30 de maio) a pra\u00e7a j\u00e1 tinha mais gente, incluindo artistas bastante famosos. Eu estava convencido que a pol\u00edcia n\u00e3o voltaria l\u00e1. Mas na manh\u00e3 seguinte voltaram com a mesma viol\u00eancia e prenderam muita gente. Um rapaz foi barbaramente agredido e teve de ser operado no hospital. A repress\u00e3o conseguiu fechar o parque e expulsar de l\u00e1 as pessoas. Penso que esse foi o dia chave, tudo aconteceu nesse dia.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tLogo a\u00ed decidi que n\u00e3o ia abandonar aquele protesto. Felizmente n\u00e3o fui o \u00fanico, veio gente de toda a cidade apoiar-nos, dezenas de milhares, talvez mais de cem mil pessoas. A rea\u00e7\u00e3o popular n\u00e3o era apenas contra as sucessivas imposi\u00e7\u00f5es do governo sem querer saber da opini\u00e3o das pessoas, era contra a repress\u00e3o brutal contra os manifestantes pac\u00edficos. E \u00e0 medida que os manifestantes chegavam e davam for\u00e7a ao protesto, come\u00e7aram a responder \u00e0 pol\u00edcia. Era sobretudo gente de esquerda, mas tamb\u00e9m todo o tipo de gente que queria dizer \u201cbasta\u201d desta regime opressor. Nessa altura, o movimento ganhou a for\u00e7a necess\u00e1ria para se transformar numa revolta popular. E j\u00e1 depois das duas da manh\u00e3, recuper\u00e1mos a pra\u00e7a Taksim. Creio que foi a\u00ed que o protesto ganhou outra dimens\u00e3o, a de um levantamento popular.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Como \u00e9 que um protesto local conseguiu ganhar esta dimens\u00e3o e ser o rastilho para despoletar a tens\u00e3o social no pa\u00eds?<\/strong><br \/>\n\tOlhemos para o contexto: o governo conseguiu juntar a sua agenda neoliberal \u00e0 agenda religiosa conservadora, que \u00e9 duramente imposta atrav\u00e9s da pol\u00edcia. Quando o governo avan\u00e7a com projetos urban\u00edsticos &#8211; como este da pra\u00e7a Taksim -, ou de uma barragem ou uma central el\u00e9trica a carv\u00e3o, h\u00e1 sempre oposi\u00e7\u00e3o popular. Podem ser 200 ou 2000 manifestantes, para o governo tanto faz: se forem 2000, p\u00f5em l\u00e1 10 mil pol\u00edcias; se forem 10 mil, p\u00f5em 20 mil pol\u00edcias. Nos \u00faltimos cinco anos tem sido esmagado qualquer tipo de resist\u00eancia a estes projetos, seja nas grandes cidades ou fora delas.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA uni\u00e3o das duas agendas, a neoliberal e a religiosa, mistura-se recorrendo ao marketing pol\u00edtico para o governo se mostrar com uma imagem democr\u00e1tica. Por exemplo, na passada sexta-feira o primeiro-ministro acusou-nos de sermos fascistas!&#8230; A complexidade pol\u00edtica na Turquia permite ao governo manobrar para dividir a oposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO grupo inicial que protestava em defesa do Parque Gezi opunha-se claramente a estas duas agendas. Mas no s\u00e1bado (1 de junho) juntaram-se a n\u00f3s muitas pessoas que poder\u00edamos chamar laicas ou nacionalistas-soft, mas que se identificam como sendo de esquerda, sociais-democratas, republicanos. S\u00e3o apoiadores do partido fundado por Kemal Ataturk, o Partido Republicano do Povo (CHP), que \u00e9 agora o maior partido da oposi\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia recuou nessa altura e as ruas de Istambul foram, em grande medida, libertadas. Foi uma grande festa, mas o primeiro-ministro continuou a insultar estas pessoas, garantindo que o projeto era para avan\u00e7ar. Nessa altura, a viol\u00eancia j\u00e1 tinha alastrado ao resto do pa\u00eds.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>A repress\u00e3o policial foi acompanhada pelo ex\u00e9rcito?<\/strong><br \/>\n\tN\u00e3o, normalmente n\u00e3o precisam dos militares, nos \u00faltimos anos nunca se chegou a esse ponto. A pol\u00edcia turca \u00e9 muito forte, todos os anos entram milhares de efetivos. E o processo de ascens\u00e3o deste poder neo-conservador ou islamista soft, como preferirem, foi marcado pelo afastamento dos militares &#8211; que antes dominavam o regime &#8211; do centro da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Se compararmos com o que acontecia h\u00e1 dez anos atr\u00e1s, hoje o ex\u00e9rcito n\u00e3o est\u00e1 presente na pol\u00edtica, o que \u00e9 bom. Esse era um dos objetivos da esquerda, mas acabou por ser conseguido por este governo. Se antigamente, sempre que os militares falavam, havia o risco do governo cair, agora j\u00e1 n\u00e3o interv\u00eam no campo pol\u00edtico.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tMas \u00e9 verdade que o CHP tem defendido que o ex\u00e9rcito apoie este movimento e derrube o Governo. Correndo o risco de simplificar em demasia, podemos identificar duas linhas neste protesto: uma minorit\u00e1ria, a dos que querem que o ex\u00e9rcito tome conta do movimento e derrube o governo e outra, maiorit\u00e1ria, dos que v\u00eaem neste protesto uma luta contra o neoliberalismo e preferem criar condi\u00e7\u00f5es para a resist\u00eancia popular nas comunidades locais sem a interven\u00e7\u00e3o de qualquer poder armado.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>\u00c9 imposs\u00edvel prever o que ir\u00e1 acontecer daqui para a frente, mas que sa\u00eddas v\u00eas para a atual situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tO que posso dizer \u00e9 que vi as coisas mudarem muito r\u00e1pido: vi pessoas que nunca participaram numa manifesta\u00e7\u00e3o a envolverem-se em confrontos diretos com a pol\u00edcia. Na sexta-feira vi toda a gente vestida com t-shirts e agora vou \u00e0 internet e vejo que toda a gente usa \u00f3culos de prote\u00e7\u00e3o contra o g\u00e1s\u2026 Em tr\u00eas dias, as pessoas aprenderam muito sobre como tomar as ruas.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEsta foi a primeira vez que as pessoas sentiram que conseguem afastar a pol\u00edcia para desobedecerem a uma ordem do governo, neste caso para que n\u00e3o entrassem naquela pra\u00e7a. Nesse sentido, foi espantoso! O que se segue, ningu\u00e9m sabe. N\u00e3o acredito que o governo v\u00e1 cair, mas o maior partido da oposi\u00e7\u00e3o pode tentar transformar este movimento numa grande frente antigovernamental. N\u00e3o sei se isso ser\u00e1 poss\u00edvel, mas uma coisa j\u00e1 foi feita: acabou o controlo total sobre a sociedade, os media, a cabe\u00e7a das pessoas. Agora h\u00e1 outra voz, a de um povo que sabe que pode dizer n\u00e3o e resistir. A partir de agora, o importante \u00e9 conseguir traduzir esta resist\u00eancia sem precedentes num movimento com um discurso pol\u00edtico mais claro e rigoroso.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>O papel dos media, em particular das televis\u00f5es, foi muito criticado por silenciarem os protestos que abalavam Istambul&#8230;<\/strong><br \/>\n\tH\u00e1 que entender como funciona esse controle, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a censura direta que havia no regime militar. Agora o governo \u00e9 mais moderno, ou mais ocidental\u2026 N\u00e3o h\u00e1 censura direta, mas os grandes grupos medi\u00e1ticos, como de outros setores da economia, sabem que ser\u00e3o prejudicados financeiramente se derem espa\u00e7o \u00e0s cr\u00edticas das posi\u00e7\u00f5es do governo. Isto resulta obviamente num controlo total e contradiz o discurso neoliberal que promete mais liberdade e uma sociedade mais aberta. Na verdade, \u00e9 ao contr\u00e1rio: \u00e9 a prova que neste tipo de regimes mistos &#8211; Europa\/\u00c1sia ou Isl\u00e3o\/Democracia &#8211; a agenda neoliberal n\u00e3o nos d\u00e1 uma sociedade livre e aberta, mas cada vez maior controle, privatizando o que \u00e9 de todos. S\u00f3 assim pode funcionar na perfei\u00e7\u00e3o, como ali\u00e1s, a China \u00e9 um bom exemplo disso.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA raz\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico turco deve-se a um regime opressivo que imp\u00f5e as suas escolhas sem discuss\u00e3o p\u00fablica e reprime as opini\u00f5es diferentes, apelidando-as de terroristas ou marginais. E a situa\u00e7\u00e3o dos media mostra bem como o controlo social do governo funciona: basta ver que ao mesmo tempo que a CNN Internacional mostrava os protestos na pra\u00e7a Taksim, a CNN turca passava um programa sobre pinguins\u2026<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Mas \u00e0 falta de democracia na informa\u00e7\u00e3o, o papel das redes sociais foi determinante\u2026<\/strong><br \/>\n\tNa sexta-feira, quando vi toda aquela gente a juntar-se, sinceramente n\u00e3o acreditei que poder\u00edamos vir a tomar a pra\u00e7a outra vez. Mas quando a not\u00edcia se come\u00e7ou a espalhar nas redes sociais, sobretudo atrav\u00e9s do twitter, e come\u00e7\u00e1mos a ouvir que se estava a juntar gente em Londres, em Nova Iorque e nas maiores capitais do mundo com cobertura dos media internacionais, a\u00ed sim, passei a acreditar. Porque se existe press\u00e3o a partir do estrangeiro, ent\u00e3o deix\u00e1mos de ser aqueles desgra\u00e7ados que ali est\u00e3o a levar porrada.<br \/>\n\tNa verdade, o pr\u00f3prio governo foi legitimado a partir do estrangeiro. Quando chegaram ao poder e derrubaram os militares, achei que teriam grandes dificuldades para o controlar, n\u00e3o s\u00f3 porque n\u00e3o estavam habituados a ele, mas porque os kemalistas dominavam as institui\u00e7\u00f5es. Mas ent\u00e3o as pessoas come\u00e7aram a ver as fotos do primeiro-ministro com o Bush e com outros l\u00edderes pol\u00edticos mundiais\u2026 aos olhos da maior parte das pessoas isso ajudou muito a legitimar a sua imagem e o seu poder.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEssa foi uma das li\u00e7\u00f5es que tirei destes dias: a a\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, que muitas vezes desvalorizamos e criticamos, pode ser muito importante. Confesso que nunca tive uma conta no twitter, mas agora entendo como uma pequena nota escrita l\u00e1 longe \u00e9 capaz de significar tanto para tanta gente.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>E quais s\u00e3o as principais refer\u00eancias de outras lutas com que este movimento se identifica mais?<\/strong><br \/>\n\tA Turquia tem sido um pa\u00eds muito fechado ao exterior a todos os n\u00edveis. N\u00e3o me parece que os manifestantes que l\u00e1 est\u00e3o agora se revejam diretamente na Primavera \u00e1rabe ou nas a\u00e7\u00f5es Occupy, das quais muitos nem sequer ouviram falar do Occupy. Creio que este movimento ser\u00e1 daqui para a frente a refer\u00eancia destas lutas. Nunca tivemos um movimento que juntasse setores t\u00e3o diferentes da sociedade, com pessoas totalmente despolitizadas ao lado de militantes da esquerda e da extrema-esquerda semilegal e das claques de futebol.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tMas a maior parte das pessoas que se juntaram ao protesto no fim de semana, apoiantes do CHP, s\u00e3o naturalmente inspiradas pela revolu\u00e7\u00e3o kemalista. A sua motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 a de lutar contra o conservadorismo e a islamiza\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. No \u00faltimo m\u00eas houve por parte do primeiro-ministro alguns ataques aos costumes dos turcos. Voc\u00eas sabem que sendo a Turquia um pa\u00eds maioritariamente isl\u00e2mico, as pessoas podem beber bebidas alco\u00f3licas &#8211; embora n\u00e3o t\u00e3o \u00e0 vontade como aqui em Portugal, em que se bebe nas ruas. O governo quer agora impor uma lei que pro\u00edbe a compra de bebidas alco\u00f3licas a partir das dez da noite e o primeiro-ministro fez quest\u00e3o de dizer num debate que seguia a palavra de Deus e n\u00e3o a dos b\u00eabados que tinham escrito a lei em vigor. Toda a gente interpretou esta acusa\u00e7\u00e3o como sendo contra Kemal Ataturk e os outros pais da nossa Constitui\u00e7\u00e3o e isso provocou grande descontentamento na sociedade.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Houve uma cidade governada pelo CHP que se recusou a fornecer \u00e1gua para os carros da pol\u00edcia. Achas que este tipo de resist\u00eancia ao n\u00edvel das institui\u00e7\u00f5es pode multiplicar-se?<\/strong><br \/>\n\tO principal partido da oposi\u00e7\u00e3o sente uma grande frustra\u00e7\u00e3o e descontentamento contra o partido do Governo. H\u00e1 dez anos era o contr\u00e1rio: os kemalistas oprimiam as mulheres que usavam o v\u00e9u. Agora, os que foram eleitos por essas mulheres est\u00e3o a vingar-se. Esta frustra\u00e7\u00e3o, apesar da for\u00e7a do partido da oposi\u00e7\u00e3o ser pouca, leva a que casos desses, numa pequena cidade aconte\u00e7am. Eles far\u00e3o tudo para atacar o governo, mas como o governo domina as institui\u00e7\u00f5es quase por completo, creio que ser\u00e1 dif\u00edcil assistirmos a uma rotura geral a esse n\u00edvel.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tPor outro lado, n\u00e3o tenho grande esperan\u00e7a no CHP, que centra o seu ataque pol\u00edtico naquilo que eles chamam de fundamentalismo do governo, que na minha opini\u00e3o \u00e9 incorreto. Eles n\u00e3o v\u00eaem que por detr\u00e1s disso est\u00e1 o programa neoliberal, o capital. S\u00f3 v\u00eaem o Isl\u00e3o, isso \u00e9 um grande problema. E devido a esta an\u00e1lise errada do que se est\u00e1 a passar, at\u00e9 t\u00eam perdido terreno nos \u00faltimos anos para o partido do governo. Os islamistas sempre tiveram poder na Turquia, mas nunca chegaram aos 50%. S\u00f3 o conseguem fazer hoje devido a esta combina\u00e7\u00e3o sagrada entre a agenda neoliberal e conservadora. Se n\u00e3o somos capazes de ver isto, n\u00e3o os conseguiremos derrubar.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Falta muito para haver uma alternativa ao governo que d\u00ea express\u00e3o ao sentimento que temos visto nas ruas?<\/strong><br \/>\n\tO que precisamos hoje \u00e9 de iniciativas que abram o debate entre a esquerda radical, que acumula 70 anos de frustra\u00e7\u00f5es, com a esquerda kemalista e os seus 10 anos de frustra\u00e7\u00e3o. Pode ser que assim se consiga criar uma alternativa que em vez dessa frustra\u00e7\u00e3o traga esperan\u00e7a e consiga juntar for\u00e7as com os movimentos curdos, feministas, ecologistas e muitos outros, essa nova esquerda que n\u00e3o est\u00e1 organizada em nenhum partido e que, n\u00e3o nos esque\u00e7amos, esteve na origem deste movimento da pra\u00e7a Taksim.<br \/>\n\t&nbsp;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site portugu\u00eas de not\u00edcias Esquerda.net entrevistou Mehmet Ali Uzelgun, o investigador do ISCTE (Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa) que participou nos primeiros dias do protesto da pra\u00e7a Taksim, em Istambul, na Turquia, e assistiu de perto aos confrontos com a pol\u00edcia e \u00e0 resposta da sociedade turca numa poderosa onda de solidariedade e protesto. &nbsp; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4766],"tags":[],"class_list":{"0":"post-2031","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-arquivo"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.5 - 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