{"id":20461,"date":"2018-04-09T15:28:08","date_gmt":"2018-04-09T18:28:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.psol50.org.br\/?p=20461"},"modified":"2018-04-09T15:28:08","modified_gmt":"2018-04-09T18:28:08","slug":"antonia-pellegrino-depois-do-atentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/antonia-pellegrino-depois-do-atentado\/","title":{"rendered":"Antonia Pellegrino | Depois do atentado"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicado originalmente na <a href=\"http:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/depois-do-atentado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #0000ff;\">revista piau\u00ed<\/span><\/a>.<\/em><\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">F<\/span>az um ano que eu entrei em uma sala de cinema com Marcelo Freixo. Est\u00e1vamos nos conhecendo de novo, e pela primeira vez. Desde sua campanha \u00e0 Prefeitura do Rio em 2012, a gente se cruzava em atos, eventos e reuni\u00f5es. At\u00e9 uma noite de Carnaval mudar a forma como sempre nos olhamos.<\/p>\n<p>Era assunto entre nossos amigos o filme\u00a0<i>Eu N\u00e3o Sou Seu Negro<\/i>. E naquele entardecer abafado de mar\u00e7o, sua escolta nos deixou na porta da pequena sala gelada da Candido Mendes, em Ipanema. \u00c0 medida que a proje\u00e7\u00e3o narrava, nas palavras do escritor James Baldwin, a morte de l\u00edderes negros em luta pelos direitos humanos, minha voz sumiu. Era como se o destino falasse comigo.<\/p>\n<p>Um ano depois, o que havia de tr\u00e1gico no filme se imp\u00f4s. Na noite de 14 de mar\u00e7o eu estava no meu quarto, recostada numa poltrona, com minha filha no colo e as pernas esticadas sobre o colo do Marcelo. Fal\u00e1vamos sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2018 e a decis\u00e3o que seria anunciada na semana seguinte:\u00a0Marielle Franco\u00a0seria candidata \u00e0 vice-governadora pelo partido deles, o PSOL.<\/p>\n<p>Desde a primeira noite em que dormimos juntos, Marcelo me avisou que nunca desliga o telefone. \u201cRebeli\u00e3o em pres\u00eddio n\u00e3o tem hora\u201d, justificou ele. Eram nove e meia da noite quando o telefone dele apitou como um grilo. A tela escura do iPhone vibrou com o nome Arlei. \u201c\u00c9 o chefe de gabinete da Mari\u201d, ele disse, sem atender. Um segundo depois, Arlei. Havia urg\u00eancia no toque. \u201cAtende, aconteceu alguma coisa\u201d, eu disse.<\/p>\n<p>O pranto ag\u00f4nico de Arlei inviabilizava a comunica\u00e7\u00e3o. Coloquei minha filha na cama e liguei a televis\u00e3o baixinho. Me aproximei do Marcelo e do telefone para tentar ouvir. Arlei balbuciava que havia acontecido alguma coisa. Um assalto, um tiroteio, ningu\u00e9m sabia direito. Mas\u00a0Marielle, uma assessora e o motorista estavam no carro alvejado.<\/p>\n<p>A primeira pessoa para quem Marcelo ligou naquela noite foi o novo chefe da Pol\u00edcia Civil, Rivaldo Barbosa. Depois houve outro telefonema para Arlei, em que Marcelo perguntava de uma forma que s\u00f3 quem \u00e9 \u00edntimo da morte tem coragem: \u201cMas mataram a Mari? Ela est\u00e1 morta?\u201d<\/p>\n<p>Doze anos atr\u00e1s Marcelo perdeu um irm\u00e3o assassinado pela mil\u00edcia, alvejado por algu\u00e9m em uma moto que emparelhou com o carro dele, perto do pr\u00e9dio onde morava. Cotidianamente, Marcelo recebe na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos do Rio de Janeiro o refugo da guerra \u00e0s drogas: familiares de policiais mortos, mulheres v\u00edtimas de estupro coletivo, ativistas amea\u00e7ados, m\u00e3es destro\u00e7adas por tiros de fuzil. Como 80% dos homic\u00eddios no Brasil, o do irm\u00e3o do Marcelo nunca foi esclarecido e julgado. Ele sente saudades, e a gente sabe que essa saudade n\u00e3o passa.<\/p>\n<p>Sua luta por justi\u00e7a acontece na institucionalidade. No trabalho de parlamentar, na comiss\u00e3o ou em CPIs, como a das mil\u00edcias. Gra\u00e7as a esta CPIs, faz uma d\u00e9cada que Marcelo convive com amea\u00e7as, seguran\u00e7as e carro blindado. Naquela manh\u00e3 de 14 de mar\u00e7o, havia sa\u00eddo uma reportagem sobre os dez anos da CPI. E ele me encaminhou o link junto com um \u00e1udio explicando que pedira ao jornalista para n\u00e3o centrar a narrativa nele, porque queria ter uma vida mais normal comigo. Seus olhos estavam esgazeados quando ele desligou o telefone, dizendo: \u201cMataram a Marielle.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0s 22h01, j\u00e1 na Lagoa Rodrigo de Freitas, eu tentava digitar no Waze o endere\u00e7o que mudaria as nossas vidas, quando o ativista Raull Santiago escreveu em um grupo de WhatsApp: \u201cGente. Pelo amor de Deus, algu\u00e9m a\u00ed? Tudo bem no Rio???\u201d Era um grupo do qual Marielle fazia parte. Uma pessoa perguntou: \u201cEm que sentido?\u201d Raull seguiu perguntando com pontos de interroga\u00e7\u00e3o cada vez mais numerosos: \u201cTodos do nosso grupo est\u00e3o bem?????\u201d Comecei a digitar \u201cela foi\u2026\u201d, mas a palavra assassinada \u00e9 brutal demais. Desesperado, Raull dizia que tinha recebido uma informa\u00e7\u00e3o grave, que precisava confirm\u00e1-la porque podia ser trote. Eram 22h05 quando ele perguntou por Marielle. Eu respirei, segurei o telefone com alguma firmeza e fui at\u00e9 o fim: ela foi assassinada.<\/p>\n<p>A rua Joaquim Palhares fica atr\u00e1s do pr\u00e9dio da Prefeitura. \u00c9 uma \u00e1rea pouco movimentada \u00e0 noite. \u00c0 sua direita, tem uma rua larga chamada Jo\u00e3o Paulo I. Naquela noite a rua com nome de papa estava iluminada pelas luzes vermelhas da sirene da pol\u00edcia. Marcelo estacionou sua viatura, como ele chama, paralela ao Agile branco com o vidro estilha\u00e7ado. Atravessamos o asfalto vazio at\u00e9 cruzarmos a fita de conten\u00e7\u00e3o. Tive um pranto s\u00fabito ao ver o motorista morto com a cabe\u00e7a ca\u00edda e a boca aberta, e Marielle desabada com tiros na cabe\u00e7a no banco de tr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u201cPor que ela? Por que fizeram isso com a Mari? Eu n\u00e3o vou mais ver minha amiga\u201d, eram as frases que Marcelo repetia abra\u00e7ado a mim, numa vertigem de emo\u00e7\u00f5es que estaria apenas come\u00e7ando. \u201cPor qu\u00ea, meu Deus? Por que ela? A minha amiga\u2026 Ela era a nossa madrinha.\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">M<\/span>inha hist\u00f3ria com a Marielle come\u00e7a em 2013 no apartamento do Ja\u00edlson e da Eliana Souza Silva, ambos lideran\u00e7as na favela da Mar\u00e9, onde ela nasceu e foi criada. \u00c0quela \u00e9poca, Mari era casada com o ent\u00e3o chefe de gabinete do Marcelo. Na minha mem\u00f3ria ela usava os cabelos longos e alisados. Sempre foi grandona, exuberante e carism\u00e1tica. Tinha aquele sorriso de corpo inteiro que explodia na boca. Mas ainda n\u00e3o brilhava tanto. Sua cintil\u00e2ncia veio com o empoderamento.<\/p>\n<p>A partir dos \u00faltimos meses de 2015, o Brasil foi tomado, nas ruas e nas redes, pela onda feminista. E Marielle foi uma das que fez a onda acontecer. Cl\u00e1ssica articuladora de atos e da milit\u00e2ncia, sua candidatura brotou do seu desejo de colorir o espa\u00e7o legislativo e representar as negras, os favelados, as mulheres, os LGBT, as jovens, os militantes de direitos humanos. \u201cEu sou porque n\u00f3s somos\u201d era seu slogan de campanha, em cujo material impresso aparecia sua figura altiva de cabeleira crespa. Acho que nesta \u00e9poca a Mari ficou at\u00e9 mais alta, n\u00e3o sei se pelo salto ou pela postura que se abriu.<\/p>\n<p>Nossos p\u00e9s sempre pisaram em salas muito diferentes, embora tenhamos nos formado, em \u00e9pocas distintas, no mesmo curso de ci\u00eancias sociais da PUC-Rio. Eu sou uma filha do privil\u00e9gio. E Marielle era cria da favela da Mar\u00e9. Sendo quem eu n\u00e3o era, ela era o meu desejo de democracia para o Brasil. O melhor que n\u00f3s temos como sociedade. Imposs\u00edvel n\u00e3o participar de sua campanha a vereadora. Estive presente em um dos seus primeiros com\u00edcios dom\u00e9sticos, na casa da m\u00e3e da minha amiga Lola Werneck. Sa\u00ed de l\u00e1 com a data para um com\u00edcio na minha casa, a ser feito em dupla com Nilcea Freire, tamb\u00e9m candidata. Era o auge da polariza\u00e7\u00e3o entre coxinhas e mortadelas, e eu convidei minha lista quase inteira de contatos. Sabia que muitos n\u00e3o iriam, mas boa parte sublinharia o nome de uma ou outra em suas anota\u00e7\u00f5es mentais.<\/p>\n<p>Foi uma bela noite, de sala cheia. Depois, filmamos uma entrevista para a M\u00eddia Ninja, na qual ela me contou sua hist\u00f3ria. Mari passou a colaborar com o #Agora\u00c9QueS\u00e3oElas,\u00a0blog da\u00a0<i>Folha de S.Paulo<\/i>\u00a0que edito. E na noite em que o cometa Marielle Franco cruzou o c\u00e9u da pol\u00edtica carioca com seus mais de 46 mil votos, fui \u00e0 Lapa comemorar. Nos abra\u00e7amos.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>hist\u00f3ria do Marcelo com a Marielle \u00e9 de vida. De professor e aluna no pr\u00e9-vestibular comunit\u00e1rio. De milit\u00e2ncia dela na primeira campanha dele a deputado estadual. De coordenadora da comiss\u00e3o por ele presidida. De cria pol\u00edtica, de herdeira, de filha, de amiga. Suas muitas camadas de afeto e constru\u00e7\u00e3o coletiva n\u00e3o cabem em poucas linhas. \u00c9 uma hist\u00f3ria de amor. Onde o combinado sempre foi falar sobre todos os assuntos, mas nunca deixar de conversar sobre a vida pessoal.<\/p>\n<p>Foi numa destas conversas, no in\u00edcio de 2017, que a Marielle disse: \u201cVoc\u00ea devia namorar algu\u00e9m tipo Antonia Pellegrino.\u201d Semanas depois, na primeira madrugada de Carnaval, durante a concentra\u00e7\u00e3o do bloco Amigos da On\u00e7a, quando Marcelo me viu, a frase da Marielle ecoou como um raio.<\/p>\n<p>Agora ela j\u00e1 n\u00e3o fala mais. Seu corpo est\u00e1 inerte, embaixo de um pl\u00e1stico preto, estendido sobre a cal\u00e7ada. A pol\u00edcia j\u00e1 isolou o carro, as c\u00e1psulas de bala, os estilha\u00e7os. Fomos removidos para a esquina, onde ningu\u00e9m corre o risco de ver imagens fortes. H\u00e1 espanto, medo e perplexidade nos olhos de quem chora nesta cena do crime. Uma execu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica feita com pistola 9 mil\u00edmetros e nenhuma amea\u00e7a. Um recado direto, enviado n\u00e3o se sabe por quem, mas que amea\u00e7a a todos.<\/p>\n<p>Sentamos no meio-fio. Passo \u00e1gua na nuca do Marcelo, o abra\u00e7o, beijo seu rosto. De repente, homens comemoram um gol. Logo ali, a vida seguia alheia. Marcelo levanta e segura a onda. De si e de todos. Conversa com a pol\u00edcia, organiza com o vereador Tarc\u00edsio Motta como ser\u00e3o os vel\u00f3rios, providencia a ida da testemunha para a delegacia, fala com a imprensa. \u00c9 abra\u00e7ado pelos amigos, que desabam. E me fala que precisamos conversar em casa.<\/p>\n<p>S\u00e3o duas da manh\u00e3 quando o corpo \u00e9 levado para o IML e n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer ali. Como naquela sess\u00e3o de cinema, fico sem voz. Choro do Est\u00e1cio at\u00e9 minha casa. Abro a porta do blindado com o p\u00e9 e vou buscar uma bolsa com roupa. Sobre a minha cama, minha filha dorme. Sento ao lado dela, fa\u00e7o um carinho no rosto. N\u00e3o quero que ela acorde e me veja coberta de l\u00e1grimas, mas \u00e9 imposs\u00edvel sair de perto dela naquele momento. Ela \u00e9 pura vida. Os limites do seu futuro est\u00e3o sendo definidos pelo que aconteceu hoje. Ela abre os olhos, cheia de sono. Eu sou toda a desesperan\u00e7a do mundo. Fa\u00e7o carinho em seu rosto. Ela coloca o travesseiro entre as pernas, vira para o lado e volta a sonhar.<\/p>\n<p>A imagem do carro alvejado com os cad\u00e1veres n\u00e3o desgruda da minha cabe\u00e7a. Entendo e n\u00e3o entendo o que est\u00e1 acontecendo. Limpo o rosto. Respiro. E pela primeira vez naquela noite, entro nas redes sociais. N\u00e3o era s\u00f3 a gente que n\u00e3o dormia.\u00a0Uma convuls\u00e3o devorava as\u00a0<i>timelines<\/i>. Marielle come\u00e7ava a ressuscitar.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>o apartamento do Marcelo, o g\u00e1s do banheiro n\u00e3o funciona. Depois do horror, o banho gelado. A \u00e1gua cai sobre minhas costas, quando ele diz: \u201cEu sei que voc\u00ea me ama, mas eu entendo se voc\u00ea quiser se separar. Voc\u00ea n\u00e3o precisa viver comigo.\u201d Sabemos sobre o que ele fala. S\u00f3 no ano retrasado, um defensor de direitos humanos morreu no Brasil a cada cinco dias; ao todo, foram 66 v\u00edtimas. Boa parte delas s\u00e3o pessoas que, como a Marielle e o Marcelo, nasceram nas periferias e n\u00e3o tiveram outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o lutar. Pelo m\u00ednimo: ser tratados como gente e ter direitos. Mas o m\u00ednimo, no Brasil, \u00e9 excesso de ousadia.<\/p>\n<p>\u00c0s seis da manh\u00e3 o celular come\u00e7a a tocar. S\u00e3o jornalistas dos programas de r\u00e1dio de todo o pa\u00eds, jornalistas da grande m\u00eddia, jornalistas do peri\u00f3dico estudantil de uma cidade obscura, jornalistas. Todos querem saber quem matou Marielle, como se Marcelo fosse da pol\u00edcia. Todos querem saber qual a linha de investiga\u00e7\u00e3o, como se isso pudesse ser dito. Algumas pessoas completamente sem no\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ligam, mas ele n\u00e3o atende. Sem no\u00e7\u00e3o absoluta, elas insistem duas, tr\u00eas vezes. Cato o telefone e come\u00e7o a filtrar as liga\u00e7\u00f5es com o que me resta de voz.<\/p>\n<p>Na frente do pr\u00e9dio da Pol\u00edcia Civil, no Centro do Rio, eu des\u00e7o do carro na manh\u00e3 do dia 15 de mar\u00e7o e me lembro de ter encontrado a Mari naquela esquina, distribuindo os leques da sua campanha Carnaval Sem Ass\u00e9dio. Agora estamos ali para cobrar o esclarecimento da morte dela e do motorista Anderson Pedro Gomes.<\/p>\n<p>M\u00fasculos, ternos e homens com um distintivo pendurado no pesco\u00e7o. Essa \u00e9 a paisagem da sala do chefe da Pol\u00edcia Civil, amigo de longa data do Marcelo. Eles conversam sobre como as pessoas pensam que defensores de direitos humanos e policiais n\u00e3o dialogam. Marcelo observa que, no Brasil, trabalhar com direitos humanos \u00e9 trabalhar com homic\u00eddio. \u201cMeus amigos na Europa n\u00e3o vivem assim\u201d, diz ele. E completa: \u201cEssa execu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abre um novo campo de disputa civilizat\u00f3ria: entre a barb\u00e1rie e a democracia. A linha que divide estes dois campos est\u00e1 sobre o corpo da Mari: s\u00e3o os direitos humanos.\u201d<\/p>\n<p>Vou ao banheiro da vice-diretora da Pol\u00edcia Civil e, pela primeira vez depois de horas, me olho no espelho. N\u00e3o me reconhe\u00e7o no olhar aflito, a cara p\u00e1lida, as olheiras e o cabelo desgrenhado muito al\u00e9m do normal. O teto do mundo ficou mais baixo de um dia para o outro. Dou um jeito no cabelo. Mando mensagem para amigas pedindo uns \u00f3culos escuros. Uso a maquiagem da vice-diretora para recuperar alguma dignidade. De volta \u00e0 sala de reuni\u00e3o, a imprensa j\u00e1 est\u00e1 organizada para o pronunciamento das autoridades. Eles garantem que o crime n\u00e3o vai ficar impune. N\u00e3o vai. Saio dali com os telefones de quatro delegados registrados no celular. Em que momento eu cruzei essa linha de onde j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel voltar atr\u00e1s?<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">A<\/span>inda \u00e9 de manh\u00e3, mas a bateria do telefone j\u00e1 precisa ser recarregada. As mensagens n\u00e3o param de chegar, por todos os inboxes poss\u00edveis. Na rede, um paiol de Marielles explodiu. O carro estaciona na lateral da C\u00e2mara dos Vereadores. Vamos de m\u00e3os dadas entre as pessoas, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Sala Inglesa onde nossos amigos aguardam os caix\u00f5es de Marielle e Anderson para o vel\u00f3rio. Nas paredes da entrada da C\u00e2mara, h\u00e1 tr\u00eas pain\u00e9is de pastilhas coloridas que mostram imagens de um Brasil da inoc\u00eancia: um homem pescando, um homem na lavra, uma lenha sendo cortada. Depois da noite passada, tudo isso ficou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>A Sala Inglesa \u00e9 ampla e toda forrada com madeira escura. L\u00e1 est\u00e3o aqueles que quem matou a Marielle deve chamar de\u00a0<i>feminazis<\/i>, preto imundo, mulher que pensa que \u00e9 homem, veado, favelado, mulher que beija mulher, essa gente toda errada que ousa dizer que as desigualdades brasileiras n\u00e3o s\u00e3o normais. Novamente a espiral de solu\u00e7os, e por qu\u00ea, meu Deus, por que a Mari? O horror percebe onde h\u00e1 for\u00e7a, e ataca. O recado inequ\u00edvoco passado na execu\u00e7\u00e3o instaura o medo. A rajada que assassinou a Marielle e o Anderson atinge em cheio as muitas mulheres negras que trabalham em seu gabinete e outras tantas parceiras de milit\u00e2ncia. Atinge a for\u00e7a motriz dos mais velhos, com d\u00e9cadas de vida dedicadas \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica e aos direitos humanos. Atinge a todos. Para ningu\u00e9m cair, os corpos chacoalham nos abra\u00e7os e o desespero encontra algum abrigo.<\/p>\n<p>Monica Ben\u00edcio, companheira da Marielle, chega com um vestido longo e branco sobre o corpo tr\u00eamulo. Marcelo a abra\u00e7a. Coloco as m\u00e3os nas costas dele, nas costas dela. Somos uma rede de acolhimento. Na nuca dela, o cabelo revela a tatuagem:\u00a0<i>amor fati<\/i>. Duas palavras, uma ode de amor ao destino, um pacto de aceita\u00e7\u00e3o integral da vida com seus aspectos mais cru\u00e9is e dolorosos. Em que momento ela anteviu seu fado e respondeu na pele?<\/p>\n<p>Marcelo me conduz pela m\u00e3o e vamos caminhando com passos r\u00e1pidos entre a multid\u00e3o, at\u00e9 entrarmos em outra sala, onde a gravidade \u00e9 mais intensa. \u00c9 a sala onde est\u00e3o os familiares. A m\u00e3e, Marinete da Silva, \u00e9 uma senhora bonita, de express\u00e3o forte, com os mesmo tra\u00e7os da filha morta. Aos 66 anos, ela passa as m\u00e3os de dedos longos e unhas bem-feitas sobre o rosto, incr\u00e9dula. Sentada em uma cadeira, diz que nunca quis que a filha entrasse para a pol\u00edtica. Do outro lado, Luyara Santos, a filha de 19 anos, com a cara redonda de crian\u00e7a e aparelho fixo nos dentes, grita num lamento sentido: \u201cEu quero a minha m\u00e3e, eu quero a minha m\u00e3e de volta.\u201d \u201cTiraram um peda\u00e7o de mim\u201d, repete a m\u00e3e. \u201cEu quero um abra\u00e7o da minha mam\u00e3e\u201d, diz a filha. Sobre a enorme mesa de jacarand\u00e1, na cabeceira mais distante, vejo um beb\u00ea negro deitado com as pernas gordinhas para cima, prestes a ser amamentado pela m\u00e3e que tira o peito para fora. De onde eu venho, a gente n\u00e3o tem amigos assassinados e acha que \u201cgente \u00e9 pra brilhar\u201d, como dizem os versos da can\u00e7\u00e3o. De onde a Marielle, o Anderson e provavelmente aquele beb\u00ea v\u00eam, todas as tias j\u00e1 limparam sangue da cal\u00e7ada. Metade dos amigos do Marcelo est\u00e1 morta. A outra metade virou pastor, traficante ou professor. A cidade onde todos n\u00f3s vivemos \u00e9 disfuncional. O Rio concentra mais armamento pesado que um pa\u00eds em guerra e tem dois aplicativos que avisam onde h\u00e1 tiroteio. Aqui, preto \u00e9 cor de elemento suspeito, e elemento suspeito tem 23,5% mais chance de morrer jovem, porque a gente elimina.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u201cO<\/span>s corpos est\u00e3o chegando\u201d, nos avisam. N\u00e3o tenho ideia de que horas s\u00e3o quando descemos as escadarias do Pal\u00e1cio Tiradentes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua. Faz sol e uma multid\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 fora, ocupando a pra\u00e7a da Cinel\u00e2ndia. O burburinho d\u00e1 lugar a um sil\u00eancio solene enquanto o Marcelo atravessa o espa\u00e7o aberto para a passagem dos caix\u00f5es. Vamos at\u00e9 onde aguardam os outros deputados e vereadores do partido da Marielle. A como\u00e7\u00e3o \u00e9 geral.<\/p>\n<p>Sem comer h\u00e1 muitas horas, vou ao pipoqueiro, pe\u00e7o uma pipoca salgada, enquanto tomo um Guaravita com gosto de chiclete. Um helic\u00f3ptero sobrevoa a pra\u00e7a. O som da h\u00e9lice lan\u00e7a uma urg\u00eancia est\u00e1vel que aumenta a ang\u00fastia. \u00c9 aqui que ou\u00e7o pela primeira vez uma mulher gritar no microfone: \u201cMarielle!\u201d E a multid\u00e3o responder: \u201cPresente!\u201d<\/p>\n<p>A brutalidade da sua aus\u00eancia me leva aos prantos enquanto cato centavos na carteira. Choro por tr\u00e1s dos \u00f3culos escuros, me for\u00e7ando a comer pipoca, enquanto observo as centenas de pessoas que pararam suas vidas para estar ali. S\u00e3o muitas mulheres, mulheres negras, mulheres negras l\u00e9sbicas, mulheres negras de favela, mulheres brancas trans, homens negros, jovens de favela, s\u00e3o muitas Marielles no desejo de cada uma daquelas centenas de pessoas que ocupam e choram e fazem unidas o seu luto em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no movimento da hist\u00f3ria. Nesses instantes, a formid\u00e1vel alquimia da hist\u00f3ria faz refulgir, com luz imperec\u00edvel, o destino no qual toca\u201d, escreveu meu av\u00f4, H\u00e9lio Pellegrino, sobre a morte do estudante Edson Lu\u00eds, cujo vel\u00f3rio aconteceu neste mesmo pal\u00e1cio, h\u00e1 exatos cinquenta anos, no m\u00eas de mar\u00e7o. Mas estas palavras tamb\u00e9m poderiam ter sido escritas para Marielle.<\/p>\n<p>Um seguran\u00e7a me segue entre as pessoas at\u00e9 o Marcelo. Vejo os carros da funer\u00e1ria se aproximando. A gente se olha nos olhos. Toda a descarga emocional at\u00e9 aqui foi uma prepara\u00e7\u00e3o para o que ainda vir\u00e1. Quando os ve\u00edculos encostam onde estamos, me vejo entre o grupo de mulheres que vai levar o caix\u00e3o de Marielle, com o Marcelo e David Miranda \u00e0 frente, segurando a parte mais pesada do corpo, a cabe\u00e7a. No momento em que o porta-malas \u00e9 aberto e o caix\u00e3o fechado come\u00e7a a ser retirado toda a esp\u00e9cie de firmeza que consegui manter se esvai pelas minhas pernas tr\u00eamulas.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3o direita segura a al\u00e7a dourada do caix\u00e3o. Dai-me for\u00e7a, dai-me for\u00e7a \u00e9 o mantra que me vem. Mantenho a m\u00e3o firme e o resto do corpo \u00e9 tomado por um pranto incontrol\u00e1vel. Come\u00e7amos a andar com pequenos passos para que todos possam se despedir, inclusive n\u00f3s. Olho ao redor e vejo desespero, bocas abertas, um choro que faz o corpo arquear. Falta ar naquela pra\u00e7a aberta cujo sil\u00eancio dolorido \u00e9 atravessado pela rajada do helic\u00f3ptero. Estamos todos com um espinho enfiado na carne.<\/p>\n<p>Depois que atravessamos as escadarias e os corredores de volta ao Pal\u00e1cio Tiradentes, finalmente deixamos o caix\u00e3o sobre o apoio, onde a fam\u00edlia pode velar o corpo. Anielle Silva, a irm\u00e3 de Marielle, \u00e9 a pessoa da fam\u00edlia que consegue se manter mais inteira e ancorar minimamente os seus. H\u00e1 sempre algu\u00e9m que assume este papel. E ela o desempenha como uma leoa.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o ao Marcelo para sairmos dali. Estou completamente esgotada. Vamos descendo e encontramos Alenice, a m\u00e3e dele. Uma senhora de 77 anos, que acabou de enterrar o marido da vida toda, mas cruzou as \u00e1guas da Ba\u00eda da Guanabara numa barca porque queria abra\u00e7ar a m\u00e3e da Marielle. Fico num sof\u00e1 por alguns minutos enquanto eles somem de volta ao vel\u00f3rio. Apago num sono profundo que deve ter durado quinze minutos e, quando acordo, Alenice est\u00e1 sentada perto de mim, chorando. Ela diz, com voz mansa: \u201cEu sei o que a m\u00e3e dela est\u00e1 sentindo, eu tamb\u00e9m perdi um filho assim.\u201d No Brasil, em 2016, 61 mil m\u00e3es perderam filhos assassinados. As balas que mataram esses milhares de pessoas ficaram cravadas nos cora\u00e7\u00f5es de seus familiares. N\u00e3o foi uma ou duas vezes que vi o Marcelo dizer que a doen\u00e7a do pai dele foi fruto da trag\u00e9dia que arrancou a vida de seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">D<\/span>eixamos a m\u00e3e do Marcelo na barca e tentamos ir para o enterro, no Cemit\u00e9rio do Caju. O tr\u00e2nsito nos impede. Seguimos para o ato. Ainda n\u00e3o \u00e9 luta, \u00e9 luto. Est\u00e1 em nossas m\u00e3os morrer com a Marielle, ou ressuscitar com ela. Marielle era uma pessoa pol\u00edtica, fruto da constru\u00e7\u00e3o coletiva e do m\u00e9rito. Fazia pol\u00edtica com radicalidade, no melhor e mais nobre sentido da palavra. M\u00e3e, negra, favelada, de ax\u00e9, bissexual, feminista, de esquerda. Marielle era muitas, cabe em quase todos n\u00f3s. Ela era a face luminosa dos exclu\u00eddos da pol\u00edtica, na pol\u00edtica. Sua elei\u00e7\u00e3o foi uma das contundentes respostas ao \u201cN\u00e3o me representa\u201d de 2013. Marielle era a renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira encarnada. Da\u00ed brota seu enorme poder. Sua morte enche nossa esperan\u00e7a de balas. Sua morte enfiou tanto o espinho na carne que parece ter tirado o pa\u00eds da dorm\u00eancia. Sua morte nos comoveu, e nos moveu.<\/p>\n<p>At\u00e9 ontem os dias seguiam seu fluxo normal. Agora \u00e9 poss\u00edvel tocar a fragilidade da vida com as m\u00e3os. Ainda \u00e9 cedo para entendermos o quanto tudo mudou, mas houve um descarrilhamento. Nada vai voltar a ser como antes. Decido que n\u00e3o importa o tempo que tenhamos pela frente, quero que ele seja vivido ao lado do Marcelo. Sua presen\u00e7a amorosa, apaixonada, cuidadosa e cheia de luz me fez perceber que amar \u00e9 ainda melhor que o amor. Estamos juntos h\u00e1 um ano, com alian\u00e7a nos dedos h\u00e1 duas semanas. Decido que \u00e9 hora de irmos morar juntos. O amor nunca vai deixar de ser uma resposta \u00e0 brutalidade. E \u00e9 disso que falamos quando, em todos os atos do pa\u00eds, unidos pelo luto, mas para dizer, eu luto, gritamos: Marielle presente, Marielle sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na revista piau\u00ed. Faz um ano que eu entrei em uma sala de cinema com Marcelo Freixo. Est\u00e1vamos nos conhecendo de novo, e pela primeira vez. Desde sua campanha \u00e0 Prefeitura do Rio em 2012, a gente se cruzava em atos, eventos e reuni\u00f5es. 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