{"id":23839,"date":"2019-01-14T14:47:24","date_gmt":"2019-01-14T16:47:24","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/?p=23839"},"modified":"2019-01-14T14:47:24","modified_gmt":"2019-01-14T16:47:24","slug":"valerio-arcary-100-anos-do-assassinato-de-rosa-luxemburgo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/valerio-arcary-100-anos-do-assassinato-de-rosa-luxemburgo\/","title":{"rendered":"Valerio Arcary | 100 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Valerio Arcary \u00e9 historiador, professor titular aposentado do IFSP e militante do PSOL.<\/em><\/p>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi h\u00e1 cem anos. J\u00e1 se disse que o sil\u00eancio \u00e9 a maior das repres\u00e1lias. O anivers\u00e1rio deve ocorrer sem maior repercuss\u00e3o. No dia 15 de Janeiro de 1919, no calor da crise revolucion\u00e1ria que permanecia aberta depois da revolu\u00e7\u00e3o de novembro de 1918 que derrubou o Kaiser, Rosa Luxemburgo foi assassinada, ao lado de Karl Liebknecht. A reabilita\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica de Rosa est\u00e1 ainda por ser feita diante dos olhos da nova gera\u00e7\u00e3o. Mas enquanto existir uma esquerda que tenha paix\u00e3o revolucion\u00e1ria Rosa Luxemburgo estar\u00e1 viva.<\/span><\/p>\n\n\n<p>Desde o 9 de Janeiro, Berlim era uma cidade em estado de s\u00edtio. Rosa e Liebknecht sabiam que estavam encurralados, e que o cerco se apertava. H\u00e1 v\u00e1rios dias viviam em permanente mudan\u00e7a de endere\u00e7os. At\u00e9 que a dela\u00e7\u00e3o levou as mil\u00edcias paramilitares ao seu esconderijo.<\/p>\n\n\n\n<p>O perigo de um confronto mais s\u00e9rio, e at\u00e9 de guerra civil, tinha feito os trabalhadores recuarem, inseguros diante da divis\u00e3o irreconcili\u00e1vel dos partidos que reconheciam ainda como os seus. O governo Ebert\/Sheidemann (uma coaliz\u00e3o do SPD e do USPD, os dois partidos oper\u00e1rios mais influentes, conhecidos como majorit\u00e1rios e independentes, levados ao poder pelo \u201cfevereiro\u201d alem\u00e3o que derrubou a monarquia), estava inflex\u00edvel na determina\u00e7\u00e3o de destruir a dualidade de poderes que, sobretudo em Berlim, amea\u00e7ava a estabilidade do regime, e prenunciava uma nova vaga revolucion\u00e1ria. O perigo de um Outubro alem\u00e3o, verdadeiro ou ilus\u00f3rio, tinha estado no ar. <\/p>\n\n\n\n<p>Era preciso agir, e agir r\u00e1pido: da\u00ed que a decis\u00e3o do governo, de retomar o controle da pol\u00edcia de Berlim, a qualquer custo, fosse irredut\u00edvel. Diante da rea\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica dos setores mais avan\u00e7ados da classe oper\u00e1ria, em defesa dos Conselhos de trabalhadores e soldados, o Governo n\u00e3o hesitou em tomar as medidas mais brutais, o cerco militar da cidade, reveladoras da sua decis\u00e3o de n\u00e3o hesitar, e ir at\u00e9 ao derramamento massivo de sangue, se necess\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os setores de vanguarda do proletariado que tinham ensaiado o seu \u201cjunho de 1848\u201d, recuavam, precipitada e abruptamente, em debandada. O teste de for\u00e7a fora feito e o seu resultado era desolador. A maioria da classe trabalhadora voltou para as f\u00e1bricas, e se entrincheirou, intimidada, consciente que n\u00e3o seria poss\u00edvel manter a unidade do movimento sob a bandeira da greve geral at\u00e9 a derrubada do Governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse \u00ednterim, a repress\u00e3o contra os spartakistas se abatia de forma impiedosa. O cerco se apertava. Refugiados, nos dias 12 e 13, em uma resid\u00eancia no bairro oper\u00e1rio de Neuk\u00f6lin, Rosa e Liebknecht mudaram-se, no 14, para um apartamento \u201crespeit\u00e1vel\u201d de um distrito de classe m\u00e9dia em Wilmersdorf. Suas cabe\u00e7as estavam oficiosamente a pr\u00eamio, com uma substantiva recompensa oferecida por empres\u00e1rios de extrema direita, provavelmente com a anu\u00eancia de Scheidemann. Foram presos \u00e0s nove horas da noite, ainda na presen\u00e7a de Pieck, um dirigente do comit\u00ea central, que tinha acabado de lhes trazer documentos pessoais falsos, para facilitar a sa\u00edda de Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>Como os Freikorps os encontraram nunca se soube. Foi, provavelmente, casual. Talvez algum vizinho a tenha identificado pela famosa defici\u00eancia na perna. Foram levados at\u00e9 o Hotel Eden, onde estava instalado, provisoriamente, o quartel general de uma das divis\u00f5es para-militares na parte central de Berlim. Sabiam que n\u00e3o seria uma pris\u00e3o como outras, e que seriam severa e brutalmente interrogados. Mas, desta vez, seus destinos j\u00e1 estavam tra\u00e7ados. Primeiro Liebknecht e depois Rosa foram duramente atingidos por coronhadas na cabe\u00e7a e, depois, levados para fora do Hotel, colocados dentro de um carro e, em seguida, fuzilados, \u00e0 queima roupa: Liebknechet arrastado para fora do carro para simular uma fuga, foi baleado pelas costas. Rosa recebeu o tiro na nuca, ali mesmo. O corpo de Luxemburgo foi lan\u00e7ado nas \u00e1guas do canal Landwehr, de onde foi resgatado somente em Mar\u00e7o. Ali foi colocada uma placa, ao lado de uma das pontes, para honrar a sua mem\u00f3ria. Rosa, a alem\u00e3, a judia-polonesa, a internacionalista, a vermelha, morreu na Berlim que tanto amou, assassinada pela f\u00faria fascista que, em 1933, chegaria ao poder, para mergulhar a Europa no maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria. <br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A m\u00e3o que aperta o gatilho nem sempre \u00e9 a mesma m\u00e3o que aponta a arma<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o restam d\u00favidas, se \u00e9 que existiram, sobre o balan\u00e7o hist\u00f3rico da cumplicidade do governo do SPD, o primeiro da Rep\u00fablica de Weimar, pelo assassinato de Rosa e Liebknechet. Sabemos, hoje, que a ordem de execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o partiu do Governo. Mas, tamb\u00e9m sabemos, que a persegui\u00e7\u00e3o que cercava os revolucion\u00e1rios spartakistas foi incentivada por Ebert e Scheidemann: Noske, e os Freikorps sob o seu comando, de onde surgiria, nos anos seguintes, uma boa parte do material humano das mil\u00edcias nazistas, eram um ponto de apoio vital do governo, que duvidava da disciplina da maioria das tropas militares.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O assassinato de Rosa teve para o marxismo revolucion\u00e1rio na Alemanha, o efeito devastador de uma ruptura dos v\u00ednculos entre duas gera\u00e7\u00f5es. A experi\u00eancia pol\u00edtica que estava resumida nas pessoas de Rosa, de Liebknechet e de Jogiches, o primeiro companheiro de Rosa, se perdeu. Ningu\u00e9m menos do que Hannah Arendt, denuncia, sem meias palavras, fundamentando-se na pesquisa de Nettl, a criminosa atitude dos socialistas no poder.[i]<br><\/p>\n\n\n\n<p>O Estado alem\u00e3o-ocidental, ironia da Hist\u00f3ria, assumiu d\u00e9cadas mais tarde, durante a guerra fria, \u00e0 sua maneira, a responsabilidade pelo assassinato, apresentando-a nos termos de \u201cuma execu\u00e7\u00e3o de acordo com as condi\u00e7\u00f5es de lei marcial\u201d. Fez o que Weimar n\u00e3o podia fazer: a justifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do crime. A compara\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel do esc\u00e1rnio dos assassinos, com o comportamento dos carrascos de Hitler, nos julgamentos dos crimes de Guerra, n\u00e3o \u00e9 acidental. Sabiam poder contar com a impunidade, tal era o grau de depend\u00eancia do governo de Ebert\/Noske diante do aparato militar.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O confronto prematuro do 5 de Janeiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ajudar\u00e1 a compreender porque foi t\u00e3o necess\u00e1rio o massacre da dire\u00e7\u00e3o dos spartakistas. As circunst\u00e2ncias pol\u00edticas das jornadas de janeiro de 19, o primeiro dos v\u00e1rios \u201cjunhos de 1848\u201d ou \u201cjulhos de 1917\u201d da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 s\u00e3o pouco conhecidas, mas merecem aten\u00e7\u00e3o, dadas as suas irrepar\u00e1veis conseq\u00fc\u00eancias. As crises revolucion\u00e1rias, como sabemos, tamb\u00e9m t\u00eam os seus tempos desiguais, conhecem altern\u00e2ncias de conjuntura, e sofrem com a flutua\u00e7\u00e3o e invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Os acontecimentos que precipitaram as lutas de janeiro come\u00e7aram de forma quase trivial, como em geral ocorre quando uma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em movimento, e se abre uma situa\u00e7\u00e3o de crise revolucion\u00e1ria. Tudo se iniciou a partir de um primeiro movimento de contra ofensiva do governo presidido pelo SPD, que considerava intoler\u00e1vel as permanentes manifesta\u00e7\u00f5es de massas n\u00e3o controladas em Berlim, fator de impulso e ao mesmo tempo, express\u00e3o da dualidade de poderes, e resolveu derrubar o chefe de pol\u00edcia da cidade Emil Eichhorn, membro do USPD, para colocar no lugar algu\u00e9m mais confi\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>Acusado de incapacidade na preserva\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica, e de permitir que a pol\u00edcia se transformasse em uma institui\u00e7\u00e3o \u201cquase revolucion\u00e1ria\u201d, era vital para o governo a sua queda. Eichhorn desafiou a decis\u00e3o do governo, se recusando a obedecer \u00e0s ordens do Ministro do Interior, e afirmando que sua autoridade s\u00f3 podia ser questionada pelo Conselho de oper\u00e1rios e soldados. A dire\u00e7\u00e3o do USPD de Berlim apoiou essa decis\u00e3o, e resolveu resistir, convocando as massas \u00e0s ruas, para uma manifesta\u00e7\u00e3o de protesto. J\u00e1 os spartakistas apoiaram a a\u00e7\u00e3o de rua, mas defendendo a greve geral e, mais importante, que as tropas do ex\u00e9rcito deveriam ser desarmadas, e os trabalhadores armados. <\/p>\n\n\n\n<p>A  posi\u00e7\u00e3o de Rosa, na dire\u00e7\u00e3o do KPD, foi a favor, mas ressalvando que a greve deveria ser somente de protesto, para medir for\u00e7as, e aguardar a rea\u00e7\u00e3o de Ebert e do Governo e a repercuss\u00e3o junto aos trabalhadores no interior do pa\u00eds. A passeata, no dia 5 de janeiro, foi um sucesso muito al\u00e9m do que todos esperavam e, tudo indica, a dire\u00e7\u00e3o do KPD recebeu informes que garantiam que, uma parte dos soldados aquartelados em Berlim, estavam do lado dos inssurectos. Mais tarde, isso se demonstrou completamente infundado.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, a sorte estava lan\u00e7ada, alea jacta est: reuni\u00f5es conjuntas dos independentes (USPD) de Berlim, dos comunistas e dos delegados revolucion\u00e1rios constitu\u00edram um organismo comum das tr\u00eas fra\u00e7\u00f5es, com 33 membros e um secretariado de tr\u00eas dirigentes, Liebknecht, Lebedour e Scholze. As atribui\u00e7\u00f5es precisas desse organismo permanecem obscuras: seria sua responsabilidade, ou inten\u00e7\u00e3o, dirigir o movimento como um protesto, ou tentar a derrubada do governo? <\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 pertinente, e talvez sem resposta hist\u00f3rica, porque a esquerda socialista alem\u00e3, em todas as suas sensibilidades e matizes, inclusive Rosa e a dire\u00e7\u00e3o spartakista, tinha sido formada em uma cultura de que revolu\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o se fazem\u201d, mas s\u00e3o feitas pelas massas. J\u00e1 a milit\u00e2ncia spartakista, em sua maioria, jovens que n\u00e3o viveram o per\u00edodo anterior \u00e0 guerra, e pouco experientes, tinha inclina\u00e7\u00f5es voluntaristas incorrig\u00edveis. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para os que se tinham formado no velho SPD antes da guerra, a aprendizagem de consci\u00eancia de classe deveria ser ditada pelo curso das lutas e eventos, e deveria ser o protagonismo dos trabalhadores, deslocando as institui\u00e7\u00f5es, quem colocaria objetivamente o poder nas ruas. Essa era a cultura da esquerda socialista na Alemanha: governos caem, n\u00e3o s\u00e3o derrubados; o pal\u00e1cio se rende, n\u00e3o \u00e9 tomado. A ordem pol\u00edtico-social desaba, finalmente, pela for\u00e7a da a\u00e7\u00e3o das massas, e o governo, pela perda de legitimidade, cai \u201cde maduro\u201d. Sujeito social e sujeito pol\u00edtico, movimento e dire\u00e7\u00e3o, classe e partido, se confundem. Revolu\u00e7\u00e3o e insurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se separam.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, \u00e9 dif\u00edcil discernir at\u00e9 onde estavam dispostos a ir efetivamente os revolucion\u00e1rios reunidos ap\u00f3s o entusiasmo da manifesta\u00e7\u00e3o do 5 de Janeiro. Setores de vanguarda dos trabalhadores come\u00e7aram a ocupa\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios em Berlim, entre eles, os escrit\u00f3rios do Vow\u00e4rts, o di\u00e1rio do SPD. Esse n\u00e3o foi um pequeno erro: a grande maioria do povo, ainda que desconfiado da decis\u00e3o de demiss\u00e3o do seu chefe de pol\u00edcia, ainda reconhecia o SPD como a sua dire\u00e7\u00e3o e o Vow\u00e4rts como o seu jornal di\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na seq\u00fc\u00eancia, o comit\u00ea conjunto da esquerda revolucion\u00e1ria votou, embriagado pela press\u00e3o dos acontecimentos, uma ef\u00eamera resolu\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o teve maiores desdobramentos) a favor de derrubar o governo. At\u00e9 Liebknecht votou a favor, contra a posi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do seu partido, que sabia ser tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o de Rosa e Radek, o dirigente russo ent\u00e3o colaborando em Berlim. Mas, j\u00e1 no dia 6 de Janeiro, esse Executivo das tr\u00eas correntes estava em d\u00favida sobre a decis\u00e3o da v\u00e9spera e, sem mais delongas, decidiu apoiar a posi\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do USPD que, entretanto, tinha iniciado negocia\u00e7\u00f5es com o Governo. <\/p>\n\n\n\n<p>Entre outros fatos, parece ter sido decisiva a neutralidade da Volksmarinedivision, a unidade militar que o Governo tinha tentado dissolver em Dezembro e que, tendo recebido o apoio popular, era a grande esperan\u00e7a de sustenta\u00e7\u00e3o militar do levante. A dire\u00e7\u00e3o spartakista, paradoxalmente, condenou ambos os movimentos, tanto o de precipitar a luta pelo poder, quanto a de iniciar negocia\u00e7\u00f5es&#8230; O governo, no interim, tinha come\u00e7ado o movimento de tropas de sua confian\u00e7a para Berlim.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"725\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-1024x725.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-23880\" srcset=\"https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-1024x725.jpeg 1024w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-300x212.jpeg 300w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-768x544.jpeg 768w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-1536x1087.jpeg 1536w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-150x106.jpeg 150w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-696x493.jpeg 696w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992-1068x756.jpeg 1068w, https:\/\/psol50.org.br\/inc\/uploads\/2019\/01\/d991137e69f8fce6b6ef097bb026d992.jpeg 1695w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Luxemburgo discursa, em 1907, na Segunda Internacional de Estugarda.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Rosa estava marcada para morrer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed come\u00e7ou a fuga. Tudo indica que a l\u00f3gica pol\u00edtica sinuosa que guiou a posi\u00e7\u00e3o dos spartakistas, com o apoio de Rosa teria sido, resumidamente, esta: os comunistas consideravam um erro a decis\u00e3o dos setores mais avan\u00e7ados da classe de iniciar um movimento imediato pela derrubada do Governo, ou que tensionava o conflito, a tal ponto, que o problema do poder estaria objetivamente colocado. Sem embargo, como essa tinha sido a vontade dos trabalhadores em luta, por disciplina de classe, tinham se unido \u00e0s massas em levante. Mas, enquanto o KPD se mantinha ao lado dos insurgentes, as outras organiza\u00e7\u00f5es, as primeiras em colocar objetivos inalcan\u00e7\u00e1veis, bateram em retirada, capitulando em negocia\u00e7\u00f5es de gabinete, e deixando os trabalhadores \u00e0 merc\u00ea da repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Moral da hist\u00f3ria: os spartakistas foram os \u00faltimos a \u201caderir\u201d ao levante, mas ele iniciado, os mais reticentes em recuar, e depois os seus mais destacados m\u00e1rtires. Isabel Loureiro resume, assim, o seu balan\u00e7o de Rosa nos dias decisivos de Janeiro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201dEm suma, nos meses de novembro-janeiro, Rosa permaneceu fiel \u00e0 sua teoria pol\u00edtica: a a\u00e7\u00e3o de massas cria as pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es e permite o desenvolvi\u00admento da consci\u00eancia de classe, processo no qual seriam resolvidos os problemas da tomada do poder e do que fazer com ele ap\u00f3s a vit\u00f3ria. A a\u00e7\u00e3o supre planos, organiza\u00e7\u00e3o, falta de clareza sobre as tarefas a cumprir \u00e0 medida que os problemas surgem, com eles nascem as respostas desde que haja total liberdade de movimento(&#8230;)A t\u00e1tica bolchevique, ao ver no partido um contra-poder de assalto ao poder, \u00e9, no que tange a esse problema, mais eficaz. Os autores, indcpendcntcmcntc dc posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de maior ou menor simpatia pelos spartakistas, s\u00e2o un\u00e2nimes em apontar a falta de organiza\u00e7\u00e3o da Liga Spartakus.\u201d (grifo nosso) [ii] (LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, S\u00e3o Paulo, Editora da Unesp, 1995 p.176\/7).<\/p>\n\n\n\n<p>O fr\u00e1gil governo nascido da revolu\u00e7\u00e3o de novembro que derrubou o Kaiser retomava a iniciativa, apoiado no deslocamento de tropas disciplinadas, vindas do interior do pa\u00eds, e poupadas do acelerado processo de radicaliza\u00e7\u00e3o que o clima de agita\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias de Berlim provocava. Mas, sua for\u00e7a repousava, tamb\u00e9m, nas mil\u00edcias nacionalistas para-militares que agiam impunemente. As \u201cjornadas de Julho\u201d da primeira vaga da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, se encerravam com a decapita\u00e7\u00e3o do emergente movimento revolucion\u00e1rio no mais decisivo pa\u00eds da Europa. O paralelo hist\u00f3rico parece quase irretoc\u00e1vel. A principal lideran\u00e7a spartakista foi v\u00edtima de uma repress\u00e3o implac\u00e1vel que se abateu sobre um levante que n\u00e3o dirigiam, que n\u00e3o tinham convocado, de cujas reivindica\u00e7\u00f5es discordavam, mas que se viram obrigados a acompanhar e defender por solidariedade de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Spartakistas se viram condenados, politicamente, ao isolamento e abandonados \u00e0 f\u00faria da mais feroz repress\u00e3o na seq\u00fc\u00eancia de um levante insurreccional, em tudo semelhante, pela sua precocidade, \u00e0 precipita\u00e7\u00e3o das jornadas de Julho em Petrogrado em Julho de 17, quando, a dire\u00e7\u00e3o bolchevique esteve seriamente amea\u00e7ada (L\u00eanin mergulhou, ent\u00e3o, na clandestinidade na Finl\u00e2ndia, e Trotsky, entre outros, \u00e9 preso, e os locais p\u00fablicos dos bolcheviques s\u00e3o fechados, enquanto sua imprensa era proibida). Mas, como os relatos hist\u00f3ricos confirmam \u00e0 exaust\u00e3o, a fragilidade org\u00e2nica dos spartakistas, era incomparavelmente maior.<\/p>\n\n\n\n<p>A analogia que sugerimos, pretende real\u00e7ar que, na seq\u00fc\u00eancia de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de \u201ctipo fevereiro\u201d, uma met\u00e1fora hist\u00f3rica que remete \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o que derrubou o Czar em 1917, como foi o 9 de novembro na Alemanha, \u00e9 comum que ocorram situa\u00e7\u00f5es de intensa agudiza\u00e7\u00e3o na luta de classes. Nessas circunst\u00e2ncias, acontecem testes de for\u00e7a entre as classes em conflito. Setores mais radicalizados entre os trabalhadores e a juventude, se lan\u00e7am a um confronto aberto, invariavelmente prematuro, sem considerar que, no conjunto da classe trabalhadora, e ou, no conjunto do pa\u00eds, existam condi\u00e7\u00f5es efetivas para lutar pelo poder. Ou para preservar o poder se, eventualmente, vitoriosos em um primeiro momento. Foi isso que ocorreu, tamb\u00e9m em Berlim, nos primeiros dias de Janeiro de 1919. <\/p>\n\n\n\n<p>Este epis\u00f3dio confirma que a contra-revolu\u00e7\u00e3o aprende as li\u00e7\u00f5es dos processos revolucion\u00e1rios precedentes: a liquida\u00e7\u00e3o f\u00edsica de Rosa era vital para neutralizar o crescimento da influ\u00eancia dos comunistas, que se beneficiavam diretamente do impressionante prest\u00edgio da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro entre os trabalhadores. As pesquisas feitas por Jogiches, nos poucos meses que o separaram da sua morte, igualmente tr\u00e1gica, indicam que a decis\u00e3o pol\u00edtica de eliminar a qualquer custo Luxemburgo, j\u00e1 tinha sido tomada, mesmo antes da manifesta\u00e7\u00e3o de 5 de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O que justifica que se pergunte as raz\u00f5es pelas quais, ela e Liebknecht, n\u00e3o tenham sido retirados mais cedo do cen\u00e1rio conflagrado de Berlim. A resposta mais plaus\u00edvel \u00e9 que inexistiam condi\u00e7\u00f5es organizativas de emerg\u00eancia para fazer o translado. Esse fato, cujas conseq\u00fc\u00eancias pol\u00edticas para o futuro da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 se demonstraram irrepar\u00e1veis (o que remete a uma interessante reflex\u00e3o sobre o papel do indiv\u00edduo na Hist\u00f3ria), pelo peso qualitativo e \u00fanico da personalidade de Rosa na dire\u00e7\u00e3o dos Spartakistas, fala por si s\u00f3, da import\u00e2ncia do debate estrat\u00e9gico sobre as rela\u00e7\u00f5es entre movimento e partido, a\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o, aos quais Rosa se entregou de corpo e alma, incondicionalmente, em um raro exemplo de coer\u00eancia entre teoria e pr\u00e1tica, durante toda sua vida. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A difama\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem uma hist\u00f3ria <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A trag\u00e9dia de sua morte f\u00edsica resume os dilemas de sua her\u00f3ica vida pol\u00edtica: na primeira crise revolucion\u00e1ria de sua vida, em Vars\u00f3via, onde chegou clandestina para viver os \u00faltimos meses da vaga de 1905, foi presa, e solta depois do pagamento de um expressivo resgate-fian\u00e7a; na segunda, foi morta. <\/p>\n\n\n\n<p>Os seus detratores tiveram origem nas mais diferentes tend\u00eancias do pensamento social e pol\u00edtico. Todos os m\u00e9todos de difama\u00e7\u00e3o e cal\u00fania foram usados para diminu\u00ed-la. N\u00e3o surpreende que as classes dominantes, seja na Alemanha ou na Pol\u00f4nia, n\u00e3o tenham o menor interesse em divulgar perante as novas gera\u00e7\u00f5es o seu lugar na Hist\u00f3ria, ou a import\u00e2ncia dos seus trabalhos. Mas os falsificadores do lugar e obra de Rosa vieram, tamb\u00e9m, e sobretudo, das tend\u00eancias da esquerda que, por muitas d\u00e9cadas, detiveram a maior influ\u00eancia entre os trabalhadores e a juventude: a social democracia e o stalinismo. <\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros, em especial os social-democratas de esquerda, se dedicaram a converter Rosa em uma inimiga precoce da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, quase como uma ap\u00f3stola de um socialismo democr\u00e1tico e libert\u00e1rio, em irredut\u00edvel oposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, ao socialismo tir\u00e2nico e ditatorial de um L\u00eanin \u201cb\u00e1rbaro\u201d e \u201casi\u00e1tico\u201d. Esta fic\u00e7\u00e3o deitou ra\u00edzes profundas. \u00c9 certo que Rosa manteve duras pol\u00eamicas com o bolchevismo durante anos, antes e depois de Outubro. Ali\u00e1s, da mesma forma que Trotsky, e muitos outros o fizeram, inclusive muitos membros da pr\u00f3pria fra\u00e7\u00e3o bolchevique, como Bukharin, Zinoviev e Kamenev. A esquerda internacionalista pode ter tido outros defeitos, mas nunca foi monol\u00edtica. A unanimidade n\u00e3o era perseguida como virtude. Todos se enfrentaram, freq\u00fcentemente, com Lenin, sem que essas acesas querelas estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas tivessem envenenado as rela\u00e7\u00f5es, ou diminu\u00eddo o enorme respeito, que sempre foi mutuamente preservado. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma esquerda, em grande medida, minorit\u00e1ria em seus pa\u00edses, diversa em seu enfoque de interpreta\u00e7\u00e3o do marxismo, mas solid\u00e1ria, como veio a se demonstrar pelo reencontro hist\u00f3rico na funda\u00e7\u00e3o da Terceira. O que merece sempre ser destacado, como um exemplo de esfor\u00e7o de unifica\u00e7\u00e3o, pouco seguido, posteriormente. Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 certo que Rosa apresentou cr\u00edticas agudas a algumas decis\u00f5es dos bolcheviques, como a de dissolu\u00e7\u00e3o da Assembl\u00e9ia Constituinte. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas, talvez, t\u00e3o ou mais importante, seria destacar que, todas e cada uma dessas decis\u00f5es, resultaram de intensas pol\u00eamicas entre os pr\u00f3prios bolcheviques no poder. Muitas delas p\u00fablicas ou semi-p\u00fablicas. Os russos, antes da staliniza\u00e7\u00e3o, davam uma enorme import\u00e2ncia \u00e0s opini\u00f5es dos marxistas de outros pa\u00edses. Por isso, submeteram \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o dos delegados aos Quatro Primeiros Congressos da Terceira Internacional, delicadas resolu\u00e7\u00f5es, de car\u00e1ter deliberativo, sobre a pol\u00edtica do Estado Sovi\u00e9tico. Tamb\u00e9m, nessa dimens\u00e3o, a perda de Rosa foi devastadora. Ela resumia uma autoridade que, por sua vez, faltava \u00e0 maioria dos jovens militante que se viram \u00e0 frente dos rec\u00e9m formados partidos comunistas. A seguir um extrato de Isabel Loureiro sobre o tema: <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEvitemos cair nas armadilhas social-democr\u00e1ticas e liberais que acaba\u00adram por transform\u00e1-la em uma autora anti-bolchevique, e at\u00e9 mesmo n\u00e3o marxista. Ali\u00e1s, uma vertente interpretativa que fcz fortuna no ocidente aponta quase exclusivarnente o vi\u00e9s &#8220;democr\u00e1tico&#8221;, vendo a\u00ed a sua contribui\u00e7\u00e3o ao legado marxista. Esse aspecto salientado, et pour cause, pela social-democracia, n\u00e3o pode fazer-nos perder de vista que Rosa assim como os bolcheviques, seguiu sempre, sem vacilar, o mesmo fio condutor: a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Mas nem por isso se pode considera-la urna ponta de lan\u00e7a do bolchevismo na Alemanha, como a direita e os comunistas sempre afirmaram. S\u00e3o bem conhecidas as suas cr\u00edticas a L\u00eanin e, na hora da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3, ao defender incisivamente os conselhos corno \u00f3rg\u00e3os do novo poder prolet\u00e1rio, nem por isso passou a ser favor\u00e1vel \u00e0 liberdade &#8220;dos que pensam da mesma maneira&#8221;. Os comentadores n\u00e3o comunis\u00adtas s\u00e3o un\u00e2nimes ao reconhecer que Luxemburgo, por sua independ\u00eancia e firmeza diante dos bolcheviques, teria sido a \u00fanica lideran\u00e7a na Alemanha capaz de opor-se ao atrelamento do KPD a Moscou.&#8221;. (grifo nosso) (LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, S\u00e3o Paulo, Editora da Unesp, 1995, p.16).<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa acabou sendo, portanto, uma das personalidades mais controvertidas da hist\u00f3ria do movimento socialista. Em 1923, Ruth Fischer e Arkady Maslow, dirigentes do partido comunista alem\u00e3o, simp\u00e1ticos \u00e0 campanha da \u201cbolcheviza\u00e7\u00e3o\u201d impulsionada por Zinoviev, nos tempos da Troika, iniciaram a campanha contra os desvios, ent\u00e3o \u201cdireitistas\u201d de Luxemburgo, acusada como heran\u00e7a \u201csifil\u00edtica\u201d do movimento. Seus \u201cerros\u201d foram ent\u00e3o severamente analisados, \u201cdescobrindo-se\u201d, finalmente (abracadabra!), que eram quase id\u00eanticos aos de Trotsky. Do esdr\u00faxulo am\u00e1lgama, resultou um exorcismo do suposto \u201cespontane\u00edsmo\u201d que, por sua vez, teria ra\u00edzes no economicismo \u201ccatastrofista\u201d de interpreta\u00e7\u00e3o da \u201ccrise final\u201d do capitalismo, contida em sua obra A Acumula\u00e7\u00e3o do Capital. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201ccatastrofismo economicista\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este tema do economicismo na obra de Luxemburgo foi sempre muito controverso. A quest\u00e3o te\u00f3rica, como \u00e9 \u00f3bvio, \u00e9 decisiva, no seu sentido mais grave: o marxismo n\u00e3o \u00e9 fatalismo, mas m\u00e1ximo ativismo. Em que medida operam as tend\u00eancias estritamente econ\u00f4micas \u00e0 crise do capitalismo, como um dos fatores decisivos do atual per\u00edodo hist\u00f3rico? Mandel sintetiza, nos termos que poder\u00e3o ser conferidos a seguir, os limites metodol\u00f3gicos da cr\u00edtica que, de t\u00e3o freq\u00fcente, se tornou quase um \u201clugar comum\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEs en este contexto que los seguidores de Marx han intenta\u00addo formular de modo mas rigoroso el probable destino dcl capitalismo. Rosa Luxemburg fue la primera en tratar de elaborar sobre uma base estrictamente cient\u00edfica una teor\u00eda del inevitable derrumbe dcl modo capitalista dc producci\u00f3n. En su libro La acumulaci\u00f3n del capital intent\u00f3 demonstrar que la reproducci\u00f3n ampliada. con plena realizaci\u00f3n del plusvalor producido durante el proceso de producci\u00f3n propiamente dicho, era imposible en el capitalismo &#8216;puro&#8217;. Ese modo de producci\u00f3n, por lo tanto, ten\u00eda una tendencia inherente a expandirse en un medio no capitalista, es decir, a devorar grandes \u00e1reas de peque\u00f1a producci\u00f3n de mercanc\u00edas que a\u00fan sobreviven den\u00adtro de la metr\u00f3poli capitalista y a expandirse continuamente hacia la periferia no capitalista es decir los paises coloniales y semicoloniaIes. Esa expansion -incluyendo sus formas m\u00e1s radicales, el colonialismo y las destructivas guerras coloniales de la epoca contempor\u00e1nea; el imperialismo y las guerras imperialistas era indispensable para la supervivencia del siste\u00adma(&#8230;) Pero Luxcm\u00adbourg dejaba claro que, mucho antes dc ese momento final las simples consecuencias de esas formas de expansi\u00f3n cada vez mas violentas, as\u00ed como las consequencias del gradual encogi\u00admiento del medio no capitalista, agudizar\u00edan las contradicciones internas del sistema hasta tal punto de explosi\u00f3n, preparan\u00addo as\u00ed su derrocamiento revolucionario.\u201d (MANDEL, Ernest, El Capital, Cien A\u00f1os de Controv\u00e9rsias en torno a la obra de Karl Marx, M\u00e9xico, SigloXXI, 1985, p.233\/4)[iii].<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 luz da hist\u00f3ria da segunda metade do s\u00e9culo XX, um intervalo expressivo para permitir a avalia\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias de longo prazo, n\u00e3o parece razo\u00e1vel alimentar a expectativa de que o desmoronamento do capitalismo possa ocorrer por \u201cmorte natural\u201d. Fatores como o atraso da entrada em cena dos trabalhadores em pa\u00edses chaves, e o correspondente atraso na constru\u00e7\u00e3o de novas dire\u00e7\u00f5es independentes, deveriam ganhar uma nova dimens\u00e3o. Seriam essas conclus\u00f5es incompat\u00edveis com um quadro de an\u00e1lise como o feito por Rosa Luxemburgo? Vejamos, de novo, o argumento de Mandel: <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAlgunos cr\u00edticos han sostenido que, al basar la perspectiva del inevitable derrumbe del modo capitalista de producci\u00f3n exclusivamente en las leyes de movimiento del sistema, Luxemburg retroced\u00eda hac\u00eda el &#8216;economicismo\u2019; que eso era una regresi\u00f3n del modo como los propios Marx y Engels y sus primeros disc\u00edpulos integraban siempre los movimientos y leyes econ\u00f3micos con la lucha de clases, a fin de llegar a proyecciones y perspecti\u00advas hist\u00f3ricas generales. Sin embargo esa objeci\u00f3n es injustificada. Si bien es cierto que la historia contempor\u00e1nea del capitalismo, y en realidad la historia de cualquier modo de producci\u00f3n en cualquier \u00e9poca, no se puede explicar satisfactoriamente sin tratar la lucha de clases (y especialmente su desenlace despu\u00e9s de ciertas batallas decisivas) como factor parcialmente aut\u00f3nomo, tambi\u00e9n es cierto que toda la significaci\u00f3n del marxismo desaparece si esa autonomia parcial se transforma en autonomia absoluta. Es justamente el m\u00e9rito de Rosa Luxernburg, as\u00ed como de sus varios antagonistas subsiguientes en la &#8216;pol\u00e9mica del derrumbe&#8221;, el haber relacionado los altibajos de la lucha de clases con las leyes internas de mov\u00edmiento del sistema. Si supusi\u00e9ramos que o bien la infinita adaptabilidad del sistena capitalista, o la astucia pol\u00edtica de la burguesia, o la incapacidad del proletariado de elevar su conciencia a nivel suficiente (por no hablar de la supuesta creciente &#8220;integraci\u00f3n&#8221; de la clase trabajadora a la sociedad burguesa), pueden, a largo plazo y por tiempo indefinido, neutralizar o invertir las leyes internas del movimiento y las contradicciones intr\u00ednsecas del sistema, es decir, impedirles afirmarse, entonces la \u00fanica conclusi\u00f3n cientificamente correcta seria que esas leyes(&#8230;) no corresponden a la esencia del sistema: en otras palabras que Marx estaba b\u00e1sicamente equivocado al pensar que hab\u00eda descubierto esa esencia\u201d(grifo nosso) (MANDEL, Ernest, El Capital, Cien A\u00f1os de Controv\u00e9rsias en torno a la obra de Karl Marx, M\u00e9xico, SigloXXI, 1985, p.233\/4).<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise \u00e9 irretoc\u00e1vel. Sem negar a atualidade das conclus\u00f5es sobre o movimento de rota\u00e7\u00e3o do Capital, reveladas por Marx, seria necess\u00e1rio acrescentar que a esfera de autonomia crescente da pol\u00edtica, na defini\u00e7\u00e3o dos desenlaces da luta de classes, tem permitido o adiamento de novas crises catastr\u00f3ficas, como a de 1929. N\u00e3o foi outro o lugar das pol\u00edticas keynesianas anti-c\u00edclicas do p\u00f3s-guerra e dos pactos sociais nos pa\u00edses centrais. O que n\u00e3o anula, strictu sensu, a defesa metodol\u00f3gica que Mandel faz de Rosa, mas recoloca o problema de forma mais complexa, para al\u00e9m de uma resposta bin\u00e1ria, como, \u201cou ela estava essencialmente certa, ou essencialmente errada\u201d. Porque s\u00f3 conseguiram adiar a crise, aumentando a intensidade dos fatores de crise. Um novo \u201c29\u201d, portanto, \u00e9 mais do que poss\u00edvel, \u00e9 em uma perspectiva hist\u00f3rica, a hip\u00f3tese mais prov\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o final: espontane\u00edsmo e trotskismo \u201cavant la lettre\u201d Os impressionantes ziguezagues dos dez anos seguintes levaram a uma mudan\u00e7a do foco da cr\u00edtica. Em 1925, depois de mais um giro imposto pelas necessidades da diplomacia de Estado na URSS, aos quais os jovens PC\u2019s estavam disciplinadamente comprometidos, Fischer e Maslow foram expulsos. Os ataques a Rosa, ent\u00e3o, inverteram o seu signo. Inventaram, na seq\u00fc\u00eancia, que seus desvios, afinal, n\u00e3o teriam sido direitistas, mas ultra-esquerdistas. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse n\u00e3o seria o \u00faltimo cap\u00edtulo da novela. Mais uma espetacular reviravolta ainda estava por se dar. Durante o chamado \u201cTerceiro Per\u00edodo\u201d, que se estendeu entre 1928 e 1935, o PCA se recusou a fazer qualquer gesto de aproxima\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o com o SPD, para resistir ao perigo da chegada ao poder de Hitler. Sob a alega\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita de que os socialistas seriam sociais-fascistas, isto \u00e9, socialistas em palavras, mas quinta coluna do fascismo nos atos (ali\u00e1s, a mesma espantosa teoria ressuscitada pelo mao\u00edsmo nos anos 70, s\u00f3 que a prop\u00f3sito da URSS, e dos partidos pr\u00f3-moscovitas), Rosa Luxemburgo foi acusada novamente de direitista. <\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, em 1931, o pr\u00f3prio Stalin, j\u00e1 sem intermedi\u00e1rios, se uniu \u00e0 campanha de difama\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em um famoso artigo, \u201cProblemas da Hist\u00f3ria do Bolchevismo\u201d, em que reescrevia a hist\u00f3ria de acordo \u00e0s suas conveni\u00eancias, e no qual decretou, contrariando as mais incontroversas evid\u00eancias, que Rosa seria respons\u00e1vel pelo imprescrit\u00edvel \u201cpecado te\u00f3rico\u201d da revolu\u00e7\u00e3o permanente. N\u00e3o satisfeito com essa ligeireza, acusou Trotsky de ter plagiado Luxemburgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse mesmo artigo, mais aberrante ainda, proclamou que Rosa s\u00f3 teria come\u00e7ado a pol\u00eamica com o centrismo de Kautsky em 1910. E s\u00f3 depois que L\u00eanin a tivesse convencido. Mas o artigo de Stalin, n\u00e3o obstante a grotesca falsifica\u00e7\u00e3o, definiu, irremediavelmente, a posi\u00e7\u00e3o oficial dos partidos comunistas de todo o mundo por v\u00e1rias d\u00e9cadas. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender a raz\u00e3o de toda essa hostilidade. Assassinada no auge de sua maturidade pol\u00edtica, personalidade de grande influ\u00eancia nos c\u00edrculos revolucion\u00e1rios europeus, m\u00e1rtir da causa do socialismo no pa\u00eds mais decisivo da Europa, Rosa deixou uma obra de indiscut\u00edvel valor te\u00f3rico e liter\u00e1rio, em que cada p\u00e1gina est\u00e1 temperada de ardor e determina\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. <\/p>\n\n\n\n<p>Seu incondicional internacionalismo, seu apaixonado apelo \u00e0 a\u00e7\u00e3o, sua confian\u00e7a no protagonismo do proletariado, seu apego irredut\u00edvel aos mais altos valores da \u00e9tica militante, seu compromisso inalien\u00e1vel com a verdade e a honestidade, sua preocupa\u00e7\u00e3o com o sentido pol\u00edtico e a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da luta pela liberdade, enfim, a permanente busca de coer\u00eancia entre suas id\u00e9ias e sua vida, unidade entre teoria e pr\u00e1tica, eram incompat\u00edveis tanto com o pensamento e a pr\u00e1tica das castas burocr\u00e1ticas no poder na ex-URSS e na Europa Oriental, quanto com a vis\u00e3o do mundo das burocracias sindicais e pol\u00edticas social-democratas confortavelmente adaptadas, de corpo e alma, \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da ordem capitalista. <\/p>\n\n\n\n<p>Viveu no in\u00edcio da \u00e9poca do imperialismo e, rapidamente, compreendeu o papel nefasto do novo militarismo, e a crescente import\u00e2ncia dos gastos com armas como mecanismo de regula\u00e7\u00e3o do sistema. Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, na hora crucial do Agosto de 1914, quando a precipita\u00e7\u00e3o da Primeira Guerra Mundial colocou a hora da verdade para todos os partidos marxistas europeus, dirigiu ao lado de Liebknechet, o pequeno grupo de militantes do SPD que se negaram a apoiar os planos belicistas do seu pr\u00f3prio governo imperialista. O invent\u00e1rio de suas posi\u00e7\u00f5es, e esta breve exposi\u00e7\u00e3o de sua trajet\u00f3ria s\u00e3o, portanto, impressionantes.<\/p>\n\n\n\n<p>[i] ARENDT, Hannah, Introduction in Rosa Luxemburgo, NETTL, J.P., New York, Shocken Books, 1969.<\/p>\n\n\n\n<p>[ii] LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, S\u00e3o Paulo, Editora da Unesp, 1995.<\/p>\n\n\n\n<p>[iii] MANDEL, Ernest, El Capital, Cien A\u00f1os de Controv\u00e9rsias en torno a la obra de Karl Marx, M\u00e9xico, SigloXXI, 1985.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valerio Arcary \u00e9 historiador, professor titular aposentado do IFSP e militante do PSOL. Foi h\u00e1 cem anos. J\u00e1 se disse que o sil\u00eancio \u00e9 a maior das repres\u00e1lias. O anivers\u00e1rio deve ocorrer sem maior repercuss\u00e3o. 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