{"id":2422,"date":"2013-11-12T00:00:00","date_gmt":"2013-11-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2013\/11\/12\/ditaduras-nao-podem-ser-tratadas-como-assunto-do-passado-na-america-latina-diz-autora\/"},"modified":"2013-11-12T00:00:00","modified_gmt":"2013-11-12T00:00:00","slug":"ditaduras-nao-podem-ser-tratadas-como-assunto-do-passado-na-america-latina-diz-autora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/ditaduras-nao-podem-ser-tratadas-como-assunto-do-passado-na-america-latina-diz-autora\/","title":{"rendered":"Ditaduras n\u00e3o podem ser tratadas como assunto do passado na Am\u00e9rica Latina, diz autora"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\t<em>Para Pilar Calveiro, Brasil pode seguir Argentina e julgar militares ap\u00f3s Comiss\u00e3o da Verdade<\/em><br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAs ditaduras militares vivenciadas na Am\u00e9rica Latina foram express\u00f5es do poder estatal, e n\u00e3o \u2018acidentes\u2019 de percurso ou desvio de rotas. Essa \u00e9 a defesa feita pela pesquisadora argentina Pilar Calveiro, autora de \u201cPoder e desaparecimento\u201d, rec\u00e9m lan\u00e7ado no Brasil pela editora Boitempo. Em entrevista ao portal Opera Mundi, Pilar, que foi sequestrada e ficou presa durante um ano e meio pela ditadura argentina, ressalta que \u00e9 \u2018perigoso\u2019 tratar o regime ditatorial como \u201cassunto do passado\u201d, pois se \u201cesses fatos continuam impunes, \u00e9 uma permiss\u00e3o para que eles continuem acontecendo\u201d.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA sua an\u00e1lise sociol\u00f3gica das ditaduras avan\u00e7am ao ponto de, por exemplo, tra\u00e7ar um paralelo direto entre as motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que levaram \u00e0 pr\u00e1tica dos campos de concentra\u00e7\u00e3o na Argentina e o pres\u00eddio de Guant\u00e1namo, criado pelos Estados Unidos. &nbsp;\u201cAs grandes redes de poder, p\u00fablicas ou privadas, recorrem \u00e0 desapari\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Essa pr\u00e1tica, de \u2018pris\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o\u2019, presente em diversos lugares, \u00e9 administrada e praticada pela CIA e por outras grandes corpora\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA autora tamb\u00e9m comenta o papel da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, e n\u00e3o v\u00ea a lei da anistia como impeditivo para julgamentos de repressores no Brasil. Ela lembra que, na Argentina, primeiro foi feita uma comiss\u00e3o, que interpretou e documentou os fatos, que depois foram levados \u00e0 Justi\u00e7a. Pilar reconhece e identifica, nas mais cru\u00e9is pr\u00e1ticas da ditadura, a express\u00e3o de um projeto pol\u00edtico e de poder, e n\u00e3o apenas resultado de um desvio de conduta de um grupo que chegou ao poder. Leia a entrevista abaixo:<\/p>\n<p>\t<strong>Opera Mundi: Em \u201cPoder e desaparecimento\u201d, \u00e9 constru\u00edda a ideia de que as ditaduras militares e as suas pr\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o \u201cfatos isolados\u201d ou \u201cacidentes da hist\u00f3ria\u201d. No caso da Argentina, cita que o sequestro de militantes j\u00e1 ocorria antes da ditadura (1976-1983). Como foi o processo que levou a forma\u00e7\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o e o sequestro de pessoas?<\/strong><br \/>\n\tPilar Calveiro: Acredito que o elemento comum entre o Brasil e a Argentina, e com a maior parte dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, foi o uso da pr\u00e1tica da desapari\u00e7\u00e3o for\u00e7ada para reprimir a dissid\u00eancia, isto aconteceu em praticamente todos os pa\u00edses da nossa regi\u00e3o, ou pelo menos na maior parte deles. Se h\u00e1 antecedentes na sociedade argentina, eles se deram em uma l\u00f3gica diferente da realizada pela ditadura. H\u00e1 casos de desaparecimentos for\u00e7ados antes de 1966. Existe, por um lado, a exist\u00eancia de grupos paramilitares, como \u00e9 o caso principalmente da \u201ctr\u00edple A\u201d (Alian\u00e7a Argentina Antincomunista), um organismo privado, com a prote\u00e7\u00e3o de parte do estado, o minist\u00e9rio do Bem Estar Social, que sequestrava e assassinava pessoas, mas, na maioria dos casos, os cad\u00e1veres apareciam. Tamb\u00e9m ocorreram casos de desapari\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, com interven\u00e7\u00e3o militar na prov\u00edncia de Tuculm\u00e1n, em 1975. H\u00e1 estes antecedentes, mas o que n\u00e3o h\u00e1 \u00e9 este enorme aparato de desaparecimento que tem cobertura nacional, feito dentro do pr\u00f3prio aparato do Estado e seguindo a estrutura das institui\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>\t<strong>OM: Voc\u00ea acredita que \u00e9 importante que a sociedade discuta esse per\u00edodo? Alguns argumentam que as ditaduras s\u00e3o fatos do passado, que n\u00e3o deveriam ser revirados. Como voc\u00ea v\u00ea essa discuss\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tPC: Isso n\u00e3o \u00e9 um assunto do passado, ou seja, apesar dessas coisas terem ocorrido no passado, se esses acontecimentos permanecem impunes, significa uma permiss\u00e3o para que continuem ocorrendo. O julgamento dos crimes contra a humanidade n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o do passado, tem rela\u00e7\u00e3o com o estado atual da nossa democracia, necessita ser visto como uma quest\u00e3o do presente, do que estamos dispostos a aceitar ou n\u00e3o.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>OM: Na Argentina, houve o julgamento dos crimes cometidos durante a ditadura. No Brasil, est\u00e1 em curso \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade, que estuda este per\u00edodo, mas n\u00e3o vai realizar nenhum julgamento. Qual a diferen\u00e7a na forma como os dois pa\u00edses tratam o seu passado? Quais s\u00e3o os efeitos sobre a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dessas sociedades?<\/strong><br \/>\n\tPC: Na Argentina, assim como no Brasil, as comiss\u00f5es tiveram um papel semelhante: estabelecer qual \u00e9 a verdade, investigar e identificar os fatos ocorridos. Posteriormente, pode haver, a partir disso, algum processo que, mesmo n\u00e3o fazendo parte da comiss\u00e3o da verdade, tome conta de discutir a pertin\u00eancia dos ju\u00edzos. No Brasil, aconteceu um processo de anistia, mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos grupos que consideram que esse processo n\u00e3o foi legal e deveria ser questionado. Ent\u00e3o, o que aconteceu na Argentina, foi que posteriori as investiga\u00e7\u00f5es, se deu a decis\u00e3o pol\u00edtica de submeter a ju\u00edzo aquelas pessoas que estavam envolvidas em delitos contra a humanidade. Houve uma reorganiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil, e n\u00e3o somente organiza\u00e7\u00f5es de familiares, dos sobreviventes, mas tamb\u00e9m de outros tipos de grupos ligados a mem\u00f3rias. Tudo isso fez com fosse mantida a discuss\u00e3o e a demanda por justi\u00e7a, a qual se incorpora ao sistema pol\u00edtico e logo se chega aos julgamentos que est\u00e3o atualmente abertos.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>OM: Em seu livro, \u00e9 muito forte a ideia da \u201cretirada da subjetividade\u201d e da \u201cquebra psicol\u00f3gica\u201d dos presos. Por que isso acontecia e qual o peso disso?<\/strong><br \/>\n\tPC: Tem um enorme peso porque todo o \u201csistema concentracion\u00e1rio\u2019\u2019, como aconteceu na Argentina, tem a ver com esse desconstru\u00e7\u00e3o da pessoa e da sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito. A primeira coisa \u00e9 retirar a sua condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima de sujeito de direito, logo depois, em lugar de um nome, que \u00e9 um elemento b\u00e1sico da identidade, ele ser\u00e1 chamado por um n\u00famero, ap\u00f3s isso, com um capuz cobrindo o rosto, o sequestrado passa a ser uma pessoa sem nome e nem rosto. Se pro\u00edbe tamb\u00e9m o contato entre prisioneiros e o direito de se comunicarem uns com os outros, por meio disso \u00e9 retirado o direito a palavra, que \u00e9 um dos signos mais claros da humanidade. Dessa maneira se retira a dignidade, pois com essa pessoa se pode fazer qualquer coisa, at\u00e9 que finalmente lhes tiram a vida. \u00c9 um ambiente no qual se vai o expropriando os rastros de humanidade da pessoa, isso \u00e9 parte do objetivo do campo de concentra\u00e7\u00e3o que \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do sujeito, antes da sua destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica e o desaparecimento dos seus corpos.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>OM: Voc\u00ea faz algumas compara\u00e7\u00f5es entre os campos da Argentina e da Alemanha, o controle sobre a vida, a remo\u00e7\u00e3o da subjetividade. No que eles eram semelhantes e no que eram diferentes?<\/strong><br \/>\n\tPC: Eu tomo as semelhan\u00e7as do caso argentino com o dos alem\u00e3es &#8211; de onde retiro o conceito de campo de concentra\u00e7\u00e3o &#8211; porque s\u00e3o um conjunto: uma constela\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os, em diferentes partes do territ\u00f3rio, administrados pelo Estado, que funcionam como lugares de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio de prisioneiros. Neles se pode realizar qualquer coisa, ou seja, se utiliza pr\u00e1ticas ilegais e funcionam como lugares de exce\u00e7\u00e3o, em que n\u00e3o h\u00e1 direitos, pois as pessoas perdem sua condi\u00e7\u00e3o de sujeito. Essas s\u00e3o algumas caracter\u00edsticas principais que conectam essas institui\u00e7\u00f5es tanto na Argentina como na Alemanha.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tH\u00e1 tamb\u00e9m as diferen\u00e7as importantes com o modelo do nazismo, com o sistema de alojamento e a pr\u00e1tica de trabalho for\u00e7ado, que extenuava e muitas vezes levava o prisioneiro \u00e0 morte. No caso argentino isso n\u00e3o ocorreu, o que existiu foi a separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, ao vendar os olhos, o rosto e impedir a comunica\u00e7\u00e3o verbal e, em lugar de trabalho, a imobilidade mais absoluta. S\u00e3o formas diferentes, mas, ainda sim, meios de anular o sujeito, a sua dignidade, sua individualidade e sua for\u00e7a f\u00edsica. O isolamento, a imobilidade e a obstru\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o pontos que o modelo argentino mant\u00eam em comum com sistemas de pris\u00e3o contempor\u00e2neos como o caso Guant\u00e1namo.<\/p>\n<p>\t<strong>OM: Ao citar essas semelhan\u00e7as, entre Guant\u00e1namo e as pr\u00e1ticas da ditadura argentina, voc\u00ea acredita que os princ\u00edpios por tr\u00e1s do poder de desaparecer com pessoas ainda est\u00e3o vigentes?<\/strong><br \/>\n\tPC: Os Estados Unidos e as grandes redes de poder global p\u00fablicas e privadas, o que significa falar do uso de aparatos estatais e de grandes corpora\u00e7\u00f5es, recorrem a &nbsp;desapari\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, portanto, esse \u00e9 um princ\u00edpio que tem se mantido. Tamb\u00e9m est\u00e1 vigente algo que podemos denominar como \u201cmodelo concentracional\u201d, que rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 com Guant\u00e1namo, mas com todos esses grandes lugares de pris\u00f5es clandestinas, operados principalmente pela CIA, mas tamb\u00e9m por aparatos de intelig\u00eancia de estados europeus. Eles funcionam em diferentes lugares do mundo e s\u00e3o espa\u00e7os de sequestro, com a reten\u00e7\u00e3o clandestina de pessoas, pois est\u00e3o fora de toda prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, muitas vezes nem se pode saber seus nomes e acesso \u00e0 advogados, Em Guant\u00e1namo, faz pouco tempo se come\u00e7ou a pensar no acesso a advogados, mas, por muito tempo, nem sequer se soube quem estava l\u00e1. Estas institui\u00e7\u00f5es t\u00eam vincula\u00e7\u00e3o com o desaparecimento for\u00e7ado e tamb\u00e9m com uma atualiza\u00e7\u00e3o do poder concentracion\u00e1rio, que continua sendo um problema importante na sociedade atual.<\/p>\n<p>\t<strong>OM: Alguns militares usavam como justificativa a m\u00e1xima de que apenas \u201ccumpriam ordens\u201d. Voc\u00ea pode explicar o pensamento por tr\u00e1s dessa ideia e tamb\u00e9m porque a fragmenta\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es dentro do campo de concentra\u00e7\u00e3o eram consideradas t\u00e3o importantes? As pessoas envolvidas no processo, na verdade, n\u00e3o deveriam ser consideradas &#8220;respons\u00e1veis&#8221; ou &#8220;culpados&#8221;?<\/strong><br \/>\n\tPC: Eu acredito que esse processo de fragmenta\u00e7\u00e3o das responsabilidades, que aconteceram no sistema repressivo argentino, \u00e9 algo que \u00e9 caracter\u00edstico de todos os modelos burocr\u00e1ticos onde h\u00e1 uma forte divis\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es dentro dos aparatos do Estado, cada parte cumpre uma fun\u00e7\u00e3o. Assim ningu\u00e9m se sente respons\u00e1vel pela totalidade dos acontecimentos, a n\u00e3o ser as \u201ccabe\u00e7as\u201d, que s\u00e3o aqueles que d\u00e3o as ordens. Creio que isso ajuda a diluir a responsabilidade, apesar dela nunca desaparecer ao todo. Ajuda com que cada uma das pessoas que compuseram esse aparato, se sinta parcialmente respons\u00e1vel, mas ningu\u00e9m se sinta totalmente respons\u00e1vel. Outro dispositivo utilizado era fazer com que todos os membros da for\u00e7a de seguran\u00e7a participasse de alguma maneira, isso tamb\u00e9m foi uma forma de fazer com que todos fossem parte e nesse sentido \u00e9 quase o mesmo que ningu\u00e9m fizesse parte, ou seja, distribuindo-a, pretende-se dilu\u00ed-la, mas a responsabilidade permanece.<\/div>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Pilar Calveiro, Brasil pode seguir Argentina e julgar militares ap\u00f3s Comiss\u00e3o da Verdade &nbsp; As ditaduras militares vivenciadas na Am\u00e9rica Latina foram express\u00f5es do poder estatal, e n\u00e3o \u2018acidentes\u2019 de percurso ou desvio de rotas. 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