{"id":26701,"date":"2019-10-11T10:34:29","date_gmt":"2019-10-11T13:34:29","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/?p=26701"},"modified":"2019-10-11T10:34:29","modified_gmt":"2019-10-11T13:34:29","slug":"israel-dutra-e-charles-rosa-uma-rebeliao-popular-contra-o-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/israel-dutra-e-charles-rosa-uma-rebeliao-popular-contra-o-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"Israel Dutra e Charles Rosa | Uma rebeli\u00e3o popular contra o neoliberalismo"},"content":{"rendered":"<p>No momento em que escrevemos este artigo os acontecimentos se precipitam.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s Lenin Moreno decretar o Estado de Exce\u00e7\u00e3o (04\/10), o mundo acompanha boquiaberto as mostras de hero\u00edsmo do povo equatoriano, num processo que vem sendo chamado \u201cRevoluci\u00f3n de los Z\u00e1nganos\u201d<sup>1 <\/sup>(\u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Zang\u00f5es\u201d). Vale recapitular o que j\u00e1 ocorreu no Equador nesta semana:<\/p>\n<ul>\n<li>Na segunda-feira, 7 de outubro, com medo das crescentes manifesta\u00e7\u00f5es, o governo de Len\u00edn Moreno transferiu a capital para Guayaquil. Em uma breve comunica\u00e7\u00e3o televisiva, ladeado pela c\u00fapula das For\u00e7as Armadas, o presidente equatoriano pediu \u201ccalma\u201d \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e acusou Nicol\u00e1s Maduro e Rafael Correa de estarem por tr\u00e1s de um \u201cgolpe de estado\u201d. Essa t\u00edpica cena de fal\u00eancia pol\u00edtica, n\u00edtido sintoma de fraqueza, denunciou a for\u00e7a da rebeli\u00e3o que est\u00e1 sendo fermentada nas ruas e barricadas no pa\u00eds andino.<\/li>\n<li>Na ter\u00e7a-feira, 08 de outubro, uma gigantesca marcha ind\u00edgena chegou a Quito e centenas de manifestantes ocuparam a sede da Assembleia Nacional por algumas horas. A resposta do governo foi decretar um toque de recolher em torno dos pr\u00e9dios p\u00fablico. \u00c0 noite, Len\u00edn Moreno, durante entrevista a uma TV local, sinalizou aceitar a media\u00e7\u00e3o da ONU e da Igreja Cat\u00f3lica, embora n\u00e3o cogite abrir m\u00e3o do \u201cpaquetazo\u201d que transbordou a revolta. A OEA e os governos conservadores do Grupo de Lima manifestaram apoio a Moreno.<\/li>\n<li>Na quarta-feira, 09 de outubro, uma greve geral em todo o pa\u00eds uniu diversos setores populares, com o protagonismo dos ind\u00edgenas<sup>2 <\/sup>organizados na Conferedaci\u00f3n de Nacionales Ind\u00edgenas del Ecuador (CONAIE). Informes caracterizam a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e0 beira da emerg\u00eancia alimentar, por conta dos bloqueios de estradas que impedem a circula\u00e7\u00e3o de alimentos e combust\u00edveis em diversas prov\u00edncias. Mais de 700 manifestantes j\u00e1 foram detidos e\/ou feridos e duas mortes por repress\u00e3o policial s\u00e3o confirmadas. Lideran\u00e7as do movimento denunciam a infiltra\u00e7\u00e3o de agentes estatais para gerar vandalismo e saques. \u00c0 noite, quando o movimento ind\u00edgena se retirava para descanso em Quito, a Pol\u00edcia Nacional atacou covardemente seus acampamentos. Oito agentes policiais foram retidos pelos ind\u00edgenas e s\u00f3 ser\u00e3o liberados com a liberta\u00e7\u00e3o de todos os manifestantes presos at\u00e9 agora.<\/li>\n<li>Na quinta-feira, 10 de outubro, o movimento ind\u00edgena realiza uma assembleia durante o funeral dos manifestantes mortos. A decis\u00e3o \u00e9 de radicalizar a greve geral, com a tomada de po\u00e7os e instala\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas no oriente equatoriano. A procuradoria-geral apresentou den\u00fancia de sedi\u00e7\u00e3o contra deputados ligados a Correa.<\/li>\n<li>As pr\u00f3ximas horas ser\u00e3o decisivas para o rumo do pa\u00eds. O dever da esquerda \u00e9 cercar de solidariedade internacional o processo com medidas pr\u00e1ticas e repercutir a luta pela sa\u00edda de Lenin, pelo fim da repress\u00e3o e pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos. Ou seja, \u00e9 nosso dever apoiar com afinco o triunfo desta alvissareira rebeli\u00e3o popular.<br \/>\n<h4><strong>Um pacote neoliberal sob medida do FMI<\/strong><\/h4>\n<p>O Equador voltou a viver um cen\u00e1rio que lhe era bastante comum nas d\u00e9cadas passadas. As ruas do pa\u00eds est\u00e3o marcadas por conflitos. O presidente Len\u00cdn Moreno decretou estado de Emerg\u00eancia por 60 dias, podendo ser renovados por mais 30 dias. O vulc\u00e3o do movimento de massas equatoriano, fiel \u00e0s caracter\u00edsticas naturais do pa\u00eds, volta \u00e0 tona, saindo do estado de hiberna\u00e7\u00e3o. \u00c9 tempo de revolta.<\/p>\n<p>Em 1 de outubro, Lenin Moreno anunciou um pacote de medidas impopulares, obedecendo uma exig\u00eancia do FMI para continuar emprestando dinheiro ao pa\u00eds. Desde fevereiro deste ano, o organismo financeiro mais odiado pelos povos sul-americanos voltou a ter ascend\u00eancia sobre o Estado equatoriano, ap\u00f3s o acerto de uma linha de cr\u00e9dito emergencial no valor de 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Hoje, a d\u00edvida externa p\u00fablica corresponde a 36% do PIB equatoriano. Em contrapartida, Lenin Moreno prometeu ao FMI cortar despesas e investimentos do governo, al\u00e9m de realizar reformas laborais e tribut\u00e1rias que intensifiquem a explora\u00e7\u00e3o do trabalho no Equador.<\/p>\n<p>A medida do \u201cpaquetazo\u201d mais recha\u00e7ada pela popula\u00e7\u00e3o foi o corte do subs\u00eddio estatal aos combust\u00edveis (uma cifra equivalente a 1,8% do PIB anual). Isso significa na pr\u00e1tica a liberaliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do gasolina e do diesel, ap\u00f3s 40 anos de aux\u00edlio p\u00fablico. Da noite para o dia, os equatorianos passaram a pagar 123% a mais pelos combust\u00edveis, gerando um efeito em cascata nos itens da cesta b\u00e1sica e nos servi\u00e7os de transportes. Evidentemente, esse neoliberalismo de choque envolve tamb\u00e9m a crise internacional dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo. O Equador anunciou que vai deixar a OPEP(Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo) a partir do ano que vem, a fim de ampliar a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo para 545 mil barris por dia.<\/p>\n<p>Outras pontos controversos do \u201causteric\u00eddio\u201d cometidos Lenin Moreno s\u00e3o: o corte salarial de at\u00e9 20% em contratos tempor\u00e1rios no setor p\u00fablico; a redu\u00e7\u00e3o de 30 para 15 dias nas f\u00e9rias dos empregados p\u00fablicos; aporte de um dia de sal\u00e1rio mensal dos empregados p\u00fablicos para o fisco. Ontem, em meio aos protestos, a Ag\u00eancia Nacional de Transportes elevou a tarifa urbana do transporte p\u00fablico em 40%.<\/p>\n<h4><strong>Um hist\u00f3rico de rebeli\u00f5es<\/strong><\/h4>\n<p>Len\u00edn Moreno parece ter ca\u00eddo na ilus\u00e3o neoliberal de que as revoltas e revolu\u00e7\u00f5es populares s\u00e3o assuntos restritos aos livros de hist\u00f3ria. Um erro fatal, ainda mais num pa\u00eds onde as rebeli\u00f5es populares explosivas s\u00e3o eventos t\u00e3o recorrentes quanto as trai\u00e7\u00f5es de seus l\u00edderes. Desde a independ\u00eancia no s\u00e9culo XIX, o Equador j\u00e1 contabilizou nada<\/p>\n<p>menos que 19 Constitui\u00e7\u00f5es e 38 processos de ruptura institucional. Mais recentemente, o que vem provocando a ira popular s\u00e3o as frequentes intromiss\u00f5es do FMI em sua economia.<\/p>\n<p>O drama das contas p\u00fablicas do Estado equatoriano remonta ao governo de Osvaldo Hurtado Larrea (1981-84), quando d\u00edvidas privadas foram assumidas pelo Tesouro Nacional. Duas d\u00e9cadas de sucessivos ajustes fiscais, orientados pelo FMI\/Banco Mundial, pioraram o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o e massificaram a pobreza no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como a luta de classes tarda, mas n\u00e3o falha, eclodiu um ciclo de rebeli\u00f5es em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas neoliberais. Em 1990, durante o governo social-democrata de Rodrigo Borja, a CONAIE liderou um levante ind\u00edgena que durou duas semanas e logrou alcan\u00e7ar o reconhecimento do Equador como estado plurinacional. Em fevereiro de 1997, seis meses ap\u00f3s sua posse, o corrupto presidente Abadal\u00e1 Bucaram Ortiz n\u00e3o resistiu \u00e0 f\u00faria popular e foi afastado pelo Parlamento por incapacidade mental. O presidente posterior, Jamil Mahuad, debilitou ainda mais a economia equatoriana, ao dolarizar a economia, al\u00e9m de ferir a soberania nacional com a entrega da base de Manta aos EUA. Em janeiro de 2000, novamente uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular, com os ind\u00edgenas na vanguarda, causaram a ren\u00fancia do presidente.<\/p>\n<p>De 2003 a 2005, governou o coronel Lucio Gutierrez. Eleito em 2002 com o prest\u00edgio de ter enfrentado a tentativa de golpe de Mahuad em 2000 e com a promessa de realizar um governo de di\u00e1logo com os movimentos sociais, Gutierrez \u00e9 outro not\u00f3rio traidor da hist\u00f3ria equatoriana. Desprezando os movimentos populares que possibilitaram sua vit\u00f3ria, Guti\u00e9rrez recolocou as oligarquias tradicionais no comando da vida pol\u00edtica nacional, alinhou-se aos ditames geopol\u00edticos de George Bush e assumiu a agenda econ\u00f4mica do FMI como programa de governo. Em 2005, um levante massivo em Quito empurrou as For\u00e7as Armadas e o Congresso a desfazerem esse lament\u00e1vel mal-entendido, cassando o mandato presidencial.<\/p>\n<p>Em 2006, foi a vez do economista Rafael Correa triunfar nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Expressando o ascenso das for\u00e7as populares constru\u00eddo durante a fase de grande instabilidade institucional e sincronizado com o auge do anti-imperialismo bolivariano, Correa assumiu o Pal\u00e1cio de Carondelet para um per\u00edodo que duraria 10 anos. Uma de suas primeiras medidas foi patrocinar uma auditoria cidad\u00e3 da d\u00edvida p\u00fablica externa, logrando renegociar em at\u00e9 70% do montante. O abatimento da d\u00edvida significou triplicar os investimentos sociais que reduziram em at\u00e9 40% a pobreza extrema no pa\u00eds. Apoiado nas massas e aliado a Ch\u00e1vez e Evo, o presidente Correa convocou tamb\u00e9m uma Constituinte com a qual foi poss\u00edvel aumentar a regulamenta\u00e7\u00e3o do Estado sobre a economia bem como introduzir conceitos revolucion\u00e1rios como \u201cdireitos da natureza\u201d na Carta Magna. Como nos descreve o companheiro Jorge Estrella em artigo recente:<\/p>\n<p>\u201cA Constituinte de Montecristi gerou uma d\u00e9cada de estabilidade, impedindo mediante MANDATO CONSTIUINTE toda forma de precariza\u00e7\u00e3o laboral; elaborou-se um mecanismo legal que permitiria a revoga\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o neoliberal e desenhou um<\/p>\n<p>Estado de bem-estar que consolidou seu acionar no controle do Estado sobre a economia, um forte sistema de controle da arrecada\u00e7\u00e3o, que permitiria garantir os gastos. Ao mesmo tempo, a reestrutura\u00e7\u00e3o da contrata\u00e7\u00e3o petroleira e o ingresso das regalias do setor permitiu que o 87% dos ingressos da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo fossem diretamente pro Estado e o 13% para as petroleiras. Eliminou-se o endividamento externo para financiar os gastos, e os ingressos das exporta\u00e7\u00f5es destinaram-se para as contas de investimento em infraestrutura em geral, mudando a cara do pa\u00eds com novas estradas, escolas modernas, hospitais, universidades e um programa agressivo para a denominada mudan\u00e7a da matriz produtiva, mediante o envio de milhares de jovens a estudar em centros cient\u00edficos do mundo inteiro.\u201d<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica heterodoxa de Correa colocou-o em choque com o receitu\u00e1rio do FMI. Em 2010, um motim de for\u00e7as policiais, financiado pela diplomacia estadunidense, tentou derrubar Correa, por\u00e9m o povo equatoriano saiu \u00e0s ruas para garantir a continuidade do projeto corre\u00edsta. Em 2012, o pedido de asilo diplom\u00e1tico de Assange na embaixada equatoriana em Londres \u00e9 concedido, contrariando a press\u00e3o norte-americana. Em 2013, Correa \u00e9 reeleito no primeiro turno com 57% dos votos, aproveitando-se de uma conjuntura econ\u00f4mica favor\u00e1vel com a qual p\u00f4de transformar o Equador no pa\u00eds sul-americano com a maior propor\u00e7\u00e3o de investimentos sociais em rela\u00e7\u00e3o ao PIB.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo se manifestou o esgotamento do bolivarianismo e do velho progressismo na regi\u00e3o, as contradi\u00e7\u00f5es da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3\u201d puderam ficar mais n\u00edtidas. No segundo mandato de Correa, os interesses das transnacionais passaram a ter maior ascend\u00eancia sobre o governo, aumentando o n\u00edvel de conflitividade com o movimento indigenista. A economia do pa\u00eds n\u00e3o resistiu \u00e0 crise econ\u00f4mica global e entrou em recess\u00e3o em 2016. Quando Correa instituiu um in\u00e9dito imposto sobre terras e heran\u00e7as em 2015, a rea\u00e7\u00e3o das elites foi tamanha que a leitura dos dirigentes da Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 passou a ser que o pa\u00eds necessitava de uma lideran\u00e7a mais centrista. Assim, em 2017, o conciliador Len\u00edn Moreno, apoiado por Correa, venceu o segundo turno presidencial por uma pequena diferen\u00e7a sobre o conservador Guillermo Lasso. Em poucos meses, Moreno passaria uma borracha nas rela\u00e7\u00f5es com seu antecessor e daria in\u00edcio ao caminho sem volta da guinada \u00e0 direita.<\/p>\n<h4><strong>Cen\u00e1rio atual: o giro \u00e0 direita de Moreno como parte do processo<\/strong><\/h4>\n<p>Pactuando cada vez mais com as elites e os setores conservadores da sociedade, Len\u00edn Moreno escolheu o corre\u00edsmo como o principal advers\u00e1rio de seu governo. As revela\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o da empreiteira Odebrecht foram utilizadas para perseguir judicialmente Correa (que precisou se exilar na B\u00e9lgica para n\u00e3o ser preso) e seus aliados. Em total desprezo ao caminho diplom\u00e1tico independente trilhado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3, Moreno reativou a coopera\u00e7\u00e3o militar com os EUA e retirou o Equador da UNASUR. Al\u00e9m disso, rebaixou o prest\u00edgio internacional do pa\u00eds conquistado por Correa e entregou vergonhosamente o fundador do Wikileaks,Julian Assange, ao governo brit\u00e2nico, num dos comportamentos mais lacaios j\u00e1 registrados na hist\u00f3ria latino-americana<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, Moreno fez retornar a ortodoxia neoliberal ao pa\u00eds, arrochando os investimentos p\u00fablicos, liberalizando o com\u00e9rcio, anistiando grandes sonegadores e desregulamentando os direitos trabalhistas. A pobreza deu um novo salto no pa\u00eds, atingindo 37% da popula\u00e7\u00e3o geral e 75% das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Em fevereiro de 2019, um empr\u00e9stimo de 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e9 anunciado pelo FMI e pelo Banco Mundial.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, a impopularidade de Moreno s\u00f3 p\u00f4de seguir uma trajet\u00f3ria de massifica\u00e7\u00e3o. Em abril deste ano, a oposi\u00e7\u00e3o denunciou um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o (caso dos INA Papers) que envolveria a fam\u00edlia de Moreno e uma companhia chinesa respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o de uma hidrel\u00e9trica no pa\u00eds na d\u00e9cada passada, malfeito que teria movimentado mais de 18 milh\u00f5es de d\u00f3lares em off-shores na Su\u00ed\u00e7a. At\u00e9 o final de setembro \u00faltimo, a aprova\u00e7\u00e3o popular deste governo n\u00e3o chegava a 20% e sua base parlamentar era bastante d\u00e9bil (Governo: 51 cadeiras; Oposi\u00e7\u00e3o: 86 cadeiras), ap\u00f3s o cisma com o corre\u00edsmo que liquidou o partido oficialista Alianza PA\u00cdS. Neste contexto de isolamento, Len\u00edn Moreno vendeu totalmente a alma ao FMI, ao empresariado e \u00e0 grande m\u00eddia (esta \u00faltima sedenta por vingan\u00e7a contra Correa que em 2012 aprovou uma Lei de Meios no pa\u00eds, procurando democratizar a informa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<h4><strong>O p\u00eandulo e Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A vit\u00f3ria de Bolsonaro no Brasil, h\u00e1 um ano, abriu muitas d\u00favidas no ativismo sobre qual din\u00e2mica ter\u00edamos no continente. Apesar de ser o \u00fanico presidente com vi\u00e9s protofascista, a agita\u00e7\u00e3o de uma frente do neoliberalismo duro se tornou recorrente. A reuni\u00e3o que a c\u00fapula da extrema-direita realizou em Foz do Igua\u00e7u ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Jair Bolsonaro buscava conectar pontes, sempre a servi\u00e7o de Trump. Pi\u00f1era no Chile e Macri na Argentina serviam de linha auxiliar para impor um novo ciclo duradouro de neoliberalismo, com uma depend\u00eancia direta de Trump.<\/p>\n<p>Naquele momento, apesar da inflex\u00e3o reacion\u00e1ria no Brasil, alertamos que os governos de car\u00e1ter neoliberal teriam muitas dificuldades em consolidar seus planos, sem impor derrotas de car\u00e1ter hist\u00f3rico em cada um dos pa\u00edses. A tentativa golpista de Guaid\u00f3, apoiada por Brasil e Col\u00f4mbia, foi derrotada no primeiro semestre. O cen\u00e1rio mudou desde ent\u00e3o. Trump foi alvejado por contradi\u00e7\u00f5es internas, Macri foi derrotado em toda linha, na vizinha argentina.<\/p>\n<p>O Peru entrou na din\u00e2mica de crises e conflitos. A tentativa da ala fujimorista de impor um golpe parlamentar foi enterrada pela combina\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o do presidente Vizacarra, apoiado pelo povo nas ruas. A ascens\u00e3o de novas for\u00e7as \u00e0 esquerda como a Frente Ampla chilena e Veronica no Peru, apontam uma din\u00e2mica de crescimento das ideias de uma nova esquerda, socialista e democr\u00e1tica. No Paraguai, Marito Abdo sobreviveu por pouco ao esc\u00e2ndalo do acordo secreto de Itaipu com o governo brasileiro. Na Col\u00f4mbia, Iv\u00e1n Duque viu sua popularidade despencar em 1 ano de governo e o ex-presidente Alvaro Uribe est\u00e1 na berlinda judicial por seu envolvimento corrupto com as mil\u00edcias paramilitares.<\/p>\n<p>O desenlace da crise equatoriana vai interferir em cheio na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as continental, com o protagonismo dos ind\u00edgenas e dos setores populares. Junto aos processos eleitorais de Uruguai e Bol\u00edvia, vamos ter uma s\u00e9rie de testes para onde vai din\u00e2mica geral. O certo \u00e9 que, dificilmente, teremos um novo ciclo est\u00e1vel de governos neoliberais como nos \u00b490.<\/p>\n<h4><strong>No Equador se joga parte do futuro<\/strong><\/h4>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Neste momento, acontecimentos decisivos marcam a rebeli\u00e3o em curso. Com Lenin Moreno em Guayaquil, acuado debaixo das barbas das oliguarquias mais parasit\u00e1rias do Equador e da grande m\u00eddia que passa desenhos animados durante as manifesta\u00e7\u00f5es, em todo pa\u00eds a greve geral \u00e9 um \u00eaxito. O governo, ainda sustentado pela c\u00fapula das For\u00e7as Armadas, cada vez mais desprestigiado, aponta a repress\u00e3o como \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Com o pa\u00eds paralisado, social e economicamente, a alian\u00e7a entre os trabalhadores e ind\u00edgenas atua sobre o povo todo. Com a conforma\u00e7\u00e3o da assembleia do povo, tomada de diversos governos locais, a rebeli\u00e3o entra numa fase crucial. A se manter o f\u00f4lego das mobiliza\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds, apesar da forte repress\u00e3o, o governo de Len\u00edn Moreno pode estar com as horas contadas.<\/p>\n<p>O papel da esquerda mundial \u00e9 apoiar com toda for\u00e7a a movida do povo equatoriano. Por iniciativa de deputados do PSOL, foi aprovada na Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e Defesa Nacional uma mo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio a Lenin Moreno. Atos est\u00e3o sendo chamados em frente aos consulados e embaixadas.<\/p>\n<p>Estamos com o povo do Equador, vanguarda para derrotar o autoritarismo e o neoliberalismo.<\/p>\n<p><sup>1 <\/sup>O termo \u201cz\u00e1ngano\u201d (em portugu\u00eas, \u201czang\u00e3o\u201d) \u00e9 uma alus\u00e3o a uma frase de Len\u00edn Moreno ( \u201c acabou a \u2018zanganer\u00eda\u2019\u201d) ante as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es contra as medidas anunciadas em 01 de outubro. O termo tem duas acep\u00e7\u00f5es: uma abelha sob mando de uma rainha ou uma pessoa que n\u00e3o gosta de trabalhar. Logo, as redes sociais emplacaram a #YoTambi\u00e9nSoyZ\u00e1ngano.<\/p>\n<p><sup>2 <\/sup>A popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do Equador representa 7% dos 17 000 000 de habitantes do pa\u00eds.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No momento em que escrevemos este artigo os acontecimentos se precipitam. Ap\u00f3s Lenin Moreno decretar o Estado de Exce\u00e7\u00e3o (04\/10), o mundo acompanha boquiaberto as mostras de hero\u00edsmo do povo equatoriano, num processo que vem sendo chamado \u201cRevoluci\u00f3n de los Z\u00e1nganos\u201d1 (\u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Zang\u00f5es\u201d). 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