{"id":33143,"date":"2014-02-26T00:00:00","date_gmt":"2014-02-26T18:09:35","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2014\/02\/26\/as-mulheres-na-luta-contra-o-extrativismo-na-america-latina\/"},"modified":"2014-02-26T00:00:00","modified_gmt":"2014-02-26T18:09:35","slug":"as-mulheres-na-luta-contra-o-extrativismo-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/as-mulheres-na-luta-contra-o-extrativismo-na-america-latina\/","title":{"rendered":"As mulheres na luta contra o extrativismo na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n\t<em><a href=\"http:\/\/www.lamarea.com\/2014\/02\/17\/ecuador-extractivismo-mujeres\/\">La Marea<\/a>, com tradu\u00e7\u00e3o de \u00cdtalo Piva<\/em><br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tDo norte ao sul, as veias latino-americanas seguem sangrando. Projetos mineiros&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.conflictosmineros.net\/contenidos\/18-internacional\/12097-ique-es-extractivismo\">extrativistas<\/a>, hidrocarb\u00f4nicos ou agroindustriais se multiplicam por todo o continente nas m\u00e3os de empresas multinacionais, com a crescente presen\u00e7a de companhias estatais nos \u00faltimos anos. Se existe algo em comum entre governos progressistas e neoliberais da regi\u00e3o, \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de um modelo neo-desenvolvimentista com base extrativista. E a outra cara desse processo de extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas em grande escala se firma na tomada de posse dos territ\u00f3rios e viola\u00e7\u00e3o de direitos das popula\u00e7\u00f5es afetadas.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tMesmo as mulheres tendo estado presentes na resist\u00eancia socioambiental contra os projetos extrativistas, suas lutas nem sempre s\u00e3o vis\u00edveis. Por\u00e9m, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a massiva presen\u00e7a feminina e seu papel de protagonismo na defesa do territ\u00f3rio t\u00eam atra\u00eddo visibilidade na medida em que o processo de remo\u00e7\u00f5es se aprofunda.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tSuas vozes, que partem da pluralidade de enfoques e posicionamentos, revelam o impacto que as atividades extrativas produzem nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e na vida das mulheres. Algumas se encaixam nos feminismos populares e comunit\u00e1rios, outras v\u00eam do eco do feminismo, e muitas n\u00e3o se identificam como feministas de forma expl\u00edcita. Por\u00e9m, todas elas, diante de sua diversidade, compartilham o horizonte de uma luta p\u00f3s extrativista, descolonizadora e antipatriarcal, e ganham poder com o marco das resist\u00eancias. Sua principal contribui\u00e7\u00e3o: trazer \u00e0 tona os estreitos v\u00ednculos entre extrativismo e o patriarcado.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Tratam-se de mulheres e garotas<\/strong><br \/>\n\tOs blocos petroleiros na Amaz\u00f4nia Equatoriana, a explora\u00e7\u00e3o mineira de Cajamarca no Peru ou a rota da soja na Argentina compartilham de uma realidade. Em todos esses lugares, afetados pelas atividades extrativistas, a massiva chegada de trabalhadores provocou um crescimento no mercado sexual. O \u00e1lcool, a viol\u00eancia, e o uso de mulheres e garotas para fins de explora\u00e7\u00e3o sexual se estabelecem no cotidiano dos povoados como express\u00e3o de uma forte viol\u00eancia machista. Uma pesquisa realizada no anivers\u00e1rio do Encontro Latino-Americano Mulher e Minera\u00e7\u00e3o, que aconteceu em outubro de 2011 em Bogot\u00e1, indica que \u201cexistem situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas que afetam diretamente as mulheres, tais como a servid\u00e3o, maus tratos, migra\u00e7\u00e3o para presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os sexuais (\u2026) e a estigmatiza\u00e7\u00e3o das mulheres que exercem a prostitui\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tPor outro lado, o modelo extrativista traz consigo a militariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios, e as mulheres enfrentam formas espec\u00edficas de viol\u00eancia por conta de seu g\u00eanero. Isso inclui, em muitas ocasi\u00f5es, agress\u00f5es f\u00edsicas e sexuais por parte das for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablicas e privadas.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tNessa perspectiva, tanto a terra como o corpo da mulher s\u00e3o concebidos como territ\u00f3rio sacrific\u00e1vel. A partir desse paralelo, os movimentos feministas contra os projetos extrativistas constru\u00edram uma nova imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de luta que coloca o corpo da mulher como o primeiro territ\u00f3rio a ser defendido \u2013 a recupera\u00e7\u00e3o do \u201cterrit\u00f3rio corporal\u201d como um primeiro passo indivis\u00edvel da defesa do territ\u00f3rio terrestre. Uma reinterpreta\u00e7\u00e3o na qual o conceito de soberania e autodetermina\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios se amplia e se vincula aos corpos das mulheres.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tForam as mulheres Xinkas, resistentes \u00e0 mineraria na montanha de Xalap\u00e1n (Guatemala) que, a partir do feminismo comunit\u00e1rio, constru\u00edram esse conceito. Afirmam que defender um territ\u00f3rio terrestre da explora\u00e7\u00e3o sem levar em conta os corpos femininos violentados \u00e9 uma incoer\u00eancia. \u201cA viol\u00eancia sexual \u00e9 inadmiss\u00edvel dentro deste territ\u00f3rio, porque, sen\u00e3o, para que o defendo?\u201d, questiona Lorena Cabnal, integrante da Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Ind\u00edgenas de Santa Mar\u00eda de Xalap\u00e1n.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>\u201cN\u00f3s, mulheres, somos uma economia em resist\u00eancia\u201d<\/strong><br \/>\n\tA penetra\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias extrativistas nos territ\u00f3rios remove e desarticula as economias locais. Rompe com as formas anteriores de reprodu\u00e7\u00e3o social da vida, que se reorientam em fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a central da empresa. Esse processo instala nas comunidades uma economia produtiva altamente masculinizada, acentuando a divis\u00e3o sexual do trabalho. O resto das economias hegem\u00f4nicas \u2013 a economia popular, de cuidados etc -, que at\u00e9 aquele momento haviam tido um certo peso nas rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, passam a ser secund\u00e1rias.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEm um contexto no qual os papeis tradicionais de g\u00eanero est\u00e3o profundamente institucionalizados e o sustento da vida \u00e9 subordinado \u00e0s din\u00e2micas de acumula\u00e7\u00e3o da atividade extrativista, os impactos socioambientais, como a contamina\u00e7\u00e3o de fontes de \u00e1gua ou o aumento das doen\u00e7as, incrementam a carga de trabalho dom\u00e9stico e de cuidados di\u00e1rios que as mulheres realizam.<br \/>\n\t\u201cH\u00e1 milhares de experi\u00eancias produtivas e econ\u00f4micas das mulheres que a partir de hoje reconhecemos e renomeamos como economias em resist\u00eancia.\u201d Por meio dessa ideia, adotada coletivamente no Encontro Regional de Feminismos e Mulheres Populares, celebrado no Equador em junho de 2013, as mulheres planejam outra forma de fazer economia. Uma economia baseada na gest\u00e3o dos bens comuns que garante a reprodu\u00e7\u00e3o cotidiana da vida. Tal e qual, a soci\u00f3loga e pesquisadora argentina Maristella Svampa assegura que a presen\u00e7a das mulheres nas lutas socioambientais tem impulsado uma nova linguagem de valoriza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios baseada na economia de cuidado. Por tr\u00e1s dessas lutas, portanto, emerge um novo paradigma, uma nova l\u00f3gica, uma nova racionalidade.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>O extrativismo e a reconfigura\u00e7\u00e3o do patriarcado<\/strong><br \/>\n\t\u201cA presen\u00e7a de homens de outro lugar, que ocupam as ruas, come\u00e7am a beber e assediar as mulheres, faz com que estas n\u00e3o podem nem sair pra tomar um caf\u00e9 porque s\u00e3o tratadas como putas\u201d, contam as mulheres em Cajamarca, uma das regi\u00f5es mais afetadas pelas atividades mineradoras no Peru.<br \/>\n\tEm um contexto de masculinizar\u00e3o acelerada do espa\u00e7o, o extrativismo rearticula as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e refor\u00e7a os estere\u00f3tipos da masculinidade hegem\u00f4nica. Nas \u00e1reas onde as ind\u00fastrias extrativistas se assentam, consolida-se o imagin\u00e1rio bin\u00e1rio baseado na figura do homem provedor, no qual o masculino se associa ao dom\u00ednio. Nesta recategoriza\u00e7\u00e3o dos esquemas patriarcais, o p\u00f3lo feminino se encontra na ideia da mulher dependente, objeto de controle e abuso sexual.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tDefinitivamente, tal como aponta um estudo publicado por Acsur-Las Segovias, as aspira\u00e7\u00f5es coletivas que giram em torno das atividades extrativas est\u00e3o fortemente influenciadas por padr\u00f5es masculinos, por imagin\u00e1rios masculinizados. Neste sentido, as experi\u00eancias feministas permitem que o extrativismo se coloque como uma etapa de atualiza\u00e7\u00e3o do patriarcado. A pesquisadora e ativista Mexicana Raquel Guti\u00e9rrez sustenta que \u201cextrativismo e patriarcado t\u00eam uma liga\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica. N\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa, mas n\u00e3o podem existir um sem o outro\u201d.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Protagonistas da resist\u00eancia<\/strong><br \/>\n\tQuando a empresa Yanacocha adquiriu o projeto de minera\u00e7\u00e3o Conga, em 2001, nunca imaginou que uma s\u00f3 mulher poria em risco suas aspira\u00e7\u00f5es. M\u00e1xima Acu\u00f1a enfrenta com firmeza um dos gigantes da minera\u00e7\u00e3o. Nega-se a entregar suas terras, situadas em frente \u00e0 Laguna Azul, na regi\u00e3o peruana de Cajamarca, a uma companhia que j\u00e1 foi denunciada v\u00e1rias vezes pela aquisi\u00e7\u00e3o irregular de terrenos privados. Desde o ano de 2011, M\u00e1xima e sua fam\u00edlia t\u00eam sido vitimas de tentativas violentas de despejo por parte de funcion\u00e1rios da mineradora e da pol\u00edcia estatal. Entre amea\u00e7as, intimida\u00e7\u00f5es e hostilidades, resiste a um processo judicial instaurado com irregularidades pela Yanacocha, com o intuito de usurpar terras.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEm junho de 2008, Gregoria Crisanta P\u00e9rez e outras sete mulheres da comunidade de Agel, em San Miguel Ixtahuac\u00e1n, na Guatemala, sabotaram o painel el\u00e9trico, interrompendo o abastecimento da mineradora Montana Exploradora, subsidi\u00e1ria da canadense Goldcorp Inc. Durante quatro anos, houve uma ordem de captura das mulheres por sabotagem do funcionamento da mina. Finalmente, em maio de 2012, os indiciamentos penais foram levantados e elas conseguiram recuperar parte das terras de Gregoria, que vinham sendo utilizadas irregularmente pela empresa.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAs mulheres do povoado de Sarayaku, na Amaz\u00f4nia Equatoriana, encabe\u00e7aram a resist\u00eancia contra a petroleira argentina Compa\u00f1ia General de Combustibles (CGC), e conseguiram expuls\u00e1-la de suas terras em 2004. O Estado equatoriano havia feito uma concess\u00e3o de 60% do territ\u00f3rio para a empresa, sem realizar nenhum processo informativo ou de consulta pr\u00e9via. Foram as mulheres, desde o princ\u00edpio, que tomaram a iniciativa. &nbsp;Quando o ex\u00e9rcito fez uma incurs\u00e3o em seu territ\u00f3rio, militarizando a \u00e1rea em favor da petroleira, elas roubaram seu armamento. O ex\u00e9rcito quis negociar a devolu\u00e7\u00e3o das armas de forma secreta. O vilarejo de Sarayaku, empurrado pelas mulheres, convocou toda a imprensa do Equador pra trazer o caso \u00e0 luz p\u00fablica. No ano de 2012, depois de uma d\u00e9cada de lit\u00edgios, a Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos declarou o Estado equatoriano respons\u00e1vel pela viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos do povo de Sarayaku.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEstes e outros casos ilustram o panorama anti-extrativista latino-americano no qual mulheres sobressaem como protagonistas da resist\u00eancia, incorporando novos mecanismos de luta e reivindicando &nbsp;seu pr\u00f3prio espa\u00e7o. Em seu comunicado, as mulheres amaz\u00f4nicas, que em outubro de 2013 caminharam por mais de 200 quil\u00f4metros contra a XI Ronda Petroleira em Equador, proclamaram: \u201cdefendemos o direito das mulheres de defender a vida, nosso territ\u00f3rios, e falar com nossa pr\u00f3pria voz\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a massiva presen\u00e7a de mulheres e seu papel de protagonismo na defesa do territ\u00f3rio t\u00eam atra\u00eddo visibilidade na medida em que o processo de remo\u00e7\u00f5es se aprofunda<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4766,6],"tags":[],"class_list":{"0":"post-33143","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-arquivo","7":"category-noticias"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.5 - 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