{"id":349,"date":"2008-12-30T00:00:00","date_gmt":"2008-12-30T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2008\/12\/30\/a-cinquenta-anos-da-revolucao-cubana\/"},"modified":"2008-12-30T00:00:00","modified_gmt":"2008-12-30T00:00:00","slug":"a-cinquenta-anos-da-revolucao-cubana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/a-cinquenta-anos-da-revolucao-cubana\/","title":{"rendered":"A cinq\u00fcenta anos da revolu\u00e7\u00e3o cubana"},"content":{"rendered":"<p>Quando iniciarmos o primeiro dia do novo ano se cumprir\u00e1 os cinq\u00fcenta anos da revolu\u00e7\u00e3o triunfante em Havana com a qual culminou a luta de 26 de julho encabe\u00e7ados pelo Fidel e o Che.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Os psolistas n\u00e3o podem duvidar em afirmar que a revolu\u00e7\u00e3o cubana foi o acontecimento mais importante acontecido em nossa &#8220;P\u00e1tria Grande&#8221; Latino-americana. Talvez possamos divergir sobre aprecia\u00e7\u00f5es de seu regime pol\u00edtico, da pol\u00edtica internacional seguida pelo Fidel em certos periodos. Mas o concreto \u00e9 que foi um movimento t\u00e3o poderoso e t\u00e3o genu\u00edno para que hoje Cuba seja o \u00fanico pa\u00eds do chamado \u201csocialismo real\u201d que existe e do qual n\u00e3o s\u00f3 podemos reivindicar sua hist\u00f3ria como tamb\u00e9m seu presente; Cuba mant\u00e9m suas conquistas sociales e seu orgulho de ser independente do imperialismo a menos de cem milhas de suas costas.<\/p>\n<p>Como forma de recordar essa revolu\u00e7\u00e3o e esse momento hist\u00f3rico transcrevemos um artigo do Olmedo Beluche do Movimento Popular Unificado do Panam\u00e1. Do mesmo quer\u00edamos destacar sua lembran\u00e7a da Celia Hart, falecida faz uns meses, que fora tamb\u00e9m amiga e simpatizante entusiasta do PSol, e que morreu afirmando uma id\u00e9ia que resgata Olmedo em seu artigo e muitos de n\u00f3s. Que o futuro da revolu\u00e7\u00e3o cubana se decidir\u00e1 principalmente no que ocorra na luta Latino-americana em curso; na continuidade e aprofundamento dos processos da Venezuela, Equador, Bol\u00edvia\u2026 dos quais nos sentimos parte.<\/p>\n<p>Pedro Fuentes<br \/>Secret\u00e1rio de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do PSOL<\/p>\n<div class=\"sticky\">\n<p><u><b>Cuba, cinquenta anos na primeira linha de combate<\/b><\/u><\/p>\n<p><i>Olmedo Beluche<\/i><\/p>\n<p><b>Em mem\u00f3ria de Celia Hart Santamar\u00eda<\/b><\/p>\n<p>Neste momento de j\u00fabilo, em que os revolucion\u00e1rios do mundo comemoramos cinq\u00fcenta anos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, me sinto triste pois nos faz falta uma de suas melhores combatentes e seu mais puro produto: C\u00e9lia Hart Santamar\u00eda. C\u00e9lia foi a liga\u00e7\u00e3o, por heran\u00e7a e vontade pr\u00f3pria, entre a gera\u00e7\u00e3o do Moncada e a que deve portar o legado revolucion\u00e1rio e socialista neste s\u00e9culo que come\u00e7a. Sendo talvez a melhor propagandista que j\u00e1 teve a revolu\u00e7\u00e3o, soube manter uma consci\u00eancia cr\u00edtica t\u00e3o necess\u00e1ria nesta conjuntura decisiva que atravessam Cuba e a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Ainda que o des\u00e2nimo me afete, a condi\u00e7\u00e3o humana me impede de escapar dos sentimentos, assumo a tarefa de dedicar estas linhas de reflex\u00e3o a um dos acontecimentos mais importantes da hist\u00f3ria mundial, na certeza de que Celia cumpriria esta tarefa muito melhor. Ela, certamente nos citaria Che: &#8220;Em qualquer lugar que nos surpreenda a morte, bem-vinda seja, sempre que esse nosso grito de guerra tenha chegado a um ouvido receptivo, e outra m\u00e3o se levante para empunhar nossas armas, e outros homens comecem a entoar cantos de luta com sons de metralhadora e novos gritos de guerra e de vit\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p><b>Uma grande revolu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Recentemente um amigo cubano, dos emigrados e cr\u00edticos, me dizia que no s\u00e9culo XX s\u00f3 houve tr\u00eas aut\u00eanticas revolu\u00e7\u00f5es: a russa, a chinesa e a cubana. Eu s\u00f3 agregaria a vietnamita e lhe daria toda a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 os que s\u00e3o cr\u00edticos ao regime cubano n\u00e3o podem deixar de admirar, seja em foro intimo ou privado, o peso hist\u00f3rico desempenhado por esta pequena ilha no cen\u00e1rio mundial durante este meio s\u00e9culo. Uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica contra uma ditadura agente do imperialismo ianque que foi se tornando socialista enquanto se radicaliza produto da agress\u00e3o estrangeira, onde as massas populares n\u00e3o deixaram de ser protagonistas nas ruas em nenhum momento. Um pequeno barco que, em que pesem todas as tormentas e apesar dos pesares, n\u00e3o naufragou em um mar onde outros navios afundaram.<\/p>\n<p>Um processo conduzido por Fidel Castro, com uma biografia j\u00e1 m\u00edtica, que come\u00e7a como dirigente estudantil, passando pelo Moncada e a pris\u00e3o, ao banimento e a Sierra Maestra, \u00e0 tomada do poder, sabendo mover-se entre os interesses das duas pot\u00eancias que regiam ao mundo para sair-se com a sua, at\u00e9 o momento presente quando contra todo progn\u00f3stico, manteve o socialismo enquanto R\u00fassia, Europa Oriental, China, inclusive o Vietn\u00e3, retrocederam ao capitalismo.<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o a 50 milhas do imp\u00e9rio norte-americano que atravessou todas as fases do modelo cl\u00e1ssico das revolu\u00e7\u00f5es, como dizia Nahuel Moreno: uma primeira fase (revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro) onde as massas insurrectas derrubam um regime ditatorial movidas por consignas democr\u00e1ticas (reforma agr\u00e1ria, democracia pol\u00edtica, soberania econ\u00f4mica); uma segunda fase ( Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro) a partir da Segunda Declara\u00e7\u00e3o de Havana em que se come\u00e7a conscientemente a constru\u00e7\u00e3o do socialismo como a \u00fanica forma de sustentar -se frente a agress\u00e3o estrangeira e poder realizar as demandas democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Com a diferen\u00e7a, em rela\u00e7\u00e3o a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, de que a condu\u00e7\u00e3o sempre esteve nas m\u00e3os de Fidel e do Movimento 26 de julho, ainda que tenha tido seus &#8220;mencheviques&#8221; e &#8220;eseristas&#8221; internos, que pularam do barco entre uma fase e outra.<\/p>\n<p>Inclusive, como todo processo revolucion\u00e1rio aut\u00eantico teve seu Termidor, ainda que breve, controlado e superado parcialmente, ao in\u00edcio dos anos 70, quando assassinaram Che na Bol\u00edvia, fracassando o intento de se criar &#8220;dois, tr\u00eas&#8230; muitos Vietnam&#8221;, e fracassada a safra de dez milh\u00f5es de toneladas, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana se viu obrigada a aceitar certos condicionamentos dos burocratas do Kremlin em troca da ajuda econ\u00f4mica necess\u00e1ria do Bloco Sovi\u00e9tico (o CAME).<\/p>\n<p>Quando o movimento 26 de Julho passa a ser o Partido Comunista de Cuba retornam certas figuras estalinistas, como Blas Roca, que haviam estado fora do processo revolucion\u00e1rio em 1958. O chamado &#8220;quinqu\u00eanio cinza&#8221; segundo a Uni\u00e3o dos Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) como nos recordara Celia em um de seus \u00faltimos artigos (&#8220;Cuba em marcha revolucion\u00e1ria&#8230; e sem Fidel&#8221;). Fase que o pr\u00f3prio Fidel corrigiu em grande medida em sua Retifica\u00e7\u00e3o de Erros e Tend\u00eancias Negativas, segundo nos recordou Celia tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><b>&#8230; que transcende a n\u00edvel mundial<\/b><\/p>\n<p>Mas o que d\u00e1 seu peso hist\u00f3rico \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cubana \u00e9 sua transcend\u00eancia internacional. Na Am\u00e9rica Latina faz 50 anos que vivemos sob o signo desta revolu\u00e7\u00e3o. Sua influ\u00eancia naquela gera\u00e7\u00e3o foi imediata. Ela possibilitou n\u00e3o s\u00f3 os intentos revolucion\u00e1rios dos anos sessenta, em que uma camada de jovens, do M\u00e9xico \u00e0 Argentina entregaram suas vidas inspirados em sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o recordar neste momento de quem, \u00e0 sua maneira, tamb\u00e9m foram seus filhos: Santucho, Miguel Henr\u00edquez, los hermanos Peredo, Camilo Torres, Floyd Britton, Carlos Fonseca, Cayetano Carpio, as guerrilhas do estado de Guerrero no M\u00e9xico, na Venezuela, Uruguai, El Salvador, em todo continente, tantos milhares! E \u00e0 sua maneira, ou de outra maneira: Salvador Allende.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana fez pensar e atuar milh\u00f5es. Tamb\u00e9m colocou o debate sobre a teoria e a praxis. Recordo as inflamadas pol\u00eamicas: maoismo x estalinismo; foquismo guerrilheiro x trabalho de massas; abstencionismo x participa\u00e7\u00e3o eleitoral; &#8220;via pac\u00edfica ao socialismo&#8221;x &#8220;revolu\u00e7\u00e3o socialista ou caricatura de revolu\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>No Panam\u00e1, no mesmo ano, um grupo de jovens inspirados pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana chegaram at\u00e9 Cerro Tute, em Santa F\u00e9 de Veraguas, sob a lideran\u00e7a de Polidoro Pinz\u00f3n. Cuba alimentou espiritualmente aos estudantes panamenhos que nessa d\u00e9cada escreveram a mais gloriosa p\u00e1gina de nossa hist\u00f3ria, sem a qual n\u00e3o seriamos o que somos neste pequeno istmo: a Gesta de 19 Janeiro de 1964 contra a presen\u00e7a do imperialismo ianque na Zona do Canal.<\/p>\n<p>Mas o processo cubano n\u00e3o limitou sua influ\u00eancia neste lado do continente, tamb\u00e9m chegou \u00e0 juventude norte-americana, a que se op\u00f4s a guerra do Vietn\u00e3, ao movimento estudantil universit\u00e1rio, a do paz e amor, ajudou a amadurecer o Movimento pelos Direitos Civis e a lideres como Malcom X, aos chamados Panteras Negras, cujos lideres mais conseq\u00fcentes seguem jogando um papel importante na po<br \/>\nl\u00edtica dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Cuba mudou a sociologia norte-americana, pondo fim ao predom\u00ednio da conservadora teoria estrutural funcionalista, dando origem a uma vertente marxista com Wright Mills encabe\u00e7ando a mesma.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que Cuba tamb\u00e9m esteve no cora\u00e7\u00e3o dos jovens europeus de Maio de 68. E deveria se verificar, n\u00e3o me corresponde faz\u00ea-lo, at\u00e9 que ponto p\u00f4de influenciar em processos revolucion\u00e1rios antiburocr\u00e1ticos como a Primavera de Praga. Ou quanta for\u00e7a moral deu aos vietnamitas para seguir resistindo e derrotar as bombas do imp\u00e9rio mais poderoso da hist\u00f3ria inspirados por aqueles caribenhos que os tinham como exemplo?<\/p>\n<p>Enfim, a hist\u00f3ria do mundo n\u00e3o se pode compreender sem tomar em conta o que foi realizado por esse grupo de jovens barbudos naquela pequena ilha h\u00e1 50 anos. Seus atos foram inspira\u00e7\u00e3o, ainda durante a pesada noite do neoliberalismo dos anos 90, quando perversamente se dizia que &#8220;o mundo havia mudado e o socialismo estava morto&#8221;, nos que resist\u00edamos a entregar as bandeiras olh\u00e1vamos para Cuba para provar que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p><b>O futuro de Cuba se joga hoje na Am\u00e9rica Latina<\/b><\/p>\n<p>Passado todo esse tempo, superados tantos obst\u00e1culos, depois de vencer tantas lutas, sustentar-se firmemente na primeira linha de combate diante de tantos sacrif\u00edcios, n\u00e3o garante que tudo j\u00e1 tenha sido superado e que o futuro de Cuba socialista j\u00e1 esteja escrito. Moderem seu otimismo os ing\u00eanuos. Cuba e sua revolu\u00e7\u00e3o atravessam neste momento uma hora decisiva, outra mais. Novos debates e problemas se apresentam na ilha.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Fidel advertiu, em 17 de novembro de 2005, e Celia nos recordou: &#8220;a revolu\u00e7\u00e3o cubana era poss\u00edvel de derrubar-se de dentro, por nossas pr\u00f3prias car\u00eancias. Era o in\u00edcio de uma nova batalha. Uns meses depois teve que deixar seu protagonismo, pois adoeceu gravemente. As perspectivas daquele discurso est\u00e3o ainda abertas e n\u00e3o creio que todos fa\u00e7am a mesma leitura.<\/p>\n<p>As simpatias que sentimos por Cuba, sua revolu\u00e7\u00e3o e seus l\u00edderes, n\u00e3o podem ser pretextos para negarmos as debilidades, dificuldades ou &#8220;car\u00eancias&#8221; do sistema cubano. Fazer o contr\u00e1rio \u00e0 maneira estalinista de pretender maquiar a realidade para pintar um falso quadro que estamos &#8220;\u00e0s portas da fase superior, do comunismo&#8221;seria n\u00e3o s\u00f3 um ato de irresponsabilidade, seria um ato contrarrevolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00f3s revolucion\u00e1rios, preferimos a sinceridade, como a daquele funcion\u00e1rio do PCC que n\u00e3o faz muito tempo me dizia &#8220;em Cuba nenhum dirigente ignora os problemas, o que acontece \u00e9 que nem sempre sabemos como resolv\u00ea-los&#8221;.<\/p>\n<p>Problemas que foram postos em evid\u00eancia este ano por tr\u00eas furac\u00f5es, um dos quais nos levou a Celia, mostrando as debilidades de sua economia em duas \u00e1reas chave: infra-estrutura de suas habita\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>A sociedade Cubana \u00e9 socialista por seus objetivos hist\u00f3ricos e n\u00e3o porque atingiu sua meta. Porque socialismo, no sentido pleno da palavra, ou seja, uma sociedade que garanta a todos os seres humanos a satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades biol\u00f3gicas e espirituais, s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel como um sistema mundial que reparta equitativa e racionalmente as riquezas, como j\u00e1 disse Leon Trotski.<\/p>\n<p>Enquanto o mundo estiver controlado pelo sistema capitalista, o imperialismo, ou seja, pela extra\u00e7\u00e3o de mais-valia da classe trabalhadora e uma divis\u00e3o da riqueza pela via do mercado, a desigualdade social e nacional seguir\u00e1 prevalecendo. Este determinante externo faz de Cuba e sua revolu\u00e7\u00e3o, no sentido estrito, uma sociedade de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, n\u00e3o uma sociedade socialista.<\/p>\n<p>Por isso, literalmente o futuro da revolu\u00e7\u00e3o Cubana se joga hoje, n\u00e3o s\u00f3 nas decis\u00f5es que se tomem em Havana, com as reformas empreendidas por Ra\u00fal Castro, mas nos processos revolucion\u00e1rios da Venezuela ou Bol\u00edvia, na ALBA ou o Mercosul.<\/p>\n<p><b>O debate sobre a economia cubana<\/b><\/p>\n<p>Como sociedade em transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, a economia cubana tem duas alas: uma socialista e uma mercantil. Cada uma das quais se expressa em duas moedas: o peso e o peso convert\u00edvel. Por uma o estado garante os m\u00ednimos servi\u00e7os e alimentos ao povo, por outra, em um mercado oficial ou subterr\u00e2neo muitas vezes, pela via mercantil os cidad\u00e3os adquirem (os que podem) os bens que n\u00e3o est\u00e3o entre os m\u00ednimos.<\/p>\n<p>A parte socialista da economia cubana garante ao cidad\u00e3o comum o m\u00ednimo para a vida o que mostra a grandeza e as possibilidades deste sistema, o que desejam os bilh\u00f5es que padecem de fome<\/p>\n<p>Em todo o mundo: uma alimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, subsidiada pelo estado, energia el\u00e9trica e \u00e1gua quase de gra\u00e7a, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e cultura. Isso se expressa na justeza do slogan: &#8221; Na Am\u00e9rica Latina h\u00e1 milh\u00f5es de crian\u00e7as de rua, nenhuma delas \u00e9 cubana&#8221;.<\/p>\n<p>Celia defendia \u00e0 morte a &#8220;cartilha\u201d ou &#8220;caderneta de racionamento&#8221;, como uma conquista, apesar de muitos v\u00ea-la com \u00f3dio. \u00c9 claro que numa sociedade de plena riqueza e completamente socialista n\u00e3o se justificaria uma caderneta de alimentos e servi\u00e7os m\u00ednimos. Mas como essa sociedade n\u00e3o existe, a caderneta garante aos cidad\u00e3os uma divis\u00e3o mais equitativa da riqueza social.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que a cartilha, com todas as suas limita\u00e7\u00f5es (n\u00e3o dura o m\u00eas inteiro), recorda ao povo que se vive em um pa\u00eds pobre e, al\u00e9m disso, violentado pelo bloqueio, mas \u00e9 sob a forma de uma &#8220;economia de guerra&#8221; que se assegura o bem-estar de todos, sem esquecer de nenhum. Em Cuba ningu\u00e9m mendiga nem morre de inani\u00e7\u00e3o. Quem dera que pudesse se falar o mesmo nos Estados Unidos e no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema colocado e que se debate intensamente em Cuba, e que foi o mesmo que se discutiu nos anos 20 na URSS, \u00e9 como encontrar o equil\u00edbrio entre ambas caras do sistema, como equilibrar a equa\u00e7\u00e3o, em um momento em que o socialismo mundial n\u00e3o chegou, nem se vislumbra a curto prazo (e, portanto, nem o fornecimento de bens para garantir abund\u00e2ncia para todos os cidad\u00e3os).<\/p>\n<p>O dilema \u00e9 que o estado n\u00e3o tem capacidade de garantir &#8220;a cada qual segundo a sua necessidade&#8221;, portanto h\u00e1 que permitir certo jogo da economia mercantil, consciente de que o mercado implica em disparidades sociais, a explora\u00e7\u00e3o de classes e se te descuidas, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista completa e a derrota da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso Celia Hart advertia no artigo que j\u00e1 citei: &#8220;A estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o Cubana n\u00e3o pode ser &#8220;enrique\u00e7am&#8221; como promulgou o Comit\u00ea Central do Partido Comunista da Rep\u00fablica Popular da China em um de seus congressos. Assim acabar\u00edamos com todo este empenho&#8221;. Agregava: &#8220;Mudar tudo o que precisa ser mudado em Cuba, para que n\u00e3o mude o que n\u00e3o pode ser mudado, para n\u00e3o ser morto&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, como sustentamos o processo revolucion\u00e1rio iniciado quase cinq\u00fcenta anos sem perder sua ess\u00eancia socialista? Volto \u00e0 Celia: &#8220;O aprofundamento socialista da revolu\u00e7\u00e3o, sem usar as armas do capitalismo, e um inabal\u00e1vel internacionalismo s\u00e3o o caminho. O futuro intermin\u00e1vel da revolu\u00e7\u00e3o mais linda est\u00e1 l\u00e1, sabendo por que fracassaram as demais&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Nesse acalorado debate que h\u00e1 em Cuba encontro coincid\u00eancias e matizes entre a posi\u00e7\u00e3o de Celia e o interessante setor que encabe\u00e7a Pedro Campos. Coincid\u00eancias em que h\u00e1 que dar a maior participa\u00e7\u00e3o e co-responsabilidade poss\u00edvel aos pr\u00f3prios trabalhadores como entes ativos da dire\u00e7\u00e3o e autogest\u00e3o nas empresas, que me parece ser a proposta central de Campos. Mas o eixo da pol\u00edtica econ\u00f4mica, na perspectiva de Celia, est\u00e1 na planifica\u00e7\u00e3o centralizada.<\/p>\n<p>Ela disse: &#8220;Se necessitamos incrementar por raz\u00f5es t\u00e1ticas o trabalho privado em Cuba, coisa que pode ser perfeitamente, isto deve ser acompanhado por um incremento mais pesado do &#8220;plano \u00fanico&#8221; que propuseram Trotski e Che.<\/p>\n<p>Cita a Che: &#8220;Se esquecer que a planifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira etapa da luta do homem por adquirir pleno dom\u00ednio sobre as coisas&#8230;de tirar do homem sua condi\u00e7\u00e3o de coisa econ\u00f4mica&#8221;. E cita Trotski sobre a NEP atrav\u00e9s de Isaac Deutscher: &#8220;&#8230; precisamente porque o pa\u00eds volt<br \/>\nava a viver uma economia de mercado, devia tratar de controlar o mercado e de preparar-se para exercer o controle&#8221;.<\/p>\n<p>Por outro lado, a tese que pretende que socialismo equivale a estatiza\u00e7\u00e3o total da economia n\u00e3o tem sentido, ao menos na fase de transi\u00e7\u00e3o. Nacionalizar ao barbeiro ou a manicure \u00e9 absurdo. A estatiza\u00e7\u00e3o da economia cem por cem foi uma medida tomada por Stalin para assegurar o controle pol\u00edtico da sociedade, e logo se converteu modelo.<\/p>\n<p>Na transi\u00e7\u00e3o ao socialismo \u00e9 inevit\u00e1vel a exist\u00eancia de um segmento mercantil ou privado da economia e , posto que existe, apesar da proibi\u00e7\u00e3o, \u00e9 melhor oficializ\u00e1-lo para poder control\u00e1-lo. Isso n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a planifica\u00e7\u00e3o central e a estatiza\u00e7\u00e3o da grande industria que \u00e9 o que propunha Marx.<\/p>\n<p>Ao final, d\u00e1 para ser otimista. A condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o povo cubana saber\u00e3o encontrar as melhores solu\u00e7\u00f5es para os problemas.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatos se apresentam como positivos: ao que parece a crise norte-americana levar\u00e1 ao novo governo de Obama a cumprir sua palavra de abrir di\u00e1logo com a ilha; al\u00e9m disso, os processos pol\u00edticos abertos na Am\u00e9rica Latina seguem fortes, apesar das sabotagens, e se fortalecer\u00e3o com a quase certa vit\u00f3ria do FMLN salvadorenho nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00f3s que crescemos sob o signo daquele grande acontecimento e para os panamenhos que tivemos a honra de escut\u00e1-la em 22 de agosto passado na Universidade do Panam\u00e1, coincidimos com Celia Hart em que : &#8220;O futuro da revolu\u00e7\u00e3o socialista de Cuba deve ser uma das preocupa\u00e7\u00f5es dos revolucion\u00e1rios de todo o mundo&#8230;&#8221;porque essa revolu\u00e7\u00e3o pertence a humanidade inteira.<\/p>\n<p>Panam\u00e1, 26 de dezembro de 2008 <\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando iniciarmos o primeiro dia do novo ano se cumprir\u00e1 os cinq\u00fcenta anos da revolu\u00e7\u00e3o triunfante em Havana com a qual culminou a luta de 26 de julho encabe\u00e7ados pelo Fidel e o Che.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4766],"tags":[],"class_list":{"0":"post-349","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-arquivo"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.5 - 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