{"id":382,"date":"2010-08-04T00:00:00","date_gmt":"2010-08-04T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2010\/08\/04\/explosao-no-golfo-do-mexico-chenorbyl-do-seculo-xxi\/"},"modified":"2010-08-04T00:00:00","modified_gmt":"2010-08-04T00:00:00","slug":"explosao-no-golfo-do-mexico-chenorbyl-do-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/explosao-no-golfo-do-mexico-chenorbyl-do-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Explos\u00e3o no Golfo do M\u00e9xico: Chenorbyl do s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Pedro Fuentes e Joana Sal\u00e9m Vasconcelos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No dia 26 de abril de 1986, um reator nuclear explodiu na cidade de Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, pa\u00eds sat\u00e9lite da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A explos\u00e3o emitiu 400 vezes mais radia\u00e7\u00e3o que a bomba at\u00f4mica lan\u00e7ada sobre Hiroshima. Foi o maior acidente nuclear da hist\u00f3ria mundial: vilas inteiras tiveram que ser soterradas, milhares de pessoas sofreram graves deforma\u00e7\u00f5es e doen\u00e7as, e ainda hoje os efeitos da radia\u00e7\u00e3o podem ser sentidos nas gera\u00e7\u00f5es seguintes. A inaptid\u00e3o do governo sovi\u00e9tico agravou o desastre\u2026 No ocaso de um regime burocr\u00e1tico, que n\u00e3o sustentava o pr\u00f3prio dogmatismo, esse desastre foi um alerta para que o mundo descobrisse formas alternativas de gera\u00e7\u00e3o de energia.<\/p>\n<p>Em 20 de abril de 2010 a explos\u00e3o da plataforma Deepwater Horizon, de propriedade da empresa Transocean, causou 11 mortes e um preju\u00edzo ambiental incalcul\u00e1vel no golfo do M\u00e9xico. Os moradores da costa j\u00e1 sentem o medo da exposi\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo. Hoje o vazamento atinge todos os 5 estados banhados pelas \u00e1guas do Golfo, somando cerca de 800 km dos litorais de Luisiana, Florida, Alabama, Mississipi e Texas. Dos 60 mil barris que vazam por dia no oceano, a BP declarou ter recolhido 25 mil barris di\u00e1rios. Os especialistas no ecossistema da regi\u00e3o declaram que o acidente vai afetar mais de 400 esp\u00e9cies marinhas e 110 tipos de aves. N\u00e3o se sabe at\u00e9 onde v\u00e3o os efeitos nocivos do contato humano com petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>As causas deste acidente n\u00e3o s\u00e3o acidentais. A desregulamenta\u00e7\u00e3o geral da economia, intensificada nas \u00faltimas d\u00e9cadas em todas as partes do mundo, produz uma explora\u00e7\u00e3o irracional dos recursos naturais. E a desregulamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um recurso do capitalismo contra sua pr\u00f3pria crise. Mas o veneno que alimenta a crise capitalista, nesse caso, n\u00e3o pode ser o rem\u00e9dio.<br \/>\n<strong>A desregulamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a alma do neg\u00f3cio<\/strong><\/p>\n<p>A Transocean, propriet\u00e1ria da plataforma em constru\u00e7\u00e3o, terceirizou sua explora\u00e7\u00e3o para a British Petroleum (BP), cujo contrato estipulava o pagamento de US$ 1 milh\u00e3o por dia at\u00e9 2013. Para reduzir custos, a BP quis apressar tudo que fosse poss\u00edvel. O jornal New York Times afirmou que a \u201cBP estava correndo muitos riscos e cortando caminhos na busca de crescimento e lucro\u201d e \u201cindependente do contexto de crise e de preju\u00edzos dos \u00faltimos anos, a BP foi cronicamente incapaz ou incompetente para aprender com seus pr\u00f3prios erros\u201d. O desastre n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0s suas dimens\u00f5es t\u00e9cnicas, pois esconde por tr\u00e1s interesses econ\u00f4micos, destrui\u00e7\u00e3o ambiental, explora\u00e7\u00e3o social e muita gan\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A onda de desregulamenta\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o mineral foi especialmente fortalecida em 2001, por meio da alian\u00e7a de George Bush com os mega-empres\u00e1rios do setor petrol\u00edfero. Mas n\u00e3o conseguindo a desregulamenta\u00e7\u00e3o completa dentro do pr\u00f3prio territ\u00f3rio, as grandes corpora\u00e7\u00f5es se articularam na consolida\u00e7\u00e3o de \u201cpara\u00edsos fiscais especializados\u201d.<\/p>\n<p>As medidas de desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor petrol\u00edfero s\u00e3o in\u00fameras. A mais antiga delas \u00e9 o Decreto de Limita\u00e7\u00e3o de Responsabilidade de 1851, que protege as empresas dos acidentes com embarca\u00e7\u00f5es, reduzindo drasticamente os valores de indeniza\u00e7\u00e3o. Por isso, as corpora\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo conseguem reivindicar a redu\u00e7\u00e3o de responsabilidades no caso de qualquer acidente nas plataformas. \u00c9 a opera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 realizando a BP.<\/p>\n<p>Os para\u00edsos fiscais constituem a maior fortaleza das grandes corpora\u00e7\u00f5es do petr\u00f3leo. As Ilhas Marshall, por exemplo, s\u00e3o constitu\u00eddas por um arquip\u00e9lago no Pac\u00edfico sujeito aos interesses corporativos dos estadunidenses. Em 2009, as Ilhas Marshall registraram expans\u00e3o no setor, com 221 plataformas de petr\u00f3leo novas. Isso significa quatro vezes mais que os EUA. A atra\u00e7\u00e3o est\u00e1 no fato de que l\u00e1 a legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais favor\u00e1vel ao empresariado. A aus\u00eancia de regula\u00e7\u00e3o consiste em 5 medidas b\u00e1sicas: a inexist\u00eancia total de impostos sobre a explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera; um sigilo comercial absolutamente in\u00e9dito; a isen\u00e7\u00e3o de qualquer taxa sobre produ\u00e7\u00e3o, transporte e com\u00e9rcio; a desobriga\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos direitos trabalhistas; e a desconsidera\u00e7\u00e3o de qualquer lei de prote\u00e7\u00e3o ambiental. \u00c9 a f\u00f3rmula ideal para astron\u00f4micos rendimentos capitalistas, e para incalcul\u00e1veis danos sociais, ambientais e humanos.<\/p>\n<p>S\u00f3 a BP possui 294 filiais em pa\u00edses com sigilo comercial. A fiscaliza\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o destas mega-estruturas \u00e9, tamb\u00e9m nos EUA, de responsabilidade da pr\u00f3pria empresa exploradora. Assim, os sistemas de seguran\u00e7a anti-explos\u00e3o, como o que falhou na plataforma Deepwater Horizon, s\u00e3o confiados aos empres\u00e1rios mais interessados na redu\u00e7\u00e3o inconseq\u00fcente dos custos.<br \/>\n<strong>Obama e a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica das multinacionais<\/strong><\/p>\n<p>A desregulamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o isenta de responsabilidade o governo Obama. At\u00e9 agora o governo paralisou e deixou a solu\u00e7\u00e3o do desastre nas m\u00e3os da iniciativa privada. Declara\u00e7\u00f5es e ultimatos sequer amenizam a trag\u00e9dia. Al\u00e9m disso, est\u00e1 comprovado que a Mineral Management Services (MMS), isentou a BP de respeitar as<\/p>\n<p>regulamenta\u00e7\u00f5es petroleiras de seguran\u00e7a. \u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil de imaginar o tamanho do esquema corrupto por tr\u00e1s desse tipo de concess\u00e3o. A incapacidade t\u00e9cnica da BP para conter o vazamento deveria ser punida com algo mais que a captura de seus t\u00edtulos pelo governo. Mas o governo assume uma postura ret\u00f3rica diante do seu Chernobyl. Diz e rediz, mas na realidade n\u00e3o t\u00eam a menor id\u00e9ia de como melhorar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que vemos \u00e9 o retrato da depend\u00eancia do governo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia privada. O governo dos EUA, assim como qualquer governo do mundo, n\u00e3o est\u00e1 nem perto de acessar os segredos produtivos das grandes corpora\u00e7\u00f5es mundiais. Essa \u00e9 uma cilada criada pelo pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico. Por isso resta \u00e0 Casa Branca lastimar e blasfemar. Se algu\u00e9m pode resolver o problema criado pela explos\u00e3o, ser\u00e3o as ind\u00fastrias de petr\u00f3leo, que det\u00eam patentes, capacita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e recursos espec\u00edficos que nenhum poder p\u00fablico possui.<\/p>\n<p>Por isso, antes que no Brasil construamos a nossa pr\u00f3pria trag\u00e9dia anunciada, \u00e9 preciso garantir que o povo controle e decida sobre a extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo do pr\u00e9 sal. Ou ent\u00e3o, num piscar de olhos, estaremos nas m\u00e3os de BP\u2019s ou corpora\u00e7\u00f5es equivalentes: gananciosas, predat\u00f3rias, destruidoras do meio ambiente, exploradoras de seus oper\u00e1rios, em busca da desregulamenta\u00e7\u00e3o total para garantir altos rendimentos.<\/p>\n<p><strong>Problema sanit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>O petr\u00f3leo que atinge dia a dia a costa do golfo est\u00e1 causando problemas de sa\u00fade aos moradores. O Dr Scott Barnhart, da Universidade de Washington em Seattle, alertou que os efeitos da exposi\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo podem se manifestar ap\u00f3s algum per\u00edodo. Diz que \u201co petr\u00f3leo cru contem uma mescla complexa de metais pesados e de hidrocarbonetos que podem ser cancer\u00edgenos\u201d. A BP afirmou que \u201cos trabalhadores que participam da limpeza do vazamento n\u00e3o correm riscos de sa\u00fade\u201d. Gina Solomon, cientista do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais desmentiu esta afirma\u00e7\u00e3o: \u201ca BP n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o que seus pr\u00f3prios dados mostraram n\u00edveis de hidrocarbonetos superiores ao \u2018n\u00edvel de a\u00e7\u00e3o\u2019 da pr\u00f3pria multinacional assim como n\u00edveis de beceno e de 2-butoxietanol superiores ao limite de exposi\u00e7\u00e3o recomendado pelo Instituto Nacional de Seguran\u00e7a e Sa\u00fade no Trabalho\u201d. Al\u00e9m de problemas f\u00edsicos, estudos realizados ap\u00f3s outros epis\u00f3dios de vazamento de responsabilidade da Exxon mostram que houve aumento significativo de transtornos mentais na popula\u00e7\u00e3o afetada pela subst\u00e2ncia. A recupera\u00e7\u00e3o do ecossistema pode levar centenas de anos, e a sa\u00fade da populac\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada.<\/p>\n<p><strong>Plataformas que viram sucata<\/strong><\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse sua responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental, a BP possui 600 plataformas abandonadas que se converteram em uma sucata oce\u00e2nica. S\u00f3 no golfo do M\u00e9xico existem 27 mil po\u00e7os de petr\u00f3leo e g\u00e1s abandonados. As corpora\u00e7\u00f5es secam o petr\u00f3leo e abandonam suas carca\u00e7as como se o ambiente fosse reabsorv\u00ea-las.<\/p>\n<p><strong>Li\u00e7\u00f5es para Dilma e Serra: por que o pr\u00e9 sal deve ser do povo.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO pr\u00e9 sal, se for submetido \u00e0 explora\u00e7\u00e3o privada, estar\u00e1 sujeito a este tipo de desastre decorrente da gan\u00e2ncia. At\u00e9 agora, os preju\u00edzos com a trag\u00e9dia j\u00e1 passam de US$ 3 bilh\u00f5es, sem contar as indeniza\u00e7\u00f5es. A plataforma que explodiu realizava explora\u00e7\u00f5es em at\u00e9 500 metros de profundidade. A explora\u00e7\u00e3o no pr\u00e9 sal ocorrer\u00e1 a mais de 5 mil metros de profundidade, ou seja, 10 vezes mais press\u00e3o atmosf\u00e9rica. Isso quer dizer que um acidente desta mesma propor\u00e7\u00e3o na explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9 sal, que \u00e9 ainda mais perto da costa, implicaria em conseq\u00fc\u00eancias extremas para nossos pa\u00eds. Se deixarmos que a iniciativa privada controle essa atividade, mesmo que seja em parceria com o governo, estaremos sujeitos a uma gana para redu\u00e7\u00e3o de custos da explora\u00e7\u00e3o que pode acarretar em acidentes.<\/p>\n<p>Imaginemos a cratera da linha amarela do metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo em 2007, de responsabilidade do governo, da Camargo Correa e Odebrecht, convertida num desastre natural sem precedentes no fundo do oceano. \u00c9 o mesmo tipo de rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Totalmente prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo deve respeitar o interesse p\u00fablico, do contr\u00e1rio veremos nossos recursos naturais mais uma vez evaporarem por tr\u00e1s da atividade das multinacionais. A \u00fanica forma de explorar esse recurso com seguran\u00e7a \u00e9 se o governo constituir uma Comiss\u00e3o de Cientistas e T\u00e9cnicos para estudar todos os detalhes do pr\u00e9 sal. Al\u00e9m disso, precisamos estudar formas alternativas de gera\u00e7\u00e3o de energia limpa em nosso pa\u00eds, como a energia e\u00f3lica, que pode ser vi\u00e1vel em algumas regi\u00f5es. Se dependermos do petr\u00f3leo, corremos o risco de depender tamb\u00e9m de determinadas tecnologias detidas somente pelas corpora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podemos deixar um recurso natural t\u00e3o crucial para o desenvolvimento do pa\u00eds \u00e0 deriva das rentabilidades privadas, como fizemos com a Vale do Rio Doce. Por isso, ap\u00f3s os estudos das possibilidades de explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9 sal realizadas pela Comiss\u00e3o de Cientistas e T\u00e9cnicos, \u00e9 preciso realizar um Plebiscito Popular sobre quem dever\u00e1 explorar o pr\u00e9 sal e deter o controle sobre sua riqueza: as multinacionais ou o povo brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Fuentes e Joana Sal\u00e9m Vasconcelos No dia 26 de abril de 1986, um reator nuclear explodiu na cidade de Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, pa\u00eds sat\u00e9lite da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A explos\u00e3o emitiu 400 vezes mais radia\u00e7\u00e3o que a bomba at\u00f4mica lan\u00e7ada sobre Hiroshima. 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