{"id":399,"date":"2011-03-28T00:00:00","date_gmt":"2011-03-28T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2011\/03\/28\/o-futuro-da-libia-e-das-revoltas-arabes-diante-da-ingerencia-imperialista\/"},"modified":"2011-03-28T00:00:00","modified_gmt":"2011-03-28T00:00:00","slug":"o-futuro-da-libia-e-das-revoltas-arabes-diante-da-ingerencia-imperialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/o-futuro-da-libia-e-das-revoltas-arabes-diante-da-ingerencia-imperialista\/","title":{"rendered":"O futuro da L\u00edbia e das revoltas \u00e1rabes diante da inger\u00eancia imperialista"},"content":{"rendered":"<p><a rel=\"attachment wp-att-7191\" href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2011\/03\/28\/o-futuro-da-libia-e-das-revoltas-arabes-diante-da-ingerencia-imperialista\/protestos_na_libia\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-7191\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2011\/03\/Protestos_na_L\u00edbia-300x224.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"224\" \/><\/a><br \/>\n<strong>*Por Juliano Medeiros e Luiz Arnaldo Campos* <\/strong><br \/>\nO mundo tem acompanhado nas \u00faltimas semanas, maravilhado e estarrecido, as rebeli\u00f5es que tomam conta do mundo \u00e1rabe e o desmoronamento de regimes tidos como exemplo pelas pot\u00eancias ocidentais. Governos como os de Tun\u00edsia e Egito n\u00e3o s\u00f3 eram considerados vitrines da excelente rela\u00e7\u00e3o do ocidente com o mundo \u00e1rabe, como tamb\u00e9m serviam de entreposto para o controle pol\u00edtico e militar do imperialismo sobre a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A queda destes regimes autorit\u00e1rios e as crises envolvendo outros pa\u00edses como L\u00edbia, Ar\u00e1bia Saudita e Bahrein, combinadas com o surgimento de novas organiza\u00e7\u00f5es populares, o fracasso da pol\u00edtica de submiss\u00e3o aos ditames do capital internacional e o desejo de liberdade dos povos daquela regi\u00e3o, tem colocado em alerta o imperialismo. Essa mistura explosiva que j\u00e1 havia alimentado centenas de greves no Egito nos \u00faltimos dois anos, mesmo sob a persegui\u00e7\u00e3o do governo de Hosni Mubarak, tem se alastrado por outros pa\u00edses, amea\u00e7ando o sens\u00edvel equil\u00edbrio dos interesses das elites nativas e da burguesia internacional.<\/p>\n<p>Os altos n\u00edveis de desemprego, a falta de liberdade pol\u00edtica, a corrup\u00e7\u00e3o e as violentas medidas contra as oposi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das diferen\u00e7as religiosas em cada pa\u00eds, tem alimentado um descontentamento que agora explode em forma de revolta. De repente, o imperialismo colhe as tempestades que plantou, deixando cair por terra a m\u00e1scara democr\u00e1tica que encobria a viol\u00eancia utilizada contra os povos daquela parte do mundo.<\/p>\n<p>O componente religioso em segundo plano<\/p>\n<p>Em carta endere\u00e7ada a Engels, onde discute a natureza das sociedades asi\u00e1ticas, Marx questiona: \u201cPor que a hist\u00f3ria do Oriente sempre aparece como hist\u00f3ria das religi\u00f5es?\u201d Levando em conta os \u00faltimos acontecimentos no mundo \u00e1rabe e as interpreta\u00e7\u00f5es difundidas no Ocidente por \u201cespecialistas\u201d de toda sorte, nunca esta pergunta esteve t\u00e3o atual. Isto porque, ao contr\u00e1rio do que muitos afirmavam, o componente religioso ocupa um papel absolutamente secund\u00e1rio nas revoltas que tem varrido o norte da \u00c1frica e o Oriente M\u00e9dio (com exce\u00e7\u00e3o do Bahrein), questionando os mitos difundidos pela intelligentsia ocidental, segundo a qual a separa\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e religi\u00e3o seria impens\u00e1vel no mundo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Em artigo publicado recentemente, Robert Fisk, o badalado correspondente do jornal brit\u00e2nico The Independent, aborda corretamente a quest\u00e3o, afirmando:<\/p>\n<p>\u201cMubarak alegou que os islamistas estariam por tr\u00e1s da Revolu\u00e7\u00e3o Eg\u00edpcia. Ben Ali disse o mesmo, na Tun\u00edsia. O rei Abdullah da Jord\u00e2nia v\u00ea uma sinistra m\u00e3o escura \u2013 da Al Qaeda, da Fraternidade Mu\u00e7ulmana, sempre m\u00e3o isl\u00e2mica \u2013 por tr\u00e1s da insurrei\u00e7\u00e3o civil em todo o mundo \u00e1rabe. Ontem, autoridades do Bahrein descobriram a amaldi\u00e7oada m\u00e3o do Hezbollah, ali, por tr\u00e1s do levante xiita. Onde se l\u00ea Hezbollah, leia-se Ir\u00e3. Por que, diabos, tantos int\u00e9rpretes cultos, embora impressionantemente antidemocr\u00e1ticos, insistem em interpretar t\u00e3o mal as revoltas \u00e1rabes? Confrontados por uma s\u00e9rie de explos\u00f5es seculares \u2013 o caso do Bahrein n\u00e3o cabe perfeitamente nessa classifica\u00e7\u00e3o \u2013 todos culpam os isl\u00e2micos radicais. O X\u00e1 cometeu o mesmo erro, s\u00f3 que ao contr\u00e1rio: confrontado com um \u00f3bvio levante isl\u00e2mico, p\u00f4s a culpa nos comunistas\u201d.<\/p>\n<p>Evidentemente, isso n\u00e3o significa que o componente religioso inexista. Ele est\u00e1 presente e mobiliza as massas, na sua maioria mu\u00e7ulmanas, sob a id\u00e9ia-for\u00e7a de que n\u00e3o h\u00e1 senhor acima de Al\u00e1, nem mesmo os ditadores que controlaram a regi\u00e3o pelos \u00faltimos trinta anos. Por\u00e9m, as revoltas \u00e1rabes tem um conte\u00fado principalmente pol\u00edtico e econ\u00f4mico. S\u00e3o rebeli\u00f5es com caracter\u00edsticas notadamente ocidentais que colocam em xeque a tese utilizada pelo imperialismo em sua \u201cguerra contra o terror\u201d, segundo a qual o mundo \u00e1rabe representava uma amea\u00e7a ao modo de vida da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, com seus extremistas e fundamentalistas empenhados numa guerra impiedosa contra a sociedade judaico-crist\u00e3. Ao contr\u00e1rio, o que temos visto s\u00e3o jovens, oper\u00e1rios, camponeses, militares, homens e mulheres, crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, lutando lado a lado por emprego, democracia e liberdade, derrubando ditadores at\u00e9 ent\u00e3o financiados pelas pot\u00eancias ocidentais em nome de algo muito mais concreto que a salva\u00e7\u00e3o noutro mundo.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Se compreender o car\u00e1ter secular das revoltas \u00e9 fundamental para se poder afirmar que a sa\u00edda para o levante popular no norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio \u00e9 pol\u00edtica, e que esta sa\u00edda deve ser a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem econ\u00f4mica e social que liberte a regi\u00e3o da inger\u00eancia imperialista, iniciando um tempo de liberdade e justi\u00e7a social, ao mesmo tempo torna-se urgente enfrentar a pol\u00eamica em torno do car\u00e1ter dos eventos que est\u00e3o em curso. O principal deles, aquele que classifica os levantes populares como \u201crevolu\u00e7\u00f5es em sua etapa democr\u00e1tica\u201d, tese que transplanta mecanicamente a leitura aplicada \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 a todos os processos com potencial revolucion\u00e1rio e busca a partir dela interpretar realidades completamente distintas.<\/p>\n<p>O conceito de revolu\u00e7\u00e3o pode ter variados significados. Poucos hoje em dia s\u00e3o os que relutam em utilizar termos como \u201crevolu\u00e7\u00e3o industrial\u201d ou \u201crevolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d. Estas s\u00e3o categorias que fazem parte do nosso cotidiano e foram plenamente incorporados ao vocabul\u00e1rio de diferentes correntes do pensamento social ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo. Em outras palavras, o conceito de revolu\u00e7\u00e3o tomou uma abrang\u00eancia tal, que tem sido empregado no campo das ci\u00eancias sociais para determinar qualquer processo de transforma\u00e7\u00e3o mais ou menos profundo que altere uma dada condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-existente.<\/p>\n<p>Diante dos acontecimentos no norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio, por\u00e9m, o conceito de revolu\u00e7\u00e3o tem sido empregado para substituir a id\u00e9ia de rebeli\u00e3o, revolta ou insurrei\u00e7\u00e3o. O conceito de revolu\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, pode trazer um significado muito mais complexo, e \u00e9 a\u00ed que come\u00e7am os problemas.<\/p>\n<p>O primeiro esquema de desenvolvimento das sociedades esbo\u00e7ado por Marx e Engels em A Ideologia Alem\u00e3 (1845) trazia a id\u00e9ia b\u00e1sica de uma sucess\u00e3o de \u00e9pocas hist\u00f3ricas, cada qual fundada em um modo de produ\u00e7\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o, em seu sentido mais profundo, correspondia a um salto catacl\u00edsmico de um modo de produ\u00e7\u00e3o para outro. Este salto seria provocado pela converg\u00eancia de conflitos, a saber, entre as velhas institui\u00e7\u00f5es e as novas for\u00e7as produtivas que lutam pela liberdade, e entre a classe dominante e os novos atores sociais que buscam a supress\u00e3o da velha ordem em favor de uma nova classe dirigente. Por\u00e9m, mesmo Marx e Engels deram certa flexibilidade ao conceito, o que permitiu classificar o processo de unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha levado a cabo por Bismarck como \u201crevolucion\u00e1rio\u201d ou as insurrei\u00e7\u00f5es das aldeias indianas contra a opress\u00e3o brit\u00e2nica, consideradas por Marx as \u201cprimeiras revolu\u00e7\u00f5es sociais\u201d na hist\u00f3ria da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo dando ao conceito de revolu\u00e7\u00e3o seu sentido mais amplo, parece um exagero classificar assim os levantes populares em curso no norte da \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio. Isso porque a rebeli\u00e3o popular em curso no Egito e na Tun\u00edsia logrou at\u00e9 o momento t\u00e3o somente a derrubada de governos, mas n\u00e3o a altera\u00e7\u00e3o da ordem pol\u00edtica, quem dir\u00e1 econ\u00f4mica ou social. O processo de luta est\u00e1 aberto, o que pressup\u00f5e que o levante popular pode evoluir para um processo revolucion\u00e1rio de ruptura da ordem vigente, ou retroceder at\u00e9 uma sa\u00edda \u201cpelo alto\u201d, tutelada pelos interesses do grande capital. Em cada pa\u00eds a luta de classes segue um ritmo diferente, da\u00ed que \u00e9 poss\u00edvel que vejamos ambas as hip\u00f3teses ocorrendo em dois pa\u00edses distintos. At\u00e9 l\u00e1, decretar igualmente o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio das rebeli\u00f5es populares em distintos pa\u00edses \u00e9 um erro que pode levar a esquerda socialista a embarcar em aventuras lideradas por arrivistas que n\u00e3o merecem qualquer credibilidade.<\/p>\n<p>A L\u00edbia e a Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p>No que toca \u00e0 L\u00edbia a discuss\u00e3o acerca do car\u00e1ter \u201crevolucion\u00e1rio\u201d da guerra civil em curso neste pa\u00eds se torna ainda mais complexo. E n\u00e3o \u00e9 exatamente porque Kadafi j\u00e1 foi um jovem l\u00edder tercermundista que expulsou as empresas estrangeiras, criou a Companhia Nacional de Petr\u00f3leo, foi solid\u00e1rio a causa palestina \u00e0 frente da OPEP e do Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados, repudiando por diversas vezes o imperialismo. Faz aproximadamente dez anos o l\u00edder l\u00edbio imprimiu uma guinada \u00e0 direita ao seu governo, aproximando-se da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, particularmente do arquireacion\u00e1rio Berlusconi e das corpora\u00e7\u00f5es italianas, corroborando com a ret\u00f3rica norte-americana da \u201cguerra conta o terror\u201d e passando a colaborar ativamente na repress\u00e3o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de africanos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. A quest\u00e3o principal reside no calibre de muitos dos l\u00edderes oposicionistas, como Mustaf\u00e1 Abdel Kalil que at\u00e9 recentemente era Ministro da Justi\u00e7a do pr\u00f3prio Kadafi ou Abdelaziz Ghoqa, l\u00edder do Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o centralizador do comando rebelde que se manifestou favor\u00e1vel \u00e0 interven\u00e7\u00e3o estrangeira na L\u00edbia. N\u00e3o h\u00e1 como negar que o levante na L\u00edbia abriu uma \u201cjanela de oportunidades\u201d para o imperialismo, corretamente detectada por Fidel Castro quando muitos ainda afirmavam ser imposs\u00edvel uma interven\u00e7\u00e3o militar imperialista em solo l\u00edbio. Ainda que t\u00edmido em rela\u00e7\u00e3o aos protestos na L\u00edbia \u2013 mas firme em rela\u00e7\u00e3o ao Egito, Tun\u00edsia e outros aliados dos EUA \u2013 Fidel colocou a quest\u00e3o em termos adequados, ao referir-se ao risco de uma a\u00e7\u00e3o militar estrangeira:<\/p>\n<p>\u201cO imperialismo e a Otan \u2013 seriamente preocupados com a onda revolucion\u00e1ria que se iniciou no mundo \u00e1rabe, onde se gera grande parte do petr\u00f3leo que sustenta a economia de consumo dos pa\u00edses desenvolvidos e ricos \u2013 n\u00e3o podiam deixar de aproveitar o conflito interno na L\u00edbia para promover a interven\u00e7\u00e3o militar. As declara\u00e7\u00f5es feitas pela administra\u00e7\u00e3o dos EUA desde o primeiro momento foram categ\u00f3ricas a este respeito.\u201d<\/p>\n<p>Registre-se tamb\u00e9m a proposta da Venezuela, \u00fanica apresentada no terreno da esquerda para enfrentar a pobreza de horizontes do simples \u201cFora Kadafi\u201d. A iniciativa do Conselho Pol\u00edtico da Alba (Alian\u00e7a Bolivariana para as Am\u00e9ricas) de propor a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cComiss\u00e3o Internacional Humanit\u00e1ria para a Paz e Integridade da L\u00edbia\u201d, foi a solit\u00e1ria voz no cen\u00e1rio internacional a, simultaneamente, descartar a interven\u00e7\u00e3o militar e repudiar a possibilidade de uma escalada de viol\u00eancia promovida por Kadafi contra seus opositores.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a melhor sa\u00edda seria a simples queda de Kadafi e a instaura\u00e7\u00e3o de um governo democr\u00e1tico, popular e independente, n\u00e3o apenas na L\u00edbia, mas em todos os pa\u00edses que vivem sob a opress\u00e3o de regimes como os de Mubarak ou Ben Ali. Por\u00e9m, para al\u00e9m das sa\u00eddas ideais h\u00e1 a realidade imperfeita da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as existente, onde n\u00e3o h\u00e1 ainda uma oposi\u00e7\u00e3o a Kadafi capaz de encarnar este projeto: nesse caso, uma sa\u00edda pac\u00edfica, garantindo elei\u00e7\u00f5es livres e democr\u00e1ticas e o retorno dos grupos de oposi\u00e7\u00e3o hoje no ex\u00edlio, seria uma alternativa capaz de canalizar a justa revolta de parte da popula\u00e7\u00e3o l\u00edbia, extenuada com os anos de corrup\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o advindos com a degenera\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de Kadafi.<\/p>\n<p>Pren\u00fancio da trag\u00e9dia: a L\u00edbia e a interven\u00e7\u00e3o militar<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, tomada dias depois dos regimes reacion\u00e1rios organizados na Liga \u00c1rabe terem solicitado a Zona de Exclus\u00e3o A\u00e9rea, colocou por terra as afirma\u00e7\u00f5es daqueles que, desdenhando do apetite e for\u00e7a do imperialismo, afirmavam n\u00e3o haver possibilidade de interven\u00e7\u00e3o estrangeira na L\u00edbia. A decis\u00e3o intervencionista tem por objetivo claro impedir a vit\u00f3ria militar de Kadafi, que parecia at\u00e9 agora uma quest\u00e3o de dias. Isto revela que apesar de toda a aproxima\u00e7\u00e3o do regime l\u00edbio com os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, acentuada nos \u00faltimos anos, persistem entre os dois lados contradi\u00e7\u00f5es importantes. Tudo leva a crer que por detr\u00e1s da interven\u00e7\u00e3o est\u00e1 uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica de mais largo folego: a necessidade das for\u00e7as do capital, capitaneadas pelos Estados Unidos, de assegurarem o dom\u00ednio direto das fontes produtoras de petr\u00f3leo. Tal como ocorreu no Iraque de Saddam Hussein, ditadores, mesmo que c\u00famplices do imperialismo, que demonstram algum laivo de independ\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o suficientemente confi\u00e1veis, principalmente quando governam territ\u00f3rios ricos em petr\u00f3leo. No plano imediato, a interven\u00e7\u00e3o dever\u00e1 colocar a oposi\u00e7\u00e3o ao regime numa posi\u00e7\u00e3o subalterna em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as imperialistas o que torna o destino da L\u00edbia \u2013 entre Kadafi e o imperialismo \u2013 cada vez mais sombrio.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o devemos descartar a exist\u00eancia de setores efetivamente democr\u00e1ticos no interior do levante l\u00edbio. Ainda que at\u00e9 agora n\u00e3o se distinguam na confus\u00e3o geral que \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o, composta inclusive de elementos saudosos da monarquia derrubada por Kadafi, \u00e9 razo\u00e1vel supor que o levante de milhares de pessoas das classes m\u00e9dias e trabalhadoras n\u00e3o seja t\u00e3o somente fruto de uma conspira\u00e7\u00e3o urdida em sil\u00eancio pela Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e os Estados Unidos. Ainda que a interven\u00e7\u00e3o militar reduza consideravelmente a margem de manobra de uma oposi\u00e7\u00e3o consequente &#8211; espremida entre os tanques de Kadafi e os bombardeios da OTAN &#8211; mais do que nunca, \u00e9 necess\u00e1rio discernir e apoiar os verdeiros combatentes da democracia. No atual contexto, exigir a imediata suspens\u00e3o dos ataques da OTAN e a abertura imediata de negocia\u00e7\u00f5es entre as partes em conflito na L\u00edbia \u00e9 a \u00fanica maneira de preservar a exist\u00eancia e a possibilidade de a\u00e7\u00e3o de uma oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e anti-imperialista.<\/p>\n<p>Desdobramentos poss\u00edveis e a posi\u00e7\u00e3o dos socialistas<\/p>\n<p>Na L\u00edbia, a interven\u00e7\u00e3o militar j\u00e1 est\u00e1 em curso e busca preservar os interesses do imperialismo na regi\u00e3o. No Egito, a Junta Militar, financiada por d\u00e9cadas pelo Departamento de Estado dos EUA, trabalha para mantar o establishment intocado; enquanto na Tun\u00edsia, mesmo com a forma\u00e7\u00e3o de um governo provis\u00f3rio sem a presen\u00e7a de elementos do antigo regime, ainda \u00e9 cedo para apostar numa transi\u00e7\u00e3o para algo efetivamente mais avan\u00e7ado. Quais s\u00e3o, ent\u00e3o, as vari\u00e1veis que podem determinar os desdobramentos em torno das revoltas no mundo \u00e1rabe?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos utilizar as palavras de Rosa Luxemburgo na luta contra o revisionismo de Bernstein para afirmar que, no caso dos pa\u00edses \u00e1rabes, \u201ca sorte da democracia est\u00e1 ligada \u00e0 do movimento oper\u00e1rio\u201d. Sem o fortalecimento das organiza\u00e7\u00f5es populares independentes, as rebeli\u00f5es podem sofrer derrotas incalcul\u00e1veis. Da mesma forma, assim como Rosa Luxemburgo assinalou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha, tamb\u00e9m nos pa\u00edses \u00e1rabes a \u201creforma legal\u201d dos regimes pode levar ao \u201crefor\u00e7amento progressivo da classe ascendente, at\u00e9 se ter esta sentido bastante forte para se apossar do poder pol\u00edtico e suprimir todo o sistema jur\u00eddico, substituindo-o por outro\u201d. Ou seja, a conquista de reformas profundas no sistema pol\u00edtico em pa\u00edses como Egito ou Tun\u00edsia s\u00e3o, de qualquer forma, um avan\u00e7o que pode contribuir para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es gerais de luta dos trabalhadores no curto e m\u00e9dio prazos. Assim, diante da amea\u00e7a real de uma sa\u00edda para a instabilidade pol\u00edtica atrav\u00e9s de uma concilia\u00e7\u00e3o entre os representantes dos grupos opositores economicamente dominantes \u2013 concilia\u00e7\u00e3o que pode se expressar sob a figura de acordos \u201cpelo alto\u201d \u2013 a luta pelo cumprimento de reformas democr\u00e1ticas profundas pode contribuir decisivamente para a reorganiza\u00e7\u00e3o de uma alternativa popular nestes pa\u00edses.<\/p>\n<p>Diante deste quadro os socialistas tem tarefas inadi\u00e1veis. A primeira \u00e9, al\u00e9m de expressar seu mais duro rep\u00fadio ao regime l\u00edbio, condenar explicitamente a interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira. A segunda \u00e9 manifestar o entendimento de que na oposi\u00e7\u00e3o se misturam setores muitas vezes contradit\u00f3rios e que, portanto, conceder o t\u00edtulo de \u201crevolucion\u00e1rios\u201d a generais que at\u00e9 ontem comandavam a persegui\u00e7\u00e3o e a morte de comunistas e socialistas na L\u00edbia, \u00e9 um erro infantil. Em outras palavras, nosso apoio e solidariedade est\u00e3o reservados exclusivamente aqueles que lutam por uma L\u00edbia democr\u00e1tica e anti-imperialista. E a terceira e n\u00e3o menos importante tarefa, \u00e9 defender uma sa\u00edda que permita ao povo l\u00edbio e dos demais pa\u00edses \u00e1rabes, cujos ventos da liberdade tem feito estremecer a ordem vigente, construir uma nova ordem social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Ou seja, defender que a liberdade, a democracia, a justi\u00e7a e a auto-determina\u00e7\u00e3o, s\u00f3 poder\u00e3o florescer no norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio sob o socialismo, sem jamais deixar de considerar o atual est\u00e1gio da luta de classes em cada pa\u00eds. Cumprindo estas tarefas talvez os socialistas ocidentais possam dar uma efetiva contribui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 ao mundo \u00e1rabe, mas \u00e0s massas trabalhadoras de seus pr\u00f3prios pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>* Membros da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do PSOL<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Juliano Medeiros e Luiz Arnaldo Campos* O mundo tem acompanhado nas \u00faltimas semanas, maravilhado e estarrecido, as rebeli\u00f5es que tomam conta do mundo \u00e1rabe e o desmoronamento de regimes tidos como exemplo pelas pot\u00eancias ocidentais. 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