{"id":420,"date":"2011-05-27T00:00:00","date_gmt":"2011-05-27T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2011\/05\/27\/maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo\/"},"modified":"2011-05-27T00:00:00","modified_gmt":"2011-05-27T00:00:00","slug":"maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo\/","title":{"rendered":"Maio Espanhol: \u00e0s portas de um novo tempo?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><a rel=\"attachment wp-att-8535\" href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2011\/05\/27\/maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo\/israeldutra\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-8535\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2011\/05\/IsraelDutra-291x300.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"300\" \/><\/a>*Por Israel Dutra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201c<strong><em>Eles n\u00e3o nos deixam sonhar, n\u00e3o os deixaremos dormir\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A velocidade das not\u00edcias, no atual per\u00edodo turbulento que vive o planeta, se multiplica.<\/p>\n<p>A morte de Bin Laden e a pris\u00e3o de Strauss-Kahn trouxeram \u00e0 tona mais incertezas no complexo cen\u00e1rio mundial. Contudo, um elemento novo, surpreendeu a todos. A irrup\u00e7\u00e3o do movimento de \u201cindignados\u201d em Madrid acelerou ainda mais a hist\u00f3ria. Seguido por quase 200 manifesta\u00e7\u00f5es em todo o territ\u00f3rio espanhol, mobilizou centenas de milhares de pessoas no pa\u00eds. O \u201c15-M\u201d[alusivo a data da primeira manifesta\u00e7\u00e3o] rompeu a apatia do calend\u00e1rio eleitoral espanhol. Em pleno 2011, temos um novo Maio na Europa. A juventude e o movimento dos \u201cindignados\u201d est\u00e3o construindo uma ponte com as revolu\u00e7\u00f5es do mundo \u00e1rabe e a luta do povo da Isl\u00e2ndia contra os bancos e a crise. Foram manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as pra\u00e7as centrais de Barcelona, Valencia, Granada, Sevilha, organizando acampamentos permanentes, com decis\u00f5es assemble\u00edstas, atividades di\u00e1rias, interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Mesmo proibidos, centenas de milhares de pessoas, no dia da elei\u00e7\u00f5es[22 de mar\u00e7o] desafiaram o Supremo Tribunal e tomaram as ruas de todo o pa\u00eds. Uma semana em que a Espanha respirou sua nova primavera pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o da \u201cPuerta del Sol\u201d[1] trouxe, como bem afirmou Pedro Fuentes, a pra\u00e7a Tahrir para o cora\u00e7\u00e3o da Europa.<\/p>\n<p><em><strong>A gera\u00e7\u00e3o # : \u00e0 rasca, sem futuro e indignada<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As bases fundamentais para a mobiliza\u00e7\u00e3o da Puerta del Sol que se alastrou por toda Espanha combinam dois elementos: os efeitos cada vez mais duros da crise econ\u00f4mica e a marginaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, efeito do regime controlados por uma partidocracia. A juventude que se expressa nas pra\u00e7as tem constantemente recebido o \u201cn\u00e3o\u201d como resposta. N\u00e3o h\u00e1 vagas, n\u00e3o h\u00e1 lugar para intervir politicamente,n\u00e3o h\u00e1 moradia digna, n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o de qualidade, n\u00e3o h\u00e1 possibilidades, n\u00e3o h\u00e1 futuro. A elite social e pol\u00edtica espanhola, controlada pelo bipartidarismo a servi\u00e7o dos bancos fez \u201couvidos moucos\u201d durante muito tempo. Agora o barulho \u00e9 ensurdecedor.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o que existe com os processos de mobiliza\u00e7\u00e3o recente do mundo \u00e1rabe \u00e9 direta. N\u00e3o apenas pela efic\u00e1cia das convoca\u00e7\u00f5es que, burlando os mecanismos \u201coficiais\u201d, ocorreram via as redes sociais e formas de comunica\u00e7\u00e3o alternativa. A identidade \u00e9 bem maior. Nas pra\u00e7as da Espanha se podia ouvir referencias tanto a Pra\u00e7a Tahrir quanto a Isl\u00e2ndia[pa\u00eds que aprovou o n\u00e3o pagamento de d\u00edvida com bancos em dois referendos populares]. Solid\u00e1rios na precariza\u00e7\u00e3o, solid\u00e1rio na luta. Como refer\u00eancia aos islandeses, que protestaram por um ano durante todos os s\u00e1bados, os manifestantes cantavam: \u201cEspanha em p\u00e9, uma Isl\u00e2ndia \u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Segundo dados oficiais, a Espanha atravessa uma condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de desemprego: ultrapassa os 20%, chegando a quase metade da popula\u00e7\u00e3o quando considerados apenas os estratos mais jovens. Os cortes no or\u00e7amento atingem em cheio os servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais. As execu\u00e7\u00f5es hipotec\u00e1rias deixaram quase meio milh\u00e3o de pessoas sem teto nos \u00faltimos anos. Apenas em 2009\/2010 foram 270 mil espanh\u00f3is que perderam suas casas.<\/p>\n<p>A juventude da Europa est\u00e1 no seu limite enquanto projeto de futuro. H\u00e1 uma terr\u00edvel curva descendente na escala da mobilidade social. Os filhos e netos n\u00e3o ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de competir no mercado e manter o n\u00edvel de vida das gera\u00e7\u00f5es anteriores. A face portuguesa deste movimento se manifestou da mesma forma, espont\u00e2nea e radicalizada, na manifesta\u00e7\u00e3o do \u00faltimo 12 de mar\u00e7o. Convocada por meios alternativos como o Facebook, a manifesta\u00e7\u00e3o reuniu a juventude que se autodenomina \u201cGera\u00e7\u00e3o \u00e0 rasca\u201d [alus\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria da juventude portuguesa]. O 12-M foi a maior manifesta\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds desde a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos. Os protestos renderam ampla repercuss\u00e3o, precipitando a queda de S\u00f3crates. A juventude tomou a cena em Portugal. O escritor Mia Couto analisou da seguinte forma:<\/p>\n<p>\u201cEis agora uma gera\u00e7\u00e3o jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na propor\u00e7\u00e3o do que estudou. Uma gera\u00e7\u00e3o que coleciona diplomas com que o pa\u00eds lhes alimenta o ego insuflado, mas que s\u00e3o uma ilus\u00e3o, pois correspondem a pouco conhecimento te\u00f3rico e a duvidosa capacidade operacional.\u201d<\/p>\n<p>A nova gera\u00e7\u00e3o, diplomada e sem perspectiva, conhece violenta e dramaticamente a pol\u00edtica. \u00c0 sua exclus\u00e3o, social, cultural e econ\u00f4mica responde com uma sa\u00edda coletiva e indignada. A juventude \u201cIndignada\u201d como seus pares da \u201cGera\u00e7\u00e3o \u00e0 Rasca\u201d e mesmo os \u201cdiplomados\u201d da Tun\u00edsia s\u00e3o produto direto da crise estrutural do capitalismo.<\/p>\n<p><em><strong>Nem socialdemocratas, nem conservadores<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O movimento \u201cDemocracia Real\u201d[ nome da articula\u00e7\u00e3o que organizou a convocat\u00f3ria do 15-M] inverte a l\u00f3gica fria do regime democr\u00e1tico liberal.<\/p>\n<p>Na Espanha, como em Portugal e na Gr\u00e9cia, quem aplica as medidas de austeridade \u00e9 o Partido Socialista. Foi na gest\u00e3o de Zapatero, \u00edcone do social-liberalismo que se deram os cortes mais brutais. Para se ter ideia, o governo reduziu 15 bilh\u00f5es dos gastos do or\u00e7amento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do controle exercido pelo Bipartidarismo na esfera dos postos executivos e legislativos, as organiza\u00e7\u00f5es sociais e sindicais tamb\u00e9m s\u00e3o parte da cr\u00edtica. As duas maiores centrais sindicais s\u00e3o espa\u00e7os burocr\u00e1ticos e sem representatividade[UGT, CCOO]. No ano passado, o governo imp\u00f4s o aumento da idade para a aposentadoria- a partir da nova lei, o m\u00ednimo ser\u00e1 de 67 anos. Tamb\u00e9m foram privatizados setores como aeroportos e loterias. Tudo em nome da \u201causteridade fiscal\u201d. As entidades sindicais n\u00e3o estabeleceram nenhum plano coerente de lutas. Pressionados pela base, por uma s\u00e9rie de greves radicalizadas- como do metr\u00f4 de Madrid- as dire\u00e7\u00f5es convocaram uma greve geral em 29 de setembro de 2010. Apesar da condu\u00e7\u00e3o morna e das atividades dispersas, a greve n\u00e3o foi \u201cprotocolar\u201d. Grandes jornadas mostraram a disposi\u00e7\u00e3o de luta dos trabalhadores, dos servi\u00e7os, das fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e da ind\u00fastria. Uma vez mais, as centrais apresentaram seu car\u00e1ter nefasto, n\u00e3o encaminharam nenhuma nova luta ou paralisa\u00e7\u00e3o, acabando por aceitar a proposta do governo como um \u201cmal menor\u201d. Todos passos foram dados sem consultar as bases sindicais. O leg\u00edtimo \u201cpacto de c\u00fapula\u201d.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o da juventude, seguida por muitos trabalhadores, aposentados e setores da socidade civil n\u00e3o seguiu nenhum \u201cscript\u201d. O Movimento Democracia Real desconheceu as \u201cc\u00fapulas\u201d e dire\u00e7\u00f5es sindicais. Os \u201cpol\u00edticos tradicionais\u201d tamb\u00e9m foram atropelados pela \u00e2nsia de mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o por parte do Supremo Tribunal das manifesta\u00e7\u00f5es nos dias 21 e 22[v\u00e9spera e data das elei\u00e7\u00f5es municipais] s\u00f3 demonstra a insensibilidade do Estabilshment. Os protestos se reproduziram de forma ainda mais massiva.<\/p>\n<p>O resultado da elei\u00e7\u00e3o foi custoso para Zapatero. Uma derrota hist\u00f3rica. Os socialistas perderam em toda a Espanha. Ap\u00f3s 32 anos, o Partido Socialista perdeu o governo de Barcelona. Os resultados de Bildu- coaliz\u00e3o da esquerda independentista no Pa\u00eds Basco- afirmam que n\u00e3o \u00e9 uma derrota de toda a \u201cesquerda\u201d. Quem sai derrotada \u00e9 a fra\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria da esquerda, que h\u00e1 muito aderiu ao social-liberalismo. O elevado n\u00famero de votos nulos e brancos tamb\u00e9m \u00e9 um sinal nesta dire\u00e7\u00e3o. A li\u00e7\u00e3o das urnas, em que pese a vit\u00f3ria dos conservadores como produto do desgaste do PSOE, s\u00f3 confirma o que dizem as pra\u00e7as: o que se vive na Espanha \u00e9 um simulacro de democracia.<\/p>\n<p><em><strong>O recurso \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o <\/strong><\/em><\/p>\n<p>O dif\u00edcil quadro pol\u00edtico poderia levar ao ceticismo? As pra\u00e7as da Espanha afirmam o contr\u00e1rio. Al\u00e9m de resistir contra as medidas de austeridade e rejeitar esta democracia, o movimento 15-M recorre a um velho m\u00e9todo: o da mobiliza\u00e7\u00e3o. Um velho m\u00e9todo, ali\u00e1s, sempre reinventado, de forma criativa e cr\u00edtica. O dia 15-M restituiu o pr\u00f3prio sentido da pol\u00edtica na vida espanhola. Contra aqueles que acusam o movimento de ser \u201capol\u00edtico\u201d vale ressaltar que ali, na pra\u00e7a, em sete dias, se fez uma pol\u00edtica concentrada. Uma pol\u00edtica que acelerou os tempos hist\u00f3ricos. Nada da monotonia dos acordos parlamentares, dos bastidores sindicais, da corrup\u00e7\u00e3o legal ou ilegal do Estado. A pol\u00edtica na sua forma plena, com conte\u00fado democr\u00e1tico, a decis\u00e3o oriunda da coletividade, da Assembleia, da barricada. O \u201cSOL\u201d da pra\u00e7a de Madrid \u00e9 mais do que uma met\u00e1fora. O conte\u00fado da ideia de \u201cdemocracia real\u201d \u00e9 uma demanda atual. Necess\u00e1ria. Como ilustrou bem At\u00edlio Boron, comparando o 15-M com a Comuna de Paris:<\/p>\n<p>\u201cBasta ver os documentos dos \u201cindignados\u201d de hoje para comprovar a assombrosas atualidade com as demandas dos comunardos e o pouco, muito pouco que mudou da pol\u00edtica do capitalismo. Os jovens e os nem t\u00e3o jovens que lotam umas 150 pra\u00e7as na Espanha n\u00e3o s\u00e3o \u201capol\u00edticos\u201d ou \u201cantipol\u00edticos\u201d como certos setores da imprensa querem fazer crer, s\u00e3o gente profundamente politizada que se levam a s\u00e9rio na promessa da democracia e que, por isso mesmo, se rebelam contra a falsa democracia surgida das entranhas do franquismo e consagrada no t\u00e3o aplaudido Pacto de Moncloa, exibido como um ato exemplar de engenharia pol\u00edtica democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>E n\u00e3o apenas a distante Comuna que ressurge nas pra\u00e7as e nos criativos cartazes do 15-M. Tamb\u00e9m as manifesta\u00e7\u00f5es do movimento antiglobaliza\u00e7\u00e3o que tiveram lugar na virada do s\u00e9culo e as grandes rebeli\u00f5es da Am\u00e9rica Latina do mesmo per\u00edodo. A nova gera\u00e7\u00e3o se une aos antigos lutadores, dando lugar a uma linda confraterniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo na pra\u00e7a \u00e9 discutido. O clima de democracia direta e participa\u00e7\u00e3o ativa \u00e9 diretamente oposto ao que criticam no modelo oficial. Todas as tardes uma nova assembleia discute os pr\u00f3ximos passos, conectando-se com os outros acampados do pa\u00eds. As equipes art\u00edsticas garantem apresenta\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as de teatros, exposi\u00e7\u00e3o de cartazes, debates culturais, exibi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos.<\/p>\n<p>O programa de reivindica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m \u00e9 discutido: vai desde a taxa\u00e7\u00e3o das grandes empresas at\u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o de demandas como habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, emprego. Um ponto importante \u00e9 a defesa que o movimento assume dos jovens e trabalhadores imigrantes. Fica claro que \u201cDemocracia Real\u201d \u00e9 bem mais do que um slogan. \u00c9 um conceito, em constru\u00e7\u00e3o, que define o \u201cnovo\u201d, o que est\u00e1 nascendo nas esquinas da Espanha. A for\u00e7a inventiva da coletividade oferece um projeto para salvar a Espanha do caos dos banqueiros e da UE.<br \/>\n<em><strong><br \/>\n\u00c0s portas de um novo 1968? <\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os desdobramentos do \u201cMaio Espanhol\u201d ainda s\u00e3o imprev\u00edsiveis. O fato \u00e9 que a Espanha entrou de vez numa din\u00e2mica de protestos e mobiliza\u00e7\u00e3o social, a partir do 15-M. Por\u00e9m, quais passos, quais limites?<\/p>\n<p>O que assistimos nos \u00faltimos anos nos pa\u00edses onde aconteceram importantes processo de luta contra planos de ajuste e retirada de direitos foi o desgaste dos governos de turno e sua substitui\u00e7\u00e3o pela via mais \u201ccr\u00edvel\u201d da oposi\u00e7\u00e3o. O p\u00eandulo oscila na hegemonia da sociedade e a insatisfa\u00e7\u00e3o acaba canalizada pela \u201caltern\u00e2ncia\u201d eleitoral. Sai o PSOE entra o partido conservador, a alternativa na Fran\u00e7a de Sarkozy s\u00e3o os Socialistas. Ou seja, uma din\u00e2mica que n\u00e3o consegue superar os limites da luta defensiva e acaba se dispersando no terreno da luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia a outro \u201cMaio\u201d, o de 68, \u00e9 fundamental. O \u201cano das revolu\u00e7\u00f5es\u201d foi um marco por conta da singularidade do processo: massivo, combinado e profundo. Massivo porque milh\u00f5es em todos os continentes, de forma mais ou menos espontanea, mais ou menos sincronizada sa\u00edram \u00e0s ruas para contestar o poder vigente. Combinado porque convergiram in\u00fameras lutas, desde a luta por um \u201csocialismo com rosto humano\u201d na Primavera de Praga, a luta dentro dos Estados Unidos contra a guerra, nos pa\u00edses latino-americanos, chegando ao questionamento do regime franc\u00eas, uma democracia europ\u00e9ia desenvolvida. E profundo, pois chegou a colocar em xeque o governo, inaguarando a in\u00e9dita hip\u00f3tese de crise revolucion\u00e1ria na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>O movimento atual est\u00e1 longe deste patamar. Contudo, o \u201cfantasma\u201d de 1968 ronda a Puerta del Sol. Uma defini\u00e7\u00e3o mais cautelosa poderia afirmar que estamos num movimento cuja for\u00e7a potencial est\u00e1 no meio do caminho entre o movimento antiglobaliza\u00e7\u00e3o [iniciado em Seattle em 99] e as lutas de 1968. Mais perto de Seattle do que do maio franc\u00eas.<\/p>\n<p>O que esperar do futuro imediato destes novos processos? Tr\u00eas fatores nos ajudam a pensar o que pode vir pela frente: a linha do BCE (Banco Central Europeu) tem sido err\u00e1tica para enfrentar a crise da d\u00edvida; o fato de que n\u00e3o existe nenhum sinal de recupera\u00e7\u00e3o da economia na Europa- a OCDE prev\u00ea que a Espanha vai demorar 15 anos para voltar a ter taxas de desemprego id\u00eanticas ao per\u00edodo anterior a crise; e por fim, o fator determinante: a capacidade de resist\u00eancia social aos planos de austeridade.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos o que pode passar. Novas manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o convocadas. A tarefa \u00e9 ampliar e estender os protestos. Ampliar para os trabalhadores e desempregados. Para os Imigrantes. Das pra\u00e7as da Espanha para as pra\u00e7as de toda a Europa. E conectar. Conectar-se com as revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes, com o exemplo island\u00eas, com a resist\u00eancia nos outros cantos do mundo. O futuro imediato do 15-M depende da for\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses onde a crise social se encontra em est\u00e1gios avan\u00e7ados.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia \u00e9 o grande vulc\u00e3o que pode entrar em erup\u00e7\u00e3o e dar o esperado \u201csalto de qualidade\u201d. No dia 25 de Maio, dezenas de milhares de pessoas cercaram o parlamento grego. Uma bandeira gigante da Espanha abriu a manifesta\u00e7\u00e3o: \u201cEstamos despiertos, ya es hora que se vayan\u201d<\/p>\n<p>Nas manifesta\u00e7\u00f5es gregas de 08\/09 uma faixa se destacou. Seus dizeres \u201cPovos da Europa, Levantem-se\u201d.<\/p>\n<p>Nas manifesta\u00e7\u00f5es em Madrid e Barcelona outra faixa chamou a aten\u00e7\u00e3o. \u201cNeste ver\u00e3o&#8230; te convidamos a virar do Avesso o mundo\u201d.<\/p>\n<p>Da resposta a este chamado depende o futuro.<\/p>\n<p><strong>[1] <\/strong><em>A \u201cPuerta del Sol\u201d fica no centro de Madrid e \u00e9 o quilometro zero de todas as estradas espanholas.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>*Israel Dutra, soci\u00f3logo e membro da dire\u00e7\u00e3o nacional do PSOL<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Israel Dutra \u201cEles n\u00e3o nos deixam sonhar, n\u00e3o os deixaremos dormir\u201d A velocidade das not\u00edcias, no atual per\u00edodo turbulento que vive o planeta, se multiplica. A morte de Bin Laden e a pris\u00e3o de Strauss-Kahn trouxeram \u00e0 tona mais incertezas no complexo cen\u00e1rio mundial. Contudo, um elemento novo, surpreendeu a todos. 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