{"id":4452,"date":"2012-11-21T00:00:00","date_gmt":"2012-11-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2012\/11\/21\/marighella-e-um-personagem-absolutamente-atual\/"},"modified":"2012-11-21T00:00:00","modified_gmt":"2012-11-21T00:00:00","slug":"marighella-e-um-personagem-absolutamente-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/marighella-e-um-personagem-absolutamente-atual\/","title":{"rendered":"&#8220;Marighella \u00e9 um personagem absolutamente atual&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Esse Jango \u00e9 frouxo&#8221;, ouviu Carlos Augusto Marighella, estudante de ent\u00e3o 15 anos, de um cabeludo com pinta de motoqueiro. O cabeludo era Carlos Marighella, seu pai, disfar\u00e7ado. E o encontro se deu em princ\u00edpios de maio de 1964, em uma padaria nas cercanias do col\u00e9gio onde o garoto estudava, na Tijuca, no Rio de Janeiro, como narra o livro &#8220;Marighella &#8211; o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo&#8221;, do jornalista M\u00e1rio Magalh\u00e3es sobre a vida do ex-deputado comunista, guerrilheiro e fundador da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), morto em 1969 em uma emboscada policial em S\u00e3o Paulo. &#8220;O Marighella, goste-se ou n\u00e3o dele, n\u00e3o \u00e9 um personagem que morreu no passado, \u00e9 um personagem absolutamente atual. Como dizem os partid\u00e1rios de Marighella, &#8216;Marighella vive&#8217;. O Brasil est\u00e1 come\u00e7ando a conhecer Marighella, mas enquanto a hist\u00f3ria dele n\u00e3o for contada nos livros escolares, nos manuais de hist\u00f3ria, ele vai continuar sendo um maldito. Eu n\u00e3o advogo que os livros de hist\u00f3ria, nas escolas, propagandeiem o Marighella; nem defendo que sejam libelos contr\u00e1rios a ele, mas n\u00e3o contar a hist\u00f3ria do Marighella seria desonestidade intelectual. E \u00e9 o que se faz hoje, desonestidade intelectual&#8221;, diz o autor sobre as motiva\u00e7\u00f5es que o levaram a escrever a obra de 717 p\u00e1ginas que tenta reverter esse quadro. 48 anos depois daquele encontro nas cercanias do col\u00e9gio Batista, Carlinhos relembra \u00e0 Carta Maior a conviv\u00eancia com seu pai. &#8220;A despeito de viver uma vida extremamente atribulada, meu pai era uma pessoa muito alegre, muito bem humorada. Era um pai muito amigo, muito brincalh\u00e3o, um pai que gostava de correr e nadar comigo na praia, e tamb\u00e9m de corrigir as provas da escola&#8221;, diz ele sobre os tempos de col\u00e9gio semi-internato, de onde foi expulso por se chamar Marighella. Apesar de v\u00edtima da dire\u00e7\u00e3o escolar, Carlinhos guarda boas lembran\u00e7as da solidariedade dos colegas, e da forma\u00e7\u00e3o que recebeu do pai, sem a obriga\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia pol\u00edtica. &#8220;N\u00f3s mor\u00e1vamos em um apartamento pequenininho, mas coberto de livros. Ele queria que eu lesse Jorge Amado, e tamb\u00e9m comprava Julio Verne e tudo mais, uma leitura selecionada. Lembro que ele me deu uns livros de Caryl Chessman, que era um homem condenado \u00e0 morte nos EUA e que na cadeia come\u00e7ou a escrever livros e fazer uma reflex\u00e3o sobre a vida e o judici\u00e1rio americano. Pois meu pai me deu esses livros porque ele participava de uma campanha, ele queria incentivar as pessoas a abolir a pena de morte no mundo, e queria me conquistar para isso&#8221;, diz ele, que depois se filiou ao Partido Comunista por vontade pr\u00f3pria. <strong>Sobral Pinto<\/strong> O encontro com o &#8220;motoqueiro&#8221; foi uma das \u00faltimas vezes que Carlinhos teve uma rela\u00e7\u00e3o f\u00edsica, pessoal, com Marighella. &#8220;Meu pai foi preso em 64 e eu tinha 15 anos de idade. Ele ficou cerca de 50 dias na cadeia. Quando saiu, eu fui visit\u00e1-lo&#8221;, afirma, sobre outra ocasi\u00e3o em que viu o pai. Ap\u00f3s a visita, Carlinhos tinha uma miss\u00e3o. &#8220;Recordo que ele pediu para eu contratar Sobral Pinto para impetrar um mandato de seguran\u00e7a ou um habeas corpus. E Sobral Pinto, ao patrocinar essa causa, ele que era um apoiador do golpe militar por raz\u00f5es da igreja cat\u00f3lica, percebe que era o momento de denunciar as atrocidades e o risco que o golpe significava para as institui\u00e7\u00f5es brasileiras. Isso se deve ao contato que ele teve com meu pai e as raz\u00f5es que meu pai deve ter apresentado a ele&#8221;. Dali em diante, Carlinhos nunca mais estaria com seu pai. &#8220;Falei com ele por telefone e carta. De 64 a 69 meu pai se tornou uma pessoa totalmente clandestina e lan\u00e7ou a proposta de luta armada. A partir da\u00ed as persegui\u00e7\u00f5es chegaram a um limite intoler\u00e1vel, at\u00e9 que ele foi assassinado&#8221;. <strong>Morte<\/strong> Em novembro de 69, minuciosamente narrado no livro nos cap\u00edtulos Tocaia e Post-morte: anatomia de uma farsa, Carlinhos j\u00e1 morava em Salvador, onde reside at\u00e9 hoje como advogado. Na \u00e9poca, &#8220;o que a fam\u00edlia sabia era o que se publicava nos jornais, geralmente &#8216;Marighella morreu&#8217;, &#8216;Pol\u00edcia quase encontra Marighella&#8217;. Enfim, como aquilo quase nunca se confirmava, foi criando na gente a expectativa de que afinal meu pai ia conseguir sair inc\u00f3lume. At\u00e9 que uma noite recebi um jornalista em casa me pedindo que fosse a um jornal identificar fotos que davam not\u00edcia da morte de meu pai. Fui quase que com enfado, porque para mim era uma repeti\u00e7\u00e3o mentirosa daquelas not\u00edcias&#8221;. No entanto, l\u00e1, deparou-se com a dor. &#8220;Tinha um telex que recebia not\u00edcias do mundo todo. E a\u00ed, quando a m\u00e1quina come\u00e7ou a vomitar aquela not\u00edcia, ia compondo, como se fosse um fax, fotos e textos. Eu aterrorizado vi que aquela imagem que ia se formando lentamente era efetivamente o rosto de meu pai. Foi um choque tremendo, mas ali mesmo eu jurei para mim que era preciso resgatar, provar para todo mundo que meu pai n\u00e3o era aquele fac\u00ednora, que ele n\u00e3o era digno de morrer daquele jeito&#8221;, afirmou ele, sereno, observando o grande n\u00famero de leitores que fazia fila para comprar o livro e conhecer um pouco mais de Marighela durante o lan\u00e7amento da obra de M\u00e1rio Magalh\u00e3es, na ter\u00e7a-feira (13), na Livraria da Travessa, no Rio. <strong>Coer\u00eancia<\/strong> Entre os leitores, antigos companheiros, como Carlos Eugenio Paz. O ex-comandante Clemente da ALN preza a coer\u00eancia que Marighela sempre demonstrou, seja em conversas com um estudante aspirante a revolucion\u00e1rio, seja em sua vis\u00e3o de compromisso com o pa\u00eds. &#8220;Era um homem que vivia aquilo que pregava. Um homem com aquela estatura me ouvia, um garoto de 15 para 16 anos. Propunha para a gente uma organiza\u00e7\u00e3o horizontal, onde n\u00e3o tinha chefes. Onde ele, com toda a estatura de l\u00edder, abdicava do poder de decidir, nos deixava a iniciativa&#8221;, diz Paz sobre a conviv\u00eancia com &#8220;Mariga&#8221;, ou &#8220;Preto&#8221;, ap\u00f3s o primeiro encontro em 1966, em uma caminhada por um Aterro do Flamengo ainda em constru\u00e7\u00e3o. &#8220;Muita gente pergunta se n\u00e3o foi um erro o Marighella ficar no Brasil, ao inv\u00e9s de sair para se preservar. Eu respondo sempre assim: n\u00e3o sei se foi erro ou acerto. Agora, se o Marighella sai do Brasil, ele n\u00e3o seria o Marighella. Porque exatamente a maior qualidade dele era essa. Al\u00e9m de ser um estrategista, um te\u00f3rico, um homem com ideias na cabe\u00e7a, ele vivia o que ele pregava; e mais, ia na frente. Ele n\u00e3o pedia a ningu\u00e9m para fazer um sacrif\u00edcio que ele tamb\u00e9m n\u00e3o estivesse fazendo. Marighella nunca me pediu um risco que ele tamb\u00e9m n\u00e3o estivesse correndo&#8221;, afirma. <strong>Atemporal<\/strong> Sem riscos da chuva que ca\u00eda l\u00e1 fora, abrigados na elegante livraria de Ipanema, muitos folheavam a obra que ao custo de R$ 57, pouco menos de 10% do sal\u00e1rio m\u00ednimo brasileiro, evidencia o quanto o pa\u00eds ainda est\u00e1 longe da realidade sonhada pelo biografado. A maioria das opini\u00f5es era do important\u00edssimo resgate hist\u00f3rico que a obra proporciona. Em rodas de conversa, a evolu\u00e7\u00e3o da ditadura para a democracia consolidada era lembrada, mas a troca da solidariedade pelo individualismo questionada. Na impossibilidade da compara\u00e7\u00e3o, a voz negra da Bahia falava mais alto. &#8220;Tem algumas coisas da atua\u00e7\u00e3o humana, pessoal, social e pol\u00edtica de meu pai que eu acho que continuam muito importantes. A gente precisa difundir valores, valores que sirvam como refer\u00eancia para que a gente tenha orgulho de ser brasileiro e tenha vontade de construir esse Brasil. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ideologia, mas valores humanos. Meu pai era patriota, era uma pessoa despojada, que amava o povo brasileiro. Era um homem que trabalhava, que tinha coragem de enfrentar a luta por suas ideias. \u00c9 um homem que \u00e9 efetivamente um exemplo. Marighella \u00e9 uma pessoa com esta marca, uma marca de um homem excepcional, de um homem que ser\u00e1 sempre \u00fatil em qualquer pa\u00eds, em qualquer gera\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Carlos Augusto Marighella. <strong>Rodrigo Ot\u00e1vio&nbsp;<\/strong> Fonte:<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21263\">&nbsp;Carta Maior<\/a>, 16\/11\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Esse Jango \u00e9 frouxo&#8221;, ouviu Carlos Augusto Marighella, estudante de ent\u00e3o 15 anos, de um cabeludo com pinta de motoqueiro. O cabeludo era Carlos Marighella, seu pai, disfar\u00e7ado. 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