{"id":460,"date":"2011-08-21T00:00:00","date_gmt":"2011-08-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2011\/08\/21\/magreb-oriente-medio-e-a-esquerda-brasileira\/"},"modified":"2011-08-21T00:00:00","modified_gmt":"2011-08-21T00:00:00","slug":"magreb-oriente-medio-e-a-esquerda-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/magreb-oriente-medio-e-a-esquerda-brasileira\/","title":{"rendered":"Magreb, Oriente M\u00e9dio e a esquerda brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong><a rel=\"attachment wp-att-10175\" href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2011\/08\/21\/magreb-oriente-medio-e-a-esquerda-brasileira\/magreb\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-10175\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2011\/08\/Magreb.jpg\" alt=\"\" width=\"238\" height=\"240\" \/><\/a>*Por Milton Temer e Juliano Medeiros<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong>Passados seis meses da derrubada das ditaduras Ben Ali e Mubarak na Tun\u00edsia e no Egito, que balan\u00e7o podemos fazer dos epis\u00f3dios considerados por parte da esquerda \u2013 aquela j\u00e1 habituada a ver crises revolucion\u00e1rias onde existem limitadas crises sociais \u2013 importantes processos de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas?<\/p>\n<p>De fato n\u00e3o existem mais os governos anteriores tais como se apresentavam antes, acobertados pelas pot\u00eancias capitalistas ocidentais que ali tinham garantia da a\u00e7\u00e3o libertina de suas corpora\u00e7\u00f5es privadas, e onde o Estado agia abertamente na repress\u00e3o e desmonte do movimento social organizado e dos partidos de esquerda. Hoje, agem de forma bem mais refinada: n\u00e3o existe a pol\u00edcia secreta, as ruas n\u00e3o escondem segredos. Mas mant\u00eam-se inflex\u00edveis na defesa da estrutura s\u00f3cio-econ\u00f4mica anterior; na intocabilidade dos interesses das grandes corpora\u00e7\u00f5es multinacionais ali operando, e no alto porcentual de participa\u00e7\u00e3o dos militares na economia nacional \u2013 os mesmos que sustentaram e eram aliados de Mubarak. Em outras palavras, garantem uma &#8220;transi\u00e7\u00e3o tutelada&#8221; que ainda n\u00e3o conseguiu sequer assegurar o surgimento de regimes democr\u00e1ticos, mesmo no sentido de uma democracia liberal t\u00edpica do ocidente. Claro, existe a compensa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da abertura da fronteira de Gaza. Mas sem nenhuma mudan\u00e7a fundamental no posicionamento em organismos internacionais sobre as atrocidades de Israel na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 compreens\u00edvel que t\u00e3o pouca coisa tenha mudado. Porque, para al\u00e9m do julgamento dos repressores \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es da Pra\u00e7a Tahir, poucos itens a mais existem como p\u00f3lo de unidade da frente de oposi\u00e7\u00e3o, a despeito dos esfor\u00e7os de uns poucos segmentos mais politizados. Depois de tanto tempo desestruturado, o movimento social, fragmentado, sem partidos de esquerda representativos, destru\u00eddos pela coopera\u00e7\u00e3o entre os militares traidores de Nasser e os interesses pol\u00edticos da Irmandade Mu\u00e7ulmana, tinha limites estreitos de conquista. Mas, o que \u00e9 positivo, foram bem mais longe do que os movimentos similares no Qatar, Jord\u00e2nia, Yemen, Bahrein e Ar\u00e1bia Saudita, onde o status quo se manteve quase na \u00edntegra, com a manuten\u00e7\u00e3o dos mesmos capatazes do imperialismo \u00e0 frente destes diversos governos.<\/p>\n<p>Para quem testemunhou, ao vivo ou a cores, as expectativas e os momentos dram\u00e1ticos que marcaram processos de grande mobiliza\u00e7\u00e3o no final dos anos 60, na Europa e na Am\u00e9rica Latina, onde verdadeiras revolu\u00e7\u00f5es pareciam estar batendo \u00e0 porta, n\u00e3o foi dif\u00edcil concluir que s\u00f3 por ingenuidade algu\u00e9m imaginaria que estamos diante de processos revolucion\u00e1rios \u2013 seja no sentido marxiano do termo, seja naquele consagrado pelo pensamento social do s\u00e9culo XX. Mais grave ainda, exigir que fossem movimentos revolucion\u00e1rios capazes de, para al\u00e9m de governos, terem a capacidade de derrubar regimes.<\/p>\n<p>Que fique bem claro: n\u00e3o estamos, com tais premissas, tentando propor apenas mais radicaliza\u00e7\u00e3o. Entendemos, sim, que movimentos sociais, por si, muito pouco podem obter de conclusivo no mundo de hoje por absoluta incapacidade deliberativa. A n\u00e3o ser que consigam uma ruptura ideol\u00f3gica no bojo das For\u00e7as Armadas, pelo que podem partir para uma total desconstru\u00e7\u00e3o do regime vigente, \u00e9 dentro da luta institucional que conseguir\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es capazes de assegurar transforma\u00e7\u00f5es mais profundas.<\/p>\n<p>E nesse contexto \u00e9 que devemos propor a an\u00e1lise de perdas e ganhos dos processos, sabendo identificar as caracter\u00edsticas espec\u00edficas de cada um deles, e admitindo que, em determinadas circunst\u00e2ncias, somos obrigados a nos localizar no &#8220;menos pior&#8221;, para a solu\u00e7\u00e3o de conflitos, mesmo que isso nos desagrade. Quem tem tradi\u00e7\u00e3o na luta democr\u00e1tica como determinante na busca estrat\u00e9gica do socialismo, n\u00e3o tem problemas de afirmar que a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 hegemonia imperialista pode ser o determinante. E \u00e9 isto por exemplo que est\u00e1 em jogo na diferen\u00e7a de tratamento que devemos dar aos casos da L\u00edbia e da S\u00edria, hoje transformados em alvos principais, depois que os ataques e amea\u00e7as ao Ir\u00e3 resultaram em absolutamente nada.<\/p>\n<p>Todos louvamos a independ\u00eancia do governo brasileiro com respeito ao governo Ahmadinejad, enquanto o Departamento de Estado americano, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e todas as for\u00e7as reacion\u00e1rias do mundo \u2013 as mesmas que n\u00e3o se vexam em tratar o sionismo xen\u00f3fobo de Israel como v\u00edtima do &#8220;terrorismo&#8221; palestino \u2013 se empenhavam em garantir a sobreviv\u00eancia de uma oposi\u00e7\u00e3o laica, por\u00e9m pr\u00f3-imperialista e at\u00e9 saudosa da ditadura Pahlevi. Por que agora parte da esquerda n\u00e3o se manifesta diante da flagrante omiss\u00e3o do governo de Dilma diante das assumidas pretens\u00f5es intervencionistas das pot\u00eancias ocidentais na L\u00edbia e na S\u00edria? Pior que isso: n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil encontrar quem ache que o Brasil deveria, a exemplo das pot\u00eancias imperialistas, romper imediatamente rela\u00e7\u00f5es com o governo s\u00edrio!<\/p>\n<p>Ahmadinejad era algum modelo de revolucion\u00e1rio que nos pudesse servir de exemplo? Nem de perto. Mas era alvo do imperialismo exatamente por n\u00e3o compor com o governo israelense. Agora, diante do fracasso da investida inicial, ningu\u00e9m fala mais do perigo nuclear no Ir\u00e3, e as baterias se voltam para outros alvos &#8211; Kadafi, na L\u00edbia, e Bashar Al-Assad, na S\u00edria. Principalmente este \u00faltimo, por conta do empenho da quadrilha familiar que se apropriou da Ar\u00e1bia Saudita \u2013 a monarquia Saud, s\u00f3cios hist\u00f3ricos do complexo industrial-militar-petrol\u00edfero ianque. A partir da Ar\u00e1bia Saudita, a elite econ\u00f4mica sunita, inimiga dos alauitas, minoria popular a qual pertence Assad, \u00e9 armada e estimulada \u00e0 viol\u00eancia contra o regime s\u00edrio, que, a bem da verdade, responde na mesma moeda.<\/p>\n<p>E como se comportam agora os mesmos que n\u00e3o tiveram problemas na defesa de Ahmadinejad? Inverteram o rumo para o sentido oposto, e se somaram \u00e0quela parte da intelectualidade socialdemocrata europ\u00e9ia; a mesma que embarcou no apoio ao car\u00e1ter &#8220;humanista&#8221; da interven\u00e7\u00e3o da OTAN nos B\u00e1lc\u00e3s, cujas sequelas tr\u00e1gicas est\u00e3o at\u00e9 hoje alimentando a viol\u00eancia naquela regi\u00e3o. Embarcam, in extremis, no apoio aos bombardeios sobre Tripoli e n\u00e3o se questionam sobre que tipo de opositores se levanta contra o hoje decr\u00e9pito Kadafi e Al-Assad. D\u00e3o toda credibilidade \u00e0quela verdadeira quadrilha que caracteriza o comando rebelde de Benghazi, ou aos mercen\u00e1rios provocadores sunitas, armados e financiados pelos sauditas.<\/p>\n<p>Pois deveriam ler o documento do Partido Comunista S\u00edrio, opositor pela esquerda ao governo s\u00edrio, mas que n\u00e3o se mistura com a parte da oposi\u00e7\u00e3o manipulada pelo exterior e que recebe toda a cobertura para qualquer informa\u00e7\u00e3o que &#8220;uma fonte n\u00e3o identific\u00e1vel&#8221; fornece sobre massacrantes ataques das for\u00e7as leais ao governo.<\/p>\n<p>Em ambos os casos estabelece-se a quest\u00e3o: a esquerda revolucion\u00e1ria mundial ganha ou perde com a vit\u00f3ria das interven\u00e7\u00f5es &#8220;humanit\u00e1rias&#8221; agora localizadas na L\u00edbia e em parte m\u00ednima da S\u00edria? Quem se beneficiar\u00e1 com a queda dos dois ditadores \u2013 tais como s\u00e3o qualificados Kadafi e Assad pelas ditaduras do capital neoliberal ocidental?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a quest\u00e3o a responder pelas esquerdas racionais, conscientes de suas limita\u00e7\u00f5es e das possibilidades de avan\u00e7o real na conjuntura presente do norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio. Que eixo-referencial deve nos orientar? Aquele que obriga esses regimes a reformas que impe\u00e7am o avan\u00e7o do neoliberalismo, consciente do enfraquecimento desses pa\u00edses diante do fim da polaridade EUA-URSS? Ou a submiss\u00e3o a conceitos virtuais de uma democracia liberal, na verdade traduzidos em recoloniza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita desses territ\u00f3rios, atrav\u00e9s de beleguins locais?<\/p>\n<p>Mais cedo ou mais tarde, a hist\u00f3ria cobra sua conta. O absurdo apoio \u00e0s &#8220;reformas&#8221; de Gorbachev na URSS, que culminaram na restaura\u00e7\u00e3o capitalista controlada pela m\u00e1fia pr\u00f3-Washington, ou a entusiasmada defesa em torno da &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; que culminou com a unifica\u00e7\u00e3o das alemanhas em uma \u00fanica pot\u00eancia capitalista, deveria servir de li\u00e7\u00e3o \u00e0queles que ora outorgam sua solidariedade aos mercen\u00e1rios de Benghazi. Isso porque, tanto na L\u00edbia quanto na Siria, \u00e9 isso o que est\u00e1 em jogo. Existe uma oposi\u00e7\u00e3o progressista, pequena e d\u00e9bil, e outra que se consolida no apoio externo, na interven\u00e7\u00e3o direta \u2013 por financiamento econ\u00f4mico e militar. Misturar as duas, para se identificar com a segunda, \u00e9 o que n\u00e3o podemos fazer. E isto, lamentavelmente, \u00e9 o que parece prevalecer em certas correntes que t\u00eam por h\u00e1bito superestimar avalia\u00e7\u00f5es, a despeito de todas as frustra\u00e7\u00f5es que j\u00e1 constataram.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, para a esquerda racional, de se identificar com Kadafi, Assad ou Ahmadinejad. Mas trata-se, isso sim, de n\u00e3o permitir ao imperialismo ianque e seus ac\u00f3litos conservadores da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia de recuperarem o terreno que perderam nas interven\u00e7\u00f5es criminosas do Afeganist\u00e3o e do Iraque.<\/p>\n<p>Mas por for\u00e7a da limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os: o que, ent\u00e3o, a esquerda socialista e democr\u00e1tica deve tirar de todas essas experi\u00eancias que n\u00e3o s\u00e3o, na forma, sequer originais e nem as mais profundas?<\/p>\n<p>Antes de tudo, a conclus\u00e3o de que, no mundo atual, mais que tudo h\u00e1 que se lutar pela garantia de melhores condi\u00e7\u00f5es para a luta de massas. Isso passa pela organiza\u00e7\u00e3o de instrumentos pol\u00edticos \u00e0 servi\u00e7o das transforma\u00e7\u00f5es, profundamente comprometidos com as causas democr\u00e1ticas e orientados por uma estrat\u00e9gia de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo \u2013 precisamente o que tem faltado, por exemplo, aos jovens indignados da Europa. Para isso, criar condi\u00e7\u00f5es para a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os nas institui\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas que pretendemos desconstruir \u00e9 um elemento decisivo. Ou seja; n\u00e3o ter medo de ampliar as for\u00e7as para dentro do campo do inimigo (qual o efeito, por exemplo, da exist\u00eancia de uma frente pol\u00edtica com influ\u00eancia de massas na Tun\u00edsia diante dos processos que l\u00e1 tiveram sua origem?). Nessa batalha tamb\u00e9m podem ser forjadas opera\u00e7\u00f5es deliberativas eficazes, em forma de lei, para combater as pr\u00f3prias leis. Diante disso, h\u00e1 os que dir\u00e3o &#8220;Ah&#8230;mas n\u00e3o temos for\u00e7as para isso. A direita sempre dominar\u00e1 as famigeradas institui\u00e7\u00f5es republicanas&#8221;. Sempre, n\u00e3o. As contradi\u00e7\u00f5es entre eles j\u00e1 nos levam, no Brasil, a visualizar a possibilidade concreta de p\u00f4r fim, por exemplo, ao financiamento privado de campanhas eleitorais, com o que as possibilidades dos socialistas se alteram para melhor. E se n\u00e3o tivermos for\u00e7as para aumentar a representa\u00e7\u00e3o parlamentar, muito menos teremos para nos impor por vias alternativas mais significativas quando as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e conjunturais assim o exigirem. Esse talvez seja um dos grandes ensinamentos das revoltas no Magreb e Oriente M\u00e9dio: advogar por um ac\u00famulo de for\u00e7as que gere condi\u00e7\u00f5es para as mudan\u00e7as que defendemos \u00e9 muito mais eficaz que comemorar qualquer centelha que, longe das condi\u00e7\u00f5es adequadas, jamais poder\u00e1 incendiar a pradaria.<\/p>\n<p>*<em><strong>Milton Temer<\/strong><\/em>, jornalista e ex-deputado federal, e <em><strong>Juliano Medeiros<\/strong><\/em>, editor do site internacionalista Unam\u00e9rica e ex-dirigente da UNE, s\u00e3o membros do Diret\u00f3rio Nacional do PSOL.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.socialismo.org.br\/portal\/internacional\/38-artigo\/2195-magreb-oriente-medio-e-a-esquerda-brasileira\"><em><strong>*Fonte: Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos <\/strong><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Milton Temer e Juliano Medeiros Passados seis meses da derrubada das ditaduras Ben Ali e Mubarak na Tun\u00edsia e no Egito, que balan\u00e7o podemos fazer dos epis\u00f3dios considerados por parte da esquerda \u2013 aquela j\u00e1 habituada a ver crises revolucion\u00e1rias onde existem limitadas crises sociais \u2013 importantes processos de revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas? 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