{"id":475,"date":"2011-09-09T00:00:00","date_gmt":"2011-09-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2011\/09\/09\/notas-sobre-libia-o-imperialismo-e-a-revolucao-arabe\/"},"modified":"2011-09-09T00:00:00","modified_gmt":"2011-09-09T00:00:00","slug":"notas-sobre-libia-o-imperialismo-e-a-revolucao-arabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/notas-sobre-libia-o-imperialismo-e-a-revolucao-arabe\/","title":{"rendered":"Notas sobre L\u00edbia, o imperialismo e a revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/psolinternacional.org\/2011\/notas-sobre-libia-o-imperialismo-e-a-revolucao-arabe\/\"><em><strong><a rel=\"attachment wp-att-10736\" href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2011\/09\/09\/notas-sobre-libia-o-imperialismo-e-a-revolucao-arabe\/charge-obama-oil1a\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10736\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2011\/09\/charge-obama-oil1a.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"316\" \/><\/a>*Por Pedro Fuentes<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p>Os combatentes rebeldes l\u00edbios, j\u00e1 apoiados por uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o de Tr\u00edpoli, est\u00e3o acabando com os \u00faltimos focos de resist\u00eancia de Gaddafi. Trata-se de um novo triunfo, mais um da revolu\u00e7\u00e3o que se desenvolveu no mundo \u00e1rabe a partir do come\u00e7o do ano e que seguramente se estender\u00e1 a S\u00edria, I\u00eamen, Marrocos, Arg\u00e9lia. Nosso partido n\u00e3o pode se confundir de maneira nenhuma dando apoio \u2013 mesmo que cr\u00edtico \u2013 a Gaddafi ou Bashar al Asad. N\u00f3s, que defendemos as bandeiras do \u201csocialismo e da liberdade\u201d ficar\u00edamos do lado oposto \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, que est\u00e3o comovendo o mundo e a domina\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o na L\u00edbia, por ser o processo mais complexo da regi\u00e3o abriu uma s\u00e9rie de questionamentos. Sete semanas ap\u00f3s seu come\u00e7o e quando as tropas de Gaddafi amea\u00e7avam Bengazi, a OTAN interveio com seus bombardeios a\u00e9reos. \u00c9 a partir da\u00ed que surgem d\u00favidas em muitos lutadores e que setores da esquerda tamb\u00e9m planteiem que o que ocorre \u00e9 um triunfo do imperialismo. Trata-se de um debate muito importante. Se aceitarmos esse racioc\u00ednio o que estaria acontecendo \u00e9 que na regi\u00e3o \u00e1rabe \u00e9 que na regi\u00e3o \u00e1rabe se iniciou uma contra-revolu\u00e7\u00e3o que vence una L\u00edbia. Sob a id\u00e9ia de uma luta contra o imperialismo estar\u00edamos justificando as matan\u00e7as de Gaddafi e de Bashar al Asad de milhares de lutadores. Esse mesmo racioc\u00ednio levaria a pensar que definitivamente o que houve no mundo \u00e1rabe foi revoltas que terminaram controladas pelo imperialismo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a L\u00edbia \u00e9 um pa\u00eds cobi\u00e7ado por sua riqueza petroleira e por causa dela os perigos da inger\u00eancia imperialista existem. Mas, o mais importante e determinante da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o velho regime est\u00e1 sendo derrubado; esse \u00e9 o triunfo do povo l\u00edbio e da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e1rabe que deu um novo passo adiante.<\/p>\n<p><em><strong>O Levante Popular na L\u00edbia e a Guerra Civil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias iniciadas na L\u00edbia em 16 de fevereiro em Bengazi e que logo se propagaram a varias cidades chegando \u00e0 Tr\u00edpoli sob o lema \u201cFora Gaddafi\u201d, foram um feito previs\u00edvel. A L\u00edbia se encontra geograficamente entre Tun\u00edsia e Egito, os dois pa\u00edses que, nessa data j\u00e1 haviam instalado revolu\u00e7\u00f5es populares. Gaddafi n\u00e3o era muito diferente de Ben Al\u00ed e Mubarak; Conduzia tamb\u00e9m um regime autocr\u00e1tico no qual n\u00e3o cabiam mais partid\u00e1rios que os de sua fam\u00edlia e se mantinha com o controle por meio da repress\u00e3o. Com o levante revolucion\u00e1rio que encabe\u00e7ou em 1969, a L\u00edbia se converteu em um pa\u00eds independente. Mas, como j\u00e1 aconteceu muitas vezes na hist\u00f3ria, o governo nacionalista foi se degenerando para culminar em 2000 com um forte acordo com o imperialismo. Os abra\u00e7os com Tony Blair, Berlusconi e, mais recentemente a pr\u00f3pria Hillary Clinton, selaram a abertura da riqueza petroleira para as empresas estrangeiras. ENI da It\u00e1lia, Winterstal da Alemanha, Total da Fran\u00e7a, Marathon e Philips dos EUA obtiveram grande parte do petr\u00f3leo l\u00edbio. Esses abra\u00e7os foram mais estreitos quando Gaddafi tomou partido na \u201cGuerra contra o Terror\u201d de Bush a partir da qual se justificaram as invas\u00f5es do Iraque e Afeganist\u00e3o. Gaddafi assumiu uma posi\u00e7\u00e3o ativa de persegui\u00e7\u00e3o do islamismo e uns dos principais suportes da pol\u00edtica imperialista em toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O levante popular foi protagonizado pelo povo, com os jovens da vanguarda, da mesma forma que sucedeu em outros pa\u00edses. Bengazi, uma zona tradicionalmente opositora, se transformou no centro da revolu\u00e7\u00e3o e as mobiliza\u00e7\u00f5es se estenderam para numerosas cidades alcan\u00e7ando Tr\u00edpoli alguns dias depois.\u00a0 Jamal Jaber, militante liban\u00eas que esteve em Bengazi enviado pela revista trotskista Inprecor relata, em um recente artigo sua experi\u00eancia em Bengazi. Ele fala de uma \u201ctotal liberdade de express\u00e3o e uma vida associativa intensa.\u201d Destaca como impactante a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas atividades da Pra\u00e7a da Liberdade, rebatizada com esse nome (era Pra\u00e7a dos Tribunais). Ele disse que pode constatar uma quantidade de demandas exigindo a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, assim como uma participa\u00e7\u00e3o muito grande de jovens. Relata que na pra\u00e7a havia um grande cartaz que dizia \u201cPor uma L\u00edbia unida contra a divis\u00e3o\u201d e algumas fotos do Che e de Bob Marley entre os jovens muito ativos. Um grande cartaz dizia \u201cPalestina e L\u00edbia: revolu\u00e7\u00e3o para a na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe\u201d. Tivemos a possibilidade de estar na Pra\u00e7a Tarhir do Egito o una Boulevard Borguiba de T\u00fanis, podemos compreender que era algo muito similar com o que se passava no pa\u00eds.<br \/>\n<em><strong><br \/>\n\u201cEsmagar os revolucion\u00e1rios como ratos\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A diferen\u00e7a com essas revolu\u00e7\u00f5es \u00e9 que na L\u00edbia o regime n\u00e3o caiu, Gaddafi resistiu \u00e0s primeiras grandes investidas populares e lan\u00e7ou uma brutal repress\u00e3o. Seif Al Islam, seu filho e sucessor, graduado em Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais em Londres, ocupou a televis\u00e3o para afirmar de forma amea\u00e7adora que estavam dispostos a usar toda a for\u00e7a militar para esmag\u00e1-los como camundongos. E assim o foi. Apesar da deser\u00e7\u00e3o de alguns l\u00edderes e ministros, Gaddafi manteve o controle do ex\u00e9rcito para lan\u00e7\u00e1-lo brutalmente contra o povo mobilizado nas ruas. A repress\u00e3o sanguin\u00e1ria custou milhares de mortes. O povo n\u00e3o se assustou e se armou gra\u00e7as ao assalto a delegacias e quart\u00e9is e com isso, a revolu\u00e7\u00e3o deu um passo para transformar-se em um enfrentamento armado desigual. Em um primeiro momento as mil\u00edcias que foram conformando o ex\u00e9rcito rebelde conseguiram avan\u00e7ar sobre cidades importantes e com ele surgiu a Autoridade Provis\u00f3ria que agora passou a se chamar CNT (Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o). Esse ex\u00e9rcito n\u00e3o-profissional foi o resultado de uma ampla frente anti-Gaddafi formada pelos jovens volunt\u00e1rios que surgiram nas pra\u00e7as, militantes do islamismo agrupados na Irmandade Mu\u00e7ulmana, setores democr\u00e1ticos de classe m\u00e9dia, entre eles muitos profissionais, e setores burgueses que se localizam em Bengazi. H\u00e1, inclusive, militantes isl\u00e2micos radicais que t\u00eam conex\u00f5es com a Al Qaeda.<\/p>\n<p>Sua prepara\u00e7\u00e3o improvisada e seu plano militar espontaneista e ca\u00f3tico tornou poss\u00edvel que Gaddafi, com base nos bombardeios de sua avia\u00e7\u00e3o e seu ex\u00e9rcito profissional recuperasse terreno e lan\u00e7asse uma ofensiva brutal e sanguin\u00e1ria que imp\u00f4s um cerco amea\u00e7ador sobre Bengazi.<br \/>\n<em><strong><br \/>\nA interven\u00e7\u00e3o da OTAN<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A OTAN interveio quando se preparava um banho de sangue exemplar em Bengazi para terminar com a revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o seria a primeira vez que Gaddafi lan\u00e7aria uma repress\u00e3o violenta sobre esta cidade: o fez em 1984 contra um levante popular da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 de se destacar que o imperialismo deixou a ofensiva de Gaddafi correr durante todo esse tempo. Os rebeldes pediam armas, que os pa\u00edses ocidentais se negavam a dar sob o pretexto de n\u00e3o armar os isl\u00e2micos vinculados \u00e0 Al Qaeda. Os rebeldes tamb\u00e9m pediram o fechamento do espa\u00e7o a\u00e9reo no in\u00edcio de mar\u00e7o e a Liga \u00c1rabe fez o mesmo em 6 de mar\u00e7o. A ONU aprovou sua resolu\u00e7\u00e3o no dia 17 do mesmo m\u00eas e sua interven\u00e7\u00e3o come\u00e7ou v\u00e1rios dias depois. Dessa maneira, as Na\u00e7\u00f5es Unidas intervieram quando a revolu\u00e7\u00e3o estava debilitada, e para evitar que aparecessem como c\u00famplices da matan\u00e7a aos olhos da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial. Os rebeldes apelaram aos \u00fanicos que podiam apelar para defender sua revolu\u00e7\u00e3o e Bengazi. Estavam entre a cruz e a espada, morrer como ratos ou salvarem-se por meio dos bombardeios da OTAN. Como escreveu Gilbert Acchar em seus artigos publicados no Inprecor, nesta situa\u00e7\u00e3o era l\u00edcito fazer um pacto com o diabo.<\/p>\n<p>No j\u00e1 citado artigo de Jamal Jaber, ele tamb\u00e9m conta que, \u201ca maioria dos insurgentes que entrevistou em Bengazi, sobretudo os jovens, continuam pensando que a interven\u00e7\u00e3o da OTAN \u00e9 necess\u00e1ria para acabar com o que resta do regime de Gaddafi e estender a autoridade do CNT (Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o) sobre o conjunto do territ\u00f3rio. Mas que se trata de um acordo de curto prazo\u201d. \u201cQuando eu frisei que se tratava de uma quest\u00e3o perigosa, eles me responderam que n\u00e3o era mais de uma converg\u00eancia de interesses em curto prazo, e que eles, (os imperialistas) n\u00e3o teriam mais vantagens sobre o petr\u00f3leo das que Gaddafi j\u00e1 havia acordado\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia que apesar da heterogeneidade, esta frente anti-Gaddafii nunca pediu soldados em terra. E n\u00e3o \u00e9 por coincid\u00eancia que um dos cartazes mais significativos na Pra\u00e7a da Liberdade dissesse \u201cN\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o estrangeira sobre o nosso solo\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, era e \u00e9 um erro pensar que a partir dos bombardeios os rebeldes se transformaram em uma pe\u00e7a do imperialismo. Dessa maneira perde-se de vista o conjunto da revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe e da L\u00edbia como parte dessa revolu\u00e7\u00e3o, bem como as grandes diferen\u00e7as que essa a\u00e7\u00e3o militar possui em rela\u00e7\u00e3o a outras levadas a cabo pelo imperialismo. O imperialismo \u00e9 sempre um inimigo, evidentemente, e at\u00e9 que as massas o derrotem no mundo, s\u00e3o o principal inimigo no sistema capitalista. Mas h\u00e1 que se fazer uma an\u00e1lise concreta da situa\u00e7\u00e3o em que atua; nem todas suas interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o iguais e t\u00eam a mesma for\u00e7a.<\/p>\n<p><em><strong>Porque a L\u00edbia n\u00e3o \u00e9 o Iraque<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia \u00e9 muito diferente das guerras de Bush e Rumsfeld no Afeganist\u00e3o e no Iraque em importantes aspectos. Iraque e Afeganist\u00e3o foram guerras de conquista territorial com objetivos colonialistas, nas quais os bombardeios altamente destrutivos tinham como finalidade facilitar a ocupa\u00e7\u00e3o militar dos territ\u00f3rios. Ademais, nesses pa\u00edses havia no poder governos autocr\u00e1ticos que tinham controle total sobre o regime. Na L\u00edbia, a interven\u00e7\u00e3o ocorre quando h\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o em curso e depois que se deram mal nas guerras de conquistas que mencion\u00e1vamos. \u00c9 uma opini\u00e3o geral que no Iraque n\u00e3o conseguiram implementar seus objetivos e tiveram mais perdas que ganhos, por isso est\u00e3o se retirando, e que o Afeganist\u00e3o vai pelo mesmo caminho.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 agora n\u00e3o foi posto na L\u00edbia nenhum soldado em terra e n\u00e3o se encarou como uma guerra de conquista, se deve \u00e0 luta das massas l\u00edbias, das massas \u00e1rabes e das derrotas sofridas no Iraque e Afeganist\u00e3o. Isto n\u00e3o quer dizer que na nova situa\u00e7\u00e3o \u2013 como logo veremos \u2013 n\u00e3o se tente como em muitos outros pa\u00edses desembarcar uma tropa de paz sob o pretexto de conter a anarquia e as mortes. Mas \u00e9 totalmente diferente de uma ocupa\u00e7\u00e3o militar. Esta pol\u00edtica distinta se expressa tamb\u00e9m no fato de que pela primeira vez a a\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o foi encabe\u00e7ada pelos EUA e sim pela Fran\u00e7a. As diferen\u00e7as entre o n\u00famero de avi\u00f5es e de bombardeios entre essas guerras, e mesmo a do Kosovo, com a L\u00edbia \u00e9 muito grande. (Na \u201ctempestade no deserto\u201d em 11 dias no Iraque foram feitas 2.555 incurs\u00f5es por dia, no Kosovo os aliados usaram 1.100 avi\u00f5es e realizaram em 78 dias 38 mil incurs\u00f5es, na L\u00edbia foram 250 avi\u00f5es que efetuaram em 124 dias 11 mil, ou seja, 57 incurs\u00f5es por dia).<\/p>\n<p>Em um artigo de opini\u00e3o no jornal ingl\u00eas The Guardian, Mohamed Salem escreveu: \u201cSe nos disserem que a L\u00edbia est\u00e1 destinada a ir pelo caminho do caos e da fragmenta\u00e7\u00e3o. Que a L\u00edbia ser\u00e1 outro Iraque ou Afeganist\u00e3o. Se enganam, porque o cen\u00e1rio p\u00f3s conflito \u00e9 diferente destes exemplos onde a interven\u00e7\u00e3o militar teve fracassos cruciais. Na verdade, se estuda os acontecimentos, L\u00edbia est\u00e1 a ponto de ser o mais completo e com mais possibilidade \u00eaxito da maioria dos levantes \u00e1rabes\u201d.<\/p>\n<p>E de fato isto pode ser dessa forma. Porque no Egito e Tun\u00edsia a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica terminou com o regime autocr\u00e1tico, mas n\u00e3o com todas as institui\u00e7\u00f5es dele; ficaram o ex\u00e9rcito, a pol\u00edcia e a justi\u00e7a e sobre estas a burguesia tenta \u2013 e pode talvez conseguir \u2013 conter e amortecer o processo para que n\u00e3o se aprofunde. Na L\u00edbia a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. O regime est\u00e1 totalmente desfeito, uma grande do povo est\u00e1 armado, e por isso mesmo existem as condi\u00e7\u00f5es para que o processo democr\u00e1tico popular revolucion\u00e1rio avance com novas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o por coincid\u00eancia a pol\u00edtica do imperialismo foi a de tentar at\u00e9 o \u00faltimo momento uma negocia\u00e7\u00e3o com Gaddafi para que isso n\u00e3o ocorresse. Antes e durante os bombardeios se negociava um plano de divis\u00e3o do pa\u00eds, com os rebeldes controlando o Oriente com a capital em Bengazi e o ocidente com Gaddafi, ou um sucessor, com capital em Tr\u00edpoli. Recordemos que a resolu\u00e7\u00e3o da OTAN e as declara\u00e7\u00f5es dos l\u00edderes ocidentais sempre foram muito cuidadosas sobre o que fazer com Gaddafi.<\/p>\n<p>Se a divis\u00e3o da L\u00edbia n\u00e3o ocorreu foi pela luta dos rebeldes e em particular pela her\u00f3ica resist\u00eancia que fizeram em Misrata, cidade localizada a oeste na zona controlada por Gaddafi. Os habitantes desta cidade ag\u00fcentaram dois meses de ataques de Gaddafi. \u201cJogaram-nos de tudo, at\u00e9 m\u00edsseis Grad. Tamb\u00e9m nos atacaram pelos lados. Eles t\u00eam melhores armas e mais meios, inclusive instrumentos de vis\u00e3o noturna\u201d, contava um morador ao di\u00e1rio El Pais, da Espanha. Esse cerco a Misrata foi pouco repelido pela OTAN, que deixou Gaddafi livre. Foi a her\u00f3ica resist\u00eancia dos rebeldes que conseguiu rompe-lo. E s\u00e3o estes combatentes de Misrata que agora cumprem um papel fundamental para a tomada de Tr\u00edpoli e a marcha at\u00e9 Sirte. Foi assim que o processo revolucion\u00e1rio avan\u00e7ou e evitou a divis\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A nova situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 perfeitamente sintetizada na nota de Mohamed Salem que citamos: \u201cL\u00edbia est\u00e1 a ponto de ser o mais completo e com mais possibilidade de \u00eaxito da maioria dos levantes \u00e1rabes\u201d, ou seja, est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es para avan\u00e7ar at\u00e9 um regime novo, uma assembl\u00e9ia constituinte que reconstrua o pa\u00eds sobre outras bases democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><em><strong>Impedir a pol\u00edtica de controle do imperialismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Derrotado Gaddafi o povo tem a grande tarefa de reconstruir o pa\u00eds sobre bases democr\u00e1ticas e independentes. A partir da queda do ditador a frente anti-Gaddafi vai separar-se entre aqueles setores mais vinculados com o imperialismo e os mais aut\u00eanticos representantes da revolu\u00e7\u00e3o l\u00edbia. A nova quest\u00e3o que se coloca \u00e9 impedir as tentativas do imperialismo que, em retrocesso em toda a regi\u00e3o, pretende recuperar algum peso pol\u00edtico a partir de L\u00edbia e ficar com o petr\u00f3leo desse pa\u00eds. A tarefa a partir deste novo momento \u00e9 a de solidariedade com o povo l\u00edbio para impedir a pol\u00edtica colonialista que come\u00e7ar\u00e1 sobre a base de ajudar a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O que L\u00edbia precisar\u00e1 \u00e9 ajuda humanit\u00e1ria solid\u00e1ria e n\u00e3o a presen\u00e7a de miss\u00f5es da ONU, que sob o pretexto da pacifica\u00e7\u00e3o, pretender\u00e3o p\u00f4r o p\u00e9 do imperialismo no pa\u00eds.<\/p>\n<p><em><strong>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe golpeou o imperialismo na regi\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe, ou apesar dela para aqueles que defendem Gaddafi, virou de cabe\u00e7a para baixo o esquema de domina\u00e7\u00e3o imperialista na regi\u00e3o, que se sustentava com o apoio das ditaduras \u00e1rabes \u2013 excetuando a S\u00edria \u2013 \u00e0 pol\u00edtica dos EUA no conflito entre a Palestina e Israel. Com a queda de Mubarak no Egito todo arranjo imperial mudou. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe teve conseq\u00fc\u00eancias diretas at\u00e9 mesmo em Israel, onde come\u00e7aram mobiliza\u00e7\u00f5es de indignados reunindo mais de trezentas mil pessoas. O imperialismo est\u00e1 correndo atr\u00e1s, na defensiva, em um processo revolucion\u00e1rio que, como assinalava o cartaz na pra\u00e7a de Bengazi, tem fortes elementos antiimperialistas, \u201cPalestina e L\u00edbia: revolu\u00e7\u00e3o para a na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe\u201d. Temos visto a bandeira palestina em todas as manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas na regi\u00e3o; o recha\u00e7o \u00e0 pol\u00edtica dos ditadores e o apoio \u00e0 causa palestina s\u00e3o componentes importantes da revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe. As ditaduras est\u00e3o caindo pelas suas pol\u00edticas econ\u00f4micas e seu regime opressor, mas tamb\u00e9m porque s\u00e3o vistas como os agentes traidores no mundo \u00e1rabe da luta do povo da Palestina.<\/p>\n<p>Uma pesquisa de um importante instituto dos EUA sobre o prestigio do governo dos EUA na regi\u00e3o, que se faz anualmente a 4 mil pessoas em seis pa\u00edses \u00e1rabes (Marrocos, Egito, L\u00edbano, Jord\u00e2nia, Ar\u00e1bia Saudita e os Emirados \u00c1rabes Unidos), mostra a queda impressionante que teve o governo Obama em 2011, o ano da revolu\u00e7\u00e3o. O informe diz que \u201cQuando Obama fez o pacto na Universidade do Cairo em 2009, h\u00e1 100 dias no cargo, a aprova\u00e7\u00e3o dos EUA passou de 9% em 2008 (era Bush) para 30%, mas agora caiu para 5% na pesquisa desse ano\u201d. \u201cNo Marrocos, por exemplo, as atitudes positivas fizeram os Estados Unidos passar de 26% em 2008 a um pico de 55% em 2009 e hoje em dia caiu a 12%\u201d. O informe conclui dizendo que \u201ceste \u00e9 um balde de \u00e1gua fria sobre as ilus\u00f5es de alguns analistas nos EUA e em Israel, que queriam imaginar que, no contexto da primavera \u00e1rabe, os \u00e1rabes sentem que o tema palestino n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o central para suas vidas\u201d.<\/p>\n<p>Os perigos para a revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe existem. Nesse rico processo, todavia, n\u00e3o surgiram dire\u00e7\u00f5es antiimperialistas conseq\u00fcentes ou socialistas, nem classistas com peso de massas. Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 culpa das massas destes pa\u00edses, mas sim uma conseq\u00fc\u00eancia que pagamos pelo descr\u00e9dito que tem o socialismo com alternativa real, como decorr\u00eancia da experi\u00eancia do socialismo estalinista que fracassou, e que dominou por d\u00e9cadas, setores importantes do movimento de massas. Mas essa aus\u00eancia n\u00e3o pode servir para desmerecer as grandes a\u00e7\u00f5es que as massas realizaram, e com elas as mudan\u00e7as que est\u00e3o fazendo no mundo e sua pr\u00f3pria aprendizagem que levar\u00e1 mais cedo ou mais tarde \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novas alternativas revolucion\u00e1rias. Nisso temos que apostar. O que fazem \u00e9 muito; est\u00e3o mudando o planeta e por isso vivemos em um mundo mais explosivo desde que os povos \u00e1rabes sa\u00edram \u00e0 luta em janeiro. Estamos em agosto e j\u00e1 tivemos as pra\u00e7as da Espanha e Gr\u00e9cia, a revolta inglesa, as lutas do Chile, as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o na \u00cdndia e as greves do Cazaquist\u00e3o. A insuspeitamente esquerdista revista Forbes assim titulou um recente artigo: \u201cOs conflitos no Reino Unido e a nova guerra de classes mundial\u201d. \u00c9 verdade, a luta de classes voltou e nela temos que apostar para avan\u00e7ar no caminho do socialismo com liberdade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/psolinternacional.org\/2011\/notas-sobre-libia-o-imperialismo-e-a-revolucao-arabe\/\"><em><strong>(*) Pedro Fuentes \u00e9 secret\u00e1rio de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do PSOL<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Pedro Fuentes Os combatentes rebeldes l\u00edbios, j\u00e1 apoiados por uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o de Tr\u00edpoli, est\u00e3o acabando com os \u00faltimos focos de resist\u00eancia de Gaddafi. 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