{"id":529,"date":"2011-12-19T00:00:00","date_gmt":"2011-12-19T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2011\/12\/19\/siria-militarizacao-intervencao-militar-e-ausencia-de-estrategia\/"},"modified":"2011-12-19T00:00:00","modified_gmt":"2011-12-19T00:00:00","slug":"siria-militarizacao-intervencao-militar-e-ausencia-de-estrategia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/siria-militarizacao-intervencao-militar-e-ausencia-de-estrategia\/","title":{"rendered":"S\u00edria: Militariza\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o militar e aus\u00eancia de estrat\u00e9gia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong><a href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2011\/12\/19\/siria-militarizacao-intervencao-militar-e-ausencia-de-estrategia\/stop-bashar\/\" rel=\"attachment wp-att-12794\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-12794\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2011\/12\/stop-bashar-300x236.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"236\" \/><\/a>*Por Gilbert Achcar &#8211; Traduzido por Eduardo d\u00b4Albergaria<\/strong><\/p>\n<p>Fui convidado \u00e0 participar do encontro da oposi\u00e7\u00e3o S\u00edria, que se realizou nos dias 8 e 9 de outubro na Su\u00e9cia, pr\u00f3ximo \u00e0 capital Estocolmo. Um conjunto de ativistas, homens e mulheres, que atuam na S\u00edria e no estrangeiro, se reuniram com personalidades proeminentes do Comit\u00ea de Coordena\u00e7\u00e3o S\u00edrio (que vieram da S\u00edria para a reuni\u00e3o), com a presen\u00e7a do membro mais importante do Conselho Nacional S\u00edrio (CNS), seu presidente, Burhan Ghalioun.<\/p>\n<p>Os organizadores da confer\u00eancia me convidaram para falar sobre o tema da interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira na atual situa\u00e7\u00e3o s\u00edria. Minha palestra foi recebida com interesse e me solicitaram que a escrevesse (eu orientara minha fala apenas por t\u00f3picos escritos). Eu prometi faz\u00ea-lo, mas a agenda tribulada me impediu de cumprir esta promessa at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>Depois veio a onda de eventos dos \u00faltimos dias na cena S\u00edria e a agudiza\u00e7\u00e3o do tom do debate em torno da interven\u00e7\u00e3o militar e da militariza\u00e7\u00e3o da crise, que foram dois temas de minha fala na Su\u00e9cia. Estes desdobramentos me levaram a cumprir minha promessa, antes que fosse tarde demais. Portanto vou desenvolver aqui a an\u00e1lise que expressei na Su\u00e9cia, atualizada com coment\u00e1rios sobre os eventos mais recentes relacionados com o tema.<\/p>\n<p>Minha fala na Confer\u00eancia de outubro foi precedida por uma pergunta feita por um dos participantes a Burhan Ghalioun sobre sua posi\u00e7\u00e3o, ou do CNS, frente aos pedidos de interven\u00e7\u00e3o militar na S\u00edria. Ghalioun respondeu que essa quest\u00e3o n\u00e3o tem sido debatida porque n\u00e3o h\u00e1, no momento,\u00a0 um pa\u00eds que queira intervir militarmente na S\u00edriae que \u201cquando estivermos frente a esta disposi\u00e7\u00e3o, n\u00f3s adotaremos a posi\u00e7\u00e3o adequada\u201d.<\/p>\n<p>Comecei meu discurso salientando que a oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria precisa definir uma posi\u00e7\u00e3o clara sobre a quest\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira, j\u00e1 que esta posi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 grande influ\u00eancia para que esta interven\u00e7\u00e3o ocorra ou n\u00e3o. A relut\u00e2ncia a respeito de uma interven\u00e7\u00e3o direta, que hoje vemos em parte dos pa\u00edses ocidentais e da regi\u00e3o, pode se alterar caso os pedidos de interven\u00e7\u00e3o feitos em nome da oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria aumentem.<\/p>\n<p>Foi o pedido de interven\u00e7\u00e3o militar do Conselho Nacional L\u00edbio, no in\u00edcio de mar\u00e7o, que preparou o caminho para um pedido similar pela Liga \u00c1rabe, e uma resolu\u00e7\u00e3o subsequente do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Se a oposi\u00e7\u00e3o l\u00edbia tivesse se oposto a uma interven\u00e7\u00e3o militar direta, em todas as suas formas (ao inv\u00e9s de uma oposi\u00e7\u00e3o apenas a uma interven\u00e7\u00e3o terrestre e uma solicita\u00e7\u00e3o de apoio a\u00e9reo como fizeram), a Liga \u00c1rabe n\u00e3o haveria buscado uma interven\u00e7\u00e3o e nem essa a\u00e7\u00e3o teria sido sancionada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p><strong>L\u00edbia e os Custos da Interven\u00e7\u00e3o Militar Estrangeira<\/strong><\/p>\n<p>Na minha palestra, levei em conta as li\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia l\u00edbia como algu\u00e9m que participou dos debates sobre esta. Como a imensa maioria do povo \u00e1rabe, expressei minha compreens\u00e3o a partir do fato de que os rebeldes l\u00edbios foram compelidos a apelar pelo apoio estrangeiro para\u00a0 evitar o massacre indiscriminado que poderia ocorrer se as forces de Kadafi dirigissem um ataque contra os redutos da insurrei\u00e7\u00e3o em Bengasi, Misrata e outras \u00e1reas, j\u00e1 que faltavam aos rebeldes meios militares para repelir um ataque como esse naquele momento.<\/p>\n<p>N\u00f3s atribu\u00edmos toda a responsabilidade sobre Kadafi por criar as condi\u00e7\u00f5es da interven\u00e7\u00e3o estrangeira, enquanto advertimos os rebeldes l\u00edbios contra qualquer ilus\u00e3o a cerca das inten\u00e7\u00f5es das for\u00e7as ocidentais que estavam intervindo ostensivamente a seu favor. De fato, a interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira no Estado L\u00edbio se deu com um pre\u00e7o elevado que pode ser resumidos da seguinte forma:<\/p>\n<p>&#8211; O pre\u00e7o pol\u00edtico imediato da interven\u00e7\u00e3o estrangeira foi que ela permitiu a Kadafi se colocar como o representante da soberania nacional e rotular os rebeldes como agentes do imperialismo ocidental. Isto influenciou um segmento da sociedade l\u00edbia, ainda que limitado.<\/p>\n<p>&#8211; O pre\u00e7o pol\u00edtico mais grave foi que as pot\u00eancias interventoras se esfor\u00e7aram para capturar a capacidade de decis\u00e3o dos rebeldes l\u00edbios. Elas n\u00e3o se limitaram a barrar o ataque contra os redutos da insurrei\u00e7\u00e3o e evitar que Kadafi usasse seu poder a\u00e9reo. Foram muito al\u00e9m disso, destruindo a for\u00e7a a\u00e9rea l\u00edbia (os estados ocidentais, especialmente Fran\u00e7a e Inglaterra,\u00a0 est\u00e3o ansiosos para vender armas para a L\u00edbia p\u00f3s-Kadafi), assim como uma parte significativa da infraestrutura e pr\u00e9dios oficiais (os Estados ocidentais, junto com a Turquia, come\u00e7aram a competir pelo mercado da reconstru\u00e7\u00e3o l\u00edbia mesmo antes da queda do regime de Kadafi). As potencias ocidentais se negaram a proporcionar aos rebeldes l\u00edbios as armas que eles haviam urgente e insistentemente requisitado para poder seguir na liberta\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds sem interven\u00e7\u00e3o estrangeira direta. Armas foram enviadas (pelo Qatar e Fran\u00e7a) apenas durante as \u00faltimas etapas da batalha. Estas limitadas introdu\u00e7\u00f5es de armas\u00a0 apressaram a queda do regime de Kadafi, ap\u00f3s um longo impasse em vigor.<\/p>\n<p>&#8211; O objetivo das pot\u00eancias ocidentais era se impor como os agentes principais na guerra contra o regime de Kadafi para poder gui\u00e1-la. Elas queriam desenhar um roteiro para o p\u00f3s-Kadafi e inclusive estabeleceram um comit\u00ea internacional para este prop\u00f3sito. Eles tamb\u00e9m tentaram, por um tempo, chegar a um acordo com a fam\u00edlia Kadafi pelas costas do Comit\u00ea Nacional L\u00edbio. Como resultado, o destino da L\u00edbia estava sendo escrito em Washington, Londres, Paris e Dora, mais do que pela pr\u00f3pria L\u00edbia, antes da liberta\u00e7\u00e3o de Tr\u00edpoli. Sem d\u00favida, a aspira\u00e7\u00e3o dos Estados ocidentais em controlar a situa\u00e7\u00e3o na L\u00edbia depois de kadafi foi extremamente ilus\u00f3ria, exatamente como esper\u00e1vamos. No entanto, isso hoje provocou um grande caos na L\u00edbia, agravado pela intromiss\u00e3o estrangeira, seja ocidental ou regional.<\/p>\n<p><strong>S\u00edria: Entre a L\u00edbia e o Egito<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, a impress\u00e3o que prevalece atualmente \u00e9 de que a interven\u00e7\u00e3o estrangeira impediu a aniquila\u00e7\u00e3o do levante l\u00edbio, que, se tivesse ocorrido, teria acabado com o processo revolucion\u00e1rio por toda a regi\u00e3o \u00e1rabe. A interven\u00e7\u00e3o permitiu que os rebeldes l\u00edbios libertassem seu pa\u00eds das garras de seu brutal ditador com um custo que n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com o pre\u00e7o pago pelos iraquianos na sua liberta\u00e7\u00e3o do regime tir\u00e2nico de Saddam Hussein mediante uma invas\u00e3o estrangeira. A ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque est\u00e1 finalmente chegando ao fim depois de oito miser\u00e1veis anos, durante o curso dos quais o pa\u00eds chegou ao fundo do po\u00e7o e pagou um exorbitante pre\u00e7o material e humano, apenas para encarar um futuro obscuro e amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>O resultado dessa compara\u00e7\u00e3o entre L\u00edbia e Iraque \u00e9 que, enquanto o segundo causou repulsa aos olhos dos s\u00edrios, o exemplo l\u00edbio incitou em muitos o desejo de imit\u00e1-lo. Isso se reflete no aumento de pedidos por interven\u00e7\u00e3o militar internacional depois da liberta\u00e7\u00e3o de Tr\u00edpoli, ao ponto de se convocar um dia de mobiliza\u00e7\u00e3o para o 28 de outubro \u201ca sexta feira da Zona de Exclus\u00e3o A\u00e9rea\u201d.<\/p>\n<p>Se equivoca profundamente quem imagina que o cen\u00e1rio L\u00edbio poderia se repetir na S\u00edria.\u00a0 A oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria deve estar consciente que o custo de permitir uma interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira direta na S\u00edria (diferente de uma interven\u00e7\u00e3o indireta, como o fornecimento de armas) ser\u00e1 muito mais alto do que no caso da L\u00edbia, por diversas raz\u00f5es. A mais importante delas pode ser resumida da seguinte forma:<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o militar na S\u00edria \u00e9 muito diferente da que se verificou na L\u00edbia \u2013 onde os centros urbanos est\u00e3o frequentemente separados por vastas extens\u00f5es de territ\u00f3rio quase des\u00e9rtico. Nessas circunst\u00e2ncias, o poder a\u00e9reo se torna essencial, especialmente porque as \u00e1reas controladas pelos rebeldes l\u00edbios praticamente n\u00e3o tinham apoiadores do regime. Assim, Kadafi recorreu ao poder a\u00e9reo na sua ofensiva contrarrevolucion\u00e1ria, e o apoio a\u00e9reo estrangeiro foi, portanto, muito efetivo para proteger as \u00e1reas rebeldes e limitar o movimento das for\u00e7as do regime fora dos territ\u00f3rios habitados, tudo isso com um custo relativamente limitado de vidas civis. De outra forma, a densidade da popula\u00e7\u00e3o S\u00edria \u00e9 muito maior do que na L\u00edbia, e os apoiadores e opositores ao regime est\u00e3o muito mais misturados. O que impede o regime s\u00edrio de fazer vasto uso de ataques a\u00e9reos. Portanto, uma zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea sobre a S\u00edria teria consequ\u00eancias muito limitadas se permanecesse como zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea num sentido mais estrito, ou teria consequ\u00eancias devastadoras, com mortes e destrui\u00e7\u00e3o, se adotasse a forma de uma guerra a\u00e9rea total, como aconteceu na L\u00edbia.\u00a0 J\u00e1 que as capacidades defensivas do ex\u00e9rcito s\u00edrio s\u00e3o muito mais significativas do que as das for\u00e7as de Kadafi, a escala e intensidade dos combates seria muito maior na S\u00edria, sem mencionar que o regime s\u00edrio n\u00e3o est\u00e1 isolado como estava Kadafi e que uma interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira na S\u00edria iria inflamar toda a regi\u00e3o, que nada mais \u00e9 do que um barril de p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>Nenhuma cidade s\u00edria enfrenta atualmente o per\u00edgo de um massacre de grande escala como ocorreu em Bengasi. Nem mesmo pode-se comparar com a situa\u00e7\u00e3o da cidade s\u00edria de Hama em 1982, quando o regime de Assad p\u00f4de isola-la do resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A for\u00e7a do levante s\u00edrio se localiza na ampla extens\u00e3o que ela adquiriu, e no fato de que os rebeldes n\u00e3o cometeram o equivoco de pegar em armas, que, se tivesse acontecido, teria debilitado o momento do levante popular e teria permitido ao regime elimina-lo mais facilmente.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, as formas de luta invocadas pelos rebeldes s\u00edrios, como os protestos noturnos e as manifesta\u00e7\u00f5es das sextas-feiras (n\u00e3o por raz\u00f5es religiosas, mas porque as sextas-feiras s\u00e3o dias de folga oficiais e \u00e9 dif\u00edcil para o regime impedir que as pessoas se re\u00fanam em mesquitas), evitam que a maioria dos participantes fique exposta. Esta forma de protesto, no estilo guerrilheiro, \u00e9 o m\u00e9todo adequado quando um levante popular enfrenta uma repress\u00e3o brutal por parte de uma for\u00e7a militar opressiva.<\/p>\n<p>Diferente do regime caricaturesco de Kadafi, que anos atr\u00e1s se voltou para estabelecer uma forte coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de seguran\u00e7a e intelig\u00eancia com diversos Estados ocidentais, o regime s\u00edrio, aos olhos dos Estados Unidos, ainda \u00e9 um obst\u00e1culo aos seus projetos na regi\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 aliado do Iran e do Hezbollah e d\u00e1 suporte a uma gama de for\u00e7as palestinas que se op\u00f5em \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o patrocinada pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Reconhecer esta realidade n\u00e3o sugere, de forma alguma, que algu\u00e9m deva se abster de apoiar o clamor popular por democracia e direitos humanos, seja na S\u00edria ou no Iran. Isso requer, no entanto, que seja levada em considera\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que a oposi\u00e7\u00e3o iraniana fez quando rejeita completamente a interven\u00e7\u00e3o militar estrangeira nos assuntos de seu pais e defendeu o direito do Ir\u00e3 desenvolver energia nuclear frentes \u00e0s amea\u00e7as israelenses-americanas que tentam impedir de faz\u00ea-lo, alegando que o Iran est\u00e1 desenvolvendo armas nucleares.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria critica corretamente o regime por seu oportunismo, lembrando sua interven\u00e7\u00e3o no L\u00edbano em 1976 contra a resist\u00eancia palestina e o Movimento Nacional Liban\u00eas, e que o regime comp\u00f4s a coaliz\u00e3o liderada pelos Estados Unidos na guerra de 1991 contra o Iraque. Aqueles que criticam a dubiedade do regime s\u00edrio com a defesa da causa nacional n\u00e3o podem concordar com a afirma\u00e7\u00e3o de que se deve combater os \u201cagentes\u201d das pot\u00eancias ocidentais requisitando interven\u00e7\u00e3o militar destas mesmas pot\u00eancias ocidentais. A oposi\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o pode permitir que o regime fale mais alto na defesa da causa nacional. E deve compreender que, j\u00e1 que parte do territ\u00f3rio s\u00edrio est\u00e1 ocupado por Israel, com o apoio dos estados ocidentais, n\u00e3o pode procurar ajuda dos inimigos e opressores da S\u00edria. Na medida em que essas pot\u00eancias intervissem, certamente iriam se esfor\u00e7ar para enfraquecer estrategicamente a S\u00edria, como enfraqueceram o Iraque.<\/p>\n<p>Derrubar um regime, n\u00e3o importa que regime, \u00e9\u00a0 um objetivo estrat\u00e9gico cujos meios diferem para cada caso e pa\u00eds. A estrat\u00e9gia depende da composi\u00e7\u00e3o do regime que os revolucion\u00e1rios est\u00e3o tentando p\u00f4r abaixo.<\/p>\n<p>Vamos considerar as diferen\u00e7as entre o caso eg\u00edpcio e o l\u00edbio, por exemplo. No Egito o ex\u00e9rcito regular, enquanto institui\u00e7\u00e3o, era e continua sendo a espinha dorsal do regime. O poder de Mubarak emanava e se apoiava no ex\u00e9rcito, mas ele n\u00e3o o \u201cpossu\u00eda\u201d. Isso fez com que o levante popular quisesse manter a neutralidade do ex\u00e9rcito, a fim de derrubar o tirano.\u00a0 Essa estrat\u00e9gia foi vitoriosa, no entanto alimentou ilus\u00f5es no ceio das massas de que o ex\u00e9rcito enquanto institui\u00e7\u00e3o, incluindo seus altos escal\u00f5es, poderia servir desinteressadamente ao povo. Em vez de aprimorar a consci\u00eancia cr\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o e dos soldados e alerta-los de que a c\u00fapula do ex\u00e9rcito iria se empenhar em manter seus privil\u00e9gios e controle sobre o Estado. As principais for\u00e7as do movimento de oposi\u00e7\u00e3o, na realidade, contribu\u00edram para disseminar ilus\u00f5es no ceio das massas. O resultado \u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia permaneceu incompleta. Na verdade, h\u00e1 tantos, ou mais, elementos de continuidade no regime Egito, quanto elementos de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na L\u00edbia, por outro lado, Kadafi havia dissolvido a institui\u00e7\u00e3o militar e a reestruturou na forma de brigadas vinculadas \u00e0 sua pessoa, atrav\u00e9s de la\u00e7os tribais, familiares e financeiras. Ent\u00e3o era imposs\u00edvel contar com a neutralidade dos militares, muito menos esperar atra\u00ed-los para o lado da revolu\u00e7\u00e3o. Foi mais adequado pensar que a forma de derrubar o regime l\u00edbio seria inevitavelmente atrav\u00e9s da derrota de suas for\u00e7as armadas, em outras palavras: atrav\u00e9s da guerra. J\u00e1 que o desequil\u00edbrio de for\u00e7as militares entre o ex\u00e9rcito de Kadafi e os rebeldes, praticamente desarmados, era esmagadora. A entrada de um fator externo na equa\u00e7\u00e3o era inevit\u00e1vel, seja pelo armamento do levante (o melhor cen\u00e1rio) ou atrav\u00e9s de uma participa\u00e7\u00e3o direta na guerra entre os rebeldes e o regime, seja pela ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio (o pior cen\u00e1rio) ou pelo bombardeio \u00e0 dist\u00e2ncia sem invadir (como de fato aconteceu). O resultado \u00e9 que as mudan\u00e7as na L\u00edbia s\u00e3o muito mais profundas que no Egito por conta do colapso geral das institui\u00e7\u00f5es do regime de Kadafi. Hoje a L\u00edbia \u00e9 um pa\u00eds sem Estado, ou seja, sem um aparato que monopolize a for\u00e7a armada, e ningu\u00e9m sabe quando um Estado ser\u00e1 constru\u00eddo ali, ou como ele se parecer\u00e1.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o onde a S\u00edria se encaixa nessa equa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica? Na verdade, ela estaria em algum lugar entre o caso L\u00edbio e o Eg\u00edpcio. Na S\u00edria, assim como na L\u00edbia,\u00a0 o regime se cercou de For\u00e7as Especiais ligadas a ele por fam\u00edlias, seitas religiosas e privil\u00e9gios. Elas precisam ser derrotadas para que o regime caia. Em raz\u00e3o disso, o comandante do Ex\u00e9rcito Livre S\u00edrio, Coronel Riyad Al-As\u00b4ad, estava certo quando falou para Al-Sharq Al-Awsat (05\/11\/11): \u201cqualquer um que pense que o regime s\u00edrio vai cair pacificamente est\u00e1 sonhando\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, como Israel ocupa uma parte de seu territ\u00f3rio, a S\u00edria, diferente da L\u00edbia, tem tamb\u00e9m um ex\u00e9rcito regular com base no recrutamento universal de jovens do sexo masculino, cujos soldados e oficiais de baixa patente refletem a composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o s\u00edria, de onde suas fileiras s\u00e3o derivadas. Portanto, um dos focos principais da estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria s\u00edria precisa ser ganhar as fileiras do ex\u00e9rcito s\u00edrio para o lado da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O Papel do Ex\u00e9rcito na Estrat\u00e9gia da Oposi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Se o levante s\u00edrio tivesse sido liderado com um pensamento estrat\u00e9gico (e aqui n\u00f3s vemos os limites das \u201crevolu\u00e7\u00f5es de Facebook\u201d) teria tentado estender as redes da oposi\u00e7\u00e3o no interior do ex\u00e9rcito, enquanto insistisse para que os soldados n\u00e3o desertassem individualmente ou em pequenos grupos, mas sim no maior n\u00famero poss\u00edvel. Na aus\u00eancia de lideran\u00e7a e estrat\u00e9gia, soldados e oficiais come\u00e7aram a desertar por conta pr\u00f3pria e de forma desorganizada. O alcance da insubordina\u00e7\u00e3o vem se expandindo nos \u00faltimos dois meses e continua a se ampliar. Essas defec\u00e7\u00f5es confundiram a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com alguns criticando os insubordinados por amea\u00e7arem desviar o levante de seu caminho pac\u00edfico enquanto outros sa\u00fadam os insubordinados ao mesmo tempo em que apelam para que n\u00e3o voltem suas armas para o regime.\u00a0 Esta \u00faltima \u00e9 uma proposta suicida que os soldados insubordinados est\u00e3o corretos em zombar.<\/p>\n<p>A tarefa estrat\u00e9gica para ganhar os soldados s\u00edrios para o lado da revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria entrar em contradi\u00e7\u00e3o com as manifesta\u00e7\u00f5es populares e sua natureza n\u00e3o-violenta. Aqui, novamente, o caso s\u00edrio combina elementos das experi\u00eancias eg\u00edpcias e l\u00edbias, ou seja, multid\u00f5es de manifestantes pac\u00edficos ao lado de confrontos militares. A n\u00e3o-viol\u00eancia das mobiliza\u00e7\u00f5es populares era, e continua sendo, um componente b\u00e1sico da din\u00e2mica do movimento, e do seu car\u00e1ter massivo, incluindo a participa\u00e7\u00e3o feminina. Essa din\u00e2mica \u00e9, em si, um fator decisivo para incitar os soldados a se rebelar contra o regime.<\/p>\n<p>Portanto, o maior dilema estrat\u00e9gico na S\u00edria \u00e9 como combinar as mobiliza\u00e7\u00f5es pac\u00edficas das massas com a amplia\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o militar e\u00a0 a confronta\u00e7\u00e3o armada, sem a qual as for\u00e7as do regime nunca ir\u00e3o ser derrotadas e ele n\u00e3o cair\u00e1. Ao menos\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 que se possa contar com a ruptura de alguns oficias de alta patente com o topo da hierarquia do regime, o que for\u00e7aria a fam\u00edlia governante \u00e0 fugir\u00a0 para o Ir\u00e3. Se isso acontecer, a S\u00edria acabaria em uma posi\u00e7\u00e3o similar ao caso eg\u00edpcio, onde uma pe\u00e7a caiu do topo da pir\u00e2mide, sem que ela desmoronasse por completo.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar direta na S\u00edria \u2013 seja na forma de uma invas\u00e3o, seja numa forma limitada de bombardeiro \u00e0 dist\u00e2ncia \u2013 levaria ao fim das defec\u00e7\u00f5es no ex\u00e9rcito s\u00edrio e uniria suas fileiras num confronto que iria convencer aos soldados de que aquilo que o regime vem afirmando desde o in\u00edcio do levante tem sido por todo esse tempo a verdade: de que est\u00e1 enfrentando uma \u201cconspira\u00e7\u00e3o estrangeira\u201d que quer subjulgar a S\u00edria . Os pedidos feitos por Riyad al-As\u00b4ad, o l\u00edder do Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria, (na entrevista\u00a0 j\u00e1 citada) por uma interven\u00e7\u00e3o internacional que tenha por objetivo estabelecer uma \u201czona de exclus\u00e3o a\u00e9rea ou mar\u00edtima\u201d na S\u00edria,\u00a0 e criar uma \u201czona de seguran\u00e7a no norte da S\u00edria que o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria possa administrar\u201d \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, uma evid\u00eancia adicional de falta\u00a0 de vis\u00e3o estrat\u00e9gica entre a lideran\u00e7a do levante s\u00edrio. Os pedidos s\u00e3o tamb\u00e9m um produto de misto de miopia e rea\u00e7\u00e3o passional frente \u00e0 crueldade do regime, que leva alguns dos seus oponentes a almejar aquilo que poderia provocar a uma cat\u00e1strofe hist\u00f3rica na S\u00edria e em toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqueles que querem a vit\u00f3ria do levante popular s\u00edrio por liberdade e democracia de uma forma que fortale\u00e7a a p\u00e1tria, ao inv\u00e9s de enfraquec\u00ea-la, precisam formular uma posi\u00e7\u00e3o sobre essas quest\u00f5es fatais com a m\u00e1xima clareza. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel simplesmente ignora-las em nome da unidade contra o regime, porque o destino das lutas, e mesmo de todo o pa\u00eds, est\u00e1 ligado a essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/psolinternacional.org\/2011\/siria-militarizacao-intervencao-militar-e-ausencia-de-estrategia\/\"><strong>* Gilbert Achcar \u00e9 professor de Estudos do Desenvolvimento e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS, em ingl\u00eas) de Londres.<\/strong> <\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Fontes:<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=139752\"><strong><em>*Espanhol: http:\/\/www.rebelion.org\/noticia.php?id=139752<\/em><\/strong><\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/english.al-akhbar.com\/content\/syria-militarization-military-intervention-and-absence-strategy\"><strong>*Ingl\u00eas:http:\/\/english.al-akhbar.com\/content\/syria-militarization-military-intervention-and-absence-strategy<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Por Gilbert Achcar &#8211; Traduzido por Eduardo d\u00b4Albergaria Fui convidado \u00e0 participar do encontro da oposi\u00e7\u00e3o S\u00edria, que se realizou nos dias 8 e 9 de outubro na Su\u00e9cia, pr\u00f3ximo \u00e0 capital Estocolmo. 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