postpass2{"id":595,"date":"2012-04-02T00:00:00","date_gmt":"2012-04-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2012\/04\/02\/eduardo-galeano-fala-sobre-seu-novo-livro\/"},"modified":"2012-04-02T00:00:00","modified_gmt":"2012-04-02T00:00:00","slug":"eduardo-galeano-fala-sobre-seu-novo-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/eduardo-galeano-fala-sobre-seu-novo-livro\/","title":{"rendered":"Eduardo Galeano fala sobre seu novo livro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em><strong><a href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2012\/04\/02\/eduardo-galeano-fala-sobre-seu-novo-livro\/eduardo-galeano-2-2\/\" rel=\"attachment wp-att-14807\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14807\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2012\/04\/eduardo-galeano-2.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"312\" \/><\/a>*Entrevista a\u00a0Ana Mar\u00eda Mizrah, no <\/strong><strong><a href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/content\/eduardo-galeano-lan%C3%A7a-novo-livro-na-forma-de-um-calend%C3%A1rio\">Brasil de Fato<\/a><\/strong><br \/>\n<\/em><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Por que este t\u00edtulo: Os filhos dos dias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo os maias, n\u00f3s somos filhos dos dias, ou seja, o tempo \u00e9 que estabelece o espa\u00e7o. O tempo \u00e9 nosso pai e nossa m\u00e3e e, como somos filhos dos dias, o mais natural \u00e9 que a cada dia nas\u00e7a uma hist\u00f3ria. Somos feitos de \u00e1tomos, mas tamb\u00e9m de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Dentro dessas hist\u00f3rias h\u00e1 muitas vinculadas \u00e0 nossa vida cotidiana. Voc\u00ea assinala: \u201cvivemos em um mundo inseguro\u201d. A particularidade \u00e9 que projeta que existem diferentes concep\u00e7\u00f5es sobre a inseguran\u00e7a. A que se refere?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Muitos pol\u00edticos no mundo inteiro, n\u00e3o \u00e9 algo que passa somente em nosso pa\u00eds, exploram um tipo de histeria coletiva a respeito do tema da inseguran\u00e7a. Te ensinam a ver ao pr\u00f3ximo como uma amea\u00e7a e te pro\u00edbem v\u00ea-lo como uma promessa, ou seja, o pr\u00f3ximo, esse senhor, essa senhora que anda por a\u00ed, pode roubar-te, sequestrar-te, enganar-te, mentir para voc\u00ea, raramente oferecer-te algo que valha a pena receber. Creio que essa forma parte de uma ditadura universal do medo. Fomos treinados para ter medo de tudo e de todos e este \u00e9 o \u00e1libi que necessita a estrutura militar do mundo. Este \u00e9 um mundo que destina metade de seus recursos \u00e0 arte de matar o pr\u00f3ximo. Os gastos militares, que s\u00e3o o nome art\u00edstico dos gastos criminais, necessitam de um \u00e1libi. As armas necessitam da guerra, como os abrigos necessitam do inverno.<strong>Quando fala dos medos, voc\u00ea joga com essa palavra para assim mencionar os meios e tem uma hist\u00f3ria que \u00e9 \u201cos meios de comunica\u00e7\u00e3o\u201d. A que lugar voc\u00ea atribui aos meios em nossos medos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c0s vezes, os meios atuam como medos de comunica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, se convertem em medos de incomunica\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o \u00e9 verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram esse tipo de histeria coletiva desatada com o tema da inseguran\u00e7a. Mentem, porque a inseguran\u00e7a n\u00e3o se reduz \u00e0 inseguran\u00e7a que se pode sofrer nas ruas. Inseguro \u00e9 este mundo e a primeira \u00e9 a inseguran\u00e7a no trabalho, que \u00e9 a mais grave de todas e da qual nunca falam os pol\u00edticos que exploram o tema da inseguran\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: e amanh\u00e3, haver\u00e1 quem me contrate? Voltarei ao lugar de trabalho onde estive hoje? Ter\u00e1 algu\u00e9m ocupado meu lugar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse medo real de perder o trabalho ou de n\u00e3o encontr\u00e1-lo \u00e9 a fonte de inseguran\u00e7a mais importante. T\u00e3o inseguro \u00e9 o mundo, a quantidade de pessoas que matam os carros nisso que chamamos acidentes de tr\u00e2nsito, na realidade s\u00e3o atos criminosos por conta dos condutores que tendo permiss\u00e3o de dirigir, tem permiss\u00e3o para matar, ou a inseguran\u00e7a da maioria das crian\u00e7as que nascem no mundo condenados a morrer muito cedo de fome ou de enfermidade incur\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Aparecem as hist\u00f3rias dos desaparecidos, mas lhe menciono uma em particular, chamada Plano Condor, onde a hist\u00f3ria que se conta pertence a Macarena Gelma. Como foi para voc\u00ea conhecer Macarena Gelman?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Comecei conhecendo ao pai de Macarena (Marcelo) e ao av\u00f4 Juan (Gelman) com quem trabalhei junto na revista Crisis em Buenos Aires e que \u00e9 meu amigo de toda a vida. S\u00e3o muitos anos de amizade, ou melhor, de irmandade. Juan (Gelman) teve que sair da Argentina para continuar vivo, naqueles dias que se viviam em Buenos Aires, onde tinha que ir ou esconder-se. Ent\u00e3o, eu recebia com muita frequ\u00eancia a seu filho Marcelo e me fiz de pai por algum tempo, depois o mataram, e a outra hist\u00f3ria \u00e9 bastante conhecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A mulher de Marcelo (Mar\u00eda Claudia) foi sequestrada na Argentina. Eram acusados do crime de protestar, delitos de dignidade que tem a ver com o direito estudantil ao protesto. Esses eram os crimes dos meninos, como eles foram assassinados muito cedo. A Mar\u00eda Claudia assassinaram no Uruguai, onde j\u00e1 funcionava o mercado comum da morte, que foi o melhor em funcionamento, porque o Mercosul ainda tinha dificuldades graves. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas do terror onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram Mar\u00eda Claudia gr\u00e1vida para o Uruguai e aqui os militares uruguaios se encarregaram do trabalho. Esperaram ela dar \u00e0 luz, ela passou seus \u00faltimos dias, ou talvez seus \u00faltimos meses, na sede do Bulevar Artigas e Palmar (SID) onde descobriu-se a placa em mem\u00f3ria de Mar\u00eda Claudia e todos os que estiveram ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Me impressionou o contraste pela beleza exterior do pal\u00e1cio e os horrores que escondia. Depois de dar \u00e0 luz, a mataram e entregaram seu filho(a) a um policial, troca de favores. A partir de uma busca complicada de Juan (Gelman) e seus amigos, conseguiu encontr\u00e1-la e agora chama-se Macarena Gelman. N\u00f3s tornamos muito amigos e uma vez jantando em casa, me contou essa hist\u00f3ria que \u00e9 parte das hist\u00f3rias de \u201cOs filhos dos dias\u201d (livro). \u00c9 uma hist\u00f3ria muito \u00edntima, muito particular e lhe pedi autoriza\u00e7\u00e3o para public\u00e1-la. \u00c9 uma hist\u00f3ria rara, mas reveladora. Conta que quando ainda n\u00e3o sabia quem era e vivia em outra casa, com outro nome, nesse per\u00edodo sofria de ins\u00f4nia cont\u00ednua, que n\u00e3o a deixavam dormir a noite porque a perseguia sempre o mesmo pesadelo. Via uns senhores desconhecidos muito armados que a buscavam no dormit\u00f3rio onde estava dormindo, debaixo da cama, no guarda-roupa e em todas as partes e ela acordava gritando e angustiad\u00edssima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante muit\u00edssimo tempo, toda sua inf\u00e2ncia teve esse pesadelo que a perseguia e ela n\u00e3o sabia o por qu\u00ea, de onde vinha. At\u00e9 que conheceu sua verdadeira hist\u00f3ria e soube que estava sonhando os pesadelos que sua m\u00e3e havia vivido enquanto a formava no ventre. A m\u00e3e, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados at\u00e9 os dentes que a encontraram e a mandaram para morrer no Uruguai. Macarena estava no ventre dessa mulher acoada e perseguida. Desde o ventre padecia a persegui\u00e7\u00e3o que sua m\u00e3e sofria e depois a sonhou e se converteu em seus pr\u00f3prios pesadelos. Ela sonhou o que sua m\u00e3e havia vivido. \u00c9 uma hist\u00f3ria que parece uma met\u00e1fora da transmiss\u00e3o, das penas, dos horrores, e tamb\u00e9m de outras continuidades que n\u00e3o s\u00e3o todas horr\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00c9 um livro que cont\u00e9m muitas hist\u00f3rias de mulheres. Por que?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m h\u00e1 muitas hist\u00f3rias de mulheres em meus livros anteriores, como \u201cEspelhos e Bocas do Tempo\u201d. H\u00e1 muitas hist\u00f3rias dos invis\u00edveis, e as mulheres ainda s\u00e3o bastante invis\u00edveis. H\u00e1 hist\u00f3rias de negros, de \u00edndios, das culturas ignoradas, das pessoas ignoradas e que merecem ser redescobertas porque t\u00eam algo para dizer e vale a pena escutar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste \u00faltimo livro (Os filhos dos dias) h\u00e1 uma hist\u00f3ria que me impressionou muito, e que n\u00e3o havia escrito at\u00e9 agora, a de Juana Azurduy. Juana foi uma hero\u00edna das guerras de independ\u00eancia. Encabe\u00e7ou a tomada do Cerro de Potos\u00ed que estava nas m\u00e3os dos espanh\u00f3is. Ela era a chefe de um grupo guerrilheiro que recuperou Potos\u00ed das m\u00e3os espanholas. Depois seguiu guerreando pela independ\u00eancia, perdeu seus 7 filhos e seu marido nessa guerra. Finalmente, foi enterrada em uma fossa comum e morreu na pobreza mais pobre que se possa imaginar. Antes havia recebido um t\u00edtulo militar, foram as for\u00e7as independentistas as que lhe deram um t\u00edtulo que dizia em m\u00e9rito: \u201ca sua viril coragem\u201d. Precisou-se de muito tempo para que uma presidenta argentina (Cristina Fern\u00e1ndez) a outorgasse o t\u00edtulo de General por sua feminina valentia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Um integrante da Real Academia Espanhola assinalou como um erro utilizar express\u00f5es que carreguem a linguagem. Era uma cr\u00edtica \u00e0 feminiza\u00e7\u00e3o como, por exemplo, quando se utiliza todos e todas. O que voc\u00ea pensa a respeito?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O transcendente \u00e9 o que est\u00e1 por tr\u00e1s, mas \u00e0s vezes os conte\u00fados s\u00e3o refletidos nas palavras que expressam. Me parece rid\u00edculo quando uma mulher se apresenta e me diz sou m\u00e9dico, ser\u00e1 m\u00e9dica, eu contesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>H\u00e1 muitas hist\u00f3rias dos povos origin\u00e1rios, da luta pelos recursos naturais, e o rol das multinacionais. Em particular, uma hist\u00f3ria dedicada \u00e0 selva amaz\u00f4nica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa hist\u00f3ria sobre a Amaz\u00f4nia recorda que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, arruinou boa parte da solva equatoriana. Foi a ju\u00edzo, mas perdeu. As v\u00edtimas desse atentado \u00e0 natureza e \u00e0s pessoas desse lugar n\u00e3o tinham meios econ\u00f4micos, enquanto a Texaco contava com centenas de advogados. Ao cabo de anos, contudo, o pleito foi ganho, mas ainda n\u00e3o se colocou em pr\u00e1tica, porque h\u00e1 muitas maneiras de se apelar, e de tirar a bola para fora e para isso n\u00e3o faltam doutores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>No livro tem um olhar cr\u00edtico sobre os governos progressistas que ainda n\u00e3o descriminalizaram o aborto.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O livro toca todos os temas sempre a partir de hist\u00f3rias concretas. N\u00e3o \u00e9 um livro te\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>As 366 hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o somente latino-americanas, voc\u00ea percorre o mundo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 muitas hist\u00f3rias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que firmou seus escritos nas t\u00e1buas de barro. Ocorreu h\u00e1 quatro mil anos e dizia que escrever era uma festa. Essa mulher \u00e9 desconhecida. E vale a pena contar que essa hist\u00f3ria existiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>A respeito da crise internacional , voc\u00ea resgata o que ocorreu na Isl\u00e2ndia e o movimento dos indignados na Espanha.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esta crise prov\u00e9m de um c\u00edrculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Me ocorreu para esta hist\u00f3ria um t\u00edtulo sinistro que foi \u201cadote um banqueiro\u201d. Os respons\u00e1veis da crise s\u00e3o os que mais tem se queixado e os que mais dinheiro tem recebido. Eles t\u00eam sido recompensados por fundir o planeta. Todo esse dinheiro que destinou aos que causaram o pior desastre na hist\u00f3ria da humanidade seria suficiente para dar comida aos famintos do mundo com sobra, inclusive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Voc\u00ea acha uma contradi\u00e7\u00e3o a exist\u00eancia do movimento dos indignados e que, ao mesmo tempo, tenha ganhado o Partido Popular na Espanha?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A apari\u00e7\u00e3o dos indignados \u00e9 o que de mais lindo ocorreu no mundo nos \u00faltimos tempos. Creio que o melhor da vida \u00e9 sua capacidade de surpresa. O melhor dos meus dias \u00e9 o que ainda n\u00e3o vivi. Cada vez que uma cigana me cerca para ler a minha m\u00e3o a pe\u00e7o por favor que a pague mais que n\u00e3o leia. N\u00e3o quero que me digam o que vai me ocorrer, o melhor que a vida tem \u00e9 a curiosidade e a curiosidade nasce da ignor\u00e2ncia do destino. A explos\u00e3o dos indignados come\u00e7ou na Espanha, e depois se estendeu em outras partes. \u00c9 uma boa not\u00edcia a capacidade de indigna\u00e7\u00e3o. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro (intelectual brasileiro j\u00e1 falecido) que o mundo se divide entre os indignos e os indignados e que tem-se que tomar partido, h\u00e1 que se eleger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pensei muito nele quando surgiu este movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que acabaram despojando os inocentes de seus bens. Eles n\u00e3o foram os que pegaram empr\u00e9stimos imposs\u00edveis, n\u00e3o foram eles os culpados da bolha financeira e deste disparate que aconteceu na Espanha de construir e construir e agora est\u00e1 cheia de moradias desabitadas e gente sem casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O PP ganhou a elei\u00e7\u00e3o, \u00e9 verdade. A direita ganhou as elei\u00e7\u00f5es, e ter\u00e1 que lutar para que isso mude. Isto que aconteceu na Espanha tamb\u00e9m fala do desprest\u00edgio de for\u00e7as de esquerda que entram na vida pol\u00edtica prometendo mudan\u00e7as radicais, e depois terminam repetindo a hist\u00f3ria, ao inv\u00e9s de mud\u00e1-la. Muitas pessoas, sobretudo os jovens, se sentem desapontadas e abandonam a pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Entrevista a\u00a0Ana Mar\u00eda Mizrah, no Brasil de Fato Por que este t\u00edtulo: Os filhos dos dias? Segundo os maias, n\u00f3s somos filhos dos dias, ou seja, o tempo \u00e9 que estabelece o espa\u00e7o. 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