{"id":596,"date":"2012-04-07T00:00:00","date_gmt":"2012-04-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2012\/04\/07\/para-que-o-brasil-nao-seja-imperialista\/"},"modified":"2012-04-07T00:00:00","modified_gmt":"2012-04-07T00:00:00","slug":"para-que-o-brasil-nao-seja-imperialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/para-que-o-brasil-nao-seja-imperialista\/","title":{"rendered":"Para que o Brasil n\u00e3o seja imperialista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em><a href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2012\/04\/07\/para-que-o-brasil-nao-seja-imperialista\/brasil_africa\/\" rel=\"attachment wp-att-14907\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-14907\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2012\/04\/Brasil_Africa.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"277\" \/><\/a>Multiplicam-se la\u00e7os com a \u00c1frica. \u00c9 poss\u00edvel pensar numa rela\u00e7\u00e3o descolonizada \u2014 ao contr\u00e1rio das mantidas por pot\u00eancias tradicionais e \u201cemergentes\u201d?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>*Por Oliver Stuenkel, editor de <a href=\"http:\/\/www.postwesternworld.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Post-Western World<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As pot\u00eancias emergentes est\u00e3o se mudando para a \u00c1frica. O papel da China no continente \u00e9 amplamente examinado hoje em dia. O da \u00cdndia, ainda \u00e9 um tema marginal, mas um n\u00famero crescente de analistas passou a sistematicamente estud\u00e1-lo. O Brasil, por sua vez, \u00e9 o novato, e bastante desconhecido, mas suas atividades suscitam cada vez mais interesse ao redor do mundo. Considerando-se que o Brasil n\u00e3o precisa importar energia nem alimentos (fatores de motiva\u00e7\u00e3o importantes tanto para a China quanto para a \u00cdndia), quais s\u00e3o seus interesses na \u00c1frica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m do fato de terem sido ligados pela geografia h\u00e1 milh\u00f5es de anos (o Brasil e a \u00c1frica formavam o continente \u00fanico Gondwana, como atestam os formatos dos litorais do Brasil e da \u00c1frica Ocidental), o com\u00e9rcio escravagista transatl\u00e2ntico, abolido em 1888, criou uma conex\u00e3o cultural forte e irrevers\u00edvel entre a \u00c1frica e o Brasil. Foram levados mais escravos ao Brasil do que a qualquer outro pa\u00eds no hemisf\u00e9rio ocidental, incluindo os Estados Unidos. O Presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) estabeleceu as bases para diversificar as parcerias brasileiras ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, mas foi o Presidente Lula (2003-2010) que fez da \u00c1frica uma prioridade estrat\u00e9gica (como parte de uma estrat\u00e9gia mais ampla para fortalecer a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul). Embora algumas de suas muitas viagens \u00e0 \u00c1frica possam ter produzido poucos benef\u00edcios concretos, os esfor\u00e7os serviram ao objetivo maior de colocar o Brasil na posi\u00e7\u00e3o de l\u00edder do Sul. Mesmo os cr\u00edticos de Lula admitem hoje que a posi\u00e7\u00e3o brasileira na \u00c1frica teve um impulso sem precedentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Presidente fez 12 viagens \u00e0 \u00c1frica e visitou 21 pa\u00edses. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, o Brasil recebeu 47 visitas de reis, presidentes e primeiros-ministros de 27 na\u00e7\u00f5es africanas. O ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, Celso Amorim, fez 67 visitas oficiais a 34 pa\u00edses africanos, durante sua gest\u00e3o no governo Lula. O Brasil tem, hoje, 37 embaixadas na \u00c1frica, comparadas com as 17 existentes em 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas o que pode oferecer o Brasil \u00e0 \u00c1frica comparado, com outros atores emergentes como a China e a \u00cdndia? A primeira coisa que vem \u00e0 mente \u00e9 a experi\u00eancia brasileira em agricultura tropical. A agricultura brasileira n\u00e3o \u00e9 apenas a mais produtiva do mundo, mas as condi\u00e7\u00f5es similares de solo e de clima permitiram \u00e0 empresa nacional de pesquisa agropecu\u00e1ria, Embrapa, ajudar na\u00e7\u00f5es africanas a impulsionarem seu desenvolvimento agr\u00edcola. Al\u00e9m disso, pol\u00edticas sociais inovadoras (tais como o programa Bolsa Fam\u00edlia) foram replicadas em v\u00e1rios pa\u00edses africanos. O Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas atraente para a \u00c1frica no sentido de ser o \u00fanico pa\u00eds dos BRICS a ter uma popula\u00e7\u00e3o africana de peso. Tamb\u00e9m \u00a0\u00e9 a \u00fanica pot\u00eancia emergente capaz de reduzir a desigualdade socioecon\u00f4mica no plano dom\u00e9stico, aumentando, dessa maneira, a estabilidade social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Nova China?:\u00a0<\/strong>As similaridades entre as estrat\u00e9gias da \u00cdndia e da China na \u00c1frica provavelmente superam as diferen\u00e7as. Ambas baseiam-se, entre outras coisas, em suas necessidades de assegurar o acesso a <em>commodities<\/em>, para abastecer sua ascens\u00e3o. Ambas desejam usar a agricultura africana para garantir a seguran\u00e7a alimentar no plano dom\u00e9stico. Mas qual \u00e9 o caso do Brasil? O gigante emergente da Am\u00e9rica do Sul \u00e9 frequentemente alinhado com a China e a \u00cdndia em quest\u00f5es importantes, tais como a n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o e em sua resist\u00eancia a uma \u201cabordagem ocidental\u201d, que enfatiza a import\u00e2ncia de \u201cboa governan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As empresas brasileiras na \u00c1frica buscam distinguir-se de suas contrapartes chinesas, por exemplo, ao empregar e treinar trabalhadores locais. \u00c9 o caso da Odebrecht, maior empregador privado da Angola, mesmo com a presen\u00e7a de muitas grandes firmas chinesas no pa\u00eds. N\u00e3o obstante o aumento do com\u00e9rcio brasileiro com a \u00c1frica entre 2000 e 2010, de US$ 4 bilh\u00f5es para US$ 20 bilh\u00f5es, sua presen\u00e7a permanece bem menor que a da China (cujo fluxo comercial com a \u00c1frica em 2011 excedeu os US$ 110 bilh\u00f5es), o que torna dif\u00edcil fazer compara\u00e7\u00f5es mais significativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Embora a estrat\u00e9gia do Brasil de focar primeiro na \u00c1frica lus\u00f3fona (Angola e Mo\u00e7ambique, entre outros) seja muitas vezes retratada como astuta, essa pode tamb\u00e9m ser a maior fraqueza do pa\u00eds. Parece reduzir a necessidade das empresas e do governo brasileiros de se adaptarem a pa\u00edses n\u00e3o lus\u00f3fonos, contratando funcion\u00e1rios fluentes em ingl\u00eas, franc\u00eas e \u00e1rabe. Quando, em debate aberto, um embaixador brasileiro recentemente indicou as barreiras lingu\u00edsticas enfrentadas em pa\u00edses como o Sud\u00e3o ou a Costa do Marfim, os participantes da conversa n\u00e3o puderam deixar de reconhecer qu\u00e3o pouco a China parece se importar com tais fatores limitantes, tendo estabelecido uma forte presen\u00e7a em todos os pa\u00edses, apesar de barreiras lingu\u00edsticas significativas e da quase completa falta de la\u00e7os culturais entre a \u00c1frica e a China.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O novo papel como doador de ajuda est\u00e1 relacionado \u00e0 presen\u00e7a econ\u00f4mica crescente do Brasil no continente africano. Mas tal como outros doadores emergentes, como a \u00cdndia e a China, o pa\u00eds busca ir al\u00e9m da intera\u00e7\u00e3o tradicional entre doadores e receptores, e almeja uma troca entre atores \u201ciguais\u201d, com responsabilidades e benef\u00edcios m\u00fatuos. Desde 2005, os projetos de desenvolvimento brasileiros s\u00e3o uma parte essencial da estrat\u00e9gia na \u00c1frica. Ap\u00f3s um breve per\u00edodo tanto recebendo quando enviando ajuda, os doadores do norte est\u00e3o agora deixando de fornecer ajuda ao Brasil \u2014 \u00a0que, tudo indica, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais visto como um pa\u00eds em desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Brasil (juntamente com a \u00cdndia e a China) se limitar\u00e1 apenas a mudar algumas regras, isto \u00e9, a diluir as condicionalidades do regime de ajuda internacional? Ou buscar\u00e1 desfazer alguns dos princ\u00edpios organizadores mais b\u00e1sicos do atual regime de ajuda ao desenvolvimento? Doadores emergentes terminar\u00e3o por adotar a posi\u00e7\u00e3o da OCDE ou, como diz Ikenberry, \u201cveremos as pot\u00eancias emergentes usar seu novo status para seguir vis\u00f5es alternativas da ordem mundial\u201d? Ao tentar entender se doadores emergentes como o Brasil representam um desafio s\u00e9rio ao regime existente de ajuda, um regime que eles frequentemente descrevem como injusto, antiquado e dominado por antigas pot\u00eancias coloniais, a evid\u00eancia, por enquanto, parece inconclusiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Brasil \u00e9 \u00e1vido por assumir maior responsabilidade em institui\u00e7\u00f5es tais como o Banco Mundial, mas rejeita pilares-chaves do regime como a Declara\u00e7\u00e3o de Paris sobre a Efetividade da Ajuda. Ao mesmo tempo, assinou a Iniciativa de Doa\u00e7\u00e3o de Bem Humanit\u00e1rio, ao contr\u00e1rio da maioria dos \u201cdoadores emergentes\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio estudar mais a quest\u00e3o para entender melhor qual ser\u00e1 a estrat\u00e9gia do Brasil \u00e0 medida que emerge como um ator importante no regime global de ajuda (incluindo a ajuda humanit\u00e1ria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Enquanto isso, o pa\u00eds deve procurar superar os obst\u00e1culos pr\u00e1ticos que impedem os la\u00e7os Brasil-\u00c1frica de prosperarem. Os investimentos brasileiros na \u00c1frica s\u00e3o altamente concentrados em minera\u00e7\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s, e infraestrutura, liderados por um n\u00famero pequeno de grandes atores: Andrade Gutierrez, Camargo Corr\u00eaa, Odebrecht, Petrobr\u00e1s, Queiroz Galv\u00e3o e Vale. Essas empresas t\u00eam acesso direto aos governos e a capacidade de lidar com barreiras burocr\u00e1ticas, ao passo que pequenas e m\u00e9dias empresas s\u00e3o exclu\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A log\u00edstica tamb\u00e9m \u00e9 importante: h\u00e1 apenas uma conex\u00e3o a\u00e9rea direta entre o Brasil e o continente africano (entre S\u00e3o Paulo e Joannesburgo). A maioria dos viajantes brasileiros com destinos na \u00c1frica Central, Ocidental ou Oriental deve primeiro passar por Paris, Frankfurt ou Dubai. Contudo, um voo direto de Lagos a Recife n\u00e3o levaria mais que quatro horas e meia. A decis\u00e3o do governo de impulsionar sua presen\u00e7a diplom\u00e1tica na \u00c1frica tem ajudado muito as empresas brasileiras com investimentos no continente (uma estrat\u00e9gia que o Brasil estranhamente deixou de seguir na China).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao passo que cres\u00e7a a presen\u00e7a econ\u00f4mica do Brasil na \u00c1frica, a maneira como os africanos veem o Brasil ir\u00e1, inevitavelmente, mudar. Embora a presen\u00e7a ainda seja muito menor de que a da \u00cdndia ou da China, o pa\u00eds precisa tomar cuidado para evitar alguns dos erros cometidos pelos chineses, que correm o risco de enfrentar retrocessos regionais. H\u00e1 evid\u00eancias aned\u00f3ticas de que os brasileiros s\u00e3o benquistos em toda a \u00c1frica. Agora, o desafio \u00e9 assegurar que, apesar de investimentos cada vez maiores \u2013 tais como o acordo de US$ 1 bilh\u00e3o recentemente assinado pela Vale, para construir uma ferrovia em Malawi para transporte de carv\u00e3o para Mo\u00e7ambique \u2013 o Brasil continue a ser visto como um parceiro, e n\u00e3o como um novo colonizador que busca apenas explorar os recursos continentais africanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/04\/04\/para-que-o-brasil-nao-seja-imperialista\/\"><strong>*Fonte: Outras Palavras<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Multiplicam-se la\u00e7os com a \u00c1frica. \u00c9 poss\u00edvel pensar numa rela\u00e7\u00e3o descolonizada \u2014 ao contr\u00e1rio das mantidas por pot\u00eancias tradicionais e \u201cemergentes\u201d?\u00a0 *Por Oliver Stuenkel, editor de Post-Western World As pot\u00eancias emergentes est\u00e3o se mudando para a \u00c1frica. 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