{"id":607,"date":"2012-05-01T00:00:00","date_gmt":"2012-05-01T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2012\/05\/01\/noam-chomsky-escreve-e-fala-sobre-o-occupy\/"},"modified":"2012-05-01T00:00:00","modified_gmt":"2012-05-01T00:00:00","slug":"noam-chomsky-escreve-e-fala-sobre-o-occupy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/noam-chomsky-escreve-e-fala-sobre-o-occupy\/","title":{"rendered":"Noam Chomsky escreve \u2013 e fala \u2013 sobre o Occupy"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em><strong><a href=\"http:\/\/psol50.org.br\/blog\/2012\/05\/01\/15305\/occupy2\/\" rel=\"attachment wp-att-15306\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15306\" src=\"http:\/\/psol50.org.br\/files\/2012\/05\/Occupy2.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"183\" \/><\/a>Entrevistado ao lan\u00e7ar novo livro, ele debate perspectivas do movimento, Primavera \u00c1rabe,\u00a0crise da democracia, internet e como os EUA produziram seu pr\u00f3prio decl\u00ednio<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entrevista a <strong>Joshua Holland<\/strong>, do <em><a href=\"http:\/\/www.alternet.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alternet<\/a><\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Daniela Frabasile<\/strong><br \/>\nNo ano passado o movimento <em>Occupy<\/em> espalhou-se espontaneamente por in\u00fameras cidades dos Estados Unidos. Mudou radicalmente o discurso e fustigou a elite econ\u00f4mica com sua desafiante defesa das maiorias. Foi, para Noam Chomsky, \u201ca primeira grande resposta p\u00fablica a trinta anos de guerra de classes\u201d. Em seu livro mais recente, <em>Occupy, <\/em>Chonsky debate os principais temas, quest\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es que est\u00e3o levando cidad\u00e3os comuns a protestar. Como se chegou a tal ponto? De que modo o 1% de mais ricos influencia as vidas dos outros 99%? Como se pode separar Pol\u00edtica de Dinheiro? Que seria uma elei\u00e7\u00e3o genuinamente democr\u00e1tica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na semana passada, Chomsky foi entrevistado na web-r\u00e1dio do site <em>Alternet. <\/em>Eis uma transcri\u00e7\u00e3o, levemente editada por motivos de clareza, de sua fala. A grava\u00e7\u00e3o original (em ingl\u00eas) pode ser ouvida <a href=\"http:\/\/www.alternet.org\/newsandviews\/article\/907298\/alternet_radio:_noam_chomsky_on_ows,_the_arab_spring_and_america%27s_waning_influence%3B_progressivs_push_back_against_alec\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<br \/>\n<strong><a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/files\/2012\/04\/120427-OccupyChomsky1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/files\/2012\/04\/120427-OccupyChomsky1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"582\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Joshua Holland:<\/strong><strong>Eu queria perguntar sobre algumas tend\u00eancias que moldam nosso discurso pol\u00edtico. Eu li muitos de seus livros, e um que eu achei importante foi <\/strong><em><strong>O consenso fabricado, <\/strong><\/em><strong>do final dos anos 1980. D<\/strong><strong>esde ent\u00e3o, houve grandes mudan\u00e7as. A m\u00eddia dominante est\u00e1 mais consolidada mas temos, ao mesmo tempo, uma prolifera\u00e7\u00e3o de outras formas de m\u00eddia. Voc\u00ea acha que o alcance do que \u00e9 considerado um discurso aceit\u00e1vel foi ampliado ou restringido?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Noam Chomsky:<\/strong> Na verdade, Ed Herman e eu lan\u00e7amos uma segunda edi\u00e7\u00e3o desse livro uns dez anos atr\u00e1s, com uma nova (e longa) introdu\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, n\u00e3o v\u00edamos muitas mudan\u00e7as, mas se f\u00f4ssemos fazer de novo, certamente abordar\u00edamos o que voc\u00ea mencionou. Lembro que est\u00e1vamos falando sobre a m\u00eddia dominante. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, acho que praticamente a mesma an\u00e1lise se sustenta, apesar de meu sentimento ser de que, desde 1960, houve abertura no <em>mainstream <\/em>\u2013 como efeito do ativismo da d\u00e9cada de 60, que mudou as percep\u00e7\u00f5es, atitudes, e civilizou o pa\u00eds de muitas maneiras. Assuntos que s\u00e3o discutidos abertamente hoje eram invis\u00edveis, e, se vis\u00edveis, n\u00e3o eram mencionados h\u00e1 cinquenta anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m disso, muitos jornalistas s\u00e3o, eles mesmo, gente cuja forma\u00e7\u00e3o se deu no ativismo dos anos 60 ou nos seus desdobramentos. Essas mudan\u00e7as est\u00e3o se dando por um longo tempo. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00eddias alternativas, elas certamente proporcionam uma grande variedade de op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o existiam antes \u2013 o que inclui o acesso \u00e0 m\u00eddia estrangeira. Por outro lado, a internet \u00e9, de certa forma, como entrar na Biblioteca do Congresso. Tudo est\u00e1 l\u00e1, mas voc\u00ea tem que saber o que esta procurando. Do contr\u00e1rio, voc\u00ea pode n\u00e3o ter acesso nenhum \u00e0 biblioteca, porque daria no mesmo. Por exemplo, n\u00e3o \u00e9 suficiente entrar na biblioteca de Biologia de Harvard para tornar-se bi\u00f3logo. Voc\u00ea tem que ter as bases para o entendimento, uma concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 importante e do que n\u00e3o \u00e9; do que faz sentido ou n\u00e3o faz. N\u00e3o uma base r\u00edgida que nunca se modifica, mas voc\u00ea precisa ao menos ter algum tipo de base.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Infelizmente, isso \u00e9 bem raro, quando faltam movimentos ativistas que atraiam uma parte substancial da popula\u00e7\u00e3o para intera\u00e7\u00e3o, interc\u00e2mbio \u2013 o tipo de coisa que ocorria na comunidade do Occupy por exemplo. Na aus\u00eancia disso, a maioria das pessoas fica meio \u00e0 deriva, na internet. Sim, \u00e9 poss\u00edvel encontrar coisas de valor, mas voc\u00ea tem que saber procurar por elas e ter as bases de an\u00e1lise e percep\u00e7\u00e3o que permitam separ\u00e1-las do lixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><br \/>\nSeparar o joio do trigo..<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Chomsky<\/strong>: Sim \u2013 o que exige organiza\u00e7\u00e3o e ativismo. \u00c9 o tipo de coisa que tem que ser feita com outras pessoas. Voc\u00ea tem que ser capaz de testar ideias e obter rea\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea tem que apurar suas percep\u00e7\u00f5es. Isso realmente n\u00e3o ocorre sem uma organiza\u00e7\u00e3o substantiva. Existe um interc\u00e2mbio na internet, mas ele tende a ser superficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Vamos voltar ao seu livro. Chama-se <em>Occupy, <\/em>\u00e9 uma leitura boa e r\u00e1pida.\u00a0Voc\u00ea faz um \u00f3timo trabalho explicando a guerra de classes promovida pela elite econ\u00f4mica nos \u00faltimos trina ou quarenta anos. Mas a pobreza \u00e9 relativa: americanos vivendo na linha de pobreza ainda possuem uma riqueza maior que 80 ou 90 % da popula\u00e7\u00e3o mundial. Poucas pessoas passam fome nesse pa\u00eds, e a atual tend\u00eancia [para a desigualdade] n\u00e3o \u00e9 algo novo. Qual foi o ponto de virada? A gravidade da recess\u00e3o? O que mais ajudou a abrir os olhos das pessoas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Chomsky: <\/strong>Voc\u00ea est\u00e1 certo ao dizer que estamos melhor que a maior parte do mundo. Antes de falar com voc\u00ea, eu conversava com uma mulher da \u00cdndia, que vive e trabalha h\u00e1 muitos anos em vilas localizadas numa das \u00e1reas mais pobres do pa\u00eds. Ela descria suas atividades: seus sucessos e fracassos. \u00c9 um mundo radicalmente diferente. As pessoas aqui n\u00e3o vivem em condi\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis \u00e0s da idade da pedra. Eles se comparam com o que est\u00e1 dispon\u00edvel para uma vida decente na sociedade em que vivem. Esse \u00e9 o pa\u00eds mais rico e poderoso de toda a hist\u00f3ria do mundo. Isso tem vantagens extraordin\u00e1rias. Comparando com o que est\u00e1 dispon\u00edvel aqui, e, dadas as circunst\u00e2ncias, com o que est\u00e1 dispon\u00edvel para a maioria da popula\u00e7\u00e3o\u00a0\u2013 o imagin\u00e1rio dos 99% do movimento Occupy \u2013 existe um abismo enorme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por exemplo, n\u00e3o temos o tipo de sistema de sa\u00fade que outras sociedades compar\u00e1veis t\u00eam. N\u00e3o temos infra-estrutura equivalente. Nos \u00faltimos trinta anos \u2013 mesmo sem contar com a \u00faltima recess\u00e3o \u2013 houve uma relativa estagna\u00e7\u00e3o da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o. O que realmente aconteceu est\u00e1 muito bem contado em um pequeno livro que foi publicado depois do meu. E uma recente publica\u00e7\u00e3o do Economic Policy Institute, que tem sido a fonte principal de dados confi\u00e1veis nos \u00faltimos 30 ou 35 anos.\u00a0Chama-se <em>Failure by Design<\/em> [\u201cFracasso Projetado\u201d]. \u00c9 uma leitura f\u00e1cil e que vale a pena.\u00a0O t\u00edtulo \u00e9 bastante preciso. Estamos [nos Estados Unidos] em meio a um fracasso, na medida que grande parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o viveu essencialmente progresso nenhum, ainda que uma riqueza substancial tenha sido produzida. A pr\u00f3pria economia \u00e9 muito menos produtiva do que deveria ser. A produ\u00e7\u00e3o do tipo de bens de que as pessoas precisam \u00e9 menos ainda. \u00c9 claro que uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o \u2013 os 0,1% \u2013 obteve sucesso espetacular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 um fracasso baseado na diferen\u00e7a de classes, e foi projetado. Esse \u00e9 o fato crucial. Existiram e ainda existem outras op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis. As coisas n\u00e3o precisam acontecer assim. Por isso, acumulam-se tantos temores, raivas, frustra\u00e7\u00f5es. Tudo isso est\u00e1 vis\u00edvel nas pesquisas. H\u00e1 \u00f3dio \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e desconfian\u00e7a por todo o pa\u00eds, e isso tem aumentado h\u00e1 um bom tempo. O movimento Occupy conseguiu capturar o sentimento e cristaliz\u00e1-lo. \u00c9 assim que os movimentos populares crescem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tomemos como exemplo o movimento de direitos civis. Ele existiu por d\u00e9cadas, mas poucas coisas produziram desenvolvimento importantes. Por exemplo, a atitude Rosa Parks, ou estudantes negros sentando nas lanchonetes em Greensboro, na Carolina do Norte. As coisas acontecem de repente e, do nada, surge um movimento popular. O mesmo aconteceu no movimento contra a guerra, os movimentos feministas, os ambientalistas, ou o movimento por justi\u00e7a global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Occupy eclodiu no momento em que era mais necess\u00e1rio, e acho sua estrat\u00e9gia brilhante.\u00a0Se tivessem me perguntado, eu n\u00e3o a teria recomendado. Nunca pensei que fosse funcionar. Por sorte, eu estava errado. Funcionou muito bem.\u00a0Dois grandes processos se deram, em minha opini\u00e3o, e se puderem ser mantidos e ampliados, ser\u00e1 extremamente importante. Um foi simplesmente mudar o discurso, colocando na agenda temas que estavam fervendo nos bastidores, mas nunca eram o foco principal \u2013 como a desigualdade, a corrup\u00e7\u00e3o financeira, a fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema democr\u00e1tico, o colapso da economia produtiva. Estes assuntos tornaram-se comuns. Isso foi muito importante.<br \/>\nOutro fen\u00f4meno que surgiu, e \u00e9 dif\u00edcil de medir, foi a cria\u00e7\u00e3o de comunidades. As comunidades do Occupy foram extremamente valiosas. Formaram-se espontaneamente, com base no aux\u00edlio m\u00fatuo, interc\u00e2mbio p\u00fablico e outras coisas que fazem muita falta, em uma sociedade pulverizada como a nossa, onde as pessoas est\u00e3o sozinhas. A unidade social por que o mundo dos neg\u00f3cios luta \u00e9 apenas uma d\u00edade, um par. Voc\u00ea e sua televis\u00e3o e seu computador. O Occupy quebrou isso de forma extremamente significante. A possibilidade de coopera\u00e7\u00e3o, solidariedade, apoio m\u00fatuo, discuss\u00e3o p\u00fablica e participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 um modelo que pode inspirar as pessoas. Muitas pessoas participaram disso, pelo menos de forma perif\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se estas duas conquistas puderem ser mantidas e expandidos, poder\u00e1 haver um impacto de longo prazo. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, h\u00e1 existem desafios imensos. As t\u00e1ticas ter\u00e3o que ser ajustadas, como sempre, mas o que aconteceu foi um ponto de virada. Se voc\u00ea pensar no que aconteceu em apenas alguns meses, \u00e9 surpreendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Vamos mudar de assunto um pouco. Voc\u00ea falou e escreveu muito sobre a chamada Primavera \u00c1rabe. Parece que esse \u201cdespertar\u201d tem sido desigual, assim como a rea\u00e7\u00e3o do governo dos Estados Unidos a ele, nos v\u00e1rios pa\u00edses. O governo hesitou, mas de certa forma apoiou a revolu\u00e7\u00e3o no Egito, usou a for\u00e7a na L\u00edbia, e ao mesmo tempo fecha os olhos enquanto a Ar\u00e1bia Saudita e outras for\u00e7as defenderam o regime no Bahrain \u2013 um movimento que estranhamente coloca os governos dos Estados Unidos e do Ir\u00e3 no mesmo campo. Como podemos entender essas contradi\u00e7\u00f5es\u2026 ou desenvolvimentos desiguais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Chomsky:<\/strong> Em primeiro lugar, acho que a pol\u00edtica dos Estados Unidos tem sido bastante consistente, o que \u00e9 verdade tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Inglaterra e \u00e0 Fran\u00e7a. A Fran\u00e7a \u00e9 muito influente na parte ocidental da \u00c1frica e no norte do continente: a Tun\u00edsia era como um protetorado franc\u00eas. As pot\u00eancias imperiais tradicionais t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o muito consistente: elas op\u00f5em-se \u00e0s tend\u00eancias democratizantes em qualquer, lugar nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Voc\u00ea afirma que os Estados Unidos apoiaram, hesitantes, a derrubada da ditadura no Egito, mas isso \u00e9 parcialmente verdade. O que vimos foi um padr\u00e3o muito tradicional de atitude. O ditador preferido torna-se cada vez mais dif\u00edcil de apoiar. No fim, o ex\u00e9rcito volta-se contra ele. Nesses casos, e existem dezenas deles, existe um tipo de conduta que \u00e9 seguido rotineiramente. Apoia-se o ditador e o regime tanto quanto poss\u00edvel. Quando isso se torna imposs\u00edvel \u2013 por exemplo, se o ex\u00e9rcito volta-se contra o ditador, como no Egito \u2013 ent\u00e3o, os EUA mandam-no embora, declaram seu amor \u00e0 democracia e tentam restabelecer tanto do regime antigo quanto poss\u00edvel. Foi basicamente o que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O maior sucesso da Primavera \u00c1rabe \u00e9, at\u00e9 agora, a Tun\u00edsia. Os franceses apoiaram a ditadura, mesmo quando o levante popular era maci\u00e7o. Continuaram a apoi\u00e1-la, at\u00e9 que finalmente se afastaram. Tem havido uma real participa\u00e7\u00e3o popular na Tun\u00edsia, que muda muito as coisas. H\u00e1 v\u00e1rios problemas, mas houve progressos consider\u00e1veis. No Egito, que \u00e9 o pa\u00eds mais importante e onde coisas muito animadoras aconteceram, houve v\u00e1rios retrocessos. Muito do antigo regime est\u00e1 de volta. Os grupos isl\u00e2micos que se organizaram sob a ditadura, em favelas urbanas e nas \u00e1reas rurais, agora t\u00eam uma grande estrutura organizacional, que lhes permite \u2013 particularmente \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana \u2013 manter influ\u00eancia dominante em qualquer espa\u00e7o pol\u00edtico formal existente hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os Estados Unidos podem viver com eles. A lideran\u00e7a da Irmandade Mu\u00e7ulmana \u00e9 neoliberal. Ela basicamente aceita a estrutura das pol\u00edticas globais estadunidenses. Os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam obje\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio isl\u00e2mico. A Ar\u00e1bia Saudita, que \u00e9 um grande aliado, \u00e9 o estado mais extremamente fundamentalista isl\u00e2mico do mundo, e um dos mais opressivos. Os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam problemas com isso. Pode ser isl\u00e2mico ou qualquer outra coisa, desde que aceite as estruturas do poder global dos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o tenho tempo de ir de caso em caso, mas acho que, se voc\u00ea observar, ir\u00e1 concluir que todos os casos s\u00e3o essencialmente iguais neste padr\u00e3o \u2013 os Estados Unidos e seus aliados temem um progresso democr\u00e1tico real, e tentam bloque\u00e1-lo.\u00a0Existe uma raz\u00e3o muito simples para tanto. Examine as pesquisas.\u00a0Existem amplas sondagens de opini\u00e3o p\u00fablica, feitas pelos Estados Unidos e por organiza\u00e7\u00f5es \u00e1rabes confi\u00e1veis. Todas indicam que naquela regi\u00e3o as sociedades veem, como maior amea\u00e7a, os Estados Unidos e Israel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eles n\u00e3o gostam do Ir\u00e3, bastante impopular. Isso vem da tens\u00e3o entre persas e \u00e1rabes. As tens\u00f5es entre sunitas e xiitas tamb\u00e9m v\u00eam de longa data. O Ir\u00e3 \u00e9 impopular, mas poucos o veem como uma amea\u00e7a. Na \u00faltima pesquisa, h\u00e1 algumas semanas, eram 5%. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica dos Estados Unidos \u00e9 t\u00e3o forte que a maioria \u2013 e em alguns pa\u00edses, a grande maioria \u2013 pensa que a regi\u00e3o estaria melhor se o Ir\u00e3 tivesse armas nucleares. Eles n\u00e3o gostariam que houvesse armas nucleares l\u00e1, mas querem compensar o poder dos Estados Unidos e de Israel. Uma recente pesquisa do Gallup mostra que mais de 80% dos eg\u00edpcios querem rejeitar a ajuda dos Estados Unidos, porque se op\u00f5em ao pa\u00eds e t\u00eam medo de amea\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Essas n\u00e3o s\u00e3o posturas que os Estados Unidos e seus aliados desejam, obviamente. Se voc\u00ea tem uma democracia que funciona, a opini\u00e3o p\u00fablica influencia a pol\u00edtica. Por isso, Washington se op\u00f5e \u00e0 democracia. Voc\u00ea n\u00e3o l\u00ea isso na m\u00eddia e nos jornais. Fala-se sobre nosso amor \u00e0 democracia e sobre nossa suposta inconsist\u00eancia: por que aqui sim, e l\u00e1 n\u00e3o? Na verdade, h\u00e1 muito pouca inconsist\u00eancia. Ali\u00e1s, isso \u00e9 confirmado pelos estudiosos mais s\u00e9rios, que reconhecem, meio que lastimosamente, o apoio dos Estados Unidos \u00e0 democracia, apenas como estrat\u00e9gia e por objetivos econ\u00f4micos. \u00c9 verdade na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 verdade no Oriente M\u00e9dio, \u00e9 verdade em qualquer lugar.\u00a0\u00c9 verdade aqui em casa, tamb\u00e9m. \u00c9 completamente intelig\u00edvel, n\u00e3o dever\u00edamos alimentar ilus\u00f5es sobre isso.\u00a0Pode n\u00e3o ser o que as pessoas nos Estados Unidos querem, mas aqui, e em outros pa\u00edses, h\u00e1, entre a opini\u00e3o p\u00fablica e as pol\u00edticas um grande hiato, um sinal de n\u00e3o funcionamento da democracia. \u00c9, ali\u00e1s, uma das raz\u00f5es para o enorme um antagonismo da popula\u00e7\u00e3o para com o Congresso. A aprova\u00e7\u00e3o do Congresso est\u00e1 na casa em um d\u00edgito. Acho que nunca foi menor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Numa pesquisa recente, 11%.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Chomsky: <\/strong>\u00c9 praticamente invis\u00edvel. O mesmo \u00e9 verdade em rela\u00e7\u00e3o a institui\u00e7\u00f5es que atuam no exterior. Grandes corpora\u00e7\u00f5es, bancos, ci\u00eancia, v\u00e1rias coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Apenas o ex\u00e9rcito ainda aparece bem, em termos de confian\u00e7a das pessoas nas institui\u00e7\u00f5es. Elas ainda confiam no ex\u00e9rcito.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Chomsky: <\/strong>Voc\u00ea tem raz\u00e3o. Nada disso \u00e9 saud\u00e1vel \u2013 na verdade, tudo \u00e9 muito perigoso. Reflete basicamente o desgaste do funcionamento da democracia, que vem de muito tempo. O fato de as elei\u00e7\u00f5es serem essencialmente compradas tornou-se t\u00e3o evidente que \u00e9 dif\u00edcil de esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Falando sobre tend\u00eancias internacionais, o que voc\u00ea acha da crescente vis\u00e3o de que os Estados Unidos s\u00e3o um imp\u00e9rio em decl\u00ednio? De um lado, certamente parece que nosso chamado <em>soft-power<\/em> est\u00e1 diminuindo, mas \u00e9 preciso contrastar isso com nosso crescente dom\u00ednio militar na era p\u00f3s-Guerra Fria e especialmente em seguida ao 11 de Setembro. Estamos realmente em decl\u00ednio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Chomsky:<\/strong> Sim, estamos. Os Estados Unidos est\u00e3o em decl\u00ednio desde 1945. No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estavam em uma posi\u00e7\u00e3o de poder fenomenal.\u00a0Tinham metade da riqueza do mundo. Tinham seguran\u00e7a total. Controlavam o hemisf\u00e9rio ocidental. Controlavam os dois oceanos e as margens opostas dos dois oceanos. Tinham objetivos muito ambiciosos de controlar a maior parte do mundo e assegurar que n\u00e3o houvesse obje\u00e7\u00f5es a esse dom\u00ednio. Isso era muito expl\u00edcito e amplamente implantado. O pa\u00eds entrou em decl\u00ednio muito r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 1949, houve um grande evento, que \u00e9 chamado aqui de a \u201cperda\u201d da China. Significa que o pa\u00eds tornou-se independente. Isso \u00e9 uma enorme fonte de controv\u00e9rsias e conflitos nos Estados Unidos desde ent\u00e3o \u2013 as pessoas perguntam quem \u00e9 respons\u00e1vel pela \u201cperda\u201d da China\u2026 Logo depois disso, come\u00e7aram a se preocupar com a \u201cperda\u201d da Indochina, que espalhou a preocupa\u00e7\u00e3o de que haveria a \u201cperda\u201d do sudeste asi\u00e1tico. O conceito de \u201cperda\u201d \u00e9 interessante. \u00c9 uma pretens\u00e3o t\u00e1cita de que s\u00e3o basicamente\u2026 nossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A situa\u00e7\u00e3o se desfez ao longo dos anos. Em 1970, o percentual da riqueza mundial nos Estados Unidos era aproximadamente 25% \u2013 o que ainda \u00e9 colossal, mas n\u00e3o \u00e9 50%. O mundo j\u00e1 estava se tornando mais diverso. Na \u00faltima d\u00e9cada, a Am\u00e9rica do Sul adquiriu substancial independ\u00eancia. Vimos isso recentemente na Confer\u00eancia de Cartagena, na Col\u00f4mbia. Os EUA mantiveram-se em posi\u00e7\u00e3o isolada em todos os grandes temas: drogas, Cuba e outros. \u00c9 um sinal de significativa perda de poder e influ\u00eancia. Agora, ocorre no Oriente M\u00e9dio. \u00c9 outra raz\u00e3o pela qual os Estados Unidos e seus aliados est\u00e3o t\u00e3o preocupados com a amea\u00e7a da democracia e da independ\u00eancia. .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Voc\u00ea tem raz\u00e3o ao dizer que o poder militar n\u00e3o declinou. Na verdade, pode ter se ampliado, em compara\u00e7\u00e3o com o resto do mundo. Os Estados Unidos s\u00e3o respons\u00e1veis por quase metade dos gastos militares do mundo. O \u00fanico pa\u00eds com centenas de bases e com a habilidade de se projetar em qualquer lugar. Novas tecnologias de destrui\u00e7\u00e3o e assassinato \u2013 <em>drones<\/em>, por exemplo.\u00a0Est\u00e3o muito \u00e0 frente do resto do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Voc\u00ea tamb\u00e9m citou o chamado soft-power.\u00a0Isso \u00e9 importante. A capacidade de influ\u00eancia continuou a cair, como tem acontecido desde 1945. Uma forma de ver isso s\u00e3o os vetos na ONU. At\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1960, o mundo estava t\u00e3o sob controle que os Estados Unidos n\u00e3o vetaram nenhuma resolu\u00e7\u00e3o no Conselho de Seguran\u00e7a. Desde ent\u00e3o os Estados Unidos s\u00e3o o l\u00edder em vetar resolu\u00e7\u00f5es. A Inglaterra, um estado-cliente dos EUA, fica em segundo. Nenhum outro pa\u00eds chega perto. Esse \u00e9 um reflexo do decl\u00ednio de capacidade e poder, o que significa a habilidade de influenciar e controlar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Parte desse decl\u00ednio \u00e9 auto-infligida. O que o Economic Policy Institute chama de \u201cfracasso projetado\u201d enfraqueceu significantemente os Estados Unidos, e ir\u00e1 continuar \u2013 a n\u00e3o ser que aconte\u00e7am grandes mudan\u00e7as. Mudan\u00e7as que beneficiariam a popula\u00e7\u00e3o aqui e no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 uma esp\u00e9cie de conclus\u00e3o comum deste racioc\u00ednio que sup\u00f5e uma futura hegemonia chinesa. Dever\u00edamos ser cautelosos quanto a isso. O crescimento chin\u00eas tem sido espetacular, mas a China ainda \u00e9 um pa\u00eds muito pobre \u2013 incomparavelmente mais pobre que os Estados Unidos. A China cresceu como um enorme centro industrial, mas principalmente para montagem. \u00c9 principalmente uma plataforma de montagem para pa\u00edses de ind\u00fastria sofisticada e multinacionais ocidentais como a Apple ou outras. Isso ir\u00e1 mudar com o tempo, mas \u00e9 um percurso longo. A China enfrenta problemas reais: ecol\u00f3gicos, demogr\u00e1ficos e muitos outros. \u00c9 um desenvolvimento significativo, mas acredito que dever\u00edamos olh\u00e1-lo com algum ceticismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim, esses processos est\u00e3o sem d\u00favida ocorrendo. Eles s\u00e3o parcialmente projetados. Um setor da sociedade est\u00e1 incrivelmente bem \u2013 em especial, o ligado ao capital financeiro. Para o p\u00fablico em geral, a hist\u00f3ria \u00e9 diferente. \u00c9 por isso que voc\u00ea v\u00ea revoltas em toda a parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/04\/27\/noam-chomsky-escreve-%E2%80%93-e-fala-%E2%80%93-sobre-occupy\/\"><strong>*Fonte: Outras Palavras<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevistado ao lan\u00e7ar novo livro, ele debate perspectivas do movimento, Primavera \u00c1rabe,\u00a0crise da democracia, internet e como os EUA produziram seu pr\u00f3prio decl\u00ednio Entrevista a Joshua Holland, do Alternet | Tradu\u00e7\u00e3o: Daniela Frabasile No ano passado o movimento Occupy espalhou-se espontaneamente por in\u00fameras cidades dos Estados Unidos. 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