{"id":9537,"date":"2013-05-15T00:00:00","date_gmt":"2013-05-15T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2013\/05\/15\/lula-ser-e-nao-ser\/"},"modified":"2013-05-15T00:00:00","modified_gmt":"2013-05-15T00:00:00","slug":"lula-ser-e-nao-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/lula-ser-e-nao-ser\/","title":{"rendered":"Lula, ser E n\u00e3o ser"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n\t<em>O ex-presidente da Rep\u00fablica criou um discurso e um comportamento pol\u00edtico capaz de, mesmo em situa\u00e7\u00f5es polarizadas, contentar lados opostos, sem se vincular claramente a nenhum deles. Diante de op\u00e7\u00f5es dif\u00edceis a sa\u00edda \u00e9 n\u00e3o optar. N\u00e3o se trata de hesita\u00e7\u00e3o. \u00c9 t\u00e1tica pensada e sofisticada<\/em><br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tQuem se espanta com a incorpora\u00e7\u00e3o do vice-governador paulista Guilherme Afif Domingos \u00e0 administra\u00e7\u00e3o Dilma Rousseff, achando que o pol\u00edtico oriundo do malufismo e aliado hist\u00f3rico dos PSDB seria um corpo estranho na seara petista, deve ficar mais atento ao funcionamento do chamado lulismo.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tN\u00e3o se trata apenas de uma manobra de ocasi\u00e3o para compor maiorias parlamentares e estreitar o espa\u00e7o da oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es de 2014. Estamos diante de uma sofisticada t\u00e1tica pol\u00edtica, capaz de contentar aliados \u00e0 esquerda e \u00e0 direita e de se colocar como esquerda e direita ao mesmo tempo, sem assumir claramente nenhum dos lados.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tUm exemplo mais claro desse comportamento pode ser visto no v\u00eddeo dispon\u00edvel neste link (<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=td1ywn3SoWc\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=td1ywn3SoWc<\/a><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=td1ywn3SoWc\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=td1ywn3SoWc<\/a>).<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEle n\u00e3o \u00e9 novo, dura um minuto e capta um trecho do discurso do ex-presidente Lula nas festividades de 35 anos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria), em abril de 2008.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tNas palavras de Lula, o ex-presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici, que governou o Brasil entre 1969 e 1974, fez o pa\u00eds viver \u201co momento mais cr\u00edtico da hist\u00f3ria do pa\u00eds\u201d. Mas tamb\u00e9m permitiu que \u201co Brasil encontrasse seu rumo\u201d.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA fala pode gerar v\u00e1rias controv\u00e9rsias, mas, acima de tudo, mostra como funciona o discurso lulista, seguido pela dire\u00e7\u00e3o do PT. Parece atacar algu\u00e9m, mas n\u00e3o ataca. Parece elogiar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o elogia. Parece ser de esquerda, mas n\u00e3o se assume como tal. \u00c0s vezes soa de direita, mas, habilmente, n\u00e3o deixa marcas expl\u00edcitas.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tNo caso da Embrapa, o ex-metal\u00fargico parece elogiar a ditadura, mas faz uma leve ressalva. A ressalva parece cr\u00edtica, mas tampouco \u00e9.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Veja a contradi\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\n\tNa interven\u00e7\u00e3o, o ent\u00e3o presidente diz literalmente o seguinte:<br \/>\n\t\u201c(&#8230;) \u00c9 com muito orgulho que de vez em quando as pessoas falam \u201cLula defende &#8230; elogia o governo Geisel, elogia o n\u00e3o sei das quantas. Pois eu agora \u2013 veja a contradi\u00e7\u00e3o, Requi\u00e3o \u2013 um dos presidentes que permitiu que a gente vivesse um momento pol\u00edtico mais cr\u00edtico da historia do pa\u00eds, o presidente M\u00e9dici, foi o homem que assinou a Embrapa e foi o homem que assinou Itaipu. (&#8230;) Os outros gestos que as pessoas fizeram que permitiram que o Brasil encontrasse seu rumo. Cada um de n\u00f3s ser\u00e1 julgado um dia. Cada um de n\u00f3s ser\u00e1 julgado por aquilo que fizemos e pelo que deixamos de fazer\u201d.<br \/>\n\tO que Lula quis dizer, exatamente?<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAtacar sua fala como sendo uma rendi\u00e7\u00e3o ao legado da ditadura ou aliena\u00e7\u00e3o sobre o per\u00edodo 1964-85 simplifica o problema e n\u00e3o vai ao \u00e2mago da quest\u00e3o.<br \/>\n\tA conduta amb\u00edgua n\u00e3o indica d\u00favida, hesita\u00e7\u00e3o ou falta de clareza sobre posi\u00e7\u00e3o a tomar ou rumo a seguir. Trata-se de discurso bem pensado e sofisticado para o tipo de projeto que o assim chamado lulismo vem implantando no pa\u00eds h\u00e1 dez anos.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t\u00c9 sofisticado porque dialoga com os v\u00e1rios interesses em disputa na sociedade. Contenta progressistas e conservadores, direitistas e esquerdistas e&#8230; n\u00e3o toca <em>no status quo. <\/em><br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>In\u00fameros gestos<\/strong><br \/>\n\tInterven\u00e7\u00f5es como essa se desdobraram em in\u00fameros gestos, falas e iniciativas ao longo dos dois mandatos de Lula e na gest\u00e3o de sua sucessora, Dilma Rousseff (menos competente que seu patrono, nesse quesito).<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAo mesmo tempo em que usou o bon\u00e9 do MST em manifesta\u00e7\u00e3o dos sem-terra, Lula praticamente paralisou a reforma agr\u00e1ria. Deu for\u00e7a \u00e0 Secretaria de Direitos Humanos da presid\u00eancia da Rep\u00fablica e nomeou um quadro da direita, como Nelson Jobim, para a pasta da Defesa, o que freou qualquer investiga\u00e7\u00e3o sobre os anos de chumbo nos quart\u00e9is. Colocou um desenvolvimentista moderado na Fazenda e soltou as r\u00e9deas da ortodoxia no Banco Central.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tApoiou a gest\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela, para possibilitar a entrada de empreiteiras e outras empresas brasileiras no pa\u00eds. Mas tratou de esvaziar propostas de integra\u00e7\u00e3o estatal, como as da Telesur, Gasoduto do Sul, Banco do Sul etc. Reclamou da imprensa, mas n\u00e3o tomou nenhuma iniciativa para formular uma nova regula\u00e7\u00e3o para o setor. Fala como homem de esquerda, mas abrigou figuras egressas da fina flor do conservadorismo nacional em seus governos.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tOs exemplos s\u00e3o infind\u00e1veis e representam a materializa\u00e7\u00e3o de uma habil\u00edssima pol\u00edtica conservadora de novo tipo. N\u00e3o se trata de uma modalidade <em>heavy metal<\/em> do neoliberalismo, como a dos governos do PSDB (1995-2003). \u00c9 algo que d\u00e1 concess\u00f5es secund\u00e1rias a um lado e mant\u00e9m a ess\u00eancia do modelo estruturado pelo outro.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Governo sofisticado<\/strong><br \/>\n\tCom tais diretrizes, Lula construiu o governo mais sofisticado e complexo no Brasil desde Get\u00falio Vargas (1930-45 e 1951-54). Obteve ades\u00f5es \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, deixando intocados os interesses hegem\u00f4nicos na sociedade.<br \/>\n\tPara Lula e a maioria petista, ele e sua sucessora constru\u00edram governos de coaliz\u00e3o, montados para superar desafios hist\u00f3ricos do pa\u00eds (como se os desafios n\u00e3o tivessem sido colocados justamente por uma parcela da sociedade que o PT abrigou em suas gest\u00f5es).<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tPara uma fac\u00e7\u00e3o mais \u00e0 esquerda do petismo e para seu tradicional aliado, o PCdoB, este seria um governo em disputa (como se todos os governos n\u00e3o o fossem, em maior ou menor grau). Atrav\u00e9s desse biombo vernacular, aceitam-se quaisquer manobras para manter a chamada governabilidade.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tGovernabilidade, esclare\u00e7a-se, n\u00e3o \u00e9 uma maneira de se manter o comando para se atingir determinado objetivo. Governabilidade \u00e9 aqui um fim em si mesmo.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tPara a direita \u2013 que disputa com condi\u00e7\u00f5es muito melhores os rumos da administra\u00e7\u00e3o \u2013 trata-se de manter espa\u00e7os nunca perdidos historicamente. Os governos petistas incorporaram, sem dizer que o fizeram, pol\u00edticas caras aos setores monopolistas e rentistas, como o aprofundamento do processo de privatiza\u00e7\u00f5es, de isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias e fiscais e a pol\u00edtica de franco favorecimento aos grandes grupos privados, via BNDES.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA argumenta\u00e7\u00e3o de parcela da esquerda lembra que o governo distribuiu uma parcela do excedente social entre os setores miser\u00e1veis e obteve um crescimento econ\u00f4mico razo\u00e1vel, em compara\u00e7\u00e3o com a administra\u00e7\u00e3o do PSDB (\u00e9 poss\u00edvel que as med\u00edocres taxas de crescimento obtidas pelo governo Dilma quebrem esse par\u00e2metro).<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tCom tudo isso, uma conclus\u00e3o \u00e9 clara: n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil se opor a uma gest\u00e3o desse tipo.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Ganhos reais<\/strong><br \/>\n\tH\u00e1 ganhos reais para os trabalhadores nas pol\u00edticas de Lula e Dilma. H\u00e1 um aumento da renda individual de forma direta, propiciada pelos aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo e pela eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de emprego. E h\u00e1 tamb\u00e9m, de forma indireta, uma eleva\u00e7\u00e3o do consumo popular, definida pela amplia\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito pessoal. Como parte das pol\u00edticas sociais, o governo lan\u00e7ou o Prouni e o Fies, destinados a financiar a educa\u00e7\u00e3o de jovens carentes, atrav\u00e9s de subs\u00eddios indiretos a faculdades privadas e pol\u00edticas focadas de transfer\u00eancia de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia. S\u00e3o pr\u00e1ticas eficientes, mas n\u00e3o desconcentram renda de maneira significativa. Antes, destinam uma parte do excedente propiciado pelo crescimento do PIB aos pobres, propiciado por um cen\u00e1rio internacional extremamente favor\u00e1vel para os pa\u00edses exportadores de <em>commodities<\/em>.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Cen\u00e1rio at\u00edpico<\/strong><br \/>\n\tA primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI constituiu-se num cen\u00e1rio at\u00edpico em temos mundiais. A chegada ao mercado internacional de novos pa\u00edses importadores de produtos prim\u00e1rios \u2013 China e \u00cdndia -, um aumento significativo da liquidez \u2013 e do cr\u00e9dito \u2013 internacional, combinados com taxas de juros extremamente baixas, possibilitou a entrada de grande volume de capital nos pa\u00edses do sul do mundo.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO Brasil &#8211; bem posicionado como exportador de soja, trigo, carne e etanol &#8211; soube tirar vantagens expressivas da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAs a\u00e7\u00f5es governamentais nesse per\u00edodo tiveram como uma de suas metas a amplia\u00e7\u00e3o do mercado interno que alavancou um miniciclo de crescimento, entre 2006 e 2010.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tVers\u00f5es mais toscas da linha lulista n\u00e3o prosperaram. Os exemplos s\u00e3o dois, Gilberto Kassab e Marina Silva. S\u00e3o imita\u00e7\u00f5es que arranham a superf\u00edcie da orienta\u00e7\u00e3o amb\u00edgua do ex-metal\u00fargico, mas n\u00e3o articulam o conjunto de for\u00e7as sociais que ele \u2013 montado na m\u00e1quina estatal \u2013 soube t\u00e3o bem fazer.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tTodos se lembram do ex-prefeito de S\u00e3o Paulo, Gilberto Kassab, fundador do Partido Social Democr\u00e1tico (PSD). Suas palavras foram sinuosas \u00e0 \u00e9poca do lan\u00e7amento de sua agremia\u00e7\u00e3o, em fins de 2011: \u201cN\u00e3o somos nem de direita e nem de esquerda\u201d. Opini\u00e3o igual tem Marina Silva, para quem sua Rede n\u00e3o est\u00e1 nem \u00e0 esquerda e nem \u00e0 direita, mas \u00e0 frente.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Quais os limites da pol\u00edtica lulista?<\/strong><br \/>\n\tEssa \u00e9 a grande pergunta, depois de dez anos de governo. Os limites s\u00e3o dados pela estrutura do Estado, que segue a servi\u00e7o dos interesses rentistas e dos grandes monop\u00f3lios.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO que significa mudar a estrutura do Estado em termos econ\u00f4micos? Significa embutir custos adicionais ao seu funcionamento, transferindo efetivamente renda de uma classe a outra.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO Estado brasileiro sofreu quatro grandes reformas ao longo do s\u00e9culo XX. Ou seja, por quatro vezes rompeu-se o c\u00edrculo das mudan\u00e7as sem mudan\u00e7as.<br \/>\n\tA primeira se deu entre 1930 e 1945. Get\u00falio Vargas alterou a pol\u00edtica fiscal, direcionando parte da arrecada\u00e7\u00e3o para iniciativas industrializantes, para a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais permanentes \u2013 CLT e previd\u00eancia social \u2013 e para a reforma da pr\u00f3pria m\u00e1quina p\u00fablica. Criou um Estado com maior poder de interven\u00e7\u00e3o na economia.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA segunda reforma do Estado aconteceu por obra da ditadura militar (1964-1985). Embora seus governos n\u00e3o tenham sido uniformes, ela aumentou o poder de interven\u00e7\u00e3o na economia, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de centenas de empresas estatais e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA terceira n\u00e3o chegou a ocorrer totalmente. Foi esbo\u00e7ada pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, atrav\u00e9s da amplia\u00e7\u00e3o de direitos sociais universais, especialmente nas \u00e1reas de sa\u00fade (SUS) e previd\u00eancia social. Havia na Carta uma tentativa de se criar uma vers\u00e3o nacional de Estado de Bem Estar Social. No cap\u00edtulo da ordem econ\u00f4mica, a Constitui\u00e7\u00e3o estabelecia diferen\u00e7as entre empresa estrangeira e nacional, retiradas no governo FHC.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA quarta e radical mudan\u00e7a veio nos anos de 1990, nos governos Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. Ela pode ser sintetizada como uma tentativa de desconstru\u00e7\u00e3o da primeira (Vargas) e terceira (Carta de 1988) interven\u00e7\u00e3o. Essa mudan\u00e7a come\u00e7a com a aprova\u00e7\u00e3o do Programa Nacional de Desestatiza\u00e7\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/L8031.htm\">http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/L8031.htm<\/a>), em 1990, renovado em 1997 (<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/L9491.htm\">http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/L9491.htm<\/a>). A lei pretendia \u201creordenar a posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do Estado na economia, transferindo \u00e0 iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor p\u00fablico\u201d. Ela possibilitou uma radical altera\u00e7\u00e3o do papel do Estado. Juntamente com 34 emendas constitucionais, aprovadas entre 1995 e 2002 (<a href=\"http:\/\/www.dji.com.br\/constituicao_federal\/ec.htm\">http:\/\/www.dji.com.br\/constituicao_federal\/ec.htm<\/a>), o governo Cardoso ajustou o pa\u00eds \u00e0 nova ordem mundial, pautada pelos preceitos do Consenso de Washington.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>O papel de Lula<\/strong><br \/>\n\tO governo Lula n\u00e3o apenas manteve todas essas mudan\u00e7as \u2013 inclusive o Programa Nacional de Desestatiza\u00e7\u00e3o -, como tomou iniciativa de realizar mais 28 emendas constitucionais, que n\u00e3o se contrapuseram \u00e0s diretrizes da administra\u00e7\u00e3o anterior. No caso, por exemplo, da reforma na Previd\u00eancia Social (<a href=\"http:\/\/www.dji.com.br\/constituicao_federal\/ec047.htm\">http:\/\/www.dji.com.br\/constituicao_federal\/ec047.htm<\/a>), de 2005, a inten\u00e7\u00e3o foi de aprofundar o modelo liberal. O mesmo pode ser dito de iniciativas na legisla\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, come\u00e7ando pela Lei de Fal\u00eancias (2003), at\u00e9 as privatiza\u00e7\u00f5es realizadas pelo governo Dilma, sob o eufemismo de \u201cconcess\u00f5es\u201d, sem contar as dezenas de setores que foram agraciados com desonera\u00e7\u00f5es na folha de sal\u00e1rios.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tAssim, as melhorias sociais \u2013 que s\u00e3o reais \u2013 em v\u00e1rios aspectos da vida da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, obtidas nos governos petistas, foram alcan\u00e7adas gra\u00e7as a um cen\u00e1rio de crescimento econ\u00f4mico, sem tocar na organiza\u00e7\u00e3o do Estado, sem ampliar servi\u00e7os p\u00fablicos universais \u2013 como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas -, que se constituem em ganhos indiretos, mas universais. Ali\u00e1s, na sa\u00fade p\u00fablica, o que se nota \u00e9 um avan\u00e7o dos planos de medicina privada, das organiza\u00e7\u00f5es sociais e um paulatino sucateamento do SUS, estabelecido na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>Cabe tudo<\/strong><br \/>\n\tRepetindo: a justi\u00e7a social lulista se faz via mercado, via cr\u00e9dito e aumento da massa salarial que dependem de cen\u00e1rios de crescimento econ\u00f4mico.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tPara esse tipo de modelo, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio uma nova reparti\u00e7\u00e3o de renda e da riqueza social. O discurso pol\u00edtico para essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve incentivar o confronto e a luta de classes, pois n\u00e3o \u00e9 um discurso mudancista. \u00c9 o discurso que exalta ganhos, ao mesmo tempo que mostra o valor da estabilidade. Ali\u00e1s, \u00e9 a apologia da estabilidade que possibilita ganhos.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tCabe tudo nessa formula\u00e7\u00e3o, desde avalia\u00e7\u00f5es incompreens\u00edveis sobre o per\u00edodo mais pesado da ditadura at\u00e9 o l\u00edder do movimento das pequenas e m\u00e9dias empresas.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t\u00c9 uma fala marcadamente amb\u00edgua, sofisticada e, sobretudo, conservadora.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ex-presidente da Rep\u00fablica criou um discurso e um comportamento pol\u00edtico capaz de, mesmo em situa\u00e7\u00f5es polarizadas, contentar lados opostos, sem se vincular claramente a nenhum deles. Diante de op\u00e7\u00f5es dif\u00edceis a sa\u00edda \u00e9 n\u00e3o optar. 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