{"id":9744,"date":"2014-12-08T00:00:00","date_gmt":"2014-12-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psol50.org.br\/arquivo\/2014\/12\/08\/a-morte-que-nao-comove\/"},"modified":"2014-12-08T00:00:00","modified_gmt":"2014-12-08T00:00:00","slug":"a-morte-que-nao-comove","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psol50.org.br\/a-morte-que-nao-comove\/","title":{"rendered":"A morte que n\u00e3o comove"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-family:arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12px;\"><strong><em>Por negro morto em Ferguson, 170 cidades em 37 estados americanos tiveram protestos. No Brasil, nada \u00e9 feito, mesmo quando 77% das v\u00edtimas dos 56 mil assassinatos no pa\u00eds s\u00e3o negros ou negras, como em 2012. A naturaliza\u00e7\u00e3o da morte negra no nosso pa\u00eds est\u00e1 intimamente ligada h\u00e1 um projeto&nbsp; de controle social da classe trabalhadora<\/em><\/strong><br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA pequena cidade de Ferguson, com cerca de 21 mil habitantes, no sub\u00farbio de Saint Louis, estado de Missouri, nos EUA, se tornou um grande palco da luta racial desde a morte do jovem negro Michael Brown, de 18 anos, no dia 9 de agosto. Ele foi atingido por seis tiros disparados pelo policial branco Darren Wilson, 28, em plena luz do dia.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO caso gerou revolta, como\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular. A indigna\u00e7\u00e3o com a morte de Brown ganhou as ruas de Ferguson e depois se ampliou para outras 170 cidades de 37 estados nos Estados Unidos e uma grande repercuss\u00e3o internacional.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tQuando parecia que as coisas se acalmariam, na \u00faltima semana o caso ganhou novos contornos com a decis\u00e3o da justi\u00e7a de n\u00e3o indiciar o policial branco que matou um jovem negro desarmado, reativando os protestos populares.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tEsse cen\u00e1rio \u00e9 revelador de quanto o centro do capitalismo \u00e9 incapaz de resolver suas pr\u00f3prias mazelas, tendo o racismo ainda como grande motor das profundas desigualdades do pa\u00eds, onde a popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e1 submetida aos maiores \u00edndices de desemprego, viol\u00eancia policial, encarceramento, entre outros dados.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tPor isso faz todo o sentido essas mobiliza\u00e7\u00f5es populares que remetem ao&nbsp; chamado movimento por direitos civis que, entre 1955 e 1968, garantiram conquistas para popula\u00e7\u00e3o negra estadunidense e merecem toda a nossa solidariedade e apoio.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\t<strong>O que isso tem a ver com o Brasil ?<\/strong><br \/>\n\tDados recentes evidenciados pelo Mapa da Viol\u00eancia apontam que o Brasil, em n\u00fameros absolutos, \u00e9 o pa\u00eds com o maior \u00edndice de assassinatos do mundo. S\u00f3 em 2012 foram 56 mil pessoas, sendo 30 mil jovens entre 15 e 29 anos, destes 77% jovens negros.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO que \u00e9 curioso&nbsp; em nosso pa\u00eds \u00e9 que essas mortes n\u00e3o comovem, s\u00e3o naturalizadas e al\u00e9m de tudo contam com mecanismos institucionais que as legitimam&nbsp; como os \u201cautos de resist\u00eancia\u201d&nbsp;ou \u201cresist\u00eancia seguida de morte\u201d, onde os agentes da seguran\u00e7a p\u00fablica alegam estarem em confronto com as pessoas assassinadas e os inqu\u00e9ritos n\u00e3o s\u00e3o levados adiante.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tFruto da press\u00e3o dos movimentos sociais, em especial o movimento negro, est\u00e1 para ser votado no Congresso Nacional o Projeto de Lei 4471\/2012 que estabelece maior rigor nas investiga\u00e7\u00f5es nos crimes cometidos por agentes do Estado e enterra os autos de resist\u00eancia. Sua aprova\u00e7\u00e3o depende muito da press\u00e3o popular, tendo vista a composi\u00e7\u00e3o conservadora do Parlamento Brasileiro.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tComo mudar esse quadro tendo em vista que a morte negra n\u00e3o comove?<br \/>\n\tA den\u00fancia do exterm\u00ednio de jovens negros praticados pela Policia n\u00e3o \u00e9 uma novidade.&nbsp; Em 1978 um dos estopins das mobiliza\u00e7\u00f5es que la\u00e7aram o Movimento Negro Unificado Contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial (MNUCDR), nas escadarias do Teatro Municipal,&nbsp; foi a morte do Robson Silveira da Luz em uma delegacia em&nbsp; Guaianazes, Zona Leste de S\u00e3o Paulo.&nbsp; Na d\u00e9cada de 90, per\u00edodo de aprofundamento do neoliberalismo, aumento do desemprego, aumentos dos chamados&nbsp; cintur\u00f5es de mis\u00e9ria, produziram um aumento da viol\u00eancia nos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos, praticados pela policia muito bem relatado pelo movimento Hip Hop e sua m\u00fasica Rap.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tNa virada do s\u00e9culo, com o PT chegando ao governo federal criou-se uma grande expectativa de mudan\u00e7as que poderiam reverte esse quadro, por\u00e9m no mesmo governo que garantiu marcos institucionais, como a cria\u00e7\u00e3o da Secretaria Especial de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (Seppir), a Lei 10.639 que garante o ensino da cultura africana e afro-brasileira em todas as esfera de ensino, cotas nas universidades federais e no concurso p\u00fablico, entre outros, tamb\u00e9m assistimos explodir os n\u00fameros da viol\u00eancia, como vem sendo mostrado seguidamente&nbsp; pelos Mapas da Viol\u00eancia que apontam crescimento de at\u00e9 30% de jovens negros assassinados.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO modelo de desenvolvimento proposto nos \u00faltimos anos vem mostrando o seu esgotamento, a expans\u00e3o do capitalismo pelos grandes centros urbanos atrav\u00e9s de grandes eventos culturais, aumento substantivo da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que empurra as popula\u00e7\u00f5es mais pobres para lugares mais distantes e com menor infraestrutura, interferindo, entre outras coisas, na sua mobilidade, expans\u00e3o do mercado de consumo, sem a amplia\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos, v\u00e3o transformando os territ\u00f3rios perif\u00e9ricos em bombas rel\u00f3gios&nbsp; que explodem na viol\u00eancia largamente legitimada pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, que fomentam uma cultura da viol\u00eancia.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA naturaliza\u00e7\u00e3o da morte negra no Brasil est\u00e1 intimamente ligada h\u00e1 um projeto&nbsp; de controle social da classe trabalhadora, n\u00e3o a toa que todas as rea\u00e7\u00f5es de familiares e amigos que se revoltam contras essas mortes, rapidamente&nbsp; s\u00e3o atribu\u00eddas ao crime organizado. Quando um jovem negro \u00e9 assassinado, logo se imagina que ele estava envolvido com alguma coisa errada. Ideias de s\u00e9culos passados, como o racismo cient\u00edfico que estabelecia um fen\u00f3tipo padr\u00e3o para os criminosos,&nbsp; ainda s\u00e3o largamente utilizadas pela pol\u00edcia em nosso pa\u00eds que estabelece o jovem negro como o suspeito padr\u00e3o.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA profunda concentra\u00e7\u00e3o de riqueza&nbsp; frutos de transi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, como a Independ\u00eancia, Fim da Escravid\u00e3o, Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, fim das ditaduras, sem rupturas e a iner\u00eancia do sistema capitalista produzem&nbsp; um superficial Estado Democr\u00e1tico de Direitos, onde uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o goza de direitos. Isso fica evidente quando olhamos para dados do IPEA que apontam que brancos t\u00eam mais acesso a penas alternativas e que negros v\u00e3o mais para pris\u00e3o.<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tO exterm\u00ednio generalizado que produz o que o movimento social negro vem chamando de genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra, que tamb\u00e9m se expressa na aus\u00eancia de um conjunto de outros direitos e vulnerabilidades sociais em que est\u00e3o inseridas essa comunidade, tem um papel importante na luta de classes no pa\u00eds, pois a invers\u00e3o desse quadro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com mudan\u00e7as estruturais no Estado Brasileiro.&nbsp;<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tNeste sentido, articula\u00e7\u00f5es importantes ocorreram no \u00faltimo per\u00edodo que v\u00eam construindo uma agenda pol\u00edtica importante, como as redes de familiares v\u00edtimas da viol\u00eancia, o Comit\u00ea Contra o Genoc\u00eddio de S\u00e3o Paulo, a Campanha Reaja na Bahia, o Fonajunes no Esp\u00edrito Santo,&nbsp;a Marcha Contra o Genoc\u00eddio,&nbsp; que reuniu milhares pessoas em todo pa\u00eds no \u00faltimo dia 22 de agosto, mais recentemente a campanha da Anistia Internacional, entre tantas outras iniciativas.&nbsp;<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tDentro do conte\u00fado pol\u00edtico est\u00e3o pautas como o fim dos autos de resist\u00eancia,&nbsp; a desmilitariza\u00e7\u00e3o da policia, o debate sobre a guerra \u00e0s drogas, implanta\u00e7\u00e3o de programas como Juventude Viva&nbsp;em car\u00e1ter nacional, democratiza\u00e7\u00e3o do sistema Judici\u00e1rio, democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, reforma pol\u00edtica.&nbsp;<br \/>\n\t&nbsp;<br \/>\n\tA forte polariza\u00e7\u00e3o do segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 2014,&nbsp; a amplia\u00e7\u00e3o das bancadas conservadoras e as sinaliza\u00e7\u00f5es \u00e0 direita&nbsp; do pr\u00f3ximo governo federal apontam para um cen\u00e1rio dif\u00edcil para as pautas progressistas, o que exigir\u00e1 uma grande capacidade de atua\u00e7\u00e3o em frentes de lutas e mobiliza\u00e7\u00e3o social para impedir retrocessos e avan\u00e7ar em conquistas reais para o povo.&nbsp; Que as ruas de Ferguson inspirem o povo negro brasileiro a se levantarem contra o racismo em defesa de uma sociedade mais justa, humana, fraterna e igualit\u00e1ria.<br \/>\n\t&nbsp;<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por negro morto em Ferguson, 170 cidades em 37 estados americanos tiveram protestos. 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