Uma desconhecida, uma amiga, eu ou você. Mais uma de nós.
Em um ranking de 84 países, apresentamos a sétima maior taxa de femicídios: o assassinato de mulheres por razões de gênero, muitas vezes levados a cabo por seus próprios companheiros. Por aqui, ainda se fala em “crimes passionais”, uma triste alusão às noções de afeto e histórias de “amor” ainda hegemônicas em nossa sociedade, e que formam meninas para a dependência emocional e econômica, a submissão, o medo.
Engana-se quem pensa que agressores de mulheres sejam monstros ou seres de outro planeta. Passam despercebidos nas ruas, alguns jogam futebol aos domingos e, eventualmente, é até aquele seu amigo muito afável, que nunca imaginaria que bate na mulher. Mas bate.
Parece uma contradição gigantesca que um quase consenso na sociedade seja tão próximo e corriqueiro. Não é preciso ser de esquerda para se incomodar e repudiar a violência física contra as mulheres. Até o Banco Mundial endossa campanhas publicitárias de grande alcance sobre o tema. Aliás, é notório que a violência doméstica seja um dos principais motivos de afastamento das mulheres de seu ambiente de trabalho.
Mas o significado do 25 de novembro é maior do que a reivindicação estrita de nossa integridade física e emocional. Lutar por uma vida sem violência é lutar pelo nosso direito de existir enquanto seres autônomos. Por isso, ao redor do globo, saímos às ruas para afirmar que somos donas de nosso próprio destino e capazes de escrever nossas histórias.
A afirmação de que “o pessoal é político” é possivelmente o grande trunfo do feminismo e contribuição fundamental dos movimentos de mulheres latino-americanos à crítica do modelo de democracia liberal. Pautar a violência doméstica e o controle sobre a vida e a sexualidade das mulheres como problemas coletivos e não individuais, de ordem política, é demonstrar como o contrato social que permite as liberdades públicas para uns necessita da submissão de outras no espaço privado.
Dentro de um sistema onde o exercício da cidadania depende da autonomia individual, quem é privada (ou privado) dos espaços de poder e direitos sociais está sempre alguns passos atrás.
Como pensar em democracia política sem inclusão social? Sem ampliação de direitos? E indo um pouco mais além, como pensar em ativismo político sem que metade da classe trabalhadora se reconheça enquanto indivíduo e sujeito político?
Chegando ao fim do primeiro mandato da primeira mulher presidenta do Brasil; passados 50 anos do golpe que instaurou a ditadura civil-militar no Brasil, ainda damos passos tímidos rumo à democracia e à igualdade entre os gêneros.
Que o 25 de novembro seja também uma data para que as esquerdas reflitam sobre o lugar da pauta das mulheres na agenda política e sobre a impossibilidade de avanço de qualquer luta sem o engajamento militante das mulheres.

