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8 de março: Décadas de luta feminista

As primeiras comemorações voltadas unicamente à luta das mulheres datam do começo do século passado. Nos Estados Unidos, o “Women’s Day”, organizado pelas socialistas e dedicado à luta pelo direito ao voto remonta a 1908. Em 1910, durante a Conferência das Mulheres Socialistas realizada na Dinamarca, a revolucionária alemã Clara Zetkin levou a proposta de instituir um dia internacional para celebrar as lutas das mulheres. A primeira comemoração do Dia Socialista das Mulheres na Europa ocorreu em 1911, para lembrar o levante realizado por proletárias na Prússia que reivindicavam o direito ao voto.
Há muitas histórias acerca da definição da data do 8 de março como o Dia Internacional de Luta das Mulheres. A mais famosa, talvez, seja a referência ao incêndio em uma fábrica têxtil que teria matado mais de uma centena de operárias grevistas no final do século XIX na cidade de Nova York.
Estudos realizados pela historiadora espanhola Ana Isabel Álvarez González, autora do livro As Origens e a Comemoração do Dia Internacional das Mulheres, apontam que tal evento não ocorreu. Há registros já no século XX de um incêndio em fábrica que teria vitimado 125 tecelãs, e de diversas greves e manifestações de mulheres operárias em Nova York. Mas segundo a pesquisadora, a escolha do dia 8 de março se deve a uma manifestação de operárias russas contra a guerra e a fome ocorrida em 1917, possivelmente um dos primeiros eventos da Revolução Russa.
Definida em 1921, na Conferência das Mulheres Comunistas realizada em Moscou, a data foi impulsionada pela 3ª Internacional Socialista como momento de realçar o protagonismo político e as pautas específicas das mulheres. Já nos anos 70, a Organização das Nações Unidas (ONU) adota a data em seu calendário e consolida o 8 de março como dia de luta das mulheres por autonomia e igualdade em todo o mundo.
Apesar da ofensiva do mercado, tentando transformar a data em uma exaltação comercial do “feminino”, conceito que reforça a desigualdade de gênero, remetendo a condição de mulher a componentes biologizantes e atrelados ao âmbito privado – tais quais a maternidade (compulsória) e os trabalhos não-remunerados domésticos e de cuidados – as forças progressistas resistem relembrando sua origem histórica e impondo sua agenda neste dia que muitas vezes abre o calendário de lutas da esquerda.
Nosso feminismo é classista!
O machismo atinge todas as classes sociais em diferentes modulações. Afirmar um feminismo comprometido com a classe trabalhadora significa dizer, por um lado, que são as mulheres que vivem do trabalho aquelas que nos interessa organizar e fortalecer sua atuação política.
Nós, mulheres, somos metade da força de trabalho no Brasil. Apesar de desde os anos 90 muitas categorias e centrais sindicais passarem a adotar cotas em suas direções, como forma de equacionar a discrepância entre a composição das bases e das instâncias decisórias, a baixa representatividade das mulheres e suas pautas específicas nos sindicatos de forma geral faz de nós um elo mais frágil no mundo do trabalho. Nós, mulheres, somos maioria nos trabalhos mais precarizados, entre terceirizadas e trabalhadoras informais; além daquelas quase que completamente excluídas do mercado de trabalho, caso das mulheres trans.
Em média, uma mulher brasileira recebe 51% do salário de um homem para desempenhar uma mesma função. Disparidade salarial que bate na casa dos 60% ao se comparar o salário de um homem branco ao de uma mulher negra, de acordo com pesquisa realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento em 2009. Categorias majoritariamente femininas, como as domésticas, somente nos últimos anos têm visto avançar seu acesso a direitos trabalhistas, buscando se equiparar a outras categorias profissionais, enfrentando enorme resistência e o ódio de classe dos setores mais reacionários da elite. O trabalho doméstico e relacionado aos cuidados é, em nossa sociedade, imputado às mulheres como algo “natural” (quando não um dever), o que justificaria sua injustificável baixa ou inexistente remuneração.
Este elemento nos leva a um segundo aspecto de um feminismo com lado na luta de classes: a percepção de que opressões como o machismo e o racismo não são simplesmente objeto de uma disputa cultural e ideológica, mas que estão entranhados na estrutura da sociedade de classes. E, portanto, a estratégia daqueles que lutam por um outro modelo de sociedade, socialista e libertária, deve abraçar essas reivindicações.
Não existe avanço possível na luta social sem o fortalecimento das mulheres, assim como não há emancipação possível para as mulheres que não seja coletiva. Diante da massificação – no limite positiva – da palavra Feminismo e das reivindicações por igualdade de salário, direitos e de tratamento na sociedade, é necessário contrapor a falácia liberal e reafirmar que não existe libertação possível no plano individual. Como disse a comunista Pagu: não sou mulher, sou mulheres. O empoderamento de uma mulher às custas da exploração de trabalhadoras também mulheres; ou a condução de políticas de retirada de direitos por primeiras-ministras e presidentas não nos interessa ou representa.
Investida conservadora e a resistência das trabalhadoras
Na campanha presidencial de 2014, as figuras mais conservadoras no plano dos costumes foram também as que de forma mais enfática aderiram às bandeiras de privatização e o enxugamento do Estado, cortando áreas sociais; e de encarceramento da população periférica e negra, um “excedente” do capitalismo brasileiro que necessita ser removido, sob o risco de se revoltar e desestabilizar o sistema.
Outro exemplo é Eduardo Cunha, investigado pela Operação Lava Jato por envolvimento em desvios e lavagem de dinheiro, e alçado à presidência da Câmara dos Deputados por negociações escusas e a fragilidade da base aliada que assegura uma governabilidade conservadora ao PT. Ao mesmo tempo em que Cunha usa da prerrogativa de presidente para travar avanços no campo dos direitos individuais, em particular a legalização do aborto e das conquistas das famílias homoafetivas; impulsiona o PL 4330, projeto que visa ampliar a terceirização no país, garantindo lucros cada vez mais altos para os grandes empresários, e reduzindo os direitos conquistados pela classe trabalhadora.
Em versão menos caricata, a liberal Folha de São Paulo publicou editorial no dia seguinte à aprovação da Lei do Feminicídio, comparando a tipificação de um crime cometido contra mulheres, simplesmente por serem mulheres e portanto consideradas objeto e propriedade de seus maridos, namorados e companheiros, a uma forma de sexismo. Chegou ao cúmulo de afirmar que tal mudança no Código Penal era equivalente a afirmar juridicamente que a vida dos homens valeria menos. Valeria menos em um país onde os assassinatos de mulheres por parceiros cresceram 230% nos últimos 30 anos, nos levando ao sétimo lugar em um ranking de 84 países sobre esse tipo de crime. A quem interessa travar as conquistas das mulheres?
Nestes últimos dias, as feministas identificadas com a esquerda revolucionária ocuparam as ruas para celebrar a memória das lutas das mulheres que nos trouxeram avanços, e também para lutar contra retrocessos. A revogação das medidas provisórias 664 e 665, forma encontrada pelo governo Dilma de descontar a crise econômica nas costas de trabalhadoras e trabalhadores, ao invés de cobrar dos bancos, que afetam em particular as mulheres, maioria das dependentes de pensões, foi uma reivindicação nossa. Da mesma forma, derrotar o Estatuto do Nascituro e descriminalizar o aborto, procedimento realizado por cerca de um milhão de brasileiras todos os anos, e que mata milhares de mulheres pobres submetidas à clandestinidade.
Assim como o fundamentalismo e o empresariado mantêm relação orgânica, a luta dos trabalhadores e das mulheres deve andar lado a lado, com a compreensão de que são batalhas conjuntas. A compreensão das mulheres como sujeitos políticos, autônomos, é fundamental para fortalecer a classe trabalhadora; de que a restrição de direitos às mulheres, o controle sobre nossos corpos e nossas vidas, também tem papel na acumulação de capital.
Quando as lutas das mulheres avançam, avança toda a classe trabalhadora.

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