Artigo publicado originalmente no Nexo Jornal
Nosso olhar sobre a conjuntura política vivenciada pelo nosso país não pode ser impressionista ou especulativo. Vivenciamos grave crise política, cujos fundamentos mais profundos estão ancorados na crise econômica, nas escolhas feitas pelo governo para enfrentá-la e na decisão do grande capital de que não precisa mais do PT para gerir o aparato estatal.
Em termos econômicos, a crise atual representa o esgotamento de um modelo implementado pelo petismo nos últimos quatorze anos. Garantir crescimento econômico, manutenção do lucro do sistema financeiro e, ao mesmo tempo, desenvolver algumas políticas inclusivas para os setores excluídos foi a combinação escolhida. Este modelo inclui milhões no consumo, mas manteve a sangria da economia para satisfazer o setor financeiro e foi construído sob governabilidade aos moldes conservadores, sem incentivo ao real empoderamento das camadas populares e sem enfrentar o grande capital, seus monopólios, especialmente da mídia.
A presidenta Dilma está sob risco de ver seu governo se desfazer por uma combinação explosiva. De um lado, a crise exige escolhas econômicas drásticas e o grande capital exige que seus interesses sejam preservados. Por outro, não há espaço econômico para distribuir concessões aos setores populares atendendo a primeira premissa. Mais de uma década de esforço para ser aceito no clube dos de cima tornou o petismo incapaz de operar uma mudança de rumo que exigiria audaciosa opção de classe. Dilma não é Lula e os dois estão longe da coragem de Hugo Chávez.
Sem poder manter o apoio de sua base social e sem coragem para reconquistá-la, sobrou investir e mais do mesmo, ou seja, fisiologismo para manter base no Congresso e aplicação de programa econômico mais conservador. Um remédio que aprofundou a recessão, jogou 9,6 milhões de brasileiros no desemprego, aumentou a desigualdade e manteve intacta a margem de lucro do mercado financeiro. Em que pese todo esse esforço, a continuidade da crise mostra que Dilma e o petismo não são mais úteis para gerência do Estado brasileiro.
Ao contrário da esperança de milhões de sinceros e honestos brasileiros, não alimento expectativas com a Operação Lava Jato. Realmente em dado momento as suas investigações criaram uma esperança de realizar um ajuste de contas com a promiscuidade entre Poder Público e o empresariado prestador de serviços, especialmente as empreiteiras. A prisão de empresários apareceu como grande novidade e o Juiz Sérgio Moro começou a ser alçado ao mais novo salvador da pátria, posto que nosso país é carente deste tipo de figura.
A elite tem um programa claro no atual momento: desfazer-se do governo petista, acelerar e aprofundar os ajustes na economia (retirando direitos e repassando o ônus da crise aos trabalhadores e povo pobre) e consolidar novo núcleo de poder.
A Operação Lava Jato passou a ser, de forma seletiva, um instrumento para justificar um golpe institucional via aprovação de um impeachment de parca consistência e comandado por um sinistro presidente da Câmara. A condução diante da recente lista da Odebrecht, contendo centenas de políticos, foi a prova cabal de que a Operação dura até a consolidação do acordo PSDB/PMDB e a aprovação do impeachment.
Este atentado contra o Estado Democrático levou milhares às ruas. Temos certeza que a maioria das pessoas que se mobiliza estes dias de forma contrária ao impeachment, inclusive ocupando ruas e demais espaços de luta, não o fazem por acreditar que Dilma faz um governo de esquerda.
O que o Brasil precisa é uma saída pela esquerda para a crise econômica e política. É necessário promover uma reforma política profunda, com ampla participação popular, que seja eficiente para impedir a privatização dos interesses do Estado. É preciso mudar radicalmente os rumos da economia, auditar a dívida pública, taxar as grandes fortunas e baixar a taxa de juros de forma consistente. Propostas não faltam. Mas é preciso coragem para contrariar interesses do grande capital.

