Apesar de ter sido derrotado na noite da última terça-feira (26), Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, fez de tudo para conseguir o que queria. Atropelando o regimento interno da Câmara, os acordos feitos publicamente no plenário sobre a pauta de votações e a civilidade política mínima (que desde sua chegada ao Trono não existe mais), o presidente da Casa, que se acha imperador, colocou em votação pela segunda vez o financiamento empresarial de campanha, e dessa vez conseguiu. Um “segundo turno” para reverter o resultado do primeiro, mesmo que isso seja uma aberração institucional, porque já era matéria vencida.
E, por incrível que pareça, o placar da votação mudou. Quer dizer, deputados que na terça-feira tinham votado NÃO à constitucionalização da corrupção, na noite desta quarta-feira (27) votaram SIM. Por que será?
Os hipócritas do PSDB e do DEM, que gostam tanto de bater panela “contra os corruptos”, votaram em bloco a favor da corrupção institucionalizada. Porque o que foi aprovado é isso. Financiamento empresarial de partidos significa privatização da política para que as empresas, as corporações econômicas, o poder do dinheiro mande e desmande. Empresa não doa, faz investimento, e recebe em troca muito mais do que investiu. Não é por acaso que 255 dos atuais 513 deputados federais receberam para suas campanhas dinheiro das empreiteiras envolvidas na operação lava-jato.
O Congresso deu as costas à população, mais uma vez, em defesa de obscuros interesses.
Uma política financiada pelas empresas significa que os planos de saúde doam dinheiro para as campanhas e depois têm as multas do Procon perdoadas (como já aconteceu) e a saúde pública sucateada para beneficiá-los. Significa que a indústria farmacêutica doa para as campanhas e depois tem remédios caros para o trabalhador. Significa que as empreiteiras doam para as campanhas e depois recebem contratos milionários dos estados federal, estaduais e municipais, com superfaturamento e sem atender aos interesses da população. Significa que as empresas de ônibus e metrô doam para as campanhas e depois a passagem aumenta e o Estado não fiscaliza o péssimo estado desse serviço público. Significa que bancos doam para as campanhas e depois mandam no Ministério da Fazenda e no BC. Significa que as grandes mineradoras e os pool de soja doam para as campanhas e o Congresso redesenha os códigos florestal e de mineração para atender seus interesses, prejudicando o meio ambiente, as populações locais e as economias regionais. Significa que grandes fazendeiros doam para as campanhas e depois a Polícia e o Exército os auxiliam para expulsar os índios e os sem terra. Significa que o mercado imobiliário doa para as campanhas e não tem regulação dos alugueis, cada vez mais caros, do seguro-fiança e de outros abusos, e nem políticas de moradia popular.
Quem se prejudica com tudo isso é você!
O financiamento empresarial da política prejudica sua vida cotidiana, porque quando o Estado serve aos interesses daqueles que pagaram as milionárias campanhas dos candidatos, os interesses do povo ficam relegados. E porque as enormes quantias de dinheiro que eles investem fazem com que seja muito difícil que os candidatos independentes do poder econômico (e, portanto, com campanhas pobres) se elejam.
Não deixemos essa aberração contra a democracia passar. A proposta ainda precisa ser aprovada em mais um turno na Câmara dos Deputados e em dois turnos no Senado.
Proteste, reclame, mobilize-se, faça barulho, manifeste-se nas redes e nas ruas.
Diga não à contra-reforma de Cunha!

