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Amadurecimento mútuo

Na semana passada, no portal da revista Veja, o senador Randolfe Rodrigues, líder do PSOL no Senado, expressou vários posicionamentos acerca do partido, da política e discorreu sobre seu “isolamento interno”.
 
No meio da entrevista ele cita que recebeu uma mensagem minha. No texto afirma que recebeu “uma mensagem do presidente do partido dizendo que queria conversar comigo. Eu quero dialogar”. A mensagem havia sido motivada por notas saídas no mesmo veículo desta entrevista e no texto eu afirmava realmente que seria bom conversarmos, especialmente se tivesse ocorrido alguma alteração do seu posicionamento expresso na nossa última conversa (logo após a morte de Eduardo Campos e escolha de Marina como sua substituta, o senador estava disposto a sair do partido e embarcar no projeto marinista), como a referida nota (e agora a entrevista) sugerem, ou seja, que decidiu ficar no partido. Agreguei na mensagem a seguinte frase: “conversa direta, sem recados ou intermediários”.
 
A maioria do partido se mobilizou em centenas de plenárias pre-congressuais, cujo principal debate foi a escolha da candidatura do partido. No IV Congresso, a maioria dos delegados escolheram Randolfe como candidato à presidência. Tal decisão mostra, ao contrário do afirmado pelo senador, um grande prestígio interno que ele possuía, ou seja, a maioria do partido confiou a ele uma tarefa muito importante. Na fase inicial deste processo de disputa tivemos dificuldades de unificar o partido, mas tudo caminhava para a superação destes percalços. Não acredito que a desistência do senador tenha sido motivada por alguma incapacidade dele ou da direção em unificar o partido. Seus pronunciamentos durante a pré-campanha estavam dentro da média do pensamento partidário.
 
A forma como ocorreu a desistência representou uma quebra de confiança e provocou estremecimento na sua relação com uma direção partidária que apostou muito na apresentação de uma candidatura que partisse do potencial eleitoral que o senador possuía. Mas o que mais foi desgastante foi a atitude unilateral de se recusar a dialogar com a referida direção sobre o problema. O que aconteceu foi um distanciamento do senador dos que patrocinaram a sua candidatura e não o contrário. Dificuldades de diálogo interno após este processo traumático são naturais.
 
Na sua entrevista ficam claras divergências políticas importantes sobre como enxergar o processo de disputa política com setores conservadores locais, sobre a caracterização das regiões mais distantes do país e sobre política de alianças de maneira mais geral. Os filiados, sejam eles parlamentares ou não, possuem o direito legítimo de expressar seus posicionamentos, mas o leito correto destas discussões devem ser as instâncias partidárias, de maneira democrática, por que se o pensamento é livre em um partido democrático e socialista, também é verdade que as decisões e posicionamentos devem ser coletivamente construídos. Disputar nossas ideias e, ao mesmo tempo, reconhecer que o coletivo tem papel fundamental no que somos e nos cargos que ocupamos e que o projeto de mudanças é obra de muitos pensamentos é fundamental.
 
Fico muito contente de ler que no momento temos a mesma avaliação sobre a chamada “terceira via”, que ficou totalmente comprometida com o apoio de Marina a Aécio no segundo turno. A candidatura de Marina empolgou setores sociais progressistas (inclusive o senador) em um primeiro momento. Certamente as posturas conservadoras da referida candidata, que fez inúmeros gestos à direita, inclusive renegando crenças anteriores e o final melancólico do beija mão do segundo turno comprometeu qualquer viés progressista desta chamada terceira via. Uma terceira via ao monopólio petista e tucano vigente no país somente pode ser coerente se for ancorada num ideário claro de esquerda.
 
O partido está em constante amadurecimento e seu posicionamento no primeiro e no segundo turno foi expressão disso. Diante de uma polarização intensa, a resolução da direção partidária rejeitou qualquer voto em Aécio, somando-se ao esforço para não deixar acontecer uma vitória do retrocesso neoliberal. Apesar de a referida resolução oferecer três opções ao eleitor do partido (branco, nulo ou Dilma), certamente é verdadeiro que suas principais lideranças apoiaram (com várias tonalidades e intensidades) a candidatura de Dilma.
 
Porém, o partido deixou clara a sua independência política, anunciando que este apoio seria para evitar o mal maior, mas que seguiríamos sendo oposição de esquerda, programática e propositiva, da mesma forma que agimos no primeiro mandato da petista. Ao agir assim o partido, ao mesmo tempo que evitava o retrocesso, disputava as bases progressistas que estavam votando em Dilma, mostrando os limites do seu governo e a necessidade de lutarmos por mais direitos. As contraditórias sinalizações do governo posteriores as eleições comprovam o acerto da postura partidária.
 
O partido não tem interesse em isolar nenhuma de suas figuras públicas. Nosso esforço é de consolidar o PSOL como um polo atrativo para todos e todas que lutam pela transformação da sociedade brasileira, pela inclusão social e por uma mudança profunda nos rumos da política e da economia em nosso país. Ao invés de excluir, nosso interesse é cada vez mais incluir quem luta por mudanças sociais no projeto de revitalização da esquerda brasileira.
 
É claro que o desfecho deste tumultuado processo político dependerá de amadurecimentos mútuos, mas sempre preservando a construção coletiva dos posicionamentos políticos, convivência democrática com nossas divergências e respeito às instâncias partidárias. Esta é umas das principais tarefas que tenho na presidência do partido e pretendo cumpri-la com afinco.

 
 

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