A deputada estadual do PSOL em Minas Gerais, Andreia de Jesus, publicou uma carta aberta na noite desta quarta-feira (3) para denunciar as graves ameaças de morte que tem recebido por seu trabalho à frente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ela é a primeira mulher negra eleita para o parlamento mineiro em mais de 300 anos de história.
No último dia 31, Andreia retornou de uma agenda internacional de cooperação entre Brasil e Senegal para o desenvolvimento da agroecologia e acolheu as denúncias e pedidos de ajuda de mães de vários dos 26 jovens mortos em uma ação policial em Varginha (MG). Após a Comissão de Direitos Humanos dar encaminhamento às denúncias e Andreia de Jesus tornar público o ocorrido, as ameaças à sua vida surgiram.
A Polícia Legislativa da ALMG acionou a Polícia Civil e, após boletim de ocorrência, foi recomendado à parlamentar do PSOL o uso de escolta policial pela gravidade das ameaças.
“Sou mulher preta, mãe solo, a primeira pessoa com curso superior na minha família. Sou advogada popular, militante das brigadas populares, filha de empregada doméstica, meus primos são garis e com muito orgulho construo o Partido Socialismo e Liberdade!”, disse Andreia de Jesus em trecho de sua carta aberta.
“Em memória de Dandara dos Palmares e Marielle Franco, pela vida e luta de Dona Tereza do movimento desencarcera. E pelas maiorias sociais que são subalternizadas e invisibilizadas, reafirmo meu compromisso inabalável pela luta!”, continua.
Nesta quinta-feira (4), Andreia acionará a delegacia de crimes virtuais para encaminhar os discursos de ódio recebidos nas redes sociais e as violentas ameaças à sua integridade física e à sua vida.
O trabalho de Andreia de Jesus na Comissão de Direitos Humanos da ALMG tem promovido a territorialização e o enraizamento da atuação da comissão, se tornando referência na defesa e promoção dos direitos humanos em Minas Gerais.
São tratados e trabalhados pela Comissão de Direitos Humanos, por iniciativa de Andreia de Jesus, temas como a crise hídrica, o racismo institucional contra comunidades tradicionais e quilombos, a vida da juventude negra e favelada, a população LGBTQIA+, a questão dos imigrantes e refugiados no estado, a insegurança alimentar e a fome, a melhoria das condições de trabalho e garantia de direitos dos servidores, inclusive da polícia penal e da polícia militar do Estado de Minas Gerais, na defesa de mulheres e indígenas, assim como a cobrança de reparação contra a mineração predatória.
Leia a carta aberta de Andreia de Jesus na íntegra:
“Seu fim será como o de Marielle Franco”
Não é com alegria que escrevo essa nota aos amigos, militantes e a todos que estão de alguma maneira conectados comigo!
Não é fácil abrir meu celular e me deparar com ameaças contra minha vida.
Assumi com muita responsabilidade a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Em mais de 300 anos da história da Assembleia Legislativa, é a primeira vez que mulheres pretas são eleitas.
À frente da Comissão de Direitos Humanos, com muito orgulho tenho dado sequência a territorialização e enraizamento da Comissão.
Articulo pautas que são caras à população mineira:
a crise hídrica;
o racismo institucional contra comunidades tradicionais e quilombos;
a vida da juventude negra e favelada;
a população LGBTQIA+;
a questão dos imigrantes e refugiados no estado;
a insegurança alimentar e a fome;
a melhoria das condições de trabalho e garantia de direitos dos servidores, inclusive da polícia penal e da polícia militar do Estado de Minas Gerais;
atuo com as mulheres e os indígenas, cobrando reparação contra a mineração predatória
Não é fácil atuar com direitos humanos em uma conjuntura de desmonte das políticas públicas de redução do debate político a meme e da violência institucional sistemática contra mulheres.
No dia 31, voltava de uma agenda internacional para articular a cooperação entre Brasil e Senegal para a agroecologia. Minha equipe e eu fomos acionados por mais de 20 veículos de imprensa, por mães sem dinheiro para sepultar seus filhos, por uma rede de ativistas cobrando zelo pela memória de um jovem, querido por sua comunidade e que foi morto também na mesma operação. Jovem esse que segundo a comunidade não tem vínculo ou histórico com a criminalidade. Tudo sobre o episódio ocorrido em Varginha, onde 26 pessoas morreram após uma ação policial.
Como é de praxe em situações similares, a Comissão acolheu a denúncia e eu tornei público o ocorrido. Em seguida, todas as minhas redes sociais foram invadidas por extremistas distorcendo a minha fala, com comentários de ódio e desrespeito. E por fim ameaças contra a minha vida!
A Polícia Legislativa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais acionou a Polícia Civil, fez um Boletim de Ocorrência e foi recomendada a minha adesão à escolta policial. Demos início a esse procedimento ainda no dia de hoje, devido à gravidade dos fatos.
Amanhã, iremos acionar a polícia civil, na delegacia de crimes virtuais para encaminhamento dos discursos violentos, das ameaças a minha integridade física e contra a minha vida!
Sou mulher preta, mãe solo, a primeira pessoa com curso superior na minha família, sou advogada popular, militante das brigadas populares. Filha de empregada doméstica, meus primos são garis e com muito orgulho construo o Partido Socialismo e Liberdade!
Em memória de Dandara dos Palmares e Marielle Franco, pela vida e luta de Dona Tereza do movimento desencarcera. E pelas maiorias sociais que são subalternizadas, invisibilizadas reafirmo meu compromisso inabalável pela luta, pelo direito à vida, pelo direito de ser mãe, pelo bem viver, pelo abolicionismo penal e pela vida da juventude negra e favelada.
Andréia de Jesus, 03 de novembro de 2021.

