Por Thaianne de Souza, da Construção Socialista e que constrói o Coletivo Feminista Marielle Vive /RJ
A classe trabalhadora do mundo todo vivencia uma condição dramática na sua existência. A situação de miserabilidade e de carestia, que já era a realidade da maioria da população antes da pandemia do COVID 19, se agrava.
A crueldade a que o capitalismo submete a maioria da população cotidianamente está escancarada. Quando, mesmo diante dos níveis tecnológicos e possibilidades científicas, o único método viável de evitar o contágio em massa é uma medida medieval, o isolamento, mesmo isto é negado a uma parcela gigantesca da população, não há como mascarar a barbárie do sistema.
A população das favelas brasileiras enfrenta dificuldades para parar e se proteger: moradias pequenas e com muitas pessoas, falta de água e até de saneamento básico. Uma pesquisa revela que cerca de 13,6 milhões de pessoas moram em favelas e que 7 em cada 10 famílias tiveram a renda reduzida devido à pandemia, sendo que 49% das famílias nas favelas são chefiadas por mulheres e 67% dos moradores são negros.
Mais de 20% da população do Rio de Janeiro vive nas favelas e em pelo menos 11 favelas já foram registrados casos suspeitos de coronavírus, mas até agora o poder público foi incapaz de oferecer soluções específicas para estes locais.
O que se vê em várias localidades são os traficantes de drogas e os milicianos ditarem as medidas contra a propagação do vírus, em alguns casos impondo toque de recolher e com ameaças de violência física. Como combater a pandemia se o Estado não oferece as mínimas condições econômicas e sociais aos trabalhadores negros e pobres?
Neste sentido o nosso olhar precisa estar voltado para as mulheres, além de serem a maioria entre os trabalhadores da área da saúde, que permanecem na linha de frente do combate à pandemia, são as excluídas do direito de parar.
No Rio de Janeiro a primeira morte registrada por coronavírus foi de uma mulher de 63 anos que trabalhava como doméstica em uma casa no Leblon (bairro nobre localizado na Zona Sul). Ela contraiu o vírus da patroa que havia voltado da Itália (um dos países com mais mortes por coronavírus). O caso levantou a discussão para a situação das trabalhadoras domésticas, formais e informais, em meio à crise.
No Brasil as mulheres estão mais sujeitas à informalidade do que os homens. Forçadas pela necessidade de complementar a renda familiar e, muitas vezes, pela responsabilidade de chefiar suas famílias, aceitam empregos com pouco ou nenhum direito. Durante a pandemia, precisam escolher entre sair para trabalhar (correndo o risco de se infectarem no trajeto ou mesmo na casa dos patrões) ou morrer de fome.
A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Para proteger a si e suas famílias do coronavírus, milhares de mulheres (aquelas que podem) adotam o isolamento social. E, como se já não bastasse o aumento da sobrecarga de trabalho doméstico, intensificado pelo fechamento de creches e escolas, as mulheres ainda enfrentam o aumento da exposição à violência.
Até o dia 23 de março (menos de uma semana depois do decreto de quarentena), a Justiça Estadual do Rio de Janeiro já havia registrado um aumento de 50% nos casos de violência doméstica. Para muitas mulheres, ficar em quarentena pode significar estar confinada com o seu agressor, já que a maior parte da violência contra mulher acontece dentro de casa.
O coronavírus não escolhe a raça, a classe e nem o gênero que irá infectar, mas, com certeza, as políticas do Estado e a forma como são implementadas ditam quem vai viver e quem deve morrer.
O desafio que está colocado para as organizações da esquerda socialista é o de, em primeiro lugar, cobrir de solidariedade as mulheres, que são as maiores vítimas, e, também não abrir mão de defender a política de enfrentar a lógica do lucro imposta por Bolsonaro e patrões. É preciso “parar pela vida”.
É imprescindível continuar denunciando este governo genocida e ultraliberal, se é verdade que hoje nos faltam as ruas para ecoar o nosso grito, “Fora Bolsonaro e Mourão”, temos as nossas janelas, e meios virtuais para combater a hipocrisia dos banqueiros e da burguesia, que, com as suas campanhas de solidariedade anunciadas pela Rede Globo, querem apenas enganar a população de que estão preocupados com a vida do povo.

