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EDMILSON RODRIGUES: Belém – 400 anos de resistência

“[…] Quantas mortes começam em uma cidade? Quantas aldeias de arcos deslumbrados do pó? Quantas flechas sopraram lamparinas e cabanas? Quantas sombras tremeram no ribombar dos canhões? […] Quanta água para ser pátria d’água? E quanta água de poço, osso e tutano na sopa do almoço? De qual rio suspenso somos vítimas? Que prisão tem a chuva, que quando cessa, continuamos dentro dela? […] Qual cidade pariu Belém? A lua. Uma incessante lua”. (Cidade Velha, Ronaldo Franco)

O geógrafo Eidorfe Moreira criou a antonomásia de “flor das águas” para referir-se à cidade de Belém do Pará. É inegável a submissão da cidade à dinâmica das águas neste lugar singular da Amazônia. O rio está arraigado no imaginário, nas memórias afetivas dos indivíduos e povos amazônidas, o que ganha força em Belém, tendo em vista sua localização no estuário do Rio Amazonas, onde este desemboca no oceano Atlântico, criando uma baía que confirma a condição do Amazonas como um rio-mar.

A influência cultural das águas doce, oceânica e híbrida sobre a cidade e seu povo inspiram os poetas Paulo André e Rui Barata a afirmarem que “esse rio é minha rua… piso no peito da lua, deito no chão da maré”. Contudo, a cidade movida pelas águas, incluindo as chuvas de todas as tardes, paradoxalmente, tem sido vítima de uma escassez hídrica e de sistemas de engenharia de saneamento claramente intencional. Este paradoxo entre abundância e escassez aflora em outras dimensões da vida urbana: saúde, educação, cultura, etc.

Belém comemora seus 400 anos nesse 12 de janeiro em referência ao início da ocupação portuguesa nestes rincões da Amazônia Brasileira. Mas o muito que se tem a comemorar não apaga o parto cruel de uma cidade construída sobre cemitérios tupinambás. Belém é hoje sinônimo de metrópole encrustada na floresta. É também caracterizada por um dos mais importantes acervos da arquitetura e do urbanismo de grande valor histórico-cultural.

Belém é a expressão de um dos mais ricos mosaicos sócio-culturais. É uma identidade em permanente construção porque enriquecida ao longo de sua história pela contribuição de povos oriundos dos mais diversos continentes. As expressões da criatividade artística são de uma diversidade e beleza irrefutáveis.

Belém é também lugar da resistência. As perversidades sistêmicas, ao longo da história, têm se afirmado como um lugar de produção do novo. A morte de Guaimiaba Tupinambá e de mais dois mil guerreiros rebelados contra a dominação portuguesa, a resistência à adesão à farsa da independência do Brasil e à cabanagem certamente, a mais importante revolução popular já ocorrida no Brasil, tendo constituído três governos revolucionários nos idos de 1835, denotam a capacidade de dizer não ao que é desumanizante, para afirmar o sonho de uma sociedade humana, verdadeiramente humanizada.

Por tudo isso, Belém tem muito a festejar ao completar quatro séculos. Mesmo no presente período-histórico – a globalização neoliberal – os interesses dos agentes hegemônicos se expressem em usos dos recursos do território como meros bens mercantis. Portanto, precificáveis e somente tornados lucrativos junto ao processo de introdução da escassez.

A escassez hídrica em meio à abundância de águas, a escassez de saúde em meio a um bioma potencialmente saudável. A escassez de educação a despeito do significativo mundo técnico-científico e dos milenares conhecimentos dos nossos povos sobre nossa região e nossa história. A escassez do direito aos bens culturais e sua produção a despeito da rica produção das várias manifestações artísticas e arquitetônicas e de dimensões da cultura tão marcantes na identificação do nosso povo e nossa cidade.

Construída sobre o solo ensanguentado, nem por isso Belém abandona sua capacidade de produzir solidariedades. Se nos últimos anos problemas histórico-estruturais se agravam devido à ação de governos inescrupulosos e subservientes aos agentes hegemônicos e à racionalidade do lucro, ainda assim e por causa disso, os cidadãos de Belém, através do trabalho, da luta organizada e consciente e da produção de valores alternativos ousa afirmar a possibilidade de um mundo novo.

Por tudo isto, saúdo o movimento Belém 400+10, articulação da sociedade civil, que afirma esta força do povo em afirmar seus direitos a despeito do descaso dos governos. Este movimento reúne várias entidades do movimento social e promove desde a última semana uma farta programação pública de caráteres social, político, cultural e artístico, em diversos pontos da capital paraense. É esse o espírito de nosso povo que não se furta ao engajamento na construção de um futuro mais justo e feliz para nossa capital. Carrego a esperança de que se construirá essa cidade de justiça, igualdade e solidariedade. Viva Belém, cidade resistente de 400 anos! Viva o povo cabano!

 

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