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Bella Gonçalves: A invisibilidade é a causa da nossa morte sistemática!

Neste mês do orgulho e da visibilidade lésbica, entrevistamos Bella Gonçalves, vereadora do PSOL em Belo Horizonte (MG)

Por Mulheres do PSOL

Mineira, nascida e crescida em Belo Horizonte, a jovem parlamentar reconhece a dificuldade de falar de si mesma no singular, o que é nítido na forma como apresenta as diversas pautas que a atravessam e que a formam enquanto vereadora. A luta por moradia, pelo direito à cidade, a visibilidade, o reconhecimento das diversas lesbianidades e todas as especificidades que isso carrega. Ao lado de outras mulheres que constroem a Gabinetona, uma experiência de construção do seu mandato, Bella vivencia as violências de gênero e a lesbofobia na capital mineira, mas apesar disso, enxerga na luta coletiva a saída para o enfrentamento. 

Como se deu o início da sua trajetória política? Quais são as principais pautas da sua atuação enquanto parlamentar?

O meu envolvimento com a militância se deu já no início da vida adulta quando comecei a cursar Ciências Sociais, e a partir daí me envolvi com alguns movimentos, em especial as Brigadas Populares, que aqui em Minas Gerais têm uma relevância muito grande na construção de lutas por moradia.

Também  estive junto das lutas de trabalhadores e trabalhadoras ambulantes, da população em situação de rua, no combate à mineração predatória – Belo Horizonte é uma cidade cercada por mineradoras – todas essas temáticas de direito à cidade  têm atravessado a minha militância há mais de dez anos. Antes da decisão de disputar uma candidatura, participava da ocupação institucional que chamamos de Muitas pela cidade que queremos, junto da Áurea Carolina, Cida Falabella e tantas outras companheiras. A gente contribui em movimentos para construção de mandatos coletivos, como a Gabinetona, que é uma metodologia de mandato coletivo que construímos desde 2017 com movimentos populares.

A gente vem tentando fazer essa transversalidade entre a questão do direito à cidade e as questões de direitos humanos e construímos o PSOL a partir dessas lutas populares e dessa diversidade que nós somos.

A luta por direitos humanos sempre nos atravessou e nos constituiu. Como mulher lésbica em especial a luta da comunidade LGBTQIA+. Toda a temática do direito a cidade vai fazer a discussão de gênero, de raça, de classe e de direitos humanos no espaço urbano. 

Como é ser uma mulher lésbica na política? Como é ser este corpo e ter esta identidade ocupando um espaço institucional?

É interessante perceber como aquelas que vieram antes de nós, que abriram os caminhos que  a gente tem trilhado hoje se relacionam com a nossa luta. A Soraya de Menezes, mulher, lésbica, negra e sindicalista que puxou a primeira marcha do orgulho LGBT aqui de Belo Horizonte, diz que enche a boca para falar que nós temos uma vereadora sapatona em BH. Ao mesmo tempo em que a gente percebe muitas meninas jovens em seu processo de afirmação se reconhecendo, se vendo em nosso mandato e se sentindo mais confortáveis para serem o que são.

Já tivemos uma vereadora lésbica em Belo Horizonte, embora ela nunca tenha assumido declaradamente e não tenha abraçado a luta da comunidade LGBTQIA+. É aí que entra a diferença de se ocupar a política sendo orgulhosamente lésbica. A gente está no mês do orgulho e da visbilidade lésbica, que trata da importância de falar sobre isso em todos os espaços,  para inclusive enfrentar as fronteiras de exclusão que nós temos, porque a forma estrutural do poder institucional não quer as mulheres nos espaços de decisão, tampouco as mulheres lésbicas. Mulheres lésbicas, negras, periféricas, como a Laina [Crisóstomo] lá de Salvador. Por isso  é importante que a gente reivindique esse lugar que é nosso dentro da política, para romper esse silenciamento que inclusive está para além da política. Ele vai confrontar a exclusão, o preconceito, a LGBTfobia e a lesbofobia em todos os espaços. 

Como você vê as pautas das mulheres lésbicas dentro da luta e do movimento feminista?

O movimento feminista não é homogêneo, a gente não pode falar de lesbianidade mas de lesbianidades, não podemos falar de mulher, mas de mulheres. Historicamente a gente tem uma hegemonia heterossexual dentro do movimento feminista, tanto que algumas lutas não tem sido abraçadas, por exemplo em todo o movimento pelo parto humanizado dentro das maternidades, não se colocou em discussão o fato de que mulheres lésbicas tem o seu direito de ser mães ignorado pelo estado brasileiro. A menos que sejam milionárias e possam pagar 30 mil reais a cada inseminação artificial. A inseminação caseira não é reconhecida pelo estado, e isso gera vários conflitos judiciais.

Há outros aspectos das maternidades, aspectos do acesso à saúde, a maior parte das mulheres lésbicas têm uma experiência tenebrosa com ginecologistas, e isso não é discutido por movimentos que fazem a luta contra a violência obstétrica, por exemplo. Eu estou dando esse exemplo no campo da saúde da mulher, mas eu poderia dar exemplos em vários outros campos, de uma tendência de se estabelecer hegemonias e invisibilidades no movimento feminista. E para quebrar isso, a gente precisa construir feminismos cada vez mais plurais, por que as questões até são visibilizadas mas não são colocadas como pautas centrais dentro do movimento.

A gente não pode contar só com a participação de mulheres lésbicas ou translésbicas dentro do movimento feminista, para que nossas pautas sejam visibilizadas. Eu não quero que soe pessimista, porque o feminismo é construído por mulheres lésbicas também, mas a gente precisa dar mais visibilidade para essas pautas que nem sempre são tratadas como centrais. 

Como tem sido atuar enquanto mulher feminista, lésbica e defendendo uma agenda de transformação popular e enfrentamento político diante da atual conjuntura, sob o governo Bolsonaro? 

A sensação que a gente tem é que um turbilhão de coisas aconteceu no país de 2015 para cá. E a violência política tem sido uma forma de expressão e determinação do próprio funcionamento da política de forma muito cotidiana. E precisamos falar que a forma mais extrema com que isso se expressou foi o assasinato da nossa companheira Marielle Franco, e acho que isso é sentido por todas, sem exceção.

A gente vive em um espaço em que a gente sente que não nos querem lá. A gente sente que o nosso trabalho está sendo cotidianamente boicotado pela hegemonia do poder cis-hetero, patriarcal e branco dentro dos espaços legislativos. Muitas parlamentares estão em processo de adoecimento mental. E as bancadas fundamentalistas precisam dar um retorno para o eleitorado delas em termos de visibilidade e como a linguagem da violência nas redes sociais tem ganhado muito espaço, eles precisam nos destruir, nos aniquilar, nos atacar para crescer politicamente e dar satisfação para suas bases fundamentalistas. São as formas que eles encontram para construir palanques. 

E o tribunal eleitoral reconheceu só agora a violência política como algo presente, mas circunscrevendo só o processo eleitoral, como se não precisássemos dessa proteção também no exercício dos mandatos por parte dessas instituições, instituições que em muitas vezes acabam sendo as maiores violadoras de direitos. Uma coisa que acontece comigo e eu não atribuo só ao fato de ser lésbica mas de ser mulher, jovem e de esquerda que vem de uma trajetória de movimentos sociais, é que eu fui detida duas vezes pela policia militar, enquanto vereadora, por estar acompanhando e mediando manifestações. 

Como você tem visto a crescente onda de violência política de gênero contra parlamentares, sobretudo sendo uma mulher LBT?

A nossa experiência política tem sido muito intensa, porque dentro da Câmara, em especial na legislatura passada,  a gente vivenciou situações terríveis de lesbofobia. Desde interrupções, “já que eu não gostava de homem mesmo”, passando por pegarem em partes do nosso corpo, até ao pedido de cassação do meu mandato feito por um vereador bolsonarista, originado pelo enfrentamento que fizemos a um projeto de Escola Sem Partido.

Essas, são algumas das formas de violência e como elas se expressam dentro da câmara, na sociedade, nos comentários das pessoas, e nas eleições também, inclusive de maneira bastante intensa, por meio de ataques nas redes sociais.

Havia uma perseguição política muito grande e uma ideia de promover uma espetacularização da violência contra a gente. Alguns desses episódios foram muito silenciados na Câmara porque era natural que se esperasse que eu como mulher lésbica aturasse aquilo. E em muitos momentos a gente se sentia gritando sozinha.

É essa violência que vai gerar uma projeção. Porque é isso que o bolsonarismo faz, ele elege inimigos, personifica inimigos, e mobiliza pessoas contra esses inimigos. E isso muitas vezes vai gerar processos de sofrimento, de violência e até de você ter que sair do país, que foi o que aconteceu com a Benny Briolly, por exemplo. Muitas parlamentares estão em processo de adoecimento mental. 

Neste mês de agosto, mês em que celebramos o orgulho e a visibilidade lésbica, o que você enxerga como horizonte para a luta das mulheres lésbicas? 

Bom, a gente ainda luta pela visibilidade, a gente luta para estar no censo, mas as demandas são diversas, a pandemia ressaltou muito a questão da saúde mental das pessoas LGBTQIA+, em especial de mulheres lésbicas e bissexuais. Porque tem aumentado muito os casos de adoecimento mental e a pauta da saúde mental no Brasil está sendo atacada pela defesa psiquiátrica do retorno dos manicômios.

Aqui em Belo Horizonte temos feito uma defesa de equipamentos que compreendem essa questão do acolhimento à saúde mental em liberdade, temos lutado para manter abertos estes locais que são referência para o Brasil inteiro.  É preciso lutar por uma educação inclusiva porque toda a transformação vai passar pela educação. Enfrentar qualquer tipo de censura, falar da importância da discussão de gênero e compreender que todas as questões que atravessam o patriarcado são debates de gênero.

A luta das mulheres e as questões da comunidade LGBTQIA+ vão depender da gente conseguir defender a discussão desses temas nos espaços educacionais. Precisamos compreender também a violência familiar não só como a violência conjugal, mas a forma como a família pode ser um espaço de violência. São muitas questões, mas eu posso definir que a gente ainda luta principalmente por visibilidade, por dados que possam embasar as políticas públicas. 

O estado também não reconhece nossas famílias, embora a gente tenha tido avanços tanto no campo da união civil quanto no casamento e pode até parecer uma pauta menor, mas ela é importante, ela atravessa também as discussões sobre família, maternidade. Essa questão das maternidades lésbicas é algo que a gente vem tentando visibilizar, a violência que é o Estado não reconhecer a dupla maternidade significa que findada uma relação vai se estabelecer uma situação de alienação de uma das mães. Temos casos de mães que perderam seu direito à maternidade ao fim de uma relação porque o Estado Brasileiro não reconhece essas maternidades. Precisamos lembrar também de Luana Barbosa, da violência do Estado contra mulheres lésbicas, com um recorte de mulheres lésbicas periféricas e que não performam determinadas feminilidades.

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