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Benny Briolly: Um corpo político na política!

Mulher, trans, negra, favelada e vereadora eleita pela cidade de Niterói (RJ) retornou para o Brasil após uma saída forçada depois de sofrer graves ameaças políticas. 

Em entrevista às Mulheres do PSOL, Benny Briolly conta um pouco de sua trajetória política, faz um balanço de seu mandato até aqui, e suas impressões sobre o Brasil a partir da ótica de uma mulher que carrega em um único corpo diversas representações.  

Mulheres do PSOL – Como você despertou para a militância política? E como se deu o interesse em disputar um mandato?

Benny – A necessidade de me tornar ativista partiu da minha vivência nas favelas de Niterói. Nós vivenciamos a violência por parte do Estado, não temos acesso a direitos como saúde, saneamento básico ou até um educação de qualidade. Eu precisava fazer alguma coisa para mudar a minha realidade, a realidade das pessoas que me cercam e do território onde cresci. Foi aí que reconheci o quanto era revolucionário o processo de autoconhecimento para a minha luta.

Comecei a fazer faculdade de jornalismo na rede privada, onde liderei o movimento “Educação não é mercadoria”, processo de reivindicação dos estudantes contra o aumento das mensalidades. E como estagiária de comunicação no Sindicato dos Jornalistas entrei na luta pela democratização da comunicação.

Em 2016, ajudei a construir a campanha por “Uma Niterói Negra, Feminista, LGBT e Popular”, que resultou na eleição da Talíria Petrone como a vereadora mais votada da cidade de Niterói, me tornando a primeira assessora trans da Câmara de Vereadores de Niterói. 

No mandato de Taliria, que presidia a Comissão de Direitos Humanos, da Criança e do Adolescente, atendia várias situações de violação de Direitos Humanos. Em 2017, por essa mesma comissão, iniciei um profundo trabalho de acolhimento e garantia de direitos das travestis que trabalham na prostituição nas ruas de Niterói. A partir daí, fundei juntamente com a minha querida companheira de luta Lara Dieckmann, o coletivo Orgulho e Luta Trans (OLT), com o intuito de debater e propor mudanças na vida da população trans e travesti de Niterói. Com o coletivo realizei uma série de atividades sobre saúde, trabalho e luta política, inclusive o  Primeiro Encontro de Travestis das favelas do Estado do Rio de Janeiro, realizado em 2018 na Favela Nova Grécia em São Gonçalo.

Mulheres do PSOL – Quando você assumiu seu mandato você já esperava receber algum tipo de reação violenta em relação à sua participação na política? Durante a campanha você chegou a sofrer algum tipo de ataque ou ameaça? 

Benny – São muitos episódios de violência política, racismo e transfobia, antes mesmo da minha eleição. Quando era a primeira assessora trans em Niterói já recebia diversos ataques. Desde que fui eleita, as agressões e ameaças pioraram. Tenho sido constantemente vítima de crimes de ódio, recebido ameaças, sofrido agressões nas ruas e nas redes. A violência política que estou sofrendo não é um evento isolado. Tem sido recorrente contra parlamentares negras e travestis.

Mulheres do PSOL – Como você acredita que o assassinato da Marielle impactou a vida das mulheres, em especial das mulheres negras?

Benny – A execução de Marielle Franco é o caso mais extremo dessa violência política. Além disso, a falta de justiça sobre a execução dela nos deixa mais inseguras. Seguimos sem respostas e a violência política avança. A lógica patriarcal e racista de desumanização dos nossos corpos é muito covarde e se mostra cada vez mais incomodada com nosso projeto político e a nossa presença nas casas legislativas. 

A eleição de Marielle faz parte da renovação do quadro político brasileiro, que tem sido protagonizado por mulheres negras, trans, faveladas e defensoras dos direitos humanos. Hoje, existe uma pluralidade de corpos que exigem ações transformadoras na sociedade e tem articulado estratégias para combater as desigualdades. Nossa presença na política pretende não só mudar o protagonismo político, mas também direcionar as pautas sociais. 

Mulheres do PSOL –  A gente tem percebido uma crescente onda de violência política contra as parlamentares de esquerda, sobretudo as parlamentares negras e lbts desde o assasinato da Marielle. A que você atribui essa escalada na violência? Acredita que há alguma relação com a eleição de Jair Bolsonaro?

Benny – A violência política no Brasil não começa com Bolsonaro. Aliás, ele foi eleito pelo avanço de uma política do ódio fascista, que tem raiz na formação social brasileira. O conservadorismo brasileiro é estruturado no racismo dos quase 400 anos de escravidão e genocídio do povo preto e dos povos indígenas. A abolição desse sistema escravocrata nunca aconteceu de fato, e de tempos em tempos as formas de violência contra o nosso povo se atualizam. Nos últimos anos tivemos avanços importantes no enfrentamento dessa estrutura. Os movimentos negro, de mulheres, LGBTQI+ deram um salto de organizaçao, o que inclusive fez com que a gente começasse a ocupar espaços de poder e pautar as políticas públicas. Esse avanço incomodou muito e gerou uma reação. Penso que o governo Bolsonaro e o Bolsonarismo como um todo são uma reação aos nossos avanços. Uma tentativa de tentar interrompê-los.

Mulheres do PSOL- E como tem sido seguir com o mandato desde o momento em que você precisou sair do país até seu retorno?

Benny – Continuo tocando minha mandata. Eu fui eleita, sou a mulher mais votada da cidade, tenho um compromisso com as mais de 4 mil pessoas que confiaram em nosso projeto político e não vamos retroceder. Minha equipe segue firme, é a primeira a chegar e a última a sair da Câmara. Somos o segundo mandato com mais iniciativas legislativas no primeiro trimestre.

Mulheres do PSOL- Neste mês de junho, mês em que celebramos a luta de Stonewall, o que você enxerga como mais urgente para a comunidade LGBT?  E em especial para as mulheres LBTs?

Benny – É urgente a humanização dos nossos corpos. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans. A realidade de exclusão precisa ser um debate presente na sociedade e nos espaços legislativos. 

Por isso estou aqui. Com a ocupação dessa população nos espaços de poder, de decisão e a criação de políticas públicas locais e nacionais. Estes passos são fundamentais para assegurar a vida da população LGBTQIA+ e avançar na luta.

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