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Carolina Peters | 8M: Amanhã recomeço

Há cem anos as mulheres abalaram o mundo. Unidas contra a fome, a guerra e as péssimas condições de vida e trabalho, operárias e donas de casa, saíram em marcha pelas ruas de São Petersburgo, constrangendo a repressão e chamando à luta todos os trabalhadores. Dois dias depois daquele 23 de fevereiro (conforme o calendário juliano, vigente na Rússia em 1917, equivalente ao 8 de março no calendário gregoriano, que utilizamos), o proletariado aderia à greve geral que derrubaria o Czar. Assim tinha início a Revolução Russa, e em razão dela foi adotado o 8 de março como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora.

Que distância separa essa efervescência revolucionária do país que há pouco dias descriminalizou a violência contra a mulher! Um aviso da História para aqueles desatentos, apegados à falsa ideia de que a humanidade caminha invariavelmente para o progresso.

A revolucionária Alexandra Kollontai já nos alertava sobre isso. Em ocasião de mais uma celebração da data, no ano de 1920, a então Comissária do Povo para o Bem-Estar Social, equivalente ao cargo de ministra na República Soviética, escreveu: “Enquanto o poder estiver nas mãos dos capitalistas e dos proprietários, nenhum poder político pode salvar as mulheres trabalhadoras da posição tradicional de escravidão em casa e na sociedade”.

Prova disso, é o movimento que a burguesia brasileira empreende para desmontar as conquistas trabalhistas do último século, em particular aquelas inscritas na Constituição de 1988. O alvo da vez é a aposentadoria e as pensões, cujas principais afetadas, como nas demais medidas de arrocho, são as mulheres das classes trabalhadoras. Não uma mulher hipotética e universal, mas as mulheres concretas, cuja taxa de formalização cresceu 30% menos que entre os homens entre 2000 e 2010, sendo que na terceira principal atividade econômica exercida pelas brasileiras, o trabalho doméstico remunerado, que emprega 63,4% de negras (RASEAM 2015), míseros 32,3% (Pnad 2015) possuem carteira assinada. A trabalhadora brasileira real, cujos salários representam aproximadamente 65% dos salários masculinos no mercado informal e 75% no mercado formal; diferença salarial que surpreendentemente cresce conforme aumenta o grau de escolaridade e especialização da mulher, e sem surpresa, em um país que conserva suas raízes escravocratas quase intocadas, também cresce ao comparar os rendimentos de uma mulher negra aos de um homem branco.

Sob o discurso cínico da “igualdade”, querem suprimir a distinção de idade de aposentadoria entre homens e mulheres. Os cinco anos “a menos” de contribuição para que as trabalhadoras brasileiras se aposentem, atualmente vigente, são um importante reconhecimento por parte do Estado da dupla jornada que ainda cumprimos. Essa diferença é uma tentativa de diminuir a desigualdade entre os gêneros e compensar em alguma medida o trabalho doméstico invisível e não remunerado que as mulheres empreendem, e que garante a produção e reprodução da vida, da sociedade.

A contenção do investimento público pelos próximos 20 anos, assegurada pela aprovação recente da famigerada PEC 55/241, aliada à reforma da previdência e aos projetos de precarização do trabalho (terceirização, aumento da jornada de trabalho e a possibilidade de acordos que suprimem direitos trabalhistas), querem garantir ao “andar de cima”, por um lado, a acumulação de capital a partir da superexploração do trabalho, particularmente das mulheres e da população negra, e por outro, superavit primário para manter a taxa exorbitante de juros e a hegemonia do rentismo na economia brasileira. O combate à reforma da previdência e ao governo ilegítimo de Temer está na pauta das manifestações de mulheres nesse 8 de março por todo o país.

A opressão-exploração das mulheres ultrapassa o mundo do trabalho, e busca nos dominar em todas as esferas da vida social, com uma profusão de projetos de lei que querem negar nossa existência, nossa sexualidade e nossa autonomia. Na resistência aos ataques contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, quando até o acesso das vítimas de estupro ao atendimento de saúde integral e de urgência está sendo questionado, o PSOL e sua bancada feminista, por iniciativa da Setorial Nacional de Mulheres, apresentaram ao Supremo Tribunal Federal uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) para descriminalizar a interrupção da gestação até a 12ª semana.

O 8 de março tem em sua origem, quando proposto por Clara Zetkin na 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, um sentimento profundo de solidariedade entre as trabalhadoras ao redor do mundo. A compreensão de que a libertação das mulheres é impossível de maneira individual ou isolada, e desvinculada de um projeto de sociedade sem classes. O chamado caloroso feito por Nancy Fraser e Angela Davis, na resistência contra Trump nos Estados Unidos, de uma greve internacional de mulheres, deve despertar mais do que uma coesão abstrata entre as inúmeras manifestações que hoje vão às ruas, mas uma reflexão profunda e reiterada das pautas capazes de, nos dias duros que enfrentaremos ao redor do globo, unificar e mobilizar as mulheres que vivem do trabalho contra os retrocessos e por uma sociedade sem opressão-exploração. Como o elefante do poema de Drummond, amanhã recomeçamos.

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