Artigo publicado originalmente no jornal O Globo
Na inédita Solicitação para Instauração de Procedimento (SIP-nº1/2017) que a Câmara dos Deputados analisa, os defensores do presidente denunciado Michel Temer parecem seguir uma espécie canhestra de “dez mandamentos”. Tudo no afã de impedir que ele seja investigado.
Este nada virtuoso decálogo é assumido, com fidelidade servil, pelos que compõem a “tropa de choque” do governo. Como se vê na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC), quem vacila é substituído, sem pudor. Como que lobotomizados, os parlamentares que pretendem rejeitar o relatório objetivo de Sergio Zveiter estão doutrinados para:
1 — Dizer que a gravação do diálogo da cumplicidade criminosa entre Temer e Joesley Batista é fraudada e ilícita, a despeito do laudo de autenticidade do Instituto Nacional de Criminalística.
2 — Insistir na tese da “denúncia por ilação”, classificando o robusto inquérito do Ministério Público como um “nada acusatório” e “peça de ficção”.
3 — Garantir que Temer não recebeu um centavo dos R$ 500 mil da mala, “pois eles foram devolvidos”, não teve nada a ver com a negociata espúria e que desconhecia as tratativas e ações do seu assessor de confiança, Rocha Loures.
4 — Afirmar que a ida sigilosa e noturna de Joesley ao Palácio do Jaburu “não foi na calada da noite”, e sim normal, rotineira, sem importância, usual.
5 — Desqualificar o delator da JBS, até então “amigo, financiador e empresário capaz”, agora tornado “criminoso contumaz”.
6 — Negar qualquer eficácia e mesmo contatos de Temer e seu preposto para favorecer a J&F Investimentos no Cade, CVM, BNDES e Porto de Santos, apesar dos muitos registros desse tráfico de influência.
7 — Testemunhar a inatacável “idoneidade, honestidade, honra e correção do presidente”, malgrado sua coalizão de suspeitos, investigados, réus e encarcerados.
8 — Jurar que seus discursos e votos derivam de genuína convicção, nada tendo a ver com atendimento de interesses fisiológicos, liberação de emendas e oferta de cargos em comissão.
9 — Confundir a denúncia contra Temer com um ataque à Presidência da República, tentando assustar a população ao dizer que seu afastamento vai gerar aumento do desemprego e da inflação, além de atrasar as questionadas “reformas” que o mercado pede.
10 — Atacar a delação premiada como instrumento de indução a mentiras e anistia a criminosos, ainda que sem ter tomado iniciativas (o governo e sua base) para extinguir ou aperfeiçoar o instituto.
Ainda bem que em oposição a estas dez enganosas assertivas ergue-se a vivificante consciência cidadã, tão bem expressa no movimento 342 agora.

