Artigo publicado originalmente no jornal O Globo
A crise brasileira está em 3D: altura, largura e profundidade. Nessa última dimensão, vemo-nos imersos em uma crise de destino: não há no país, hoje, uma maioria social que implemente o que queremos ser como nação.
Tivemos essa “vontade nacional” manifesta na contestação à dominação oligárquica da República Velha, na Era Vargas, nos “anos dourados” de JK, no apoio às reformas de base de Jango, no clamor pelas Diretas Já que produziu a Constituição cidadã de 1988. Havia um querer predominante, que se expressou na construção do Estado nacional, no desenvolvimentismo, nas reformas de base, na democratização.
Hoje estão em questão o modelo econômico rentista e primário-exportador, o sistema político colonizado pelas grandes corporações, a criação cultural ameaçada pelo obscurantismo, a rica biodiversidade agredida pela exploração sem limites e por incêndios criminosos. Tudo reproduz nossa secular desigualdade.
A República Nova se esgotou sem realizar plenamente suas promessas de democracia participativa e direta. A soberania nacional não encontrou seu lugar no “globalitarismo” do capital financeirizado.
Nossa crise tem a altura da pequena política, do nanismo ideológico do governo Temer — exterminador de direitos. É a crise do desatino dessa coalizão de denunciados, corruptos, devotos (sem votos) do Estado mínimo e do privatismo máximo. É a crise da ética pública, na qual se naturalizam a compra de votos e o fisiologismo.
Eleições estimulam a formulação de um projeto de país e são o mais amplo aferidor da opinião popular sobre ele. Por isso, a casta dominante opera pela manutenção do status quo e a perpetuação da “gangsterização” da política.
É larga a crise do desalento, da cidadania recolhida. O derretimento partidário, a insegurança pública, o patrimonialismo, os descaminhos trágicos de parte da esquerda que aderiu à promiscuidade público-privada colocam em risco nosso devir civilizatório. A direita mais atrasada, protofascista, perdeu a vergonha e espalha sua cultura do ódio e da discriminação.
Nem tudo são sombras, porém. A plataforma vamosmudar.org.br promove debates importantes sobre a democratização da economia, da política, da cultura e de outros aspectos da vida social. Tramitam riquíssimas iniciativas populares de lei, derivadas da cooperação entre movimentos em luta e setores da academia comprometidos com a transformação do Brasil (bit.ly/propostasbrqueremos). Um alentado programa em gestação combina a afirmação dos direitos econômicos e políticos com a ascendente pauta identitária, do reconhecimento da diversidade humana.
“Povo é uma reunião de seres racionais unidos por um acordo comum acerca dos objetos do seu amor”, disse Santo Agostinho (354-430). Precisamos nos reconstituir como povo. O desafio é a construção coletiva, sem sectarismo e sem perda de princípios. Em frente!

