Contribuição para o balanço eleitoral e a avaliação das perspectivas do PSOL.
1) Quadro geral das eleições
As eleições foram disputadas, especialmente no 1º turno, em um quadro em que prevalecia a impressão de que havia “tranqüilidade” econômica, e de que o governo estava promovendo uma melhora lenta, mas contínua, das condições de vida. A isto se somaram o uso da máquina pública nas eleições e de gigantescos recursos financeiros por parte dos partidos da ordem (PT, PSDB, PMDB, DEM, PP, etc.). O contexto eleitoral era, portanto, muito difícil para a esquerda socialista.
O resultado geral foi favorável ao bloco de partidos do governo federal; isto era previsível, dada a situação bastante tranqüila do governo e a avaliação positiva do presidente. Em geral, os partidos da oposição conservadora não fizeram oposição a Lula.
Por outro lado, o bloco governista perdeu a principal disputa eleitoral (São Paulo), e o principal adversário do PT em 2010 – a ala do PSDB em torno de José Serra – foi vitoriosa aí. Além disso, dentro da coligação do governo, o PMDB se saiu relativamente melhor do que o PT, e este partido pode não marchar unido em 2010, ou mudar de lado. Pelo menos duas das vitórias mais importantes do PMDB – Porto Alegre e Florianópolis – tiveram um tom oposicionista.
E, para complicar mais ainda o quadro para o governo em 2010, Lula não demonstrou ter uma capacidade significativa de transferir votos.
Assim, as eleições indicam um quadro nada definido para 2010. Somando a isso o fato de a crise não ter tido impacto relevante nas eleições (ela só começou a aparecer de forma mais nítida entre o 1º e o segundo turno), e de provavelmente vir a ter impacto significativo em 2010, o quadro em 2010 será mais difícil para o bloco do governo Lula.
2) Resultados do PSOL
Convém distinguir um balanço dos resultados de um ponto de vista mais estritamente eleitoral-numérico e de um ponto de vista político mais amplo.
A) Balanço eleitoral em sentido restrito
De um ponto de vista mais estritamente eleitoral, os resultados em geral não foram bons, mas tampouco foram propriamente ruins. Podemos considerar que os resultados foram razoáveis, e poderiam ter sido mais ou menos previstos, a partir do grau de construção do partido. Enfrentando uma situação conjuntural difícil, o PSOL evitou a marginalização política.
Por outro lado, houve diferenças marcantes neste quadro geral. Houve lugares em que os resultados nas candidaturas a prefeito do PSOL podem ser considerados numericamente muito bons ou bons (Porto Alegre, Fortaleza, Goiânia, Salvador, Cuiabá, Recife, Niterói, Novo Hamburgo, Santa Maria, São Caetano do Sul, Sorocaba, Vinhedo, para citar capitais e algumas cidades importantes) e resultados que devem ser considerados ruins (São Paulo, capital, e os resultados gerais do estado de São Paulo).
Nas eleições para vereador, o destaque foi, é claro, a ótima votação de Heloísa Helena. Infelizmente, este resultado não teve correspondência com o resultado geral do PSOL em Maceió. Outros resultados a serem destacados nas eleições para vereadores são a eleição de João Alfredo como vereador mais votado entre todos os partidos em Fortaleza (sob todos os critérios, uma grande vitória), a eleição de dois vereadores em Porto Alegre (Pedro Ruas como o 2º melhor votado da cidade), as reeleições em Goiânia, no Rio de Janeiro (esta compensa, em parte, o resultado aquém do esperado para prefeito), a reeleição do Renatinho em Niterói.
A avaliação pode ser completada se comparamos os resultados deste ano com os resultados de 2006: como em 2006 já disputamos como PSOL, podemos avaliar quais resultados foram novidade agora e quais resultados decorrem de um acúmulo já existente em 2006 (ainda que as eleições sejam diferentes e, portanto, estas comparações tenham de ser feitas com prudência). Assim, Luciana Genro teve apenas 6000 votos a mais para prefeita do que tinha tido para deputada federal (em Porto Alegre) em 2006; se considerarmos o total dos votos do PSOL para deputado federal em 2006, a votação de Luciana agora mais ou menos equivale. Também Ivan Valente teve um pouco mais votos para prefeito em 2008 do que tinha tido para deputado federal em São Paulo; neste caso, sua votação agora foi claramente inferior à da soma dos votos da Frente de Esquerda para deputado federal na cidade de São Paulo em 2006. Estas comparações indicam que a grande diferença de votação nestas duas capitais já havia sido construída desde 2006.
Já Chico Alencar teve agora para prefeito uma votação bem menor do que a que teve para deputado federal na cidade do Rio de Janeiro em 2006. Ou seja, para prefeito do Rio tivemos um recuo significativo em relação ao potencial indicado em 2006 (confirmado nas pesquisas iniciais de intenção de voto). Naturalmente, a explicação deve ser buscada no “efeito Gabeira”; mas será importante ir além desta constatação para entendermos melhor as razões deste resultado.
Renato Roseno teve em 2008 cerca de 1% menos de votos para prefeito em 2008 do que tinha tido em Fortaleza para governador, em 2006. No entanto, neste caso, este resultado numérico não pode ser considerado um recuo: as condições da disputa eram muito mais difíceis do que as de 2006. Em 2006, João Alfredo exercia o mandato de deputado federal, e a disputa para governador era contra um candidato da direita tradicional (Cid Gomes) apoiado pelo PT. Em 2008, a disputa era contra Luizianne Lins, que fez uma campanha apelando para uma imagem de esquerda (com muita cor vermelha, e até com uma citação do Lênin em debate – para condenar o esquerdismo…). Os quase 6% de 2008 foram uma grande vitória.
Naturalmente, uma questão muito relevante para compararmos os resultados eleitorais de 2008 com 2006 é o fato de naquele ano Heloísa Helena ter sido candidata a presidente, uma eleição nacional. Isto ajudou mais ao partido (ainda que sua votação tenha se descolado muito da votação do partido) do que as declarações de apoio que ela pôde dar em 2008, como candidata em Maceió.
Outro fato muito significativo – e positivo – foi o crescimento dos votos na legenda do PSOL, o que aponta para uma consolidação do partido.
Uma última questão deve ser considerada no balanço estritamente eleitoral: uma eleição municipal é local e, em princípio, menos politizada e mais difícil para um partido de esquerda socialista, especialmente numa conjuntura como a que vivemos.
Como conclusão, podemos considerar os resultados eleitorais de 2008 como, no mínimo, equivalentes aos resultados da eleição de 2006, e provavelmente um pouco melhores – se deixarmos de lado, é claro, os resultados da candidatura da Heloísa a presidente em 2006 (agora substituídos pela ótima votação de Heloísa em Maceió, que tem menor impacto político do que a votação para a presidência). Talvez, a partir dos resultados eleitorais de 2008, possamos dizer que o PSOL se saiu, de um ponto de vista estritamente eleitoral (e, repetindo para evitar qualquer confusão, se não considerarmos os resultados da candidatura de Heloísa Helena) talvez até um pouco melhor do em 2006.
B) Balanço Político
Mas é claro que para um partido como o PSOL a questão decisiva não são resultados e análises estritamente numérico-eleitorais: é preciso fazer avaliações políticas mais amplas; os próprios resultados eleitorais dependem do grau de implantação social do partido, etc.
Fazendo um balanço mais político, podemos dizer que, em geral, as campanhas do PSOL foram razoavelmente corretas. Ou seja: foram campanhas de esquerda, compatíveis com um partido da esquerda socialista.
Há, no entanto, a necessidade de fazer duas observações.
1) Dentro do quadro geral, houve uma diferenciação política considerável: campanhas politicamente muito boas, e campanhas com um con
teúdo político muito questionável.
A campanha com conteúdo político mais questionável, dentre as capitais, foi, sem dúvida, a de Porto Alegre. A partir, ao que parece, da ilusão inicial de que era possível disputar o 2º turno, ou coisa parecida, foram feitas concessões políticas consideráveis, e chegou-se a criar constrangimento para campanhas do partido em todo o país.
O episódio mais grave foi a aceitação do dinheiro do grupo Gerdau: erro político e, mais ainda, erro de método de construção partidária: a opinião das outras correntes do PSOL (que não o MES) foi desconsiderada. E isto apesar de ter havido uma discussão no partido sobre a importância de privilegiar, nestas eleições, o debate do financiamento de campanha, e da conveniência de defendermos o financiamento público. Também não foi levada em conta a letra dos estatutos do partido, que proíbem aceitar financiamento de multinacionais.
Houve outros problemas políticos: materiais de campanha muito despolitizados no início, linha familiar-light de televisão, tonalidade tendendo a conservadora em formulações sobre segurança, etc. No final da campanha, a linha melhorou muito – e isto, provavelmente, contribuiu para a recuperação da candidatura que as pesquisas indicaram (no pior momento da campanha, pesquisas chegaram a indicar uma votação de 4%; é preciso acompanhar as pesquisas sempre com reservas, mas é bastante provável que a tendência tenha sido realmente esta).
Quando levamos em conta o conjunto da campanha, e damos o devido peso a este balanço político mais geral, o resultado da campanha de Porto Alegre não pode ser considerado positivo, como o critério numérico-eleitoral apenas indicaria. O PSOL de Porto Alegre e, especialmente, a corrente que o dirige, além da nossa candidata, saem das eleições com menor autoridade política na esquerda, como menores condições de serem referências para a militância dos movimentos sociais, etc. Cabe agora um esforço para reverter esta situação (a recuperação eleitoral da candidatura a prefeita nas últimas semanas, a partir de uma correção na linha política, não se identifica com a recuperação da autoridade política na militância dos movimentos sociais, e especialmente na militância de esquerda).
Felizmente, como o que predominou no conjunto das campanhas eleitorais do PSOL foram orientações bastante distintas da de Porto Alegre, é provável que o desgaste político que sofremos a partir desta campanha não tenha grande peso no conjunto do país. Ou seja, no conjunto do país o PSOL se firmou como referência política de esquerda.
2) Nosso objetivo no processo eleitoral não poderia ser apenas o de fazer uma campanha “politicamente correta” de um ponto de vista de esquerda: era preciso ter também o objetivo de ter uma incidência política, ter uma presença real no debate político nas cidades (e, na medida do possível, no debate político mais geral), estreitar laços com os setores populares e com a militância dos movimentos sociais, firmar-se como referência de esquerda. E, onde era possível, cumprir alguma meta eleitoral. Ficou claro que. Deste ponto de vista, as diferenças foram muito grandes. Podemos citar como um exemplo muito positivo a campanha de Fortaleza: todos os objetivos (possíveis) foram plenamente atingidos. Naturalmente, a grande unidade partidária dependeu, em parte, da existência do consenso prévio em torno do objetivo de eleger o João Alfredo, consenso que não podia existir em grande parte das cidades.
3) Perspectivas do PSOL
É possível tirar algumas conclusões políticas gerais muito importantes:
1) As eleições demonstraram que há um espaço significativo (ainda que, neste momento, ainda pequeno) para a esquerda socialista, inclusive no plano eleitoral. A ocupação deste espaço não dependeu de concessões programáticas ou de suavizar a campanha. A indicação é que ocorreu antes o contrário: o melhor resultado numérico-eleitoral do partido – o de Porto Alegre – não esteve relacionado com as concessões programáticas e políticas; pelo contrário, há indicações de que com a melhora política da campanha nas últimas semanas, houve alguma recuperação eleitoral. Outro ponto importante é que o ponto de partida eleitoral em Porto Alegre já era superior ao das outras capitais (como observado antes): o que a campanha fez foi preservar o espaço conquistado antes e reforçá-lo com a eleição de dois vereadores – o que já teria sido um resultado excelente, se não tivessem sido registrados os problemas políticos mencionados.
2) Por outro lado, ficou claro que a ocupação do espaço potencial para a esquerda socialista no quadro atual exige mais do que uma campanha “correta politicamente”. Depende de implantação anterior, da construção anterior de figuras públicas, da relação com movimentos, etc., e da capacidade da campanha de sensibilizar setores da população (o que tem a ver também com os recursos e o conteúdo das outras candidaturas). A mobilização da militância e sua empolgação, a criatividade, podem ter um papel decisivo.
Especialmente importante é conseguir mostrar que o debate do socialismo – ou seja, a realização de uma crítica mais geral à sociedade capitalista – é uma questão plenamente atual, e pode ser feito de forma não doutrinária, “nova”.
3) Se o desempenho do PSOL nas eleições já demonstrou que existe um espaço ainda pequeno, mas significativo, para a esquerda socialista, mesmo numa conjuntura eleitoral difícil, o quadro que se abre com o agravamento da crise financeira e a desmoralização do discurso da superioridade dos mercados poderá ser muito melhor. Como observou, entre outros, o economista François Chesnais, há agora a combinação de desenvolvimentos ainda iniciais da crise ambiental planetária (que pesará cada vez mais nos próximos anos) com uma crise financeira de grande gravidade. Podem vir a se colocarem as condições para um grande salto político do partido, no interior de um grande avanço do processo de reconstrução da esquerda socialista.
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