O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, respondeu um requerimento de informações enviado pela bancada do PSOL e demonstrou o nível do trabalho que vem conduzindo a frente do ministério: lamentável. O chanceler brasileiro justificou a escolha de conferencistas da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) com um argumento pouco acadêmico: os números de “likes” que as palestras geraram nas redes sociais. Entre eles estão blogueiros bolsonaristas sob investigação do STF.
Ao longo dos últimos meses, a entidade ligada ao Itamaraty promoveu uma série de debates sobre a política externa. Temas da agenda do atual governo, como a crítica ao globalismo, passaram a fazer parte do calendário. E, para discursar sobre tais assuntos, nomes com Bernardo Kuster e Allan dos Santos foram selecionados — ambos estão entre blogueiros sob investigação do STF num inquérito sobre fake news.
No dia 2 de setembro o PSOL recebeu as respostas de Araújo ao requerimento que cobrava justificativas das escolhas dos nomes que foram custeados com dinheiro público.
O ministro afirma ainda que “o interesse do público tem sido crescente”. Para demonstrar isso, ele cita dados de visualizações de vídeos e “likes” e “dislikes” para atestar a “alta receptividade da sociedade” aos temas e palestrantes escolhidos.
De acordo com ele, em 2020, conferências virtuais tiveram mais de 250 mil visualizações, com cerca de 30 mil avaliações positivas (likes) e 1,2 mil avaliações negativas (dislikes). Ele cita ainda o caso de um seminário sobre globalismo, em junho de 2019. Desde aquele momento, foram 122 mil visualizações, com 11 mil likes e 269 desaprovações.
Outra questão apresentada pelo PSOL se referira ao fato de o Itamaraty ter convidado o líder monarquista Bertrand de Orleans e Bragança como conferencista de um evento sobre conjuntura internacional pós-coronavírus.
Nos materiais de divulgação, o governo o apresentava como Sua Alteza Real e Imperial – S.A.I.R. Numa República, porém, tal título não existe. O Itamaraty disse que não foi consultado. Mas Araújo, ainda assim, indicou que “não parece haver qualquer problema na utilização do tratamento ‘S.A.I.R. à Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que como tal se identifica”.
Em pleno debate sobre a violência policial e os protestos contra o racismo no mundo, o convidado usou seu palanque no Itamaraty para dizer que o Brasil “não tem problema racial”. “Estão tentando criar esse problema”, disse. “Aqui, todos nos damos bem”, garantiu. Ao falar das qualidades do país, ele citou a existência de um povo “pacífico”, mas também marcado pela “doçura e lealdade”.
O convidado foi apresentado como uma pessoa que descende da casa real francesa, austríaca e portuguesa, além de uma “longa tradição de heróis, reis e santos”.



