Após a bancada do PSOL obrigar o Itamaraty a divulgar os telegramas internos, instruções e documentos sobre possíveis orientações do Itamaraty a seus postos no exterior sobre o que deve ser dito em relação à morte da vereadora Marielle Franco, foi possível descobrir que Luis Fernando Serra, embaixador do Brasil na França, decidiu cancelar sua participação em um evento em Paris com acadêmicos ao descobrir que haveria uma homenagem a Marielle.
A informação consta em telegramas internos enviados pelo diplomata ao Itamaraty, em Brasília. As mensagens fazem parte de 17 documentos que a chancelaria foi obrigada a fornecer após requerimento oficial do PSOL.
No dia 6 de agosto de 2019, o embaixador em Paris indicou que ocorreria o Congresso da Associação de Brasilianistas na Europa. O evento, segundo o documento, reuniria 540 professores e estudiosos do Brasil residentes no continente europeu.
“Convidado para assistir à cerimônia de encerramento do Congresso, fui informado de que o evento ocorrerá em local cedido pela prefeitura de Paris, com a presença da prefeita Anne Hidalgo (Partido Socialista)”, escreveu. “Na ocasião, após a palestra final da conferência, deverá ser dada a palavra à prefeita para “prestar homenagem à brasileira Marielle Franco”, continua o embaixador.
“Na ocasião, a prefeita tornará pública a localização de jardim da capital francesa que receberá oficialmente o nome da vereadora brasileira”, explicou. “Ante o exposto, tomei a iniciativa de cancelar minha participação no referido evento.”
Essa não é a primeira vez que o embaixador do Brasil em Paris se envolve em temas relativos à vereadora. No começo do ano, a senadora francesa Laurence Cohen, do Partido Comunista e presidente do grupo interparlamentar de amizade França-Brasil, havia enviado uma carta à embaixada em Paris.
Ela questionava o governo sobre as investigações relativas ao assassinato da vereadora. No dia 3 de fevereiro, a senadora publicou em seu perfil no Twitter um trecho da carta que recebeu como resposta a seus questionamentos. Serra respondeu agressivamente à legisladora francesa, afirmando que era com “profunda consternação” que observava “que o assassinato de Celso Daniel e o ataque à vida de Bolsonaro não tiveram o mesmo eco na França que o assassinato de Marielle, que foi até objeto de uma mobilização da Assembleia Nacional”, apontou.


