Em entrevista concedida à Agência Pública, Érika Hilton, vereadora do PSOL em São Paulo, falou sobre iniciativas do seu mandato na Câmara Municipal e a situação de violência a que mulheres trans e travestis estão submetidas, inclusive quando atingem espaços de poder como são os mandatos parlamentares.
Mulher mais bem votada do país e primeira vereadora trans da maior cidade da América do Sul, Érika afirma que mesmo com as várias violências que sofreu desde que assumiu cadeira no Legislativo municipal, ela não se intimida em assumir sua identidade travesti, negra, periférica, ativista pelos direitos humanos.
“Sim, eu me identifico como travesti, como mulher trans, transvestigênere”, diz a parlamentar do PSOL. “É claro que cada um de nós tem suas especificidades, porque é sobre identidades que estamos falando, mas o esforço transvestigênere é um esforço para nós agrupados nessa diversidade toda, porque também temos muito em comum, somos contra a imposição de gênero que nos foi designado antes de sabermos que nós éramos”, explica.
Sobre as situações de violência que vem sofrendo nos últimos tempos, Érika Hilton explica como tem lidado. “Desde janeiro do ano passado o cerco fechou muito, para mim. Sempre ando acompanhada por meus seguranças e motorista, com protocolos rígidos de locomoção. Para ir à academia, ao trabalho, ir e voltar de casa”, conta.
Ela conta também sobre a violência política e simbólica que sofre pelos próprios parlamentares por sua identidade de gênero. “As violências no exercício do mandato, pelos meus pares, são veladas. Eles não chegam a me desrespeitar enquanto pessoa, porque eu imponho muito, sou muito bem relacionada, nunca deixei margem para isso. São veladas, mas igualmente ou mais prejudiciais”, relata.
Erika Hilton também conta sobre a CPI que preside na Câmara Municipal de São Paulo, para investigar especificamente violências contra pessoas trans e travestis.
“Esses dados ainda são muito subnotificados, não são qualificados enquanto casos de transfobia pelo poder público, são agrupados com outras violência LGBTfobicas. Então além de lidar com casos que repercutem e furam as bolhas da mídia, estamos conseguindo mapear os gargalos da subnotificação, estabelecer parcerias importantíssimas com a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo para dar vazão aos casos cotidianos que aparecem para a gente”, explica.
A parlamentar também avalia as conquistas de seu mandato até agora. “Tenho orgulho em dizer que nosso mandato, apesar de todos os boicotes e tentativas de intimidação, já vem deixando marcas profundas na cidade. Com a CPI, com a nossa atuação como presidenta da Comissão de Direitos Humanos, com a implementação do Fundo Municipal de Combate à fome, projeto de minha autoria aprovado por consenso na Câmara e sancionado pela prefeitura no aniversário da cidade, as conquistas orçamentárias visando a ampliação do atendimento de saúde para a população negra”, enumera.
“Em 2022 teremos grandes batalhas e construções. Uma delas será tornar Lei o Projeto Transcidadania, que existe desde a gestão Haddad, mas que é um decreto que pode ser revogado a qualquer momento. Queremos que essa política deixe de ser uma política de governo e seja uma política de estado, para que não possa ser revogada, desestruturada, sabotada. Além de torná-lo lei, queremos ampliá-lo. Estamos construindo com a Câmara e a Prefeitura esse processo”, continua.
Sobre as eleições de 2022, a vereadora acredita que elas “devam cumprir com um papel de popularizar a aprofundar ainda mais esses debates e bandeiras com o conjunto da população, para que nos próximos anos a gente só pavimente o caminho aberto para a expansão de políticas públicas e direitos para mulheres, negras e negros, LGBTQIA+”.
“Mas para a sociedade em geral também, a eleição de 2022 precisa ser a eleição que vamos falar de inverter a política econômica, tributária, para que as massas trabalhadoras, pobres, a base da pirâmide, levando em conta toda sua pluralidade e diversidade – mas também o que temos em comum, somos explorados – tenha vez e voz na refundação que queremos para o país em 2023”, conclui.

