O machismo não é uma mera ideia que permeia um inconsciente coletivo; tem base material. A Divisão Sexual do Trabalho, que relega a mulher ao espaço privado, do trabalho doméstico invisibilizado e sem remuneração, é fundamental para a manutenção da sociedade e a partir dele se gera indiretamente mais-valia. Mesmo com a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, ainda lutamos por equiparação salarial aos homens. Desempenhando a mesma função, ganhamos em média 70% dos salários masculinos, chegando a menos da metade quando confrontamos o salários do homem branco com o da mulher negra. Somos hoje maioria nas universidades, embora ainda muito restritas a profissões menos prestigiadas.
As estatísticas apontam que pobreza é feminina e negra. Nosso feminismo tem cor e classe, mas mais que isso, é fundamental que a estratégia revolucionária dê conta da complexidade das relações de opressão-exploração, que dentro da nossa concepção são indissociáveis
O espaço público, onde se opera a política, é historicamente o território dos homens. Mesmo nos ambientes de esquerda nos deparamos com o machismo, seja no extremo da truculência com uma companheira, seja na reprodução mecânica da divisão sexual do trabalho, designando as mulheres para funções “menores” e mais burocráticas, como secretariado e organização (no que se inclui o cafezinho das reuniões), enquanto os companheiros tendem a monopolizar as falas e tarefas mais estritamente políticas. Há também um outro aspecto mais involuntário, mas ao qual devemos nos atentar: a predominância absoluta de homens nos espaços, tornando-os hostis às mulheres, cuja criação cultural sempre as afastou da participação política.
A implementação de cotas para mulheres nas direções partidárias, conforme aprovamos no III Congresso do PSOL, foi um grande passo no sentido de dar uma cara mais feminina ao partido na qual as mulheres se reconheçam e referenciem, de forma a incentivar seu protagonismo militante. Medida acertada também para formar novas dirigentes, pois deve-se considerar que boa parte da formação política se dá na prática cotidiana, no convívio com a experiência, na luta concreta e assumindo tarefas. É uma conquista coletiva das mulheres do PSOL e fortalece o partido como um todo.
Se é certo que a auto organização é imprescindível, que deve partir de nós mesmas, enquanto sujeitos de nossa emancipação, levantar nossas pautas e organizar as reivindicações, aponte-se que, se estas não forem assumidas coletivamente, tanto o combate ao machismo se fragiliza, quanto se fragiliza a luta socialista. E parte também do nosso entendimento que não há outra forma possível para o avanço de uma política socialista e feminista senão que nós, mulheres, atuemos não apenas nos setoriais, mas sejamos feministas em todas as esferas. Pois esse é nosso objetivo último: uma sociedade em que sejamos “socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

