É sabido que ciência no Brasil se produz quase que exclusivamente por professores e estudantes, principalmente no âmbito dos programas de pós-graduação. Na base da pirâmide, desta rede que reverbera na produção de artigos e livros científicos – pelo que não há ciência sem comunicação de resultados –, estão sempre os estudantes; sejam eles do nível de graduação ou de pós.
Grande parte dos professores recrutam os graduandos ou são por estes buscados a fim de serem letrados na pesquisa, a partir das chamadas “bolsas de iniciação científica”. Dentre as atividades de diversas naturezas desenvolvidas na extenuante rotina laboral dos docentes, resta ainda uma série de outras diligências, que, conquanto sobre sua tutoria, não podem ser incorporadas por suas agendas, sobretudo aquelas que dizem respeito à produção de conhecimento científico.
É assim que, no complexo desenrolar de uma pesquisa, processo necessariamente coletivo, integram-se estudantes, os quais, por sua vez, também ocupam-se – ainda que meu intuito não seja incorrer aqui na impropriedade em simetrizar as categorias (docente/discente) – de uma gama heterogênea de tarefas. Grosso modo, o bolsista empreende desde a produção e organização de dados a sistemáticas leituras, estudos e escritas.
Muitas vezes, como não surpreende que aconteça quando há dezenas de estudantes interessados e pouquíssimas bolsas disponíveis (lembremos que situamo-nos em um quadro de recursos escassos – premissa deste artigo), a mensagem difusa, fortalecida pela nomenclatura “bolsa” – ao meu ver, manobra institucional para não se pagar direitos trabalhistas a quem “mete a mão na massa” da pesquisa, ou “suja-se no laboratório da empiria” –, é que trata-se de um auxílio, uma ajuda, sobretudo do professor doutor ao estudante graduando, e não vice-e-versa – como de fato ocorre: uma vez que um e outro solidarizam-se mutuamente.
Acontece, entretanto, que o estudante jamais espera que a bolsa lhe sustente, pague-lhe as contas (destoando da expectativa de qualquer outro trabalhador), mas que, na melhor das hipóteses, quebre-lhe um galho, e que, sobretudo, o seu trabalho mais adiante lhe seja recompensado em uma trajetória escolar que é sempre cumulativa. Ancorados nesta convicção, submetemo-nos a este trabalho, não obstante inclusive na condição de voluntários, vejam só.
Não é algo tão corrente nas ciências sociais e humanas (em que pese a discrepância de fontes de financiamento entre as áreas do conhecimento), mas é bastante comum em grandes projetos dinamizados pelas ciências da saúde, por exemplo, alunos de mestrado e doutorado incumbir-se de certos recortes destes projetos. Ganham os estudantes, com a ampla equipe trabalhando na produção de dados, ganham os docentes, que de outro modo – destituídos do trabalho desempenhado pelos bolsistas – estariam humanamente fadados a não dar conta de tantos espectros suscitados pelos projetos que coordenam.
Mas – eis que agora posso inquiri-los – onde estão os estudantes e os recursos financeiros a eles dispostos em meio a esta greve senão como figuras secundárias? Como é possível reivindicar um aumento de salário de um profissional que recebe em torno de R$8 mil sem sequer reclamar, em holofotes tão colossais quanto, estabelecidos em uma plataforma política mais equânime (“distribuição de renda” supostamente compõe o ideário dos que se sensibilizam com a greve), por aumento de uma mísera bolsa de R$400 de um adulto também com contas a pagar? Ou seria porque eles estão aprendendo e nós estamos “trabalhando de verdade” (como já expus acima, alegação um tanto controversa)?
Longe de opor-me à greve docente, gostaria muito de participar de uma greve protagonizada pelas diversas categorias de bolsistas deste país, e que atacássemos de modo mais claro e específico aspectos que implicam na nossa qualidade de vida e no reconhecimento do nosso trabalho, qual a correção salarial docente. Por sua vez, os estudantes coloriam, qualificariam, apresentariam sua versão da bandeira “por uma universidade pública, gratuita e de qualidade”, que não se reduziria, mas necessariamente enfrentaria a questão da renda de todos aqueles que movimentam – atravessando suas lesões por esforços repetitivos – a vida universitária deste país.
Nesta especulação, os docentes não seriam a primeira categoria a entrar em greve, mas ainda fariam coro com as nossas reivindicações e, ao aderirem ao movimento, consigo levariam suas próprias pautas.

