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ISA PENNA: Para não esquecer: Cunha é Temer!

Cunha poderia ter sido um político qualquer. Defensor de um projeto extremamente conservador para o país, existem – somente nessa legislatura da Câmara Federal – pelo menos uns 350 deputados que defendem o mesmo que ele e que, em sua maioria, mal sabemos o nome. É de responsabilidade da mobilização popular o fato de Cunha ir parar no centro do noticiário político do país e ter seus projetos derrotados. Os maiores exemplos disso foram a luta contra a redução da maioridade penal e contra o PL 5069 (que dificultava o socorro à mulheres vítimas de estupro), onde a juventude – mais particularmente a negritude e as mulheres – derrotaram o ex-deputado. Cabe destacar nesse processo o papel dos parlamentares do PSOL, que conseguiram casar a luta parlamentar com as lutas das ruas ao entrarem com o pedido de cassação do seu mandato.

Para completar a trajetória política de Eduardo Cunha temos a comprovação de sua ligação com esquemas de corrupção. A comprovação desse crime questiona por si só a forma pela qual foi feita a sua prisão nessa semana. Se o crime cometido já foi apurado, por que ocorreu a prisão preventiva baseada em ação da polícia federal pouco embasada juridicamente? Até parece que Sérgio Moro quer ajudar o deputado. Questionamento a parte, se Cunha se encontra na situação que hoje está, muito se deve a nossa luta – e isso é inquestionável.

É possível – e necessário – comemorarmos a prisão de Cunha ao mesmo tempo que questionamos o sistema penal e carcerário existente hoje em nosso país. Cunha não irá ser um preso qualquer. Receberá o melhor tratamento possível por parte dos policiais e corre o risco de cumprir sua “pena” em sua mansão, usando uma tornozeleira eletrônica e levando uma vida mais luxuosa que 99% da população brasileira. Essa condição é bem diferente da qual se encontra a maioria dos nossos presos, jovens negros amontoados sem a mínima infraestrutura e muitas vezes sem terem sequer seus possíveis crimes julgados. Não podemos, devido a casos isolados como a prisão de deputados, pararmos de denunciar o papel do poder Judiciário em nosso país.

De minha parte, ficaria ainda mais feliz se Cunha, ao invés de ficar preso em sua casa levando uma vida de rei, fosse obrigado a devolver todo o dinheiro por ele desviado e tivesse seus direitos políticos cassados, pois sem combatermos os privilégios que foram a ele possibilitados por seu crime, Cunha será apenas mais um corrupto da alta corte que seguirá perpetuando seu poder e seu modo de vida, frutos de um ato ilícito contra sociedade.

O cenário político brasileiro deve mudar a partir dessa prisão. Como não creio em uma história feita de forma linear, mas sim a partir da luta de classes, é difícil hoje cravar o que irá acontecer nos próximos dias, porém avalio que dois caminhos se mostram mais abertos. O primeiro deles seria o completo desmonte do governo golpista, pois como já disse Romero Jucá ”Cunha é Temer” e, a partir de uma delação feita pelo ex-deputado, poderíamos desencadear a comprovação de diversos crimes envolvendo as grandes empresas, a extrema maioria do Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Devemos pressionar para que isso aconteça, o que seria um completo desmonte do que temos hoje em nosso país.

Porém, existe um outro caminho, que julgo ser o mais provável. A burguesia brasileira conseguiu aos poucos consolidar-se em um novo bloco hegemônico, o que ficou provado tendo em vista o processo de impeachment da Dilma e consolidado a partir das eleições municipais e da expressiva votação que Temer conseguiu (após seu banquete) para a aprovação da PEC 241 no Congresso. Considerando que estamos em uma correlação de força desfavorável para a esquerda, é possível que Cunha seja utilizado mais uma vez como “boi de piranha”. Isso se consolidaria com a sua prisão domiciliar em troca da retirada do questionamento da “parcialidade” ao qual a Lava Jato é submetida e a legitimação para que novas prisões ocorram em nosso país, provavelmente de políticos sem provas – até o momento – de estarem envolvidos nos mesmos esquemas de corrupção.

O fato de Cunha ser detido só agora, meses depois da comprovação do seu crime e quando se encontra mais fraco politicamente, ajuda a mostrar a seletividade que envolve a operação Lava Jato. Espera-se meses para prender quem era o pivô dos crimes e ignora-se inúmeras delações feitas contra outros políticos, como Aécio Neves e José Serra, que seguem operando livremente em Brasília. Se essa operação quer de fato acabar com a corrupção, deveria atacar quem está no centro do poder político e não esperar que essa pessoa saia do poder para ser presa. Se isso não acontece, estamos apenas assistindo uma operação midiática.

Perante estas dúvidas, a nós só resta um caminho: seguir na luta. Devemos sim exigir que os parlamentares corruptos sejam alvos de punição, porém a defesa desse combate se faz com uma reforma política séria e não a partir de operações jurídicas midiáticas, que não atacam o cerne da questão. É necessário fortalecermos as mobilizações da Frente Povo Sem Medo e que a juventude, a mulherada e a negritude sigam “ocupando tudo” para derrotarmos esse podre modo de fazer política que impera em nosso país. O espaço para luta social e a possibilidade de mudanças existem e é nas ruas que vamos arrancá-las!

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