O grande filme do ano de 2016 trouxe um vetor de sensibilidades. Na presença constante de Sonia Braga, na trilha sonora de caráter sensorial ou no engajamento de novo tipo do diretor Kleber Mendonça Filho. “Aquarius”, contudo, foi grande porque fez arte em nível altíssimo desvelando temas centrais no Brasil de hoje. A corrupção endêmica, as corporações imobiliárias que comandam e disputam o espaço nas grandes cidades. Uma obra épica, transcendental.
Na sexta-feira, 18 de novembro, o ministro da cultura, Marcelo Calero, surpreendeu o país ao comunicar sua demissão. Um ministro que chegou a seu posto contestado, depois de um processo intenso de luta direta dos setores da cultura contra o ajuste que tinha como uma das primeiras medidas do governo ilegítimo de Michel Temer a liquidação do próprio ministério da cultura. Depois de um belo trajeto de mobilizações que comoveu o conjunto do setor artístico, inscrito no movimento “OcupaMinc”- que adotou um método criativo e radicalizado de ocupações, foi restituído à Cultura o seu status de pasta ministerial. Calero, até então o ministro, teve um gesto de coragem, difícil de acreditar vindo de alguém do primeiro escalão de um governo terrível. Entregou seu cargo denunciando a pressão do todo-poderoso Secretário de Governo, Geddel Vieira Lima, para realizar transações imobiliárias ilícitas, em nome do IPHAN.
Para liberar um obra milionária em bairro nobre de Salvador, Geddel necessitava obter a licença do Instituto do Patrimônio Histórico e Artísitico Nacional(IPHAN), órgão subordinando ao Ministério da Cultura. Até aqui o IPHAN não permite, pela vínculo com a Baía de Todos os Santos, construções acima de 13 andares. O prédio envolve uma construtora sócia da OAS, relacionada também com outro empreendimento suspeito em Salvador, o “Costa Espanha”. Investigações da Operação Lava-Jato já tinham interceptado mensagens do mesmo Geddel buscando influenciar o poder público para garantir a construção do empreendimento imobiliário.
Geddel é um dos barões políticos envolvidos com mais peso no governo Temer. Um articulador que tem tanta penetração nos círculos da Casta quanto escândalos de corrupção em seu currículo. Foi protagonista do escândalo conhecido como “anões do orçamento”, onde houve desvio de verbas para beneficio de empreiteiras; além de defensor das manobras de FHC, foi ministro de Lula; acusado na Operação Lava-Jato de colaboração com OAS em troca de recursos para sua própria campanha ao Senado no ano de 2014. Não deixa de ser óbvio seu peso no centro do governo Temer.
Geddel repete na vida real, o impasse central da agressividade da especulação imobiliária no filme Aquarius. A crise que se desnudou na troca de guarda do Ministério da Cultura é muito mais profunda do que aparenta e serve com postal do Brasil real.
Controlar os grandes empreendimentos nas orlas das cidades históricas e turísticas do nordeste brasileiro é uma disputa central, seja para os agentes do capital, seja para seus representantes políticos.
Roberto Freire foi chamado às pressas para apagar o incêndio. Uma expressão viva da casta política, onde o transformismo leva partidos outrora de esquerda às raias do pragmatismo e da colaboração com setores conservadores.
Temer abre mais uma frente de crise, num momento onde está acossado pela crise fiscal do Rio de Janeiro, pela implosão do PMDB na nova etapa da Lava-Jato, pela queda de braço entre os setores que orientam mais ajuste e os que resistem às medidas com a PEC 55.
Temer vai comprar o desgaste ou entregará a cabeça de seu aliado Geddel? Como a malha ampla envolvida no movimento tonificado do “OcupaMinc” vai responder às novas diretrizes da gestão Freire?
A crise da burguesia brasileira é uma crise orgânica. A demissão de Marcelo Calero atualizou a genialidade de Aquarius. Novos capítulos estarão pela frente, opondo interesses cada vez mais nítidos.

Israel Dutra, da Direção Nacional do PSOL

