Está tudo dito e repetido até o cansaço. Não faz sentido, neste momento, repetir argumentos técnicos sobre “pedaladas”, decretos e toda a ficção jurídica que foi criada para distrair a atenção do público enquanto a conspiração palaciana era articulada. Todos os atores políticos envolvidos na organização deste golpe de Estado sabem que isso é conversa fiada — algo que a imprensa internacional advertiu desde o primeiro dia — e que a discussão em “juridiquês” e “economiquês” tem como único objetivo fazer com que a maioria da população não entenda o que está sendo falado. Não vou perder tempo com isso.
Agora que chegamos à fase final do golpe, num jogo de cartas marcadas que todos sabem como termina, eu quero falar para a Dilma como cidadão. Não a presidenta e o deputado, mas as pessoas, os militantes. Continuarei a chamá-la de presidenta e apenas para não dar aos golpistas o prazer de retirar antecipadamente dela o título que o povo lhe deu nas urnas, mas falo para a companheira.
Presidenta, a senhora sabe que temos discordado bastante ao longo dos últimos anos. De fato, eu fui muito crítico do seu governo e, se deixei de repetir minhas críticas a partir do início desta farsa de impeachment, não foi porque tenha me esquecido daquilo em que discordamos, mas porque a defesa da democracia nos uniu — e a senhora, que sofreu no corpo a tragédia da ditadura, passando inclusive pela prisão e a tortura, sabe ainda melhor do que eu que a democracia é muito mais importante do que qualquer divergência política ou ideológica.
Presidenta, as minhas críticas ao seu governo tiveram, na maioria dos casos, o mesmo motivo: as concessões e recuos que a senhora fez diante das pressões e a chantagem permanente daqueles que depois a traíram. Essa gente não tem limites: primeiro toma o que lhe é dado sob pressão e depois pega o resto na marra. Esses golpistas são canalhas, bandidos, ladrões, fundamentalistas, fascistas, homofóbicos, machistas, racistas, plutocratas, egoístas, conspiradores, autoritários e inimigos da liberdade, da igualdade e da democracia. E sempre querem mais.
Querem tudo.
Mas eu quero dizer à senhora que, independentemente das nossas diferenças, pode contar comigo. Não falo apenas como deputado, mas como pessoa. Muitos ainda não perceberam que o que esteve em jogo ao longo de todo este processo não é a continuidade de um governo, com seus erros e acertos, mas a defesa da democracia como forma de vida, que os golpistas estão nos roubando. As consequências do golpe serão graves e duradouras e afetarão nossas liberdades, nossos direitos e as conquistas sociais dos últimos anos.
O que vem agora são tempos sombrios e, ao mesmo tempo, tempos de resistência. Vamos resistir o governo ilegítimo e suas políticas que ninguém votou. Vamos resistir todo ataque às liberdades individuais e aos direitos civis e políticos. Vamos resistir o programa reacionário urdido pelos poderes econômicos e os fundamentalistas.
Vamos resistir no Congresso e, sempre que necessário, nas ruas!

