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Luciana Genro | A omissão do poder público na morte de Marielle

Artigo publicado originalmente no jornal Zero Hora

Os assassinatos de Marielle Franco e de Anderson Gomes, há três meses, mostram o fracasso do poder público no enfrentamento às milícias cariocas na última década, o que pode ser considerado decisivo para que mortes como a da vereadora e de seu motorista continuem ocorrendo sem punição.

O poder público se omitiu de adotar, por falta de vontade política, as 58 propostas apontadas pelo relatório da CPI das Milícias no Rio, há 10 anos. A CPI, onde Marielle trabalhou como assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, indiciou, ao menos, 226 pessoas, e prendeu vereadores, deputados, policiais civis e militares e agentes da segurança pública como integrantes e apoiadores destes grupos, hoje apontados como os principais suspeitos da execução de Marielle.

A omissão dos governos deixou com que as milícias começassem, mais fortemente no início dos anos 2000, a ocupar as comunidades mais pobres do Rio. Neste período, compreendido pelos governos de Lula e Dilma Rousseff na Presidência da República e de Sérgio Cabral no governo do Estado do Rio, pouco foi feito para garantir o cumprimento de uma efetiva política nacional de segurança pública no combate a esses grupos que fazem a população de refém.

Freixo relembra que a CPI foi instaurada um ano depois das suas primeiras solicitações e somente após jornalistas do jornal O Dia serem sequestrados e torturados por milicianos. Quando atingia só os moradores, a atuação criminosa das milícias não sensibilizava.

Marielle, criada na favela da Maré, usava seu mandato como vereadora para fortalecer as periferias e denunciar os crimes praticados pelas milícias, pela Polícia Militar e os problemas da intervenção militar no Rio.

A luta de Marielle não vai parar. Ela continuará viva em cada lutador e lutadora dos direitos humanos e especialmente na luta das mulheres negras por visibilidade, dignidade e direitos. Exigimos justiça para Marielle e seguiremos exigindo, para ela e para todos os lutadores perseguidos e assassinados por trabalharem para denunciar a omissão do poder público na garantia de uma vida digna à população.

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