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LUIZ ARAUJO: O que fazer com a lista?

Tem coisas que todo mundo sabe (ou desconfia), mas que se torna crível quando aparece uma evidência material. A lista apreendida na Odebrecht evidencia que:

1. As empresas não possuem partidos (não são petistas, como alguns devem estar achando esses dias!). Na verdade, os partidos não têm empresas (mesmo que alguns políticos tenham), elas é que possuem nas suas listas os principais partidos.

2. Empresa não doa, investe. Para ser mais exato, empresas grandes como é o caso da Odebrecht financiam várias alternativas numa eleição (ajudaram Dilma e Aécio, por exemplo), para não ficar de fora da partilha das grandes obras públicas no dia seguinte. Em alguns casos, para manter imagem de neutralidade, doam pequenas quantias para candidatos contrários ao seu pensamento (vai que dá uma zebra!).

3. Obras públicas, pelo menos as mais relevantes, somente são tocadas por empresas participantes de algum esquema de corrupção. A corrupção está entranhada no funcionamento da política brasileira. Seus custos já estão embutidos no valor calculado das obras públicas. Somente sobrevive e cresce quem joga de acordo com as regras dos clubes montados em cada área (e não somente na Petrobrás, como alguns querem fazer crer).

A legislação, até as eleições passadas, permitia financiamento privado de campanha. Grande parte das doações legais (registradas nas prestações de contas) foi feita para agradecer (ou estimular boa vontade de) políticos. Em troca, quando governando, a financiadora se mantinha no esquema (mesmo com a alternância de partidos no comando) ou adentrava ao clube via os novos gestores. Existe, obviamente, financiamento, vamos dizer assim, ideológicos, mas estes também cobram do eleito que vote de forma coerente com os interesses dos financiadores (emendando Medidas Provisórias, como é o caso recorrente do senhor Eduardo Cunha e demais da mesma estirpe, ou mesmo da bancada ruralista).

Portanto, uma empresa do porte da Odebrecht, que tem obras espalhadas pelo Brasil, sejam elas federais ou grandes obras de governos estaduais, faz negócio com diversos políticos de diferentes partidos. A Delta, que deixou de existir quando descoberto o esquema do bicheiro Carlos Cachoeira, agia da mesma forma (tinha negócios com governo de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Goiás, Pará e governo federal).

Uma evidência comum aos dois casos deve merecer profunda investigação: o uso de empresas menores (fantasmas ou não) para legalizar parte das transferências. Tem gente especializada (terceirização até na corrupção) em montar e oferecer este tipo de empresas para as grandes empreiteiras. Serviço de primeira qualidade. A Lava Jato pegou algumas destas figuras, mas pouco se sabe sobre o que descobriu, talvez por que, assim como as grandes empresas, esses senhores não possuem partido, trabalham para um mercado suprapartidário. No escândalo da Delta tinha uma dezena, imagino que Odebrecht tenha a sua dúzia de empresas.

Há uma dupla movimentação política neste momento. A primeira, ajudada pelo zeloso retorno ao sigilo do agora comedido Juiz Sérgio Moro, é de não apurar nada, remeter para o STF, colocar numa gaveta bem funda, afinal neste momento o interesse se concentra em tirar o PT do governo e não fazer uma limpeza profunda na promiscuidade existente entre governos e empresas. A segunda, devido ao grande número de políticos citados (de todos os grandes partidos e personalidades da linha sucessória de Dilma e candidatos a ministros de um possível governo Temer), é acelerar as tratativas do acordão pós-Dilma. O acordão, que se discute nos salões do poder, é tirar Dilma, mandar para a cadeia meia dúzia de petistas, inviabilizar uma possível candidatura de Lula e… parar por aqui. Nas duas movimentações é preciso controlar qualquer arroubo de manter aprofundando as investigações.

Muitos perguntarão: e o monte de empresários presos? Isso não é positivo? Óbvio que prender corruptos (os que recebem e os que pagam propina) faz bem para o país. Mas está clara a seletividade da condução nessa área também. Para eles, uma delação premiada do Marcelo Odebrecht somente interessa se ficar circunscrita aos sócios atuais no Planalto, nada de revelar tudo que sabe, inclusive não pode chegar ao PMDB, caso contrário fica impossível costurar o acordão para tirar a Dilma.

Que se investigue tudo e todos. Que não aconteça novo acordão como presenciei na CPI do Cachoeira, quando começaram a aparecer vínculos da Delta com PMDB, PT e PSDB.

Muitos têm perguntado sobre nossa postura diante de duas doações registradas na prestação de contas (R$ 80 e 20 mil) do companheiro Milton Temer quando candidato ao senado em 2010. E a citação de suposto depósito de R$ 450 mil para o senador Randolfe, hoje na Rede, esta sem declaração na prestação de contas eleitoral. Mesmo que as evidências iniciais mostrem se tratar de situações distintas (Temer recebeu doações legais e já se colocou à disposição do partido para explicações), nossa linha é que se investiguem todos contra os quais possa haver alguma dúvida.

É forçoso reconhecer que nesses anos o PT se tornou um sócio conveniente até pouco tempo para grandes empresas, mas agora não cumpre mais esse papel, apesar dos esforços de Dilma.

A estratégia de colocar para debaixo do tapete não contará com o apoio do PSOL. A lista é uma extraordinária oportunidade para a Operação Lava Jato mostrar que não se tornou um aparato seletivo para tirar o PT e manter os esquemas intactos para serem operados pelo PSDB, PMDB e agregados.

Luiz Araújo
Presidente do PSOL

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