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#MeuProfessorRacista: campanha nas redes sociais denuncia racismo institucional

Foi deflagrada esta semana, nas redes sociais, a campanha #MeuProfessorRacista, denunciando o racismo institucional, a partir de um caso ocorrido em março durante uma aula na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Os debates em torno dos assuntos “marchinhas racistas” e “o racismo de Monteiro Lobato” ganharam um tom de chacota dado pela então professora que ministrava a aula. No dia 27 de março, a mesma professora abafou, com gritos, a reação suscitada por uma aluna.

Com o objetivo de denunciar o ocorrido, que infelizmente acontece todos os dias em vários espaços, incluindo universidades públicas, na segunda-feira (03/04) a Ocupação Preta retomou a discussão histórica referente ao racismo contido nas obras escritas por Monteiro Lobato, em contraposição à postura adotada pela docente durante a aula na Faculdade de Filosofia da USP. “A professora em questão trouxe trechos de um livro que reforçava a teoria de que Monteiro não foi racista, o que intensifica dogmas da cultura racista ainda existentes no Brasil e no mundo. Entendemos nitidamente que o papel acadêmico do pesquisador é o de conhecer os diferentes pontos de vista de quaisquer discussões”, afirma o coletivo, em carta divulgada nas redes sociais.

Em sua provocação, a Ocupação Preta destaca, ainda, que professora apresentou textos reforçando a teoria de que Monteiro não foi racista, desconsiderando o acúmulo que já existe, na própria academia, sobre o assunto. “Entendemos nitidamente que o papel acadêmico do pesquisador é o de conhecer os diferentes pontos de vista de quaisquer discussões”.

Com essa carta, o coletivo lançou a campanha #MeuProfessorRacista que circula nas redes sociais, com a adesão de negros e negras de todo o país. Usando a hashtag, internautas relatam situações de racismo vividas em sala de aula.

Confira, abaixo, a íntegra da carta da Ocupação Preta.

Carta Aberta da Ocupação Preta

No dia 20 de março, durante uma discussão na aula de Teorias do Texto na FFLCH – USP, a temática voltou-se para o debate racial no momento em que os assuntos “marchinhas racistas” e “o racismo de Monteiro Lobato” ganharam um tom de chacota dado pela então professora que ministrava a aula, o que acarretou em uma discussão levada por uma aluna no dia 27 de março e que foi abafada aos gritos pela docente.

Hoje, 3 de abril, a Ocupação Preta entrou em sala de aula para suscitar uma retomada histórica contida no debate racial que permeia as obras escritas por Monteiro Lobato, apresentando suas posturas muito bem documentadas e acessíveis até mesmo na internet.

A Professora em questão trouxe trechos de um livro que reforçava a teoria de que Monteiro não foi racista, o que intensifica dogmas da cultura racista ainda existentes no Brasil e no mundo. Entendemos nitidamente que o papel acadêmico do pesquisador é o de conhecer os diferentes pontos de vista de quaisquer discussões.

Questionamos a professora sobre o fato de vir a sala de aula sem preparar previamente, no mínimo, uma análise do autor e sua postura em relação as suas obras, bem como seu contexto e sua participação na sociedade brasileira. Aprofundamos a discussão perguntando à professora o quão grave seria se trouxéssemos qualquer material que fizesse relação entre alguma minoria a ratos, por exemplo – considerando o uso de ideais pejorativos – sem sequer utilizar um contraponto discursivo. Levantamos o debate sobre o Negro no Brasil atual, porque sabemos que a população ainda é estereotipada e marginalizada nos dias de hoje.

Estamos falando do quão grave é apresentar e analisar como exemplo a construção da imagem de “Tia Anastácia” ignorando as discussões já existentes sobre como a personagem e sua caracterização de “a serva boa e fiel” têm como função narrativa e ideológica a suavização das relações de poder interraciais e o reforço da servidão como espaço reservado ao negro, se encaixando como um grande exemplo do estereótipo das Mammies norte-americanas e das Mães-pretas brasileiras.

A problemática sobre a obra de Monteiro Lobato está longe de ser um assunto de debate apenas entre movimentos negros brasileiros. Já é um consenso entre estudiosos de áreas diversas das ciências humanas que Monteiro Lobato e sua literatura tiveram um papel importante na disseminação das ideologias eugênicas e no avanço de um cientificismo racista que influenciou políticas sanitaristas do Estado durante o início do século XX, infelizmente com desdobramentos que seguem atuais. Ainda que o desenvolvimento da obra de Lobato possa incluir a presença do negro como protagonista, o faz de uma maneira totalmente equivocada e racista, que há tempos é questionada não só por militantes mas também por uma intelectualidade interessada no debate sobre as ideologias que dominaram o Brasil em épocas passadas.

Ainda assim, sabendo que se perpetua nas universidades uma diretriz e um embasamento teórico pertencente à branquitude, levantamos a necessidade de que a professora conheça, discuta ou ao menos escute o que os alunos têm a dizer, abandonando seu posto de superioridade. 

É importante que a população em geral, e especialmente a negra, tenha conhecimento de uma série de leis que servem para responsabilizar diversos tipos de discriminação de quaisquer naturezas.

Por fim, repudiamos a postura da professora que exigiu que fôssemos retirados pela segurança do Campus, e que ousou dizer que conhece um professor universitário que, conforme sua fala, “é mais negro que todos nós” alunas e alunos que estávamos presente na aula. Esse tipo de postura mostra o quanto temos professores que necessitam urgentemente de formação acadêmica em conformidade com a Lei 10.639/03 sobre o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, já que são responsáveis pela formação acadêmica de futuros professores.

Convidamos todos as alunas e alunos negros das instituições de ensino do Brasil a participarem da campanha virtual #MeuProfessorRacista.

Seu silêncio não vai te proteger!”.

 

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