Na manhã de quarta-feira, 18 de novembro, milhares de mulheres negras, de todas as regiões brasileiras, se reúnem para participar da Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília. Com o tema Marcha das Mulheres Negras – contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, a ideia de realizar o evento surgiu durante o Encontro Paralelo da Sociedade Civil para o Afro XXI, em 2011 e, desde então, diversas entidades do movimento de mulheres negras e do movimento negro do país e do mundo se juntaram nessa articulação.
As delegações que estarão presentes na Marcha começam a chegar já nesta terça-feira (17). A concentração será no Ginásio Nilson Nelson, a partir das 9h do dia 18. Por volta das 10h, já com a presença de militantes de todo o país e de representantes das entidades organizadoras, será realizado o ato de abertura. Em seguida, as mulheres sairão em marcha pelo Eixo Monumental em direção à Praça dos Três Poderes. No meio da tarde, haverá o ato de encerramento e uma série de atrações culturais.
Ao longo do último ano, os mais variados grupos espalhados pelo Brasil que lutam por melhores condições de vida para as mulheres negras se articularam em seus municípios, estados e também nacionalmente. A organização geral da ação política ficou sob a responsabilidade da Coordenação Executiva Nacional da Marcha (ou Comitê Impulsor Nacional, nome utilizado até janeiro deste ano). A primeira reunião aconteceu em janeiro do ano passado, em Porto Alegre, na qual se definiram as funções do Comitê Impulsor. Na segunda, realizada em maio de 2014, em Brasília, estruturou-se o Plano de Trabalho. Em dezembro de 2014, aconteceu o terceiro encontro, voltado para a avaliação da conjuntura pós-eleitoral e dos rumos da marcha. Nos dias 10 e 11 de janeiro de 2015, em Salvador, a quarta reunião teve como principal definição o adiamento da data da marcha, anteriormente prevista para 13 de maio, tendo sido considerada a difícil situação enfrentada pelos movimentos sociais e o atual contexto de avanço das pautas conservadoras.
Por que marchar
Atualmente, segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2014), 54,9 milhões de brasileiras se autodeclaram pretas ou pardas. E a marcha acontece num momento de acirramento da ofensiva conversadora e também na esteira de diversas medidas de governos municipais, estaduais e federal que colocam em segundo plano os interesses da classe trabalhadora e da população mais empobrecida. Cenário esse no qual as mais atingidas são as mulheres negras, que em muitos casos cuidam sozinhas de suas famílias. E perdem seus filhos para a ação truculenta das forças de segurança do Estado.
Na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), o IBGE computou 822 mil empregadas domésticas autodeclaradas pretas ou pardas, quase 60% do contingente total nas seis maiores regiões metropolitanas. Na média geral, mulheres negras ganham R$ 1.364 por mês, cerca de 44% da renda dos homens brancos, 75% dos negros e 60% das mulheres brancas.
Também são as negras as maiores vítimas do feminicídio. O Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e divulgado recentemente, aponta que o número de homicídios de mulheres negras aumentou 54% em dez anos no Brasil, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Enquanto, no mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, saindo de 1.747 em 2003 para 1.576 em 2013.
O número também é assustador quando se trata da saúde reprodutiva. Nas mortes obstétricas, duas de cada três vítimas têm a pele preta ou parda.
É nesse contexto que milhares, entre trabalhadoras urbanas, desempregadas, mães, sem teto, camponesas, quilombolas, indígenas, lésbicas, trans, líderes de terreiro, marcharão em Brasília na manhã desta quarta-feira, levantando a voz contra a violência, o racismo e as constantes ameaças aos seus direitos.
Luciete Silva, do Diretório Nacional do PSOL e militante do Círculo Palmarino, aponta várias razões da importância de todo o processo de articulação em torno da Marcha Nacional de Mulheres Negras. “O movimento precisa se reinventar e se reorganizar em torno de determinadas demandas. E o processo da Marcha foi fundamental para recolocar as pautas das lutadoras negras para a luta geral das mulheres e também para o conjunto da sociedade. Se é difícil falar de feminismo, imagine de feminismo negro”, ressalta Luciete, que vê como extremamente significativo a realização da Marcha. “Mesmo num país em que a maioria da população é formada por mulheres, é muito difícil falar de nossas demandas e quando o recorte é a cor da pele, fica ainda mais complicado”.
A dirigente do PSOL também passa o seu recado à militância do partido. “É fundamental que o nosso partido se apodere desse debate e que as mulheres negras do PSOL se coloquem em espaços como esses da Marcha, da forma como for possível. Nós não podemos esperar que o restante da sociedade enxergue a importância da nossa luta. Nós é que precisamos sair às ruas e dar a visibilidade necessária”.
A jornalista e militante do PSOL em São Paulo, Luciana Araújo, avalia a realização da Marcha já como uma vitória histórica, pois, conforme ela ressalta, pela primeira vez no Brasil milhares de mulheres negras de todo o país farão uma ação com a participação de negras da cidade, do campo, quilombolas, jovens, mulheres de terreiro e militantes partidárias. “O processo de construção da pauta da Marcha – contra a violência, o racismo e pelo bem viver – é outro marco histórico no momento em que os dados oficiais informam que corremos duas vezes mais risco de sermos assassinadas, que aumentou 567% em 10 anos o encarceramento feminino e duas em cada três presas são negras, quando Eduardo Cunha e seus asseclas neste Congresso Nacional conservador querem impor a redução da maioridade penal que vitima majoritariamente os jovens negros periféricos, mas também as mulheres negras mães e jovens aprisionadas, junto com o retrocesso na lei de estupro”, disse Luciana, lembrando que dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro apontam que neste ano as mulheres negras são 65% das vítimas de estupro.
Na avaliação da jornalista, que participou das atividades do Comitê Impulsor da Marcha no Estado de São Paulo, a ação mostrará a resistência das lutadoras negras, inseridas nos vários movimentos que lutam contra a violência, o racismo e a retirada de direitos. “Vamos mostrar que, assim como resistimos desde a primeira negra sequestrada de África, vamos reagir e resistir a esses ataques com a força de Dandara, Luiza Mahin, Aqualtune e as demais lideranças femininas, e porque não, feministas, negras que são nosso exemplo de luta. E vamos resistir também aos ataques impostos pelo governo Dilma, que entrega nossos direitos e conquistas ao fundamentalismo e ao capital para manter a ‘governabilidade’, pontua Luciana.
Saiba mais informações e acompanhe a programação da Marcha Nacional das Mulheres Negras: http://on.fb.me/1YdJ71S.
Da redação do PSOL Nacional

