Em poucos dias, as bolsas de todo o mundo, inclusive a de São Paulo, iniciaram um movimento de alta instabilidade e baixa de seus índices: sinal que algo andava mal na economia globalizada mundial. O que era esperado aconteceu. A bola, ou bolha imobiliária, que movimentava grande parte do consumo da sociedade americana acabou por murchar. A economia mais importante do mundo vinha sendo impulsionada, nos últimos anos, por uma sobreavaliação dos imóveis, o que de um lado favorecia o movimento da construção, e por outro – e mais importante – fazia que essa sobreavaliação dos ativos imobiliários permitisse uma expansão enorme dos créditos hipotecários, aumentando o consumo na sociedade estadunidense.
Como explica André Scherer, economista gaúcho de ATTAC, este novo balão foi criado para suplantar outra bola especulativa, a das ações das empresas de alta tecnologia que cumpriam papel similar no final dos anos 90. A explosão dessa bolha “vai dar origem a uma nova bolha especulativa, capaz de manter o consumidor norte-americano em atividade. A excessiva liquidez – sobre a acumulação de capitais – vai possibilitar uma explosão de investimentos e de preços no setor imobiliário daquele país, com os imóveis sendo utilizados como ativo especulativo. As características do mercado de crédito daquele país possibilitarão, assim, um refinanciamento das famílias a partir da assunção de hipotecas cada vez maiores (uma vez que o preço dos imóveis aumenta) e com baixas taxas de juros, permitindo que esses recursos transbordem ao consumo, mas também a novos investimentos especulativos, principalmente no mercado de ações.” A crise explodiu porque, com a desvalorização sustentada dos preços das casas, tiveram início quebras hipotecárias e, em conseqüência, uma corrida para a retirada dos fundos especulativos que agiam, fazendo que importantes agentes e bancos que tinham sua posse, os bloqueassem e não pagassem por eles.
O esvaziamento deste balão está fazendo a economia dos Estados Unidos entrar em um período de desaceleração. A previsão de um crescimento de 1,3% ao ano foi reduzida para 0,6%, a taxa mais baixa dos últimos anos.
Os Estados Unidos concentram quase a quarta parte da economia mundial, tendo por base um crescente endividamento interno e externo, do qual o imobiliário foi apenas uma das partes. Somam-se a isso as dívidas internas e externas. No final de 2006, a dívida total estadunidense (pública, empresarial e pessoal) chegava a 48 trilhões de dólares, mais de três vezes o Produto Interno Bruto norte-americano. As dívidas com o exterior são de 10 trilhões de dólares. Isto significa que grande parte do funcionamento dos Estados Unidos sustenta-se nos créditos internos e no endividamento com credores externos do resto do mundo, que financiam seu déficit.
Dois pilares com problemas
Há dois anos, num artigo publicado na Revista Movimento intitulado “Tio Sam, o estelionatário global”, o economista Gunder Frank, falecido em 2005, definia em poucas palavras o mecanismo através do qual os Estados Unidos sustentavam sua hegemonia e poder econômico. Dizia: “O poder de Tio Sam repousa sobre dois pilares apenas: o dólar de papel e o Pentágono. Um apóia o outro, mas a vulnerabilidade de cada um é também o talão de Aquiles que ameaça o outro.” O dólar se mantém graças ao poder militar, que por sua vez permite desenvolver o armamentismo.
Se o esvaziamento da bolha financeira significa que um de seus pilares, sua moeda, não está funcionando como devia, o outro é a situação militar. E aí os problemas de Bush se complicaram ao extremo com a guerra do Iraque – e em sua estratégia para toda aquela região – onde, a olhos vistos, sua situação é de grave crise e atolamento.
Jorge Beinstein, economista argentino, escreve em um artigo recente sobre essas duas caras: a financeira e a militar, das quais falava Gunder Frank. “A estratégia do governo de Bush pode ser sintetizada como a combinação de duas operações que, apoiando-se mutuamente, pretendiam reerguer e consolidar o poderio imperial dos Estados Unidos: a rápida expansão de uma bolha consumista-financeira para produzir um rápido avanço econômico, associada a uma ofensiva militar sobre a Eurásia, que lhe daria a hegemonia energética global e, a partir daí, a primazia financeira, desbancando outras potências (China, União Européia, Rússia). Para isso, apostou, a partir de 2001, em uma contundente vitória de suas Forças Armadas, que lhe permitiria controlar militarmente a faixa territorial que vai dos Bálcãs, no Mediterrâneo Oriental, até o Afeganistão.” “Tratava-se de uma ‘política de Estado’, que incluiu os dois partidos governamentais e o conjunto do sistema de poder. Todos sabiam que a bolha econômica lançada paralelamente à ofensiva militar não poderia se sustentar por muito tempo, os desajustes financeiros se acumulariam, e a bolha de créditos que apoiava a especulação imobiliária acabaria por se desinflar: 2005-2006 surgia como uma barreira temporal intransponível. Mas, naquele momento, apostavam os falcões, a vitória militar do Império permitiria redefinir as regras do jogo econômicas do planeta, e os caubóis do Pentágono chegariam bem a tempo de ajudar os magos das finanças. Mas saiu tudo errado: os caubóis se atolaram no Iraque, a ofensiva fulminante sobre a Eurásia fracassou em sua primeira batalha importante e, enquanto isso, o balão especulativo entrou em crise e nenhum punho de ferro pôde salvá-lo.
O que vai acontecer?
Os graves problemas dos Estados Unidos que agora se revelam, abrem uma série de questões sobre a situação econômica e, mesmo, sobre a situação mundial. Até que ponto esta crise afeta apenas aos EUA, ou inclui também à economia do mundo? Como se apresentou na América Latina? Quais são as conseqüências no sistema mundo?
Não temos condições de respondê-las. Provavelmente aumentem o período de instabilidade do domínio imperialista e uma maior polarização da situação mundial. Mas queremos advertir sobre o perigo de considerar que, devido à crise, o imperialismo “é um tigre de papel”. Os problemas estruturais da economia do mundo e do sistema capitalista-imperialista não significam o fim inelutável do mesmo. Só os trabalhadores e os povos podem abrir uma perspectiva diferente para a humanidade, uma perspectiva socialista, mas essa perspectiva depende da luta dos trabalhadores e dos povos. É especialmente importante que os trabalhadores estadunidenses vençam em sua própria casa. Nesse sentido, cabe uma contribuição para evitar uma análise economicista-catastrófica da crise. As manobras econômicas e um certo crescimento nos Estados Unidos foram possíveis graças ao fato de Tio Sam ter conseguido golpear os trabalhadores de seu país, aumentando a taxa de exploração através da baixa de salários e da flexibilização laboral, que atingiram a classe como um todo. Os companheiros socialistas dos Estados Unidos explicam em seus materiais que, apesar de haver resistências, como a dos imigrantes, o movimento dos trabalhadores está em baixa.
O setor mais avançado na luta contra o imperialismo é indiscutivelmente a resistência das massas do Oriente Médio e dos países muçulmanos. Essa luta heróica tem divisões étnicas e se faz sobre uma ideologia reacionária que, não só não ajuda na unidade contra o imperialismo, mas dificulta a luta antiimperialista solidária no Ocidente. Se o imperialismo está tanto ou mais atolado que no Vietnã, só não é derrotado porque não existe uma frente única de libertação nacional.
Em nosso continente a luta antiimperialista irá se fortalecer, luta na qual nosso país foi um dos mais atrasados a participar. A América Latina enfrentará novos desafios. A crise irá obrigar a aprofundar o antiimperialista, e será preciso construir uma alternativa socialista. Porque socialismo ou barb

