Em 12 anos de governos petistas, milhões de brasileiros saíram da miséria para a pobreza, outros tantos da pobreza para a classe média baixa e outros ainda da classe media baixa para a classe média/média.
A massificação dos programas sociais, o aumento do salário mínimo, o ganho real de renda na faixa de 1 a 3 salários mínimos, a expansão do crédito, possibilitaram a incorporação de milhões de brasileiros ao mercado de consumo.Essa inserção aconteceu, no entanto, pela ampliação do consumo privado e não pela extensão dos direitos sociais.
Atualmente, 54 milhões de brasileiros já possuem plano de saúde particular num quadro onde persiste o baixo investimento na saúde publica. A expansão da frota automobilística, turbinada por incentivos fiscais, agravando o problema de mobilidade urbana sem que investimentos públicos adequados resolvam as graves insuficiências do transporte público que persiste caro e ruim. O aumento das matrículas nas redes privadas de ensino completa o quadro de busca de soluções individuais para solucionar problemas coletivos.
O fracasso dos governos Lula e Dilma em garantir estes direitos sociais básicos foi a senha para o “salve-se quem puder”. A ascensão pelo consumo e não pela ampliação de direitos formou consumidores e não cidadãos.
Aqueles que subiram na escala social pelo aumento do seu poder de compra tendem a reproduzir padrões de consumo, valores, comportamento, ética e, em consequência, opções eleitorais das camadas sociais imediatamente acima.
Lula se reelege em 2006 com 21 milhões de votos sobre Geraldo Alkmin; em 2010, no auge da sua popularidade e a economia crescendo em ritmo chinês, Dilma vence com apenas 12 milhões de votos sobre José Serra.
Em 2014, essa diferença se reduz mais ainda para 3,5 milhões de votos sobre Aécio Neves. Mesmo considerando problemas conjunturais e a falta de carisma da presidenta, trata-se de uma erosão significativa do patrimônio eleitoral do PT. Em tempos de crise hídrica cabe a analogia: o Partido dos Trabalhadores já usou a segunda cota do volume morto.
A modernização capitalista apresentada na constrangedora Carta aos Brasileiros de 2002 substituindo o Programa Democrático Popular, e que vem sendo o verdadeiro programa petista nos últimos 12 anos, está esgotada.
No que tange à economia, não é mais possível continuar apaziguando a Casa Grande com juros extorsivos e, simultaneamente, assegurar ganhos de renda à Senzala.
No que tange à política, a desgastada administração do “status quo” como o conhecemos há 12 anos levará à previsível derrota em 2018. Nem Lula, o santo padroeiro das causas impossíveis, salvará.
O filósofo italiano Antonio Gramsci defendia que a esquerda fosse “pessimista na inteligência e otimista na ação”. Nada, no atual cenário, nos autoriza a irmos além do “pessimismo da inteligência”. O PT, em 12 anos de governo, não foi capaz de mobilizar as expectativas daqueles que aguardavam, pelo menos em parte, a realização de um programa democrático popular e para quem a Carta aos Brasileiros foi um triste substituto.
A fatídica vitoria do PSDB, com o seu programa que lembra a restauração dos Bourbons na França há 200 anos, será o derradeiro e triste fim do ciclo petista.
PT que, um dia, foi a incompleta porém melhor tradução das mais generosas esperanças de uma sociedade ávida por dignidade humana. Que o partido dos Trabalhadores não pergunte por quem os sinos dobram, porque eles dobrarão pelo PT.

