A cantora Elza Soares foi homenageada, nesta quarta-feira (22/11), com a Medalha do Mérito Legislativo 2017, na Câmara dos Deputados. A entregada medalha, oferecida pelo Parlamento a diversas personalidades de destaque no ano, foi uma iniciativa do PSOL na Câmara.
O partido explico os motivos da indicação. Lá se vão muitos anos desde que a menina Elza da Conceição Soares, filha de operário e lavadeira, nascida na atual Vila Vintém, no Rio de Janeiro (RJ), precisou arriscar um número musical no programa de Ary Barroso na Rádio Tupi. Aos 14 anos, já casada e sem dinheiro para comprar remédios para o filho recém-nascido, ela teve que enfrentar o cruel preconceito do apresentador, que, ao olhá-la, perguntou “de que planeta” ela tinha vindo. A resposta veio direta e firme: “Do planeta fome”. Assim, ela fez sua primeira apresentação ao vivo no auditório da emissora, que era a maior de então, ganhou dinheiro, mas infelizmente não conseguiu salvar a criança. O episódio antológico na biografia da cantora Elza Soares, 80 anos, revela apenas um dos obstáculos que a artista enfrentou desde muito cedo por ser mulher, negra, pobre – aos 21 anos, viúva com quatro filhos.
A despeito de toda as adversidades, Elza Soares se tornou uma cantora de prestígio internacional, amada pelos brasileiros, que a admiravam também como madrinha da seleção brasileira na Copa de 1962. Ainda assim, passou por um exílio forçado pouco depois, ao lado de seu companheiro na época, o jogador de futebol Garrincha. Por se recusar inicialmente a ir, eles tiveram sua residência criminosamente metralhada pela ditadura militar. O casal perdeu tudo e teve que ir para Roma, onde Garrincha se tornou alcólatra, muito em função desse episódio.
A vida de Elza Soares não pode ser resumida em poucas palavras. No entanto, todas as palavras que esta grande artista teve que cantar e gritar ao longo de sua vida, e sobretudo as que vêm sendo repetidas pelas multidões que têm acorrido a seu mais recente e politizado show, “A mulher do fim do mundo” – em que fala de racismo, sexismo, violência doméstica, LGBTfobia – são justificativas para que ela receba a Medalha do Mérito Legislativo 2017.

