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Qual a parte do poder público?

Na véspera da abertura da Copa do Mundo, e do primeiro feriado devido ao evento na Câmara Municipal de Fortaleza, os nobres vereadores mostraram-se muito preocupados com a possibilidade – ou antes, a iminência – do aumento dos casos de exploração sexual de crianças e adolescentes na capital. Fortaleza é um notório destino de turismo sexual, e como uma das cidades-sede do mundial de futebol tem merecido, infelizmente, destaque na mídia internacional, que problematiza a brutal desigualdade que leva mulheres e crianças a ter seus corpos mercantilizados.
A relação entre a realização de megaeventos esportivos e aumento da prostituição é uma constante no mundo todo. Exacerba a ocupação do espaço público pelos homens, a celebração da masculinidade e a submissão feminina a esses desejos. No Brasil, em particular, carrega consigo toda a narrativa construída desde a colonização portuguesa acerca da sexualidade pulsante de nossas mulheres; imagem recorrente em materiais promocionais e produtos relacionados à Copa, a exemplo das vexatórias camisetas da Adidas que após pressão dos movimentos de mulheres foram retiradas do mercado.

“Fizemos nossa parte”, afirmou na tribuna um nobre vereador da situação. Verbo no passado, anistiando o poder público de sua responsabilidade, ainda presente, de inibir a violação de meninas e mulheres. Não é o que dizem os números. Lançada no último 10 de junho, nota técnica elaborada pelo CEDECA (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente) e pelo Fórum DCA (fórum que reúne entidades ligadas à defesa dos direitos de crianças e adolescentes), aponta a queda nas dotações para projetos/ações específicos para o enfrentamento à exploração sexual em Fortaleza, e mais grave: a baixa ou nenhuma aplicação dos recursos reservados a esses programas.

A nota técnica é resultado de um estudo sobre as políticas públicas e referentes investimentos no combate à violência sexual no âmbito da infância e adolescência, entre os anos de 2010 e 2014. Contamos na capital cearense com uma única delegacia especializada em crimes contra crianças e adolescentes. Durante a Copa das Confederações, no ano passado, funcionou apenas em horário comercial. Este ano, durante a Copa, estão previstos plantões compartilhados com a Delegacia da Mulher, o que dificulta o atendimento de ambas as ocorrências. Mas talvez uma das maiores fragilidades seja o fato de que as delegacias trabalham apenas com denúncias, quando se faz necessária a investigação das redes de turismo sexual para efetivamente combater a exploração de mulheres e crianças e o tráfico de pessoas. A nota já está disponível no site da entidade, podendo ser acessada em http://www.cedecaceara.org.br/?q=noticias/862.

Outra grave questão aqui na capital cearense é a falta de atendimento específico às vítimas de violência sexual, não sendo sequer possível realizar os procedimentos de profilaxia de gestação (contracepção de emergência) e de DSTs no mesmo equipamento de saúde. O que nos traz à lembrança que há poucas semanas, perdemos, por pressão do conservadorismo, uma importante conquista para os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres: a portaria 415/2014, assinada pela presidenta, que assegurava o atendimento aos casos de abortamento legal (casos de anencefalia do feto, risco de vida à mãe e gestação proveniente de estupro) em toda a rede SUS. Trata-se de um procedimento cirúrgico simples, porém que conta com 65 serviços públicos de atendimento disponíveis em 26 estados, não divulgados e dos quais nem todos funcionam. É o caso de Fortaleza, onde apesar de listado, o serviço de atendimento especializado não existe. 80% das crianças que engravidam de abuso sexual não acessam o aborto legal, seja por falta de informação, de oferecimento do serviço, ou pela pressão de lideranças religiosas sobre suas comunidades e representantes legais. São as mais vulneráveis, física, emocional e juridicamente. São meninas sem direito aos seus corpos e à sua infância. O próximo alvo dos setores fundamentalistas agora é a Lei 12.845, sancionada em 2013, que assegura atendimento integral e de urgência às mulheres e meninas vítimas de violência, sem necessidade de apresentação de boletim de ocorrência.

Em ano de Copa do Mundo e eleições, capital internacional e fundamentalismo fazem dobradinha. Nosso time que já se mobilizam por todo o país contra as remoções, os gastos do evento e a submissão do governo brasileiro aos ditames da Fifa precisa acumular força social para chegar às finais e não deixar que o conservadorismo vença no seio do povo.

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