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Rosas não substituem direitos

Quantas mulheres ganharam uma rosa neste 8 de Março? Ao se deparar com todas as homenagens concedidas às mulheres nesta data, você já deve ter se perguntado por que isso acontece e por que no dia 8 de março. O Dia Internacional das Mulheres, apesar de tão celebrado, é pouco explicado.
 
A origem do dia 8 de Março é polêmica: diz-se que o dia seria uma referência à greve de 1857 em que trabalhadoras norte-americanas reivindicavam melhores condições de trabalho, redução da jornada de trabalho e equiparação de salários entre homens e mulheres. Elas teriam sido duramente reprimidas, presas dentro da fábrica em chamas e mortas carbonizadas. Há documentos históricos, no entanto, que vinculam o 8 de março à greve de tecelãs e costureiras, em 1917 na Rússia, contra o regime czarista. Elas reivindicavam pão, paz e terra numa greve que seria o estopim da crise política que deu início à Revolução Russa – um dos eventos históricos mais importantes do século XX. Certo é que a origem do Dia Internacional das Mulheres está ligado à luta das mulheres por participação política, melhoria das suas condições de vida e conquistas de direitos. Mais do que homenagens, as mulheres querem ter direitos e serem respeitadas!
 
A retrógrada ideia de que a mulher nasceu para o lar e não para a vida pública tem mais força na sociedade do que a princípio podemos supor. Os poderosos, ao concentrarem a riqueza e o poder político, o fazem pelas mãos dos homens de sua classe e por meio do apartamento da mulher da política. No Brasil, o direito das mulheres votarem e serem eleitas foi conquistado em 1932, mas ainda hoje a nossa participação é muito baixa na política. Em 2012, por exemplo, apenas 13,3% dos eleitos eram mulheres. Ainda hoje, nós somos educadas a conviver nos espaços privados, da casa, da submissão, enquanto, aos meninos, é destinado o espaço público, da rua, da ousadia. As desigualdades funcionam como mecanismo de aumentar a exploração do trabalho da mulher, sempre com o amparo de um violento Estado patriarcal que controla e pune a sexualidade da mulher. O monopólio do homem sobre a política não é por acaso.
 
A destemida ação e luta de mulheres que, ao longo da história, ousaram enfrentar os padrões e desafiaram o poder patriarcal possibilitaram o acesso a direitos e a conquista de um ainda pequeno espaço na política. Espaço que não podemos superestimar, sob o risco de cairmos na melindrosa armadilha criada pelos defensores da ordem, onde “tudo muda para que tudo fique como está”, consagrada na frase do romance italiano, O Leopardo. Um dos exemplos mais simbólicos é a eleição da presidenta Dilma. A primeira presidente mulher da história vai encerrar o mandato como um dos períodos de maior retrocesso político do pós-redemocratização: sem avanços concretos para as mulheres e com uma política de reforço da ordem desigual, gerando mais concentração de renda e mazelas para o povo brasileiro. As obras com estádios para a Copa estão estimadas em R$9,1 bilhões. Em contraposição a isso, os gastos com a Lei Maria da Penha se restringem a R$11 milhões por ano. Este valor representa quase mil vezes menos que o gasto com o megaevento! Por isso, não basta às mulheres acessarem a política, mas sim que ao fazê-lo estejam vinculadas às mulheres trabalhadoras e o façam para desafiar o poder dominante e patriarcal, não para reforçá-lo.
 
Apesar de representarmos mais da metade da população economicamente ativa, exercendo a mesma função, o salário de homens e mulheres ainda é diferente. Dados do IBGE demonstram que os homens recebem até 66% mais do que as mulheres. Somos constantemente vítimas de assédio moral dentro dos espaços de trabalho e o machismo cotidiano nos torna potenciais vítimas da violência. Durante o parto, uma em cada quatro mulheres diz ter sofrido abuso e a violência sexual em nosso país é tão alastrada que, em 2012, a cada 10 minutos uma mulher foi vítima de estupro.
 
Desde junho do ano passado, milhares têm ido às ruas em todo país para contestar os bilionários gastos do governo com a Copa do Mundo e a consequente negligência com nossos direitos sociais. A realização deste megaevento é apresentada como uma festividade, entretanto, a população brasileira já está consciente de como a organização da copa está agravando a piora das condições de vida e nossos direitos, em especial às mulheres. É preocupante porque a exploração sexual de mulheres é um dos chamativos para o turismo no país. Dados da fundação francesa Scelles indicam que os megaeventos esportivos são grandes meios para o funcionamento de redes de tráfico de mulheres e de crianças, além do aumento da exploração sexual. A fundação indica que na Copa da África do Sul os índices de exploração sexual subiram ao menos 40%. Há grandes preocupações que essa situação se repita no Brasil, considerando ainda que o país tem cidades (sedes da Copa do Mundo) que são grandes pontos no tráfico internacional de mulheres, como Fortaleza, Recife e Manaus. Além disso, a legislação aprovada pela Lei Geral da Copa permite a entrada de qualquer pessoa que tenha ingresso dos jogos, facilitando que agenciadores do tráfico sexual venham ao país.
 
A exposição do corpo da mulher brasileira é o dispositivo mais utilizado para a promoção desta copa. Não à toa, há algumas semanas já circulava nas redes sociais uma propaganda da patrocinadora oficial da Copa que expunha o corpo da mulher como convite para a vinda de turistas.
 
A violação dos direitos sociais vai além ainda. São estimados que já ocorreram ou estão previstas mais de 250 mil remoções forçadas de moradores no país em decorrência das obras da Copa do Mundo. Tais remoções ocorrem sem as devidas indenizações, sob constante ameaça da PM e sempre violentamente. Além das compensações insuficientes, via de regra, as famílias são obrigadas a se reassentarem em locais com condições mais precárias e distantes de suas habitações anteriores. Isso prejudica o acesso aos locais de trabalho, a fixação das crianças e adolescentes em escolas e creches, bem como o acesso aos demais meios de sobrevivência. O direito à habitação que já representava um problema grave no país tende a piorar com a realização dos megaeventos.

Por isso, se a Copa do Mundo pretende algum legado ao país, este deveria beneficiar à população em geral, e também às mulheres em específico. Se a Copa serve à violação e à retirada de direitos sociais, se continua colocando as mulheres sob a égide do machismo, ela não nos serve! É necessário ouvir esse grito ousado que vem das ruas e fazer coro com os indignados frente a toda forma de opressão e exploração.

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